Sexo

Por dentro da indústria de sexcam da Romênia

Pobreza, mulheres desempregadas e uma internet de alta velocidade são a receita da maior indústria de sexcam da Europa.

por Ștefania Matache; fotos por Mircea Topoleanu; Traduzido por Marina Schnoor
05 Fevereiro 2018, 3:58pm

Maria, que gerencia um dos maiores estúdios de sexcam da Romênia, em sua mesa. Fotos de Mircea Topoleanu.

Matéria originalmente publicada na VICE Romênia.

Estou assistindo à transmissão ao vivo de uma bela mulher usando um body preto de veludo, sentada com as pernas cruzadas numa cama num estúdio romeno decorado para lembrar um quarto de hotel. Os pés delas estão sob os joelhos, um notebook descansando sobre suas pernas.

Segundos depois, uma mensagem aparece na seção de cometários do streaming. “Vou levar alguns dias para chegar à Romênia”, um colega espectador escreve, “mas quando chegar aí, vou te empalar como Vlad”.

Usar uma referência ao príncipe assassino do século 15 num chat de sexo me parece meio estranho, mas a cam girl não se abala. Sorrindo sedutoramente, ela digita a resposta, suas longas unhas vermelhas correndo pelo teclado: “Me montar: sim, gozar: não – hahá”.

As opções de uma das páginas do site de sexcam romeno.

A indústria de sexcam romena supostamente tem um lucro anual de €300 milhões, o que torna esse o mercado mais lucrativo do tipo na Europa. Gente de dentro da indústria com quem falei estima que haja mais de cinco mil estúdios espalhados pelo país, trabalhando com 100 mil modelos. Mas para o governo romeno, a indústria não existe.

Embora não seja ilegal ter um estúdio de sexcam, o governo romeno não dá a esses estúdios códigos específicos de negócio que todas as outras empresas romenas recebem para pagamentos de impostos e benefícios. Como consequência, muitos estúdios fingem ser agências de modelos ou fornecedores de telecomunicações — usando os códigos de impostos associados a esses modelos. Entrei em contato com o Ministério do Trabalho romeno várias vezes para perguntar por que o governo ainda não reconhece estúdios de sexcam como negócios oficiais, mas não recebi nenhuma resposta clara.

Essa área cinza torna a indústria do sexcam uma maneira perfeitamente legal e não-regulada de fazer dinheiro, e o Estado não tem noção de quão grande é o negócio de sexcam nacional.

“Não queremos mentir para o governo, mas sentimos que não temos escolha”, diz Maria, que gerencia o maior estúdio de sexcam de Bucareste. “Não queremos problemas — para os donos, para as modelos ou para a equipe. Mas se não usássemos um código falso para a empresa, não poderíamos receber diversos benefícios do Estado.”


Vera Renczi (esquerda) trabalha como camgirl há anos.

Maria me diz que a dominância da Romênia na indústria de sexcam aconteceu por três fatores-chave: pobreza, abundância de belas mulheres desempregadas que falam inglês e uma internet excepcionalmente rápida.

Cerca de 15% dos jovens romenos estão desempregados ou subempregados. O que facilita para os estúdios atraírem universitários e recém-formados com promessas de contratos lucrativos bem acima do salário-mínimo do país de 1.221,97 RON (cerca de R$1.040).

“Há poucas oportunidades de carreira na Romênia”, diz Vera Renczi, que trabalha como camgirl há vários anos, depois de entrar para o negócio quando não tinha dinheiro para comprar o equipamento necessário para um curso de fotografia. “Somos um país muito pobre.”


Maria (à esquerda), que gerencia um dos maiores estúdios da Romênia, oferece um salão de beleza dentro do estúdio para suas modelos.

“Vamos tornar seus sonhos realidade”, diz um anúncio para modelos no site da empresa de Maria. “Você vai viver como uma estrela de cinema.” Mas especialmente em estúdios menores, muitas camgirls e camboys acabam não ganhando tanto quanto o prometido, desistindo logo depois.

Essa é a realidade de muitas indústrias não-regulamentadas. Vera me diz que tem sempre um novo estúdio de sexcam abrindo, muitos com o único objetivo de explorar mulheres vulneráveis: eles prometem contratos lucrativos mas depois se recusam a pagar as modelos ou fecham as portas, trocam de nome e reabrem em outro lugar.

“Não é fácil fazer dinheiro”, Vera diz tomando chá em sua cozinha em Bucareste, a alguns metros de seu quarto, onde ela trabalha como camgirl em sua empresa independente. Antes ela trabalhava para um grande estúdio, ensinado a modelos iniciantes os truques do negócio, antes de ir para o outro lado das câmeras.

Maria conversa com a sua equipe na sala de espera do seu estúdio.

A chave para ser uma camgirl de sucesso, explica Vera, é investir muito tempo e esforço em construir uma base fiel de clientes e trabalhar o que certos clientes querem. “Você pode ter que se masturbar na frente de alguém algumas vezes antes da pessoa realmente se excitar com você”, ela diz.

O ideal é que a aspirante a modelo saiba pelo menos uma língua estrangeira e tenha um bom conhecimento de várias culturas, diz Vera. Alguns estúdios até investem em salões de beleza e academias internas, enquanto dão aulas de inglês para as modelos.

“Você leva de cinco a seis minutos no máximo para se masturbar”, aponta Vera. “O que você faz no resto daquela hora? Bom, você tem que ser interessante, cativante e parecer alcançável. Acho que você tem que saber como falar com um médico que teve um dia ruim porque perdeu um paciente, e também com um músico amador.”

