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Reportagens

Como professores estão combatendo a lavagem cerebral do supremacismo branco em seus alunos

“Isso vai piorar antes de melhorar.”

por Tess Owen; Traduzido por Marina Schnoor
18 Setembro 2019, 10:00am

No passado era muito mais fácil notar um nazista iniciante numa sala de aula, ou pelo menos um aluno com visões extremistas, diz Nora Flanagan, professora de escola pública em Chicago há mais de 20 anos. Você procurava pelo garoto skinhead problemático, talvez usando bota com bico de aço e um botton com a suástica.

Hoje a coisa é mais complexa. Flanagan e outros professores dizem que supremacismo branco, antissemitismo e misoginia estão se infiltrando na sala de aula, muitas vezes codificados em memes irônicos e símbolos não familiares para adultos. Flanagan diz que está vendo mensagens extremistas com mais frequência e mais abertamente que nunca, mas que “é muito mais sutil agora, e tem muito mais coisas para tentar ver e ouvir”.

Por exemplo, professores descreveram ver estudantes mostrando o sinal de “OK” na classe, um símbolo cooptado por supremacistas brancos na internet. Outros lembram de estudantes mudando a imagem de fundo de seus computadores para imagens de PewDiePie, um youtuber popular acusado de usar racismo e antissemitismo em seus vídeos. Além disso, grupos supremacistas brancos recém-formados cultivam uma estática preppy para se misturar no mainstream.

“Tem as teorias de conspiração da direita”, disse Flanagan. “É uma fala sutilmente codificada, com os símbolos que eles usam como avatar nas plataformas de aprendizado online, nos links que eles associam em suas bios.”

Enquanto as aulas recomeçam nos EUA, professores estão indo para a escola armados com o kit “Confronting White Nationalism in Schools” para ajudá-los a notar extremismo na sala de aula e tentar abordá-lo. Flanagan, com ajuda de outros professores da ONGs de Portland e Oregon Western States Center, juntaram um kit de 50 páginas em abril, e já receberam 4 mil pedidos de cópias. Professores, escolas e organizações de todos os estados, mais 18 países incluindo Japão, Áustria, Nova Zelândia e Romênia, já pediram o guia de US$ 10.

“Estamos vendo jovens sem registros criminais, de famílias relativamente estáveis, sendo radicalizados – principalmente na internet.”

Outros professores dizem que estão usando literatura contemporânea escrita das perspectivas de adolescentes refugiados e pessoas não-brancas para combater o extremismo instilando empatia em seus alunos.

Mas reconhecer as expressões sutis do supremacismo branco não é o único desafio. Professores precisam descobrir quando um aluno está sendo subversivo – só “de brincadeira” – e quando ele está exibindo sintomas de estar sendo radicalizado ou se tornando violento.

Por exemplo: um grupo de nove alunos do ensino médio de Ojai, Califórnia, formaram uma suástica humana dentro da escola. A maioria dos alunos do primeiro ano do ensino médio no Wisconsin fizeram saudações nazistas para as fotos de um baile escolar. E alunos se formando em dois colégios de Chicago mostraram o sinal supremacista branco de “OK” em sua foto do anuário.

Aí você tem alunos que exibiram comportamento antissemita ou racista na escola, e mais tarde se tornaram violentos. James Fields, de Ohio, era conhecido como o “nazista da classe” durante o ensino médio, e depois jogou seu carro contra uma multidão de contramanifestantes numa marcha supremacista branca em agosto de 2017 em Charlottesville.

E quando se trata de saber a diferença entre intenções subversivas e violentas, as apostas podem ser mais altas que nunca.

Os cantos mais sombrios da internet

Professores já estão se organizando contra o aumento de crimes de ódio e atentados com armas de fogo em escolas, e o semestre de outono veio na esteira dos atentados em Gilroy, Califórnia, El Paso, Texas e Dayton, Ohio. Mas com o aumento do recrutamento nacionalista branco na internet e com a linguagem de ódio se tornando mais mainstream, eles agora estão navegando uma paisagem de ameaças mais complicada e difusa do que nos últimos anos.

