Por que o The 1975 faz tanto sucesso?

Para entender o êxito internacional do grupo, é preciso analisar de perto as complexidades de suas composições.

por Emily Bootle; Traduzido por Marina Schnoor
07 Dezembro 2018, 8:12am

Foto: Divulgação

Tem alguma coisa no The 1975 que me chamou a atenção. Não “cresci” ouvindo a banda — o disco de estreia homônimo foi lançado cinco anos atrás, e tenho vinte e poucos anos. Ainda assim, a música deles desencadeia uma nostalgia feroz em mim. Eles cantam sobre drogas, sexo e adolescência em cima de arranjos de rock e sintetizadores retrô cheios de sentimento. A estética geral deles — couro, néon e nomes de álbuns compridos — tem um toque de descuido que evita que a banda seja limpa demais. O vocalista Matt Healy exala uma aura de rockstar caótico. Juntando tudo isso, você tem uma combinação de glamour e realismo que mantém esses caras interessantes.

E não sou a única que acha isso. O sucesso deles é monstruoso. O álbum de estreia ganhou disco de platina nos EUA e Reino Unido, vendendo quase meio milhão de cópias nos dois países. O penúltimo disco deles, I Like When You Sleep, for You Are So Beautiful Yet So Unaware of It — ó só, títulos longos — estreou no topo da parada 200 da Billboard e chegou no número 1 em cinco países. Eles lançaram outro álbum, A Brief Enquiry into Online Relationships, em outubro e tem outro saindo em maio de 2019 chamado Notes on a Conditional Form. Tem uma calma e uma confiança especiais em anunciar dois discos de uma vez, mas eles provavelmente sabem que os dois vão se sair bem.

Ainda assim — apesar de tudo isso — não consigo deixar de pensar que a maioria das pessoas classifica a música deles como “boa mas também um pop bem mediano”. Já escrevi muito sobre como eles eram a banda mais amada e odiada do mundo, e essa dicotomia continua até hoje. A Pitchfork nunca deu aos álbuns deles uma classificação melhor que “6”. O Guardian uma vez os descreveu como tendo “contraído um caso grave de Artistas Sérios”, com a implicação de que eles não são. Provavelmente tem muita gente por aí confusa sobre por que diabos as pessoas gostam deles. De fora, eles são só uma banda de pop rock padrão com um vocalista de cabelo engraçado. Mas estou aqui para explicar que tem mais coisas neles que isso — só é preciso uma escavação rigorosa para ver.

Para entender melhor seus sucessos, vale a pena olhar um pouco mais de perto as complexidades de sua música, e o que tende a elevar a composição pop. As melodias que grudam no seu cérebro por mais tempo, por exemplo, são aquelas que fazem uso de intervalos maiores (ou seja, notas que ficam mais distantes do que só um passo acima ou abaixo na partitura, como em “Somewhere Over the Rainbow” e “Parabéns pra Você” — e o The 1975 usa essa estratégia em uma boa parte de seus refrões (tipo em “Love Me” ou “Somebody Else”). Claro, eles não são o único conjunto pop que faz isso (você pode ler a brilhante dissecação do “Millennial Whoop” de Gavin Haynes no Guardian, para entender como artistas como Katy Perry e Frank Ocean usam o pulo entre a quinta e terceira notas da escala maior), mas esse é um componente-chave nos refrões sempre chicletes deles.

No hit de 2013 “Chocolate”, essa técnica é amplificada por um ritmo distinto. Quando o verso de abertura do refrão se desenrola, as lacunas longas entre cada verso fazem as palavras soarem mais impactantes: “Oh we / go / nobody knows / guns hidden under our petticoats”. Além disso, os saltos melódicos são intervalos de terça (significando que as notas estão a dois passos de distância na partitura), que é um padrão que a banda usa muito em sua música (você também ouve isso em “Girls”). De maneira simples, a melodia e o ritmo trabalham juntos de um jeito tão estranho e específico que se tornam instantaneamente reconhecíveis; a música se incorpora na sua mente do mesmo jeito que uma canção de ninar. Não só você quer cantar junto quando escuta The 1975, mas também se pega cantarolando a música sozinho depois.

Mas, diferente do “Parabéns”, o jeito como Healy e companhia jogam com a melodia faz mais do que tornar a música memorável — ela se torna emocional. Veja “Sex”, uma faixa de um EP de 2012 de mesmo nome. O vocal de Healy é sempre emotivo, mas quando esticado sobre uma melodia em zigue-zague, parece mais cru e vulnerável. O verso de abertura — “And this is how it starts” — sobe seis tons em “starts” e tem o efeito de nos plugar direto na narrativa no momento do salto. O verso continua num tom similar, o que é vocalmente confortável para Healy, mas ainda faz ele soar sobrecarregado com emoções. Aí no segundo verso, ele canta “all we seem to do is talk about sex” retornando ao registro original mais baixo da melodia na palavra “sex”.

Esse detalhe pode parecer exagero considerando que todas as melodias são “pra cima e pra baixo” em alguma escala, mas o jeito como “Sex” se desenrola é particularmente expressivo. Os sons de ascensão e queda soam como decepção amorosa e resignação. E mesmo no espaço do clímax da letra — “but you say no” — tem com um pulo desesperado e trágico para cima em “say” e aí uma ligeira queda de decepção em “no”. De um jeito similar, o refrão teatral — já amortecido no poder dos acordes pop e na bateria exagerada — é catapultado pra cima pela melodia ascendente. Em outras palavras, é nesses gestos musicais padõres — a que eles constantemente retornam — que o The 1975 consegue pegar um monte de emoções e envolvê-las de maneira firme. Ouvimos desespero, decepção, aceitação e indiferença, tudo misturado numa brilhante música pop.

Mas o apelo do The 1975 — para quem não odeia a banda — é baseado em mais que apenas esses floreios sonoros. Eles criaram uma marca com suas letras também. Quer seja Healy cantando sobre alguém que “tirou uma foto da sua salada e colocou na internet” (em “A Change of Heart”) ou como “pegar uma DST aos 27 não é muito a vibe” (em “Give Yourself a Try”), as palavras são consistentemente casuais, divertidas, diretas e fáceis de se identificar. Em essência, parece que eles rasgaram uma página de um diário de alguém de 20 e poucos anos do Reino Unido hoje e transformaram numa música. Novamente, outras pessoas já fizeram isso — num exemplo aleatório, rappers do Reino Unido como Dave e J Hus escrevem letras casuais mas com significado com que as pessoas conseguem se identificar — mas não é sempre que uma banda pega esse estilo de escrita e mistura com música pop acetinada oitentista. O The 1975 é único nesse sentido.

Basicamente, The 1975 pode parecer só quatro “meninos com guitarras” fazendo música que soa como “se a Forever 21 fosse uma banda de rock” — e de algum jeito eles são isso aí mesmo. Mas também são mais que isso. Não preciso dizer que por trás de todo artista de sucesso há um grau de proeza de composição, mas o The 1975 leva isso ao último grau e é importante reconhecer esse fato. Dessa maneira, eles são mais do que as pessoas acham. É fácil se identificar com as letras deles. Eles de algum jeito desencadeiam uma nostalgia pelo que está acontecendo agora, o que já é um feito em si. Então quer você acredite no hype ou não, eles estão aqui por uma razão — e faz todo o sentido.

Texto originalmente publicada no Noisey UK.

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