Drogas

Como largar a maconha mudou minha vida

Um terço dos fumantes de maconha já tentou parar e não conseguiu. Falamos então com quatro ex-maconheiros sobre como suas vidas melhoraram depois que largaram a erva.

por David Hillier; Traduzido por Marina Schnoor
16 Maio 2018, 10:00am

Foto de um evento 4/20; a mulher da foto não tem relação com esta matéria. Foto: Michael McGurk / Alamy Stock Photo.

Para muita gente, maconha é uma benção. A erva pode ajudar a diminuir a dor, lidar com problemas de saúde mental, inspirar a criatividade ou só a relaxar depois do trabalho mesmo. Mas claro que não podemos dizer o mesmo de todo mundo e, por mais que a cannabis possa não ser tão viciante quanto álcool e outras drogas, ela cria um hábito. E esse hábito, para alguns, não é saudável para o corpo ou a mente.

O Levantamento Global de Drogas descobriu que 30% dos participantes que usam cannabis gostariam de fumar menos no próximo ano, enquanto um terço desses usuários disseram que tentaram parar pelo menos uma vez na vida. É uma preocupação para muita gente, então procurei quatro ex-maconheiros para descobrir como largar a maconha mudou a vida deles.

Tom, 34 anos

Sempre me achei um cara confiante, extrovertido e ativo. Mas quando estava na universidade, comecei a fumar maconha e mudei completamente. Fui do cara que saía toda noite para quase nem pisar fora de casa. Fiquei péssimo e perdi peso.

No final do meu curso, conheci uma garota que desprezava todo tipo de droga. Tive que esconder meu hábito dela. Tivemos uma relação à distância por três anos depois da universidade, então não era muito difícil. Naquela época eu testava as águas: indo bem, mas não muito, fumando toda noite. Depois começamos a morar juntos, e esconder isso dela foi ficando cada vez mais ridículo. Eu fumava um beck quando ela ia ao supermercado, aí tinha que tomar banho, trocar de camiseta e escovar os dentes antes dela chegar. Nunca fui tão limpo.

Ela acabou sacando o que estava acontecendo e disse que iria embora se eu não parasse. Honestamente, fiquei aliviado porque queria parar há muito tempo e nem curtia mais o barato. Eu só não conseguia cortar o hábito. Hoje somos casados, temos dois filhos, nossa própria casa, e acho que a maioria das pessoas me considera um sucesso na minha área. Sei que muita gente fuma, mas acho que a maconha mata sua motivação.

Scout, 29 anos

Fumei maconha – e tomei outras drogas – pela maior parte da minha adolescência. Quando tinha quase 19, tive um surto psicótico. Foi a coisa mais assustadora que aconteceu comigo. Vi notícias na TV dizendo que a polícia estava me procurando por assassinato. Vi monstros no meu reflexo. A comida tinha um gosto amargo, então parei de comer. Tudo isso culminou numa tentativa de suicídio.

Na época, fui diagnosticada com esquizofrenia, depois disseram que era transtorno bipolar. Finalmente, eles chegaram a um meio termo e disseram que era transtorno esquizoafetivo. Ninguém na época me disse que a maconha podia ter um papel nisso, então continuei fumando por mais alguns anos. Aí, quando eu tinha 20 anos, um psiquiatra me perguntou casualmente se eu fumava cannabis. Eu disse que sim, e ele me incentivou a parar imediatamente. Ele disse que, embora haja vários fatores para o desenvolvimento da minha doença, a maconha provavelmente estava fazendo mais mal que bem.

Quando você tem uma psicose, eles te perguntam como você se sentia seis meses antes do seu surto, para determinar sinais sutis do que pode ter desencadeado isso. Para mim, os principais fatores pareciam ser um súbito pânico e ansiedade, e o fato de que fui ficando cada vez mais paranoica e isolada. Eu fumava para me acalmar, mas isso provavelmente estava tornando os sintomas mais profundos e perigosos. Agora meu transtorno esquizoafetivo está sob controle e minha ansiedade, finalmente, sumiu. Dei um jeito na minha vida e estou grávida de sete meses. Acho que a maconha não seria uma parte positiva dessa equação se eu tivesse continuado.


Assista ao nosso documentário sobre a legalização da maconha no Brasil.


Clara, 28 anos

Fumei maconha por sete anos. Basicamente todo dia por três vezes. Quando era mais jovem, fumar era só diversão e risadas bestas com os amigos. Quando tinha 23, eu fumava meio beck assim que chegava do trabalho, passava meia hora achando que ia morrer até entrar na “parte boa” do barato. Eu não saía muito e não conseguia dormir sem fumar. Eu tinha tanto medo dos pesadelos de quando não fumava que ficava acordada até altas horas da madrugada esperando meu traficante fazer a entrega, só para evitar os sonhos.

Uma promoção no trabalho me obrigou a estar mais acordada no trabalho, então parei de fumar e isso mudou minha vida. Eu não levava mais até a hora do almoço para ficar completamente alerta. Comecei a nadar depois do trabalho em vez de fumar maconha. Agora eu conseguia dormir profundamente. Não ter aquela meia hora de paranoia todo dia era uma benção. Comecei a lembrar o aniversário das pessoas! Acho que a maconha deveria ser legalizada e que se o mundo fumasse em vez de beber, estaríamos num lugar melhor. Infelizmente, maconha não é pra mim.

Guy, 26 anos

Sou muito tímido e sempre usei a maconha para quebrar o gelo: “você quer fumar um beck?” era muito mais confortável que “vamos tomar um café?”

Tive uma crise no final do terceiro ano de faculdade porque parecia que eu nunca conseguia ficar com ninguém. Eu queria uma namorada, mas parecia que sempre estragava as coisas ou não aproveitava minhas chances. Fiquei frustrado comigo mesmo por não ter a confiança necessária, e isso deixou minha saúde mental pior ainda. Voltei para a casa dos meus pais, fiquei lá por dois anos e taquei o foda-se. Pegando um trabalho de merda atrás do outro. Comecei a fumar sozinho, algo que nunca fiz antes.

Um dia olhei para trás e pensei: “terminei a faculdade dois anos atrás – o que eu poderia ter feito nesse tempo?” Então parei de fumar. Duas semanas depois, fiz uma entrevista para começar outro curso universitário. Consegui a vaga, procurei um apartamento e mudei para o outro lado do país. Fiquei pasmo com o que fiz. Eu era um cara confiante pela primeira vez na vida. Aí notei que as garotas estavam interessadas em mim, algo que eu nunca notava quando estava chapado. Isso era algo que me doía muito.

Agora fumo maconha ocasionalmente em festas, e ainda gosto muito, mas ela drena minha ambição e confiança, o que me deixa infeliz. Então estou melhor sem a erva.

Se você quer ajuda para largar a maconha, leia os Limites de Uso Seguro do Relatório Global de Drogas.

@dhillierwrites

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.