Fotos: Matias Maxx

Jovens lideranças periféricas falam sobre Marielle

Conversamos com comunicadores e ativistas negros, mulheres e pessoas trans das favelas do Rio de Janeiro que conheceram Marielle Franco e dão continuidade à sua luta por direitos humanos.

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mar 22 2018, 4:07pm

Fotos: Matias Maxx

Dizem que o ano começa depois do carnaval, e em 2018 a purpurina mal começava a ser lavada das ruas quando o presidente Michel Temer anunciou uma intervenção federal no estado do Rio de Janeiro. Apesar de preocupar muito ativistas de direitos humanos, o anúncio não causou tanta surpresa: a cidade já passou por vários episódios parecidos. Já o brutal assassinato de Marielle Franco um mês depois foi sim um duro golpe na militância por direito dos negros, das mulheres periféricas e LGBTs. Na última terça-feira, durante um ato ecumênico em memória de Marielle na Cinelândia, a VICE conversou com quatro jovens lideranças das causas nas quais Marielle militava. Todos eles tiveram a oportunidade de conhecer a vereadora e afirmam que o seu assassinato não barrará a luta pelos direitos humanos nas favelas, aliás, muito pelo contrário. A eles.


Foto: Matias Max/VICE Brasil

Raull Santiago

Raull Santiago, 28 anos, participa de vários trabalhos sociais, dentre eles o Coletivo Papo Reto, que trabalha com comunicação independente dentro do Complexo do Alemão. Também faz parte do “Movimentos”, um grupo criado em 2016 para, discutir as políticas de drogas em relação ao debate racial e a violência contra a população das favelas.

Incursões policiais são recorrentes no Complexo do Alemão. Dois dias depois dos brutais assassinatos de Marielle e seu motorista Anderson Gomes, uma operação da PM na comunidade resultou na morte de três inocentes. “Estão executando gerações da favela, foram dois idosos e uma criança que morreram de uma forma violenta”, disse Raull, a intervenção federal é na prática, “a militarização da vida quotidiana na favela, que sempre aconteceu só que agora de forma declarada, usando a força federal para controlar nossos corpos, ou seja, uma invasão do exército nacional à sua própria população, mais uma vez o Brasil consegue inovar em ser bizarro, nossos governantes conseguem inovar em serem racistas, serem covardes, em serem escrotos”.

“O que aconteceu com a Marielle é muito grave. Tem a ver com a força que ela estava tendo dentro da politica partidária que é uma parada muito complicada, dentro da realidade do Brasil, aonde a gente vê escândalos gravíssimos principalmente relacionados também ao mercado das drogas. A gente vê políticos com o nome ligado a helicóptero de pó. Militares e vários poderosos envolvidos nesse negócio que não sentem o impacto violento dessa guerra, porque a violência fica para nós, e a Marielle, ela estava nesse campo de lutar pelas minorias. De denunciar, em instância pública, as violações que aconteciam dentro das favelas. Desse assassinato eu faço uma leitura tênue de duas medidas. A primeira, uma tentativa de silenciar o poder e a ocupação de uma mulher negra da favela em espaços de poder historicamente brancos, machistas e elitistas. Ao mesmo tempo é um recado muito claro que mesmo nessa estrutura de poder, as pessoas que morrem, que são executadas, continuam sendo nós, moradores e moradoras de favela, indígenas, nordestinos, negros e negras. O que aconteceu com Marielle só reforça essa ideia do quanto cada vez mais as favelas e periferias do país, ricas como são em cultura, criatividade e coletividade, precisam se fortalecer e encontrar formas de estarem juntas, de se unirem para poderem construir uma resistência contra o que tenta nos inferiorizar e nos violar.

A gente não é problema, a gente é solução

Estamos num ano de eleição aonde você não tem ideia nenhuma de quem é uma força politica nesse campo louco democrático que nunca chegou pra favela. Ao mesmo tempo, de crescentes disputas e avanços de pessoas da favela ocupando espaços, ocupando mídia, criando sua mídia e botando dedo na cara de quem historicamente nos violou. O que aconteceu com Marielle é mais um motivo para a gente estar unido, organizar e repensar nossa segurança e continuar com o trabalho que a gente têm feito, porque a gente têm ocupado e incomodado de fato à partir do momento em que a favela não é mais aquele lugar aonde historicamente nos apontaram como coitado. A gente começa a enfrentar e dizer não. A gente não é problema, a gente é solução.”

