Noisey

Um bate-papo profundo com Kendrick Lamar

Em rara entrevista, o rapper de Compton fala sobre Trump, Obama e sobre como todos podemos fazer a diferença.

por Touré; fotos por Craig McDean; Traduzido por Thiago “Índio” Silva
19 Outubro 2017, 12:00pm

Matéria originalmente publica na i-D UK.

"Eu… não sei", diz Kendrick Lamar quando lhe pedem para explicar como Donald Trump se tornou presidente dos EUA. Poucos compreendem os EUA como Kendrick, então certamente ele sabe algo sobre o bilionário astro de reality show que acabou no comando de seu país. Ele está nos bastidores do Barclays Center no Brooklyn, Nova York, em uma salinha escura e acinzentada, numa tarde de domingo. Faltam algumas poucas horas para o seu show. Ele calça um par de Nikes Air Max prateados e veste calça e camisa de moletom castanho-avermelhadas com o logo da TDE: Top Dawg Entertainment, seu selo. O rapper fala com a voz mansa e irradia intensidade por meio de palavras bem escolhidas e que carregam consigo um peso único. Kendrick não é verborrágico, mas sim profundo. Presta atenção no que ocorre ao seu redor, é sábio e muitas vezes brilhante, então, quando falamos sobre Trump, ele continua chocado, como tantos outros norte-americanos. "Estamos todos confusos", diz. "É algo que joga totalmente pra escanteio nosso compasso moral." A mudança é quase tangível para Kendrick, não só porque Obama era um presidente o qual respeitava e admirava, mas também um amigo que amava sua música e o havia convidado à Casa Branca.

"Eu estava conversando com Obama", comenta, "e a a coisa mais louca que ele me falou foi 'Cara, como chegamos aqui?', e isso me fez pirar. É um momento surreal por se tratarem de dois homens negros, inteligentes, que têm o mesmo histórico de pensar que nunca poriam os pés ali". Kendrick faz uma pausa e lembra, brevemente, de sua avó, que faleceu quando Kendrick ainda era adolescente; o quão incrível ela teria achado tudo aquilo, um negro na presidência falando com seu neto. "É isso que me faz pirar. Estar ali e conversar com ele e ver o tipo de inteligência que ele tem e sua influência, não só em mim, mas na minha comunidade. Sempre me faz lembrar da distância percorrida até então e o quanto ainda podemos avançar. Ter ele na presidência faz arder essa ideia de que nós, enquanto povo, podemos ser o que quisermos. Temos capacidade e inteligência pra isso."

Tanto Barack quanto Kendrick vieram do nada e chegaram ao status de lendas utilizando a força de suas palavras e seus dons para a oratória. Eles ficaram ali no Salão Oval conversando sobre a improbabilidade de suas vidas — como nós dois chegamos aqui? E agora, no tocante da Casa Branca, ambos são considerados inimigos do estado. "É uma confusão total", comenta Lamar sobre deixar de visitar a Casa Branca para se tornar odiado por ela.

"As principais diferenças [entre Obama e Trump] são moral, dignidade, princípios, bom senso", comenta. Obama era uma inspiração, já Trump é difícil até de respeitar". Como seguir alguém que não sabe nem como tratar outra pessoa ou conversar de forma gentil e com o mínimo de compaixão e sensibilidade?", mas no final das contas, a ascensão de Trump fez surgir algo novo em Kendrick. "Tudo isso tem feito o fogo em mim queimar ainda mais, para que eu continue me esforçando o quanto quiser."

O fogo de Kendrick deve estar ardendo mais que o de costume agora já que seu último disco, DAMN., o quarto de sua carreira, é sucesso de crítica e público, tendo vendido mais de dois milhões de cópias e fazendo os jornalistas arregaçarem as mangas na hora de escrever resenhas pra superar todos os louros recebidos por Kendrick antes que eles cogitassem elogiá-lo. A Pitchfork classifica DAMN. como "uma obra-prima do rap em tela plana, cheio de batidas ricas, rimas furiosas e narrativas sem igual sobre o destino de Kendrick nos EUA". A visão de Lamar para o álbum significou chegar em seus produtores e perguntar "'O que podemos fazer para o disco existir em outro espaço e sermos nós mesmos, mas ainda assim nos desafiarmos?'. Em termos sônicos, queríamos fazer do disco algo meio de volta para o futuro, algo que você nunca ouviu antes, mas que ao mesmo já ouviu sim, se é que isso faz sentido". Nesse exato momento o universo hip hop parece unânime na crença de que Kendrick é o maior MC do mundo. Ele poderia ganhar uma batalha contra a maioria dos MCs underground agora mesmo e poderia muito bem superar as vendas da maioria dos rappers pop. Kendrick é o rei do hip hop contemporâneo, não há o que contestar.

