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Saúde

Pessoas estão usando MDMA e outros psicodélicos para lidar com ansiedade social

Cientistas dizem que combinar essas drogas com terapia pode ser uma opção promissora de tratamento.

por Shayla Love; Traduzido por Marina Schnoor
06 Setembro 2019, 10:00am

Lia Kantrowitz

Cris* nunca se sentiu confortável em grandes eventos sociais, ele preferia ficar com pequenos grupos de amigos próximos. Mas como um homem jovem morando no centro de Londres, ele sempre acabava em grandes festas, e bebia bastante para lidar com sua ansiedade.

Isso até ele experimentar MDMA. Quando ele tomou o psicodélico pela primeira vez aos 18 anos “pareceu a resposta para alguma coisa”, diz Cris, agora com 37. “Do nada tudo parecia diferente. Rapidamente isso se tornou o único jeito de me sentir confortável.”

A ansiedade que Cris experimentava é muito comum. Cerca de 15 milhões de americanos foram diagnosticados com ansiedade social – que é caracterizada por medo do que os outros pensam de você, se preocupar que estão te julgando, que você é escroto e disse alguma coisa idiota ou errada. Esse é o transtorno de ansiedade mais diagnosticado do país.

Ainda que seja comum as pessoas recorrerem ao álcool para ter coragem, um subgrupo está passando para drogas mais pesadas como MDMA e outros psicodélicos, como cogumelos, ketamina e LSD, enquanto lubrificante social. Essas pessoas dizem que as drogas as ajudam a interagir com pessoas de um jeito novo e mais elevado, seja numa festa, show ou evento de trabalho.

Esses efeitos terapêuticos das drogas funcionam melhor junto com terapia e a ajuda de um especialista, e o MDMA tem um histórico de ser usado com psicoterapia para conseguir um bem-estar mental maior. Hoje, como esse e outros psicodélicos ainda são ilegais, as pessoas estão buscando esses benefícios por conta própria, apesar dos riscos.

Mas estamos no meio de que alguns estão chamando de renascença psicodélica. As drogas ilegais relegadas as culturas de rave e hippie estão aparecendo em testes clínicos das maiores universidades do mundo. Psicodélicos já deram evidências preliminares de que podem ser eficientes para tratar condições como depressão, transtorno de estresse pós-traumático ou ansiedade. Mas é quanto a ansiedade social?

A pesquisa desses componentes está levando a um entendimento melhor do que eles fazem no cérebro para criar essas sensações, para explicar o que pessoas como Cris têm notado. “Isso moldou todos os meus relacionamentos, a maioria das minhas amizades”, disse Cris. “É difícil imaginar como minha vida seria sem MDMA.”

A empresa farmacêutica Merck sintetizou o MDMA em 1912, mas ninguém testou a droga até os anos 1970. Um químico da Califórnia chamado Alexander Shulgin se usou como cobaia, escrevendo sobre a experiência: “Me senti absolutamente claro por dentro, e não há nada a não ser pura euforia. Nunca me senti tão bem ou acreditei que isso seria possível... Estou perplexo com a profundidade da experiência”.

Shulgin compartilhou a droga com o psicoterapeuta californiano Leo Zeff, que tinha usado outros psicodélicos em seu trabalho. Zeff depois deu MDMA para cerca de 4 mil pacientes e treinou mais de 150 outros terapeutas para usar a droga entre 1977 e 1985. Numa conferência chamada MDMA em Psicoterapia, realizada logo antes do MDMA se tornar ilegal em 1985, terapeutas discutiram como a droga tinha a capacidade de fazer uma pessoa se abrir, tornar suas emoções mais intensas, e dar a elas acesso a memórias reprimidas e insights.

Nos anos 1960, o psiquiatra Claudio Naranjo descobrir que a droga ajudava pessoas a se envolver melhor em cenários de terapia em grupo, a confiar e simpatizar mais com as outras pessoas. Por volta da mesma época, a droga até começou a ser usada em terapias de casal por esse motivo. Um psiquiatra chamado Rick Ingrasci tratou 100 pacientes com MDMA, cerca de um terço deles casais. Ele escreveu que “o que [o MDMA] faz é remover o medo de ser real, de ser autêntico consigo mesmo e com os outros”.

“Você não conseguiria desenvolver uma molécula melhor para terapia que o MDMA”, disse a psiquiatra Julie Holland para o Guardian em abril. E mesmo assim, em 1985, a droga foi rotulado como substância de classificação 1, apesar de protestos de muitos profissionais de saúde – basicamente encerrando as pesquisas sobre suas aplicações terapêuticas.

A primeira vez que Greg Ferenstein, um cientista de dados de São Francisco, tomou MDMA, ele achou que seria como uma experiência exagerada do álcool ou Adderall. Mas aí ele começou a jorrar suas emoções, “falando sobre as coisas mais íntimas da minha vida, e expressando gratidão e apreciação pelos meus amigos de um jeito que eu não entendia completamente”, disse Ferenstein. “Senti essa onda de felicidade e calor, e queria mostrar aos meus amigos o quanto gostava deles, e falar sobre coisas muito profundas sobre mim.”