Foto: Matias Max/VICE Brasil

Buba Aguiar

A estudante de ciências sociais Buba Aguiar, 25 anos, é moradora de Acari e integrante do Coletivo Fala Akari. Para Buba, “Estamos num cenário no qual o interventor usa a execução da Marielle para reafirmar a importância da intervenção: ‘tá vendo, o Rio de Janeiro tá tão violento que a gente tem que endurecer a postura da intervenção’. Na favela a gente não quer intervenção, a gente sabe a consequência que vai ter, a gente sabe o número de corpos no chão, caídos, mortos".

Acari fica na jurisdição do 41º Batalhão da Policia Militar, o mais letal do Rio, que em 2015 foi denunciado por práticas de tortura e execuções extra judiciais no relatório “Você matou meu filho” da Anistia Internacional. As atrocidades do batalhão também foram denunciadas por Marielle dias antes de sua execução. “Hoje o 41º é conhecido como ‘Batalhão da Morte’, porque ele é um grupo de extermínio institucional, um grupo de extermínio do estado. O Coletivo já vinha há muito tempo denunciando esse batalhão na nossa favela, e aconteceu da nossa agitação ser tanta que a Marielle ajudou a gente a publicizar isso. A gente não pode afirmar de maneira nenhuma que o Batalhão esteja envolvido com a execução da Marielle, a gente não é investigador, não pode publicar achismos, ia ser de uma irresponsabilidade tão grande quanto a das pessoas que estão por aí espalhando informações falsas e negativas sobre Marielle. A gente sabe do que este Batalhão é capaz de fazer, mas se a gente não tem certeza, então a gente não pode afirmar. O que acontece é que ela não mentiu em momento nenhum: eles estão cometendo atrocidades, execuções. São violações diversas, furtos, depredação da casa de moradores, e a gente conseguiu publicizar isso com ajuda da Marielle, e logo depois ela foi assassinada.”

São violações diversas, furtos, depredação da casa de moradores, e a gente conseguiu publicizar isso com ajuda da Marielle, e logo depois ela foi assassinada

O que aconteceu imediatamente foi exposição negativa e especulação em torno da atuação do Coletivo Fala Akari. “Minha cara foi estampada em vários jornais sem eu ter dado uma única entrevista. Estão pegando duas entrevistas em vídeo aonde eu falo da atuação do 41º dias antes da Marielle ser executada. Isso não chega a ser um desgaste da minha imagem não, mas é uma exposição irresponsável, uma exposição perigosa. A opinião pública é algo que está preocupando a gente. Se existem correntes de internet falando que a Marielle defendia bandido e merecia morrer, imagina o que não falam da gente. Já teve gente me confrontando em banheiro de restaurante, falando que eu deveria ter morrido no lugar da Marielle, já teve jornalista de mídia corporativa que me seguiu até a porta da minha terapeuta. Descobriram o meu telefone residencial, estão ligando e perturbando os familiares que moram comigo, a ponto deles terem de tirar o fio do telefone para ficarem sossegados. É um desrespeito não só a minha pessoa como a luta como um todo. A gente não é uma pessoa que acabou de sair do Big Brother, nós somos militantes sérios, em nenhum momento eles tem respeito com a luta que a gente trata.”

Foto: Matias Max/VICE Brasil

Josinaldo Medeiros

O Complexo da Maré, aonde Marielle Franco nasceu e foi criada , fica bem no meio das três maiores vias expressas do Rio de Janeiro: a Linha Amarela, a Linha Vermelha e a Av. Brasil. Em 2014, às vésperas da ocupação militar que durou pouco mais de um ano e custou bilhões de reais, um grupo ligado a arte, cultura e cinema se reuniu para formar o coletivo de comunicação “Maré Vive”, do qual Josinaldo Medeiros, 28 anos, faz parte. Pouco após seu lançamento, a página de Facebook do Coletivo foi clonada pela policia, que reproduzia seus conteúdos, além de fotos de traficantes e milicianos. “A Maré tem uma especificidade forte, que é a presença de todas as facções criminosas, então a gente ficou mal com geral, foi um período bem difícil, mas contamos com ajuda da mídia, inclusive da VICE, que foi muito importante pra tirar essa zica de nós, mas a gente ficou muito vulnerável, fomos ameaçados pra caramba. Foi um prejuízo muito grande, dos 18 colaboradores que tínhamos inicialmente ficaram cinco”, conta.