Kendrick leva uma vida adequada para um rei e sua majestade, se você parar pra pensar que o que realmente é adequado para o rei do hip hop é passar a vida em estúdio buscando pela batida e rima perfeitas. "Às vezes me isolo do mundo para escrever um verso que ache perfeito", diz. "Posso passar o dia no estúdio e desligar meu celular, me desligar de tudo, porque sinto que fui escolhido para fazer isso. E não posso deixar ninguém atrapalhar". Ao contrário de tantos outros MCs, quando Kendrick compõe, ele segue sóbrio. "Quero fazer música com a mente mais limpa possível pra ter certeza de que sou eu fazendo aquilo, não a bebida!". Se o hip hop é um jogo, Kendrick quer vencê-lo. "O hip hop funciona de duas formas na minha cabeça: como um esporte de contato e algo com o qual você se conecta — a composição. Crescer ouvindo as batalhas entre Nas e Jay-Z, essa é a parte esportiva pra mim. É aí que o bicho pega, onde posso falar o que quero, como quero e quando quero. Aí tem o outro lado, que é mostrar algo com o qual as pessoas possam se relacionar e se ligar. Eu tenho uma natureza competitiva e também tenho a compaixão de falar sobre algo real."

"O hip hop funciona de duas formas na minha cabeça: como um esporte de contato e algo com o qual você se conecta — a composição. Crescer ouvindo as batalhas entre Nas e Jay-Z, essa é a parte esportiva pra mim."

Quando questionado se já escreveu a rima perfeita, Kendrick decide que a 12ª faixa de seu último disco, Fear, contém os melhores versos de sua carreira. "É 100% sincera", diz. "O primeiro verso é tudo que temi aos sete anos de idade. No segundo verso, aos 17, e no terceiro tudo que temi aos 27. Estes versos são pura honestidade." Ele chegou a esse nível de franqueza após anos de trabalho com uma galera no estúdio que ajudou a manter a majestade humilde. "Nem tudo que você escreve é foda", diz. "Mesmo que você seja um excelente compositor, muita coisa que você escreve é uma merda. Mas a maioria das pessoas não tem alguém por perto pra avisar que está uma merda." Kendrick tem amigos que sentem-se à vontade para lhe dizer que algo não está dando certo e o próprio comenta que isso tem feito uma grande diferença. "Fico naquele estúdio escrevendo versos horríveis, refrões péssimos, com amigos e gente próxima que confio pra me dizer que está ruim mesmo. Aprendi a lidar com isso e a refazer tudo. Daí chega um ponto em que você sabe quando algo foi longe demais. Aprendi a me desafiar a ponto de fazer a coisa partir para o próximo nível."

Mas para Kendrick chegar ao trono, foi preciso muito mais que aprender a rimar. Ele cresceu em Compton, na Califórnia, um lugar barra-pesada que já engoliu muitas almas, um lugar em que gangues, matadores e corpos enchiam a Rosecrans Avenue, onde morava até recentemente. A música não era só uma forma de se expressar, Kendrick precisava dela para salvar sua alma: ele cresceu obcecado com Snoop, Dre, Pac, Public Enemy, KRS-One, Rakim, Jay-Z and Kanye, bem como Michael Jackson, Quincy Jones, Prince, Marvin Gaye, the Isley Brothers, Luther Vandross e também Malcolm X. "Suas ideias foram a base de minha abordagem musical", diz. Ler a autobiografia de Malcolm X na adolescência contribuiu com a formação de Kendrick enquanto artista. "Foi a primeira ideia que inspirou a forma como eu lidaria com minha música. Com a simples ideia de melhorar a mim mesmo ao chegar naquele estágio mental, como Malcolm." Sem a música, talvez Kendrick tivesse se perdido pelo caminho. "Costumava vir esse pessoal bem-sucedido falar pra gente o que era bom e ruim no mundo, o que pra gente não valia de porra nenhuma porque quando saíamos na rua e víamos a cabeça de alguém ser estourada, vai pro caralho tudo que foi dito. E a sua confiança vai diminuindo, você se sente pequeno no mundo. Quanto mais violência você presencia quando criança, mais aquilo te afeta. Tudo isso só serviu pra quebrar a molecada ao meu redor, ao ponto de dizerem 'Que se foda, vou fazer o que for preciso para sobreviver'." Como Kendrick fugiu disso? "Antes de me deixar levar, estava começando minha transição para a música."

Mais tarde naquela noite, no Barclays Center, Lamar sobe ao palco para ser recebido por um público delirante, a lotação esgotada. Ele usa um agasalho amarelo com detalhes pretos, semelhante à Bruce Lee em Jogo da Morte. Kendrick manda no palco, passando boa parte do tempo ali sozinho, dominando a arena. Seu corpo diminuto exala força enquanto se move pelo palco. Como Rakim e Nas antes dele, Kendrick não dança, "tão sério quanto um infarto". A plateia não tira os olhos dele. Entre as faixas, Lamar aparece no telão em trechos de The Legend of Kung Fu Kenny, curta que ele fez inspirado em filmes de kung fu dos anos 70. Lá, parece que Lamar está mesmo participando de um filme de kung fu, mas não é uma questão de fantasia pura e simples, levando ao cerne do que Lamar é. Naqueles filmes geralmente havia uma certa obsessão com obter habilidades e demonstrar maestria em algo, bem como uma batalha interna em busca da excelência. E este é Kendrick enquanto artista — focado em melhorar suas habilidades, demonstrar sua maestria e se esforçar rumo à grandeza.