Especialistas estão alertando que a eleição de 2020 provavelmente vai desencadear uma nova onda de ódio e extremismo, e isso vai se desenrolar online e nas redes sociais onde os adolescentes passam boa parte do tempo.

“Estamos trabalhando para implementar programas de tolerância e multiculturalismo, mas o que esses garotos estão vendo na vida cotidiana?”

Enquanto isso, a extrema-direita não faz segredo de seu desejo de radicalizar jovens online. Andrew Anglin, que comanda o site neonazista Daily Stormer, disse que estava visando a “demografia DDA”, a partir de 11 anos. “Não faz sentir ter como alvo qualquer um a não ser os jovens”, Anglin disse num podcast três anos atrás.

Um estudo de 2017 de James Hawdon, diretor do Center for Peace Studies and Violence Prevention da Virginia Tech, descobriu que 70% dos americanos entre 15 e 21 anos tinham sido expostos a mensagens extremistas online (que tiveram um pico na eleição americana de 2016), comparado com 58% em 2013.

“Estamos vendo jovens sem registros criminais, de famílias relativamente estáveis, sendo radicalizados – principalmente na internet”, disse Brian Levin, que lidera o Center for the Study of Hate and Extremism da California State University San Bernardino. “O grupo jovem é o mais diversificado, e o nacionalismo branco se tornou uma resposta de contracultura a essa diversidade.”

O aumento do extremismo online coincidiu com um crescimento constante de registros de crimes de ódio e incidentes de antissemitismo nas escolas. Segundo o FBI, foram 340 crimes de ódio registrados em escolas primárias e secundárias em 2017, comparado com 158 em 2013. A Liga Antidifamação diz que o número de incidentes antissemitas em escolas pulou para 94% entre 2016 e 2017, de 235 para 457. Ano passado os números caíram ligeiramente, mas continuam altos: A LAD contou 344 incidentes em 2018.

E tudo isso deixa educadores e administradores de escola se sentindo em desvantagem para influenciar alunos que podem ser vulneráveis a radicalização – e para desenvolver maneiras construtivas de combater isso.

“Estamos trabalhando para implementar programas de tolerância e multiculturalismo, mas o que esses garotos estão vendo na vida cotidiana?”, disse J, professor de estudos sociais de uma escola de ensino médio perto de Portland, Maine. J pediu para que seu nome não fosse divulgado nesta matéria para poder falar sinceramente sobre seus alunos. “O que seus amigos e as redes sociais estão ensinando a eles – esse é um oponente muito poderoso.”

Então Flanagan e outros fizeram o kit “Confronting White Nationalism in Schools”. O panfleto oferece uma variedade de cenários, que Flanagan disse terem sido tirados de experiências na vida real com os alunos.

Num exemplo, um aluno de história americana entrega um trabalho contendo citações do nacionalista branco Richard Spencer.

Segundo o kit, os professores precisam primeiro falar com o aluno para saber mais. Tendo em mente que Spencer escreve sobre história e disfarça suas ideias de ódio com uma linguagem pseudoacadêmica, o aluno trombou com o trabalho dele e não entendeu seu ponto de vista?

Se esse for o caso, o kit propõe que um professor faça uma oficina para ensinar os alunos como vetar fonte de material que contenha preconceito. Se o problema acontece mais de uma vez, os administradores da escola são aconselhados a trabalhar com os bibliotecários da escola para desenvolver guias de pesquisa online.

Mas se o aluno parece ter citado um nacionalista branco como Spencer deliberadamente, o panfleto sugere que o professor pergunte ao psicólogo da escola se o aluno fez alguma reclamação que possa explicar por que ele está suscetível a ser radicalizado.

“O cérebro do adolescente é como uma esponja, e isso é algo bom para algumas coisas, mas também significa que essas crianças estão absorvendo linguagem e ideologia negativas.”

Hawdon acha que os professores precisam tentar uma abordagem simpática nesses cenários, procurando a causa para o aluno ter tais ideias.

“Há uma sensação de vulnerabilidade econômica e social que vemos com garotos expressando esse tipo de linguagem”, disse Hawdon. “Qualquer tentativa de combater isso sem um entendimento com nuances de por que os garotos estão se sentindo assim pode levar a uma reação negativa – e os tornar ainda mais entrincheirados em suas crenças.”

