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A Próxima Corrida do Ouro Será a 1500 Metros Abaixo do Mar

Conheça a empresa que implantará drones para começar a corrida pelo ouro em alto mar.

por Brian Merchant
27 Novembro 2015, 4:01pm

Crédito: Nautilus

O povoado de Rabaul, localizado na extremidade norte da Nova Bretanha, em Papua-Nova Guiné, vive coberto por cinzas de um vulcão que explodiu décadas atrás. Erupções devastaram o vilarejo duas vezes: uma em 1937 e outra em 1994. Em ambos os desastres, os nativos reconstruíram o ambiente e seguiram em frente. Algumas marcas, porém, são impossíveis de remover. Ao dirigir pela região, os detritos se acumulam no meio e nas laterais da estrada; é tanta sujeira que é preciso fechar as janelas do carro para impedir que a poeira tome conta do interior do automóvel.

As cicatrizes da tragédia prejudicaram o maior mercado da região, o turismo. De vinte anos para cá, a nação busca meios alternativos para aumentar seu poderio econômico. Um deles, malquisto entre ambientalistas e ativistas, começa a tomar forma coma promessa de trazer bastante riqueza para a região: a mineração de águas profundas.

Uma empresa bastante rica está prestes a se instalar em Rabaul e, ao que tudo indica, enviará uma frota de mineradores robóticos de operação remota a 1500 metros abaixo da superfície do mar para colher as riquezas do leito oceânico. Esses gigantescos veículos submarinos parecem ter saído de um filme de ficção científica – algo entre Avatar e O Segredo do Abismo. E eles trarão à tona cobre, ouro e demais minerais preciosos.

A prática leva a questões sérias sobre o futuro do consumo em nosso mundo cada vez sedento por minerais: o quão fundo estamos dispostos a ir para coletar os materiais necessários aos nossos produtos eletrônicos?

A ideia de esfolar o leito do pouquíssimo estudado leito oceânico deixa muitos ansiosos – desde nativos que se preocupam com possíveis acidentes a cientistas que temem estarmos destruindo um ecossistema que não compreendemos.

Por outro lado, ao sabermos que o cobre está ficando cada vez mais escasso, minerá-lo nas profundezas, longe da população humana, não seria um empreendimento razoável?

Independentemente de qualquer coisa, a primeira mina no fundo do mar deve começar a operar em pouco mais de dois anos, em um local conhecido como Solwara-1, arrendado pelo governo de Papua-Nova Guiné. A mina fica próxima ao literal de Rabaul, na base daquele vulcão.

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Erupção em Rabaul. Crédito:Wikimedia / Richard Bartz

A caldeira de Rabaul. Crédito: Wikimedia

Digamos que, assim como a fusão nuclear, a mineração de águas profundas é uma promessa high-tech que tem atraído investimentos polpudos. Uma empresa canadense chamada Nautilus prometeu começar aquilo que ninguém conseguiu até agora: minerar com eficácia nas profundezas.

"A mineração em águas profundas é um ponto de virada na indústria mineradora mundial", afirmou o CEO da Nautilus, Mike Johnston. "Há um grande número de depósitos de minério de alto nível no leito oceânico. Sistemas de sulfeto gigantescos no fundo do mar como o Solwara-1 existem em todo o mundo junto de fontes hidrotermais extremamente ricas em metais como cobre, ouro, prata e zinco."

Johnston dá a entender que existe uma corrida do ouro em águas profundas. E ele está longe de ser o primeiro. Na verdade, a febre original começou há quase 50 anos. A jornada para minerar o leito oceânico começou em 1965, quando John L. Mero, consultor de estaleiros que trabalhava para o Instituto de Recursos Marinhos da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, publicou o livro Mineral Resources of the Sea. No estudo, Mero escreveu que "o mar é um gigantesco armazém para minerais que servem de base para uma sociedade industrial" e afirmou que riquezas como níquel, cobalto e cobre estão no fundo do mar em nódulos de manganês – depósitos ricos em mentais – esperando para serem extraídos. Seria um estoque quase ilimitado.