Apesar de o MDMA continuar ilegal, esses efeitos recreativos e eufóricos são conhecidos. Ferenstein disse que ele toma psicodélicos diferentes em todos os cenários, como conferências do trabalho, onde ele pode se sentir ansioso por ter que impressionar as pessoas. Ele não se considerava uma pessoa extremamente ansiosa socialmente antes das drogas, mas elas o tornaram um ouvinte melhor, mais gracioso, apreciativo e menos egoísta. “Um dos jeitos como sei que um psicodélico está funcionando é quando é mais difícil falar sobre mim”, ele disse.

“Senti essa onda de felicidade e calor, e queria mostrar aos meus amigos o quanto gostava deles, e falar sobre coisas muito profundas sobre mim.”

O uso de psicodélicos para ansiedade social “acontece há tempos”, disse Guy Jones, um químico que ajuda a comandar o The Loop, um laboratório de teste de segurança de drogas em festivais e eventos do Reino Unido. “MDMA talvez seja o mais óbvio e conhecido por seus efeitos de socialização, mas já falei com pessoas que descobriram que psicodélicos as deixaram com melhoras duradouras quando elas estavam sóbrias, como um resultado da introspecção que elas tiveram sob o efeito da droga.”

Há apenas um estudo recente especificamente sobre ansiedade social e os efeitos do MDMA, liderado por Alicia Danforth, uma psicóloga que vem pesquisando sobre terapia com MDMA e psilocibina. No Harbor-UCLA Medical Center, ela e seus colegas deram MDMA para um grupo de autistas adultos num experimento aleatório, duplo-cego e controlado com placebo em 2018.

Ansiedade social de moderada a severa é comum em pessoas com autismo, disse Danforth, então eles queriam explorar como o MDMA podia ajudar com essa ansiedade social numa população com uma grande necessidade de tratamento.

Nos participantes do estudo, ela descobriu que aqueles que tomaram MDMA em suas sessões de terapia tinham uma diminuição mais rápida e duradoura em seus sintomas de ansiedade social. “Continuamos ouvindo dos pacientes, anos depois do tratamento, que eles ainda estão experimentando menos ansiedade social na universidade, no trabalho, em relacionamentos românticos e no cotidiano”, ela disse.

O ressurgimento de pesquisas com MDMA, psilocibina e LSD em voluntários saudáveis está revelando os mecanismos de como essas drogas atingem esses efeitos: Elas aumentam emoções positivas enquanto também baixam o quanto percebemos dicas sociais negativas, como expressões faciais de raiva ou susto, e diminuem a dor da rejeição social.

Um estudo de 2013 descobriu que ketamina e psilocibina mudam a resposta elétrica do cérebro para rostos neutros ou de medo. Se mostravam uma imagem de uma pessoa com o rosto com raiva ou chateado, os participantes não percebiam as emoções negativas tão facilmente. “Esse pode ser um fator como, se a pessoa está num cenários de grupo ou social, a ansiedade social é diminuída”, disse José Carlos Bouso, psicólogo e farmacologista do International Center for Ethnobotanical Education, Research and Service (ICEERS) na Espanha.

“Psicodélicos deixaram melhoras duradouras nas pessoas quando elas estavam sóbrias, como um resultado da introspecção que elas tiveram sob o efeito da droga.”

De maneira similar, MDMA não apenas faz as pessoas se sentirem bem, ele pode diminuir sua capacidade de perceber o mal. Em 2010, pesquisadores descobriram que o MDMA pode diminuir a habilidade das pessoas de detectar expressões faciais ameaçadoras. Se as pessoas não conseguem detectar emoções negativas, isso pode tornar interações sociais mais atraentes.

Enquanto isso, pessoas com transtornos de humor como depressão e ansiedade tendem a prestar mais atenção em expressões negativas e têm respostas cerebrais aumentadas para ameaças. Isso pode explicar uma das maneiras como outros psicodélicos, como cogumelos, têm ajudado pessoas com depressão em testes clínicos.

Psicodélicos também podem mudar o jeito como nos sentimos sobre ser excluído socialmente. Cientistas estudaram isso através de uma atividade chamada Cyberball, onde os participantes jogavam um jogo virtual de lançar e pegar, mas conforme eles iam jogando, começavam a ser deixadas de lado pelos outros avatares do grupo. Pessoas com várias questões de saúde mental, incluindo depressão e ansiedade, são mais sensíveis a essa exclusão social.

Usando MDMA, as pessoas disseram que seu humor e autoestima não foram afetados por serem excluídas no Cyberball. E como dor social, ou a dor de ser rejeitado ou excluído, é associada com aumento de atividade cerebral em certas regiões, cientistas descobriram que usar cogumelos, reduzia a ativação de várias delas.