PerfectLexy

Os clientes de Vera tentam realizar fantasias que não poderiam na vida real. Ela conta que “é muito difícil revelar para sua namorada ou esposa seus desejos sexuais mais profundos e sombrios sem se sentir julgado. Nossa aceitação é onde está o dinheiro”.

LiveJasmin, um dos sites de sexcam mais populares do mundo, atrai cerca de 2,4 milhões de visitantes por dia, o que o torna o 61º site mais visitado do mundo. Diferente da maioria dos sites do tipo, as garotas do LiveJasmin não ficam totalmente nuas a menos que um cliente pague por uma sessão privada, que custa €100 (R$400) por dez minutos.

O LiveJasmin chama isso de “pacote namorada”, porque treina suas camgirls não apenas para oferecerem shows eróticos privados — qualquer coisa desde um striptease até masturbação com um vibrador controlado pelo cliente —, mas também para conversar e aconselhar sobre vida, amor ou qualquer coisa que esteja pesando na mente de alguém.

Penelope (esquerda) e Perfect Lexy (meio), duas das camgirls mais populares do LiveJasmin.

Perfect Lexy é uma ruiva de cabelo curto. Ela trabalha no LiveJasmin há quatro anos, desde que largou o emprego numa fábrica de carros numa pequena cidade no sul da Romênia, onde ela ganhavam 1.000 RON (R$860) por mês. Quando me encontrei com Lexy na Praça Muncii perto do escritório do LiveJasmin, em Bucareste, ela tinha acabado de fazer £1.200 (R$5.400) num turno de oito horas.

“Fiquei vestida hoje o dia todo”, ela diz. “Passei o tempo numa sessão privada com um dos meus clientes mais fiéis — um chinês com quem estou 'namorando' no site há mais de um ano.” Durante suas oito horas juntos, Lexy e o cliente conversaram, almoçaram e até tiraram um cochilo.

“Meio que construímos um relacionamento”, ela me diz. “Ele se importa comigo. Alguns dias atrás ele estava dizendo que nem se importava em me ver nua, que pra isso ele podia assistir pornô. Ele quer que a gente tenha uma conexão emocional.”

O quarto da Vera.

Não é raro os clientes se apaixonarem pelas modelos, acrescenta Lexy. Às vezes os relacionamentos se tornam tóxicos, e as garotas são obrigadas a terminá-los — como quando um norte-americano ameaçou cometer suicídio se Lexy não concordasse em se encontrar com ele na vida real.

Dito isso, há casos em que as modelos conhecem pessoalmente os clientes, e até se casam com eles. Uma ex-camgirl do LiveJasmin se mudou recentemente para Dubai para morar com um cliente, enquanto outra garota teve que lidar com um fã que viajou para a Romênia para pedi-la em casamento, sem saber que ela já era casada.


Ana (esquerda) com Dylan (direita), que faz até $12 mil num dia.

Atualmente, a indústria está se expandindo rápido no mercado de modelos homens. Ana, a dona do único estúdio de sexcam em Bucareste que trabalha exclusivamente com camboys, emprega 21 homens em três turnos diários, sete dias por semana.

Ana abriu o estúdio depois de trabalhar como camgirl por alguns anos, até perceber o potencial inexplorado do mercado de modelos masculinos. Dylan Green, 21 anos, é seu camboy de maior sucesso. Ano passado, ele ganhou o prêmio de melhor modelo masculino da Bucharest Summit—– a premiação de maior prestígio de indústria de sexcam romena.

Dylan começou a trabalhar como camboy quando tinha 18 anos e ainda estava no colegial. Ele trabalhava numa academia quando um amigo perguntou se ele não queria tentar ser camboy e — tentado pela promessa de dinheiro e uma aventura excitante — ele foi para o estúdio de Ana no dia seguinte para uma entrevista.


Dylan usando o capacete de sua fantasia de gladiador.

Apesar de não ter ideia do que fazer na frente da câmera — e usando o Google Translate para se comunicar com os clientes ele fez respeitáveis $50 (R$161) em seu primeiro dia. Agora, três anos depois, ele ganha até $12 mil (quase R$39 mil) por dia.

Dylan embolsa 75% do dinheiro que ganha, com o resto indo para o estúdio de Ana. Ele trabalha de seis a oito horas por dia, o que envolve principalmente dançar, se flexionar e se masturbar, às vezes usando fantasias de gladiador, gorila ou Super-Homem. Com esse trabalho, Dylan atraiu uma base fiel de clientes — ou “fãs”, como ele prefere — que ficam esperando ele aparecer online todo dia.

“A maioria dos membros são homens ricos e casados, vivendo suas fantasias gays”, diz Dylan. “Eles me procuram para evitar trair as esposas.”

Dylan não é gay, mas seus fãs ficam felizes em ignorar esse fato. “Estou aqui para sonhar”, um cliente disse a Ana. “Não ligo para a realidade.”

Dylan diz que a chave de seu sucesso é amar o que faz e não estar nessa só pelo dinheiro. Ele encoraja seus colegas camboys a fazer amizade com os fãs e falar com eles como se estivessem tomando uma cerveja com um amigo. “Eu sempre digo para os caras para não pensar nos fãs como maços de dinheiro, porque eles não são”, ele diz. “Eles são seres humanos.”

Vera
Tatuaj cu numele lui Dylan Green, făcut pe spatele Anei, în cinstea premiului luat de model.
Camera de videochat pentru băieți.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.