Mero propôs lançar ao mar uma "draga hidráulica profunda" a 3000 metros de profundidade. Em essência, funcionaria como "um aspirador gigante criado para sugar uma camada superficial do material".

Uma draga hidráulica para uso nas profundezas do mar. Crédito: Mineral Resources of the Sea.

Depois da publicação de Mineral Resources, países como Estados Unidos, França e Alemanha decidiram explorar as profundezas em busca dos bolsões de riquezas oceânicas. No decorrer das décadas seguintes, as mesmas nações afundaram centenas de milhões de dólares em mineração de águas profundas e tiveram poucos resultados. Um estudo de 2000 publicado no Sciencerevelou que um total de 650 milhões de dólares haviam sido investidos na empreitada, muito antes dos preços dos metais caírem durante a recessão causada pela crise do petróleo de 1973 e antes de cientistas terem percebido que as projeções de Mero eram exageradamente otimistas. Por décadas, a mineração de águas profundas foi deixada de lado. E o sonho de colher riquezas do fundo do oceano ficou adormecido.

De uns anos para cá, porém, duas tendências ajudaram a reacender o interesse pelo conceito: a primeira é a crescente demanda global por metais recuperáveis, especialmente cobre. O material é essencial para a vida moderna; ele é maleável, um excelente condutor e pode ser encontrado em diversos bens de consumo eletrônicos, cabos, carros, refrigeradores e mais. Seu valor está nas alturas ao passo em que grandes economias como China e Índia se industrializam.

A outra tendência é que as novas tecnologias – como robôs-mineradores operados remotamente – colocaram a mineração em águas profundas mais próximas da realidade. "Assim que pude começar a investigar a tecnologia em 2014, ficou claro que ocorreram mudanças tão grandes que o que parecia impossível nos anos 70, seria bastante simples agora do ponto de vista da engenharia", disse Johnston.

Por fim, uma melhor compreensão da geologia em águas profundas fez com que uma nova leva de garimpeiros mudasse seu foco dos nódulos de manganês de outrora para outro alvo: depósitos de sulfeto que se formam próximos de fontes hidrotermais.

A Nautilus é uma entre tantas outras companhias que esperam tirar vantagem da mineração marinha dos depósitos de sulfeto – Japão e Coreia também exploram as possibilidades e desenvolvem tecnologias para garimparem em suas próprias águas. Outra empresa privada, Neptune, fez alguns arrendamentos importantes com a mesma finalidade no Pacífico Ocidental.

Depósitos de sulfeto enormes no leito oceânico. Crédito:University of Washington

E é claro que, com a possibilidade cada vez mais sólida dessa nova mineração, surgiram muitas ponderações. Em 2007, a Science publicou um artigo intitulado "Danger of Deep Sea Mining" [Os Perigos da Mineração Em Águas Profundas] que expressava a séria preocupação de que os enormes turbilhões de sedimentos causados pelo processo poderiam afetar habitáts e teriam efeito tóxico nas águas. O texto concluía que "planos de mineração em águas profundas podem vir a ser ameaça séria para os ecossistemas marinhos". Eles também ressaltaram que as fontes hidrotermais são alguns dos ecossistemas mais intrigantes e desconhecidos da Terra.

Essas fontes hidrotermais são encontradas no leito oceânico próximo de vulcões ativos, como aquele que forma o atol em torno de Solwara-1, onde fica Rabaul. Alguns cientistas postularam que a vida possa ter se originado próximo de sua saída, de onde são expelidos jatos de água salgada aquecida e rica em minerais nas gélidas águas das profundezas. Mas eis o porquê do interesse dos mineradores: essas fontes criam, ainda que de forma vagarosa, aquilo que os geólogos chamam de enormes sulfetos do leito oceânico.