Muitos psicodélicos levam a uma redução da atividade da amídala, uma região do cérebro que processa emoções, incluindo medo, disse Bouso, e psicodélicos interagem com a serotonina do cérebro, um químico associado ao humor. O MDMA também promove a liberação de ocitocina, um hormônio afiliado com comportamentos sociais, para criar sentimentos de conexão social enquanto baixa respostas para rejeição social.

Não notar dicas sociais negativas, não se sentir excluído, uma diminuição do medo – a combinação de todos esses efeitos leva a interações mais prazerosas, empáticas e profundas com outras pessoas. Mas os traduzir para um tratamento para ansiedade social exige um passo adicional: não apenas tomar psicodélicos, mas fazer terapia enquanto você viaja.


Ainda temos muito a aprender sobre psicodélicos, e separar que droga – MDMA, cogumelos, ketamina ou LSD – funciona melhor para tipos específicos de ansiedade e quando, disse Jones. O estado inicial das pesquisas significa que essas drogas acabam sendo colocadas na mesma categoria, quando seus mecanismos de tratamento e riscos podem ser bem diferentes.

Com esses impactos no cérebro, o MDMA pode ser uma oportunidade para treinar habilidades sociais, disse Danforth, como rodinhas de bicicleta para interações interpessoais. Então, quando as pessoas lembram o que conseguiram fazer sob o efeito de MDMA, elas podem abordar sua vida cotidiana com mais confiança.

Ela quer experimentar uma abordagem similar em adultos sem autismo em breve, o tipo que geralmente usa álcool para lidar com situações sociais, como Cris antes de experimentar o MDMA. Danforth acha até onde as substâncias vão, psicodélicos são um grupo que pode ser terapeuticamente mais produtivo que o álcool. Álcool pode temporariamente reduzir medos sociais e servir como um meio de evitá-los, ela disse, e o álcool reduz a atividade do lobo frontal, onde nosso cérebro toma decisões, faz planos e raciocina. MDMA aumenta a atividade no lobo frontal, enquanto diminui atividade na amídala. O álcool reduz nossa consciência, disse Buoso, mas também pode aumentar a violência e outros comportamentos antissociais. “E o MDMA é uma substância muito pacífica”, ele disse.

Até onde as substâncias vão, psicodélicos são um grupo que pode ser terapeuticamente mais produtivo que o álcool.

“Não vejo como pessoas apreendem sobre si mesmas ou melhoram sua capacidade de funcionar quando estão intoxicadas com álcool”, disse Charles Grob, professor de psiquiatria da UCLA e coautor do estudo de Danforth. “Por outro lado, com o MDMA num contexto terapêutico, essa é uma experiência de aprendizado guiada, e os indivíduos aprendem coisas sobre si mesmos.”

Forenstein ainda usa psicodélicos regularmente, e disse que os vê como uma ferramenta de crescimento pessoal. “Já usei [essas drogas] em conferências, em chamadas do trabalho, aniversários, casamentos”, ele disse. “Gosto de tomá-las em quase toda situação em que consigo as drogas. Gosto de escrever e-mails sob seus efeitos, tuitar sob esses efeitos. Gosto de ver como sou diferente em várias maneiras.”

Enquanto usar drogas ilegais sem ajuda de um profissional pode ser perigoso, especialmente para pessoas com histórico de questões de saúde mental, faz sentido que as pessoas estejam se voltando para elas, disse Ben Sessa, psiquiatra que estuda e faz psicoterapia com MDMA.

“As pessoas estão desesperadas por ajuda”, disse Sessa. “Elas cada vez mais descobrem que opções psicofarmacológicas tradicionais não estão ajudando, então se voltam para alternativas – mesmo aquelas que são ilegais ou sem licença.”

Uma parte crucial para tirar vantagem total dessas propriedades terapêuticas é combinar essas drogas com hábitos de psicoterapia, em que muitas ou a maioria das sessões não incluem drogas. “É preciso muito apoio e integração para tirar sentido dessas experiências”, disse Sessa. “Quando usados em ambientes facilitados, com apoio adequado, psicodélicos podem ser muito úteis.”

Jones disse que sem um terapeuta, e nos tipos de cenários onde as pessoas geralmente usam essas drogas, pode ser impossível empurrar essas experiências numa direção positiva. “A pista de dança geralmente não é o lugar certo para reviver mentalmente memórias traumáticas de infância”, ele disse.

Cris não usa drogas há cinco ou seis anos. Mas suas experiências continuaram com ele. “Tem um senso claro de destravar um jeito diferente de pensar, um senso diferente de consciência”, ele disse. “Mesmo quando o efeito passa, há uma perspectiva que continua com você.”

*Por causa da informação sensível compartilhada, só o primeiro nome dele foi usado.

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