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Compra compulsiva é real e você deve fugir dela

Comprar dá uma sensação boa e momentânea, o que pode criar um ciclo vicioso prejudicando a vida social e financeira.

por Mariana Rodrigues
28 Março 2019, 10:00am

Foto via a usuária do Flickr Amélie Verleene.

Você se sente bem quando escolhe comprar algo. E isso não acontece só com você, estamos todos juntos nessa. “Todo mundo tem isso porque comprar ativa o sistema de recompensa cerebral e te dá prazer. Isso faz com que se tenha uma sensação gostosa; melhora o estado de humor”, explica Tatiana Filomensky, coordenadora do Programa para Compradores Compulsivos do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Então, não é à toa que alguns se referem às compras como terapia. O problema é quando o comportamento fica fora de controle, e começa o consumo compulsivo.

“Já chorei dentro de lojas por não ter a peça do meu tamanho. Comprei o dobro em peças que nem queria. Foi assim por muito tempo. Ganhava super bem no meu primeiro emprego, mas conseguia gastar quase o dobro dele, sempre pedindo dinheiro emprestado para sair do buraco”, contou Kathlyn Salinas, 22, ex-compradora compulsiva que chegou a somar R$ 10 mil de dívidas em roupas.

Ela contou que, quando era adolescente, sua família melhorou de vida financeiramente.“Ganhei um cartão de crédito em meu nome, foi aí que tudo desandou. Toda semana eu comprava uma blusinha, uma saia e assim por diante”. Com o tempo, apesar dos alertas feito pela família, o hábito foi se intensificando: “Comprei roupas que nunca usei, sapatos que nem serviam no pé. Meu guarda-roupa não suportava tanta coisa, então comprei um bem maior e enchi todinho”, disse Kathlyn.

Por mudar instantaneamente o estado emocional, a compra também pode ser uma fuga. Foi o caso da ex-compradora compulsiva Lorena Barreto, 52. Ela começou a comprar compulsivamente há mais de 20 anos, depois de conflitos com o então marido. “Quando a gente brigava e eu ficava mal, simplesmente ligava pra agência de turismo e comprava uma viagem para Nova Iorque. Eu não levava mala [na viagem], lá eu comprava tudo e voltava feliz. Essa era a minha maneira de ser feliz, comprando coisas fúteis”, contou.

A psicóloga Tatiana Filomensky explicou que “quem tem uma fragilidade, ou não tem tantos outros momentos em que se aciona o sistema de recompensa cerebral [de outras formas], acaba encontrando na compra uma forma de atingir essa satisfação, por isso ela repete. Então ela pode acabar fazendo isso cada vez mais e ficar dependente do comportamento de compras.” O compulsivo é esse comportamento que não é pontual, mas contínuo.

Para Lorena, que hoje é planejadora financeira, o ciclo de recompensa por meio das compras foi quebrado com a maternidade. “Quando o meu primeiro filho nasceu eu percebi que o amor verdadeiro estava na minha relação com o meu filho, e eu vi que eu estava doente.” Na época ela procurou terapia, que fez durante dez anos.

Para se livrar do consumo compulsivo, de acordo com Tatiana Filomensky, da USP, “a pessoa precisa entender por que comprar virou um problema, uma vez que é algo tão comum, aceito e incentivado na sociedade que a gente vive.” No caso da Kathlyn, a percepção do problema veio com um salto nas dívidas, em 2018. “Decidi abrir minha própria loja, sem nenhum preparo ou estudo. Só por abrir. Fiz um empréstimo enorme, não administrei a loja como deveria e afundei em dívidas. Foi quando eu acordei para o valor do dinheiro”. Ainda hoje ela sente um impulso: “Luto todo dia para não comprar blusa da promoção, um sapato que juro precisar, uma bolsa, um brinco que um dia vou precisar para uma ocasião especial”, concluiu.

O consumo compulsivo atinge todo e qualquer poder aquisitivo, de acordo com Tatiana Filomensky: “O que as pessoas compram vai muito de acordo com o seu poder aquisitivo, mas independente de quanto a pessoa ganha ela vai gastar proporcionalmente. E pode se endividar proporcionalmente”, disse a especialista.

Sandra*, 36, percebeu que tinha um problema com compras justamente quando começou a receber mais. “Eu sempre achei que me enrolava porque era mal remunerada. Nunca tinha assumido que era falta de controle. Só percebi isso agora, já não ganho tão mal e realmente não precisava ter feito todos os empréstimos que fiz”, contou.

Não é tão simples descobrir quando alguém próximo está passando pela compulsão. “A pessoa passa a mentir sobre o que está comprando, o que comprou, quando comprou. Ela tem a tendência a esconder das pessoas”, contou Tatiana Filomensky. Cris Maeda, coach e planejadora financeira que já atendeu compradores compulsivos, observou: “Às vezes, eles contam meia verdade, e aí a planilha que eu faço de gastos e não bate com o que disseram. Então eles vão contando as coisas aos poucos.” Para quem tem o problema, é difícil expor. Sandra, por exemplo, relatou: “Eu trato depressão há um ano, mas nunca comentei isso [sobre as compras] com minha psicóloga por vergonha.”

No Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (pró-Amiti), do IPq, o tratamento é acompanhado de orientação financeira: “Ela é pra ajudar essas pessoas, que têm dificuldade de planejamento, é uma das principais características da impulsividade”, disse Filomensky. A dificuldade aparece no relato da Sandra, que tem R$ 30 mil em dívidas: “Na hora [da compra] realmente não me parece uma má ideia. É tipo, ‘preciso de lençóis, vou comprar’, acreditando piamente que não vou ter problemas para pagar. Então acho que a compulsão meio que impede de manter meus planos de organização financeira.” Não quer dizer que a pessoa que tem compulsão por compras não tenha planos, mas ela não tem condições para segui-los.

*Nome alterado a pedido da entrevistada.

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