Movimentos de poder branco já foram associados com dificuldades financeiras, mas Flanagan não tem certeza se isso é tanto uma correlação hoje. “Historicamente víamos alunos em desvantagem econômica”, disse Flanagan. “Mas também vi garotos de famílias privilegiadas, que talvez sintam que estão perdendo parte desse privilégio e campo cultural.”

Ódio mainstream

A normalização do ódio apresenta outro desafio significativo para educadores. J, o professor de do Maine, disse que fica especialmente perplexo pelo jeito como a linguagem nacionalista branca se infiltrou no mainstream.

Por exemplo, J disse que viu alguns alunos colocando imagens do youtuber PewDiePie como fundo de seus computadores da escola. PewDiePie, que tem 100 milhões de inscritos em seu canal, frequentemente precisa se desculpar por usar tropos antissemitas e racistas em seus vídeos.

“PewDiePie é engraçado, com um humor tipo 13 anos, e nem tudo que ele faz é ruim”, disse J. “Mas aí ele escorrega em declarações supremacistas brancas como se fossem fatos, e o público de 13 anos só absorve isso. O cérebro do adolescente é como uma esponja, e isso é algo bom para algumas coisas, mas também significa que essas crianças estão absorvendo linguagem e ideologia negativas.”

J disse que tentou explicar isso para seus alunos, com sucessos mistos. “Um dos alunos foi gentil quando abordei o assunto, o outro se tornou beligerante”, lembra J. “No dia seguinte tinha um papel escrito 'Sub for PewDiePie' na porta da minha classe.” J disse que o papel também continha uma frase tipo “Não podemos deixar os indianos vencerem”.

Outra professora de estudos sociais, que pediu para ser identificada como “L” para falar sinceramente sobre suas experiências, dava aula numa escola de ensino médio rural de Ohio até recentemente. Na época, ela disse, a campanha de Trump começou a se infiltrar em sua classe.

“Mesmo que aquela comunidade fosse bastante homogênea etnicamente, havia uma população considerável de trabalhadores rurais migrantes que vinham trabalhar nas fazendas no outono, e seus filhos também trabalhava ali e frequentavam a escola”, disse L. “Vimos alguns alunos repetindo o que ouviram dos pais – ou talvez até do próprio Trump – dizendo coisas tipo 'Construa o muro'.”

Para L, que agora trabalha numa escola mais diversa em Columbus, Ohio, esses incidentes precisam ser abordados de cara. “Quando encontro pensamentos xenofóbicos, racistas e misóginos com meus alunos, tento apontar isso firmemente e ter uma discussão franca sobre o assunto.”

Uma professora de inglês de uma escola mais rural branca em Vermont, que pediu para ser chamada de “C”, pela natureza sensível do tópico, disse que notou alguns alunos usando bottons “white lives matter” na sala de aula. Em resposta, ela se voltou para “Teaching Tolerance”, uma revista do Alabama lançada nos anos 1990 pela SPLC, que aborda as questões espinhosas da guerra cultural que os educadores encaram hoje, incluindo extremismo. A publicação também recomenda textos para os professores usarem em sala de aula.

“É quase um consenso entre meus colegas e amigos: Isso vai piorar antes de melhorar.”

Os textos favoritos de C incluem “The Hate U Give”, de Angie Thomas, sobre uma adolescente negra de um bairro pobre que se vê envolvida numa história nacional de tiroteio com policiais; e “Exit West” de Mohsin Hamid, uma história de amor jovem que explora imigração e a crise de refugiados.

Alguns legisladores estaduais também têm tentado encontrar maneiras de abordar o pico de registros de crimes de ódio e incidentes antissemitas nas escolas em suas jurisdições.

Em 2017, legisladores de 20 estados americanos se comprometeram a aprovar uma legislação exigindo que as escolas ensinem sobre o Holocausto em seus livros. Hoje, pelo menos 12 estados obrigam alguma forma de educação sobre genocídio, e cerca de metade dessas leis foram aprovadas desde 2016.

Flanagan quer ver essa questão elevada para o diálogo nacional. “É quase um consenso entre meus colegas e amigos: Isso vai piorar antes de melhorar.”

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