Terapia por Skype dá certo?

Muitos brasileiros que se mudaram para o exterior optam por continuar suas consultas com psicólogos do país de origem. Mas será que funciona?

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08 Junho 2017, 3:26pm

Quando se mudou da cidade de São Paulo para fazer mestrado em Bonn, na Alemanha, o biólogo Heitor Satorelli, de 25 anos, não quis interromper o tratamento psicológico que fazia toda semana no consultório. Sua terapeuta, então, sugeriu que continuassem com as sessões pela internet. Na hora, ele não botou muita fé. "Sempre desconfiei de atividades pelo computador e tinha certo preconceito com o Skype", conta. "Achava que era uma ferramenta que travava demais e que isso atrapalharia."

Com pés em solo europeu e sem falar uma frase em alemão, Satorelli notou que seus conhecimentos em inglês não ajudariam. Quase ninguém na região falava o idioma. Assim, numa tarde, topou a aventura tecnológica de discorrer sobre suas entranhas sentimentais via teleconferência. "Apesar de a teoria da psicologia ser universal, as vivências e experiências de uma psicóloga brasileira facilitam o entendimento dos meus problemas e angústias, mesmo porque alguns deles são frutos do choque cultural", conta. O português, diz, dá mais liberdade para expressar esses pensamentos.

A enfermeira Ivana Matos, 39, viveu situação parecida. Embora tenha se mudado para uma cidade onde também se fala português — saiu de Oriximiná, no Paraná, para viver em Luanda, Angola — preferiu continuar a terapia que iniciou no Brasil. "Gosto muito das sessões por Skype. É cômodo, fácil, não demanda deslocação nem estresse", justifica. Muita vezes, a sessão terapêutica acontece quando Ivana está dentro do carro, no engarrafamento ou durante uma caminhada. "Estamos numa época em que a tecnologia faz parte da nossa vida, então, porque não usá-la? Se podemos ter aulas pela internet por que não fazemos terapia online?", questiona.

Do outro lado da tela de Heitor e de Ivana fica a psicóloga clínica e hospitalar Adriana Manzano, 36. Especialista em distúrbios alimentares, obesidade e cirurgia de redução de estômago, a profissional viu nos grupos de cirurgia bariátrica do Facebook uma oportunidade para aumentar o número de pacientes. "Não podemos oferecer esse tipo de intervenção sem que sejamos conduzidos pelo conselho de psicologia", pondera Adriana. Ela atende virtualmente apenas pacientes que estejam "em trânsito", ou seja, que se encontram temporariamente fora do país e não querem parar o processo terapêutico.

"Se podemos ter aulas pela internet por que não fazemos terapia online?"

Nem todos aprovam esse tipo de "psicologia tapa-buraco", porém. O psicólogo Guilherme Raggi, membro do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, explica que os atendimentos feitos pela internet não são consenso entre diferentes linhas de trabalho psicológico. Segundo ele, o Conselho está em processo de definição das normas que devem reger os atendimentos. "Temos de ouvir todas categorias: os profissionais, os pesquisadores e estudantes para poder tirar uma posição que possa ser sólida", diz.

O tema se faz espinhoso, também, pela complicação em definir responsabilidades e a diluição das fronteiras. Isso porque, explica Raggi, as normas médicas variam de país para país. "Principalmente em relação a pessoa em outro país, nós temos uma dificuldade muito grande porque a legislação muda conforme a nação. Mesmo em nível nacional, temos uma questão de para quem encaminhar o problema ético envolvendo um cliente no Sul que é atendido por alguém do Norte do país, por exemplo."

Enquanto esse processo se desenrola, as regras dos atendimentos por meios digitais são definidas por uma resolução publicada no ano de 2012. Nela são listados os tipos de atendimentos permitidos, a exemplo de seleção de pessoas, testes psicológicos, orientação e psicoterapia no caso de pacientes "em trânsito". Mas se na orientação psicológica o texto é bastante claro ao definir o limite de vinte sessões, quando a questão é psicoterapia a resolução não delimita tempo: ressalta apenas o caráter temporário. Segundo o conselheiro isso se deve ao fato de haver muitas especificidades a se levar em consideração. "Tentamos sempre ir um pouco pelo bom senso nesses casos", concluiu.

A psicóloga Adriana reforça que teve de se adaptar para preencher alguns dos requisitos para atuar online, como ter um site voltado somente para isso, submetê-lo a avaliação do Conselho e, por fim, obter um selo de permissão. Questionada sobre a efetividade do tratamento a distância, a profissional assegura: "Temos regularidade, temos privacidade, temos troca, só estamos distantes fisicamente."