"Os depósitos se formam no leito oceânico ou próximo deste em áreas em que fluídos hidrotermais circulam por meio do calor magmático e se misturam com as águas do fundo do mar ou águas intersticiais em rochas próximas do leito do mar", explica, em nota, o Departamento de Pesquisa Geológica dos EUA (USGS). Os depósitos ocorrem em corpos amplos e planos semelhantes a lentes em paralelo ao leito vulcânico. "Esses depósitos de sulfeto variam amplamente em formato e tamanho, podendo ter formato semelhante ao de casulos ou lâminas", declarou o USGS.

Tais depósitos são ricos em minerais valiosos como cobre e ouro e, por acaso, são mais fáceis de serem encontrados que os nódulos de Mero. A Nautilus planeja garimpar os pontos em que eses materiais se acumulam – evitando as fontes termais – para trazê-los em massa à superfície e, claro, aí lucrar com sua venda.

"Os sulfetos do leito oceânico são ricos em cobre e têm concentração maior de cobre do que o que resta em terra firme nas reservas já conhecidas, então são atraentes nesse sentido", afirmou Cindy Van Dover, cientista especializada no fundo do mar da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, e ex-assessora científica da Nautilus – não se tratava de uma consultoria remunerada.

Van Dover foi convidada há pouco para ir até Papua-Nova Guiné pelo TED, a organização sem fins lucrativos que defende "ideias que valem ser divulgada", responsável pela organização de uma expedição marítima para tratar de assuntos ligados ao oceano. A cientista foi chamada para dar uma palestra sobre mineração de águas profundas a bordo do cruzeiro Orion da National Geographic, enquanto a embarcação passava pelas águas tropicais prestes a serem exploradas pela Nautilus.

Com fama de cientistas perfeita, Van Dover é metódica e cautelosa no raciocínio sobre o tema. De fala suave e sorriso fácil, ela tem cabelos curtos e grisalhos e, ao longo de nossas conversas ali no barco, transmitiu uma calma ambivalência sobre a questão da mineração. O comportamento seguro dela faz sentido. Ela dedicou todas as três décadas de sua carreira ao estudo dos ecossistemas marinhos que a atividade ameaça alterar.

Fontes hidrotermais. Crédito: NOAA

"Comecei a estudar estas fontes hidrotermais em 1982", disse, enquanto o suave balançar do barco embrulhava meu estômago. "Elas foram descobertas em 1979. Então que ouvimos que alguém as destruiria" comentou, balançando a cabeça. Claro que estava preocupada. "Existem animais morando nessas fontes", disse. "Estamos interessados em ver qual será o impacto nestas comunidades."

A vida em torno das fontes hidrotermais muitas vezes é surpreendentemente vibrante; pode incluir vermes tubulares, lesmas marinhas, camarões cegos e peixes de águas profundas.

Da janela de nossa cabine no Orion, víamos pilares de fumaça subindo à distância. Era o produto das queimadas, prática comum na agricultura local – um lembrete constante de que Papua-Nova Guiné é pobre e que os royalties da mineração são muito bem-vindos.

Van Dover comenta que o lance com a Nautilus não é garimpar discretamente uma mina longe de tudo e todos. Pelo contrário, afirma. A empresa pediu seu auxílio e, desde então, tem sido bastante transparente e proativa.

"Eles fazem perguntas bem diretas: Com o que você está preocupada?" disse. "Se usarmos este local [no caso, destruir Solwara-1] a vida não voltará?" E é exatamente com isso que Van Dover se preocupa: os ecossistemas prestes a serem destruídos.

"Os locais são tomados por erupções vulcânicas intervaladas", explica. "Lembro da Elevação do Pacífico Leste [outra bacia hidrográfica] em que as erupções ocorrem no intervalo de mais ou menos uma década, onde os animais se adaptaram de fato e em meses ressurgiam. Em dois anos não dá nem pra dizer que houve uma erupção ali."