Quando questionado sobre quais são suas palavras favoritas, além de "perspectiva", Lamar cita "disciplina". "Amo essa palavra, porque ela mostra quem você é de verdade. Há tantos vícios no mundo, ainda mais no ramo do entretenimento. Você é exposto a tantas coisas o tempo inteiro. Tudo que quiser está bem ali na sua cara. Mas quão disciplinado você é quando as luzes e as câmeras se apagam? Isso me inspira. Como restringir isso. E isso mostra quem você é. Se controlar é o maior poder de todos".

Kendrick está aprendendo mais sobre como se controlar, em partes graças à meditação diária todas as manhãs. "Preciso de 30 minutos por dia para refletir sobre o que está acontecendo", diz. "Quando você está nesse ramo, tudo é", ele estala os dedos. "Anos passam rapidamente porque você está ali trabalhando e também planejando mais trabalho nos próximos seis meses a um ano. Eu preciso sentar e refletir durante 30 minutos". Sua meditação ajuda a colocar as coisas em perspectiva, que ele afirma ser "minha palavra favorita".

"Eu ainda sou um ser humano, ainda sou uma pessoa, ainda tenho uma família, ainda tenho meus próprios problemas. Mas preciso dar algo ao mundo. É minha responsabilidade. Não é só um emprego ou entretenimento pra mim; é isto que tenho pra oferecer ao mundo."

Mas Kendrick ainda vive na América de Trump, onde o racismo se exacerba cada vez mais, mais corrente e violento. Alguns em meio à resistência adotaram "Alright" de To Pimp a Butterfly como hino e ele sabe a força que esta música tem. "Eu diria que é um dos meus melhores discos porque deu à molecada uma voz de verdade e a prática de ir lá e fazer diferença. Eles botam as coisas na prática, em suas comunidades ou em seus sistemas. Eles querem mudança." Há um certo senso de responsabilidade da parte de Kendrick; estaria ele carregando o peso de uma comunidade nos ombros? "Certamente é uma responsabilidade", comenta. ""Eu ainda sou um ser humano, ainda sou uma pessoa, ainda tenho uma família, ainda tenho meus próprios problemas. Mas preciso dar algo ao mundo. Creio que essa seja minha responsabilidade, de aprender com meus erros e levar adiante o conhecimento que tenho, a sabedoria que tenho. É minha responsabilidade. Não é só um emprego ou entretenimento pra mim; é isto que tenho pra oferecer ao mundo."

Além de seu impacto na cultura pop global, a comunidade de Kendrick também se beneficia de seu sucesso; ele ajudou dezenas de conhecidos a encontrarem empregos que não só "rendem uma grana", mas "ajudam a viver". "Se você coloca umas associações dentro do seu bairro, consegue empregos pra pessoas que ninguém mais quer contratar. Você cria oportunidades e é isso que tenho feito. Por que assim que coloco poder em suas mãos, eles podem fazer o mesmo pelo próximo e assim por diante. As pessoas não acreditam que as coisas possam mudar assim, mas tem que começar com alguém." Dr. Dre, Venus e Serena Williams também atuam em Compton, ao passo em que sua prefeita, Aja Brown, de 35 anos, também promove mudanças de verdade. "Esta geração tem oportunidades que a minha não teve", comenta, adicionando ainda que estar presente nestas comunidades é algo poderoso. Não importa apenas doar ou escrever sobre o que acontece; é preciso estar ali. "Tem muita gente com medo de sua própria gente, a cultura das gangues ainda existe ali, mas não se pode temer. Você tem que estar lá, porque isso mostra confiança não só em si mesmo, mas também na comunidade. As pessoas querem um motivo pra te odiar. Não os dê motivos. O que acontece agora é que essa transformação não tem medo de onde viemos. E essa ideia será passada adiante."

Muitos querem mudar, mas como acontece uma revolução estrutural de fato? "Alright" é só uma música ou tem algo mais por trás dela? Lamar promete que ficaremos bem, mas como? Como ficaremos bem em um país tão louco? "Sempre volto à comunidade", diz Lamar. "Simples assim. Porque vejo esses moleques crescendo sem pai e sei que eles não tem a confiança de que são melhor do que o ambiente em que vivem. Ficar bem é uma questão de dar confiança a eles. Que eles saibam que eu vim de onde vieram e que é possível fazer a diferença". Kendrick sabe que ele é um artista dotado do poder para mudar o mundo e trabalha para isso. "Quando eu me for", diz, "poderei descansar em paz sabendo que contribuí para a evolução disso aqui, da mente."

Créditos

Texto: Touré
Fotos: Craig McDean

Diretor de Moda: Alastair McKimm
Visual: Francelle Daly da Art and Commerce
Assistentes de fotografia: Nick Brinley e Maru Teppei
Técnico digital: Nick Ong
Assistentes de styling: Sydney Rose Thomas e Madeleine Jones
Assistente de visual: Ryo Yamazaki
Produção Gracey Connelly e Dyonne Wasserman.

Kendrick veste Prada.