A morte de Marielle foi muito sentida na comunidade, mas ao invés de medo, ela trouxe união

Segundo o ativista, a morte de Marielle foi muito sentida na comunidade, mas ao invés de medo, ela trouxe união. “A morte de Marielle foi um baque do caralho, pra Maré, pra todo mundo. Acho que a ficha caiu do que a Marielle representava não só pra favela como para o povo preto, pobre, pra rua, ela era uma pessoa acessível, ela estava em todos os espaços. Você chegava num evento que achava que não ia ter ninguém, e a Marielle estava lá. Ela não era tipo um mito, ela era Marielle, era da galera, chamava as pessoas pelo nome. Eu sou suspeito pra falar porque a conhecia desde novo, mas as pessoas que a conheceram recentemente dizem a mesma coisa, que ela tinha o mesmo tratamento, ela era fechamento mesmo, passava o telefone pessoal, se interessava pela causa. Na minha opinião foi um momento de vontade de mudança, porque na Maré existe muita treta entre as instituições e coletivos que existem lá. Senti que depois do assassinato dela, essas pessoas me pareceram mais juntas, passaram derrubar muros e erguer pontes mesmo onde as pessoas pudessem dialogar e se pautar pela convergência. A gente tem que mudar esse sistema que nos oprime e nasceu pronto pra gente perder. A polícia tem um papel fundamental nessa opressão. Ela não é ineficiente, é eficiente no que ela faz, não dá tiro pra errar não, dá na reta, ela não dá pro alto, não. Então a gente como uma mídia consciente têm de falar a que a Marielle veio, porque ela não veio a passeio não. É uma disputa de narrativa, porque a narrativa da Marielle está sendo disputada por vários setores da sociedade, inclusive os reacionários que estão usando a morte dela e do Anderson para legitimar essa intervenção, e a gente precisa fazer um contraponto.”

Foto: Matias Max/VICE Brasil

Rodrigo Luther King

Com 28 anos, Rodrigo Luther King é um homem trans morador do morro do São Carlos, no centro do Rio. Ele começou a militar na causa LGBT dois anos atrás, quando começou a se hormonizar e conheceu a Casa Nem, onde também conheceu Marielle: “Foi um espaço onde eu me senti acolhido. É um abrigo para pessoas em situação de vulnerabilidade e situação de rua. Morei lá por um mês, aprendi, cresci, porque dentro da comunidade não nos chega tanta informação. Ali aprendi a me posicionar e lutar pelos meus direitos, e agora eu tenho e posso passar de forma clara para meus irmãos, de uma maneira que as pessoas ao meu redor dentro do São Carlos possam me compreender, embarcar nessas ideias e aprender a se posicionarem também, ver quais são os seus direitos e lutarem por isso”.

“Essa situação que aconteceu com a irmã Marielle pode acontecer com todos nós, ainda mais nós enquanto negros. Quando falamos de minorias, falamos de pessoas que são excluídas da sociedade, esse circo que eles montaram. Então é muito importante para nós termos uma representatividade como Marielle foi. Ela não está tendo essa repercussão por ela ter sido uma vereadora, mas por ela representar exatamente essa minoria excluída. Não é a primeira pessoa que tenta fazer um bem para o povo e que acaba dessa maneira. Foi bem claro que foi uma execução, que foi pra mostrar quem manda e desmanda. Chocou muito pelo que ela foi e representava, alguém que enfrenta os grandes a favor do povo, num Brasil que a gente já tinha perdido as esperanças de ser, mas que Marielle acendia e acende essa esperança até hoje, de que a gente pode ter uma democracia de verdade com liberdade para as pessoas serem o que quiserem.

Acham que mataram nossa esperança mas não mataram, Marielle ainda vive, deixou legado

Sou um homem trans, sei a luta que passei para estar aqui hoje. A gente do São Carlos já tinha ouvido falar de Marielle e de suas propostas, era uma mulher que era bem-quista, alguém em quem nós realmente víamos uma esperança e que hoje ainda continua. O que aconteceu com ela só nos fortalece. Ela foi uma guerreira, uma mulher que foi até o final com suas ideias, que não se corrompeu, então dentro da comunidade nós ouvíamos falar dela e suas propostas, de sua campanha. Quinta-feira teve um ato e a favela desceu: isso mexeu num formigueiro, agora basta, ou a gente se cala e fica por isso mesmo ou a gente luta como ela lutou, porque se hoje a favela está aqui reunida na Cinelândia reivindicando seus direitos é porque ela foi e nós somos agora também. Os tiros não foram só nela, foram na gente também, porque ela era negra, favelada, que lutou e se posicionou por seus ideais, o que ela sofreu na pele a gente também sofre. É a questão de você ser refém dentro da sua própria casa, no caso a comunidade, e ser refém na rua de quem deveria te proteger. É difícil, então em algum momento na história a favela precisa descer e essa é a nossa hora, pois eles acham que mataram nossa esperança mas não mataram, Marielle ainda vive, deixou legado, assim como muitos outros e outras. É difícil falar isso, mas agora não vamos recuar, pois se calar não é alternativa, é pra sempre frente. Acabou o caô.”

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