Ao contrário da Elevação do Pacífico Leste, Solwara-1 é um local de vida mais longa, ou seja, as erupções não são constantes e nem destroem os habitats com tanta frequência. As criaturas de lá correm o risco de serem aniquiladas pelo Nautilus também. No caso de lwara-1, alguns cientistas estão preocupados que os animais não tenham tempo para se recuperar. Outros cientistas comentam que esse complexo ecossistema ainda não é inteiramente compreendido – não temos muita ideia do que esperar caso sejam garimpados.

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A Nautilus, por enquanto, afirma que procederia de forma responsável e enfatiza os argumentos econômicos em prol da mineração.

"Solwara-1, por exemplo, tem 7% de cobre e 6 gramas de ouro por tonelada na média – mais que 10 vezes a média em terra firme. Há mais cobre no leito oceânico do que nas reservas terrestres conhecidas", afirmou o CEO da Nautiluis, Johnston. (Em terra firme, a média do minério de cobre fica abaixo de 0.6%, já o ouro cai para 1.2 gramas a cada tonelada, de acordo com dados de 2014.) "Um dos principais determinantes da rentabilidade de uma mina é o grau dos recursos e, quando tem graus no leito oceânico dez vezes maiores do que em terra, eis uma enorme vantagem para a mineração no fundo do mar."

Além disso, o fato de que o local-alvo da mineração fica a 1500 metros abaixo do nível do mar, há partes desse processo que são mais simples que o da mineração em terra.

Vamos nos meter com jargão minerador um pouquinho.

"Os sulfetos no leito oceânico que a Nautilus está mirando estão assentados diretamente no leito, sem nenhum capeamento de terra ou sedimentos – o capeamento é a água", disse van Dover. Capeamento é a cama de rocha ou terra sobre um depósito mineral e "assentados" significa "bem em cima". Ou seja, não existe camada de terra a ser removida antes de começar a coleta do material valioso; eles estão ali só esperando serem minerados.

Claro, a tal superfície é o leito oceânico, a milhares de metros abaixo do nível do mar, o que significa que a Nautilus precisará de um elaboradíssimo sistema de alta tecnologia para extrair de forma eficaz tais riquezas. E aqui que a coisa fica digna de ficção científica.

"A mineração em si envolve utilizar uma embarcação na superfície de onde veículos operados remotamente são levados ao leito oceânico, o material é então triturado, os minérios levados à superfície, secos, e o fluído resultante, a água do mar, é devolvida para o leito", disse Van Dover. "Quando o navio acabar de garimpar em uma região, irá para a próxima", afirma. "Não existem estradas, nenhuma infraestrutura. Logo, há muitos bons argumentos de porque o impacto ambiental seria menor que o em terra".

Como funciona a mineração em águas profundas. Versão estendida aqui.

De acordo com seus projetos divulgados, o plano da Nautilus envolve três veículos robóticos operados remotamente que trabalham em conjunto para preparar, minerar e coletar os materiais das profundezas. Cada um tem cerca de 15 metros de comprimento, de 4,5 a 6 metros de largura, e pesam até 310 toneladas. Desenvolvidos pela fabricante de veículos de controle remoto britânica SMD em parceria com a fabricante de máquinas pesadas norte-americana Caterpillar, juntos, os três robôs valem 100 milhões de dólares. Cada um deles será lançado a partir de um navio gigantesco, a Embarcação de Apoio à Produção, que flutuará acima do local de operação, semelhante a uma plataforma petroleira.

Primeiramente, um robô conhecido como Cortador em Massa será enviado para preparar o terreno. Será lançado em Solwara-1 a 1500 metros da superfície. A seguir, usará seu cortador para cavar "bancadas" no leito oceânico para que os próximos robôs possam trabalhar. Depois vem o Cortador Auxiliar, com maior capacidade de corte. A rocha então será removida do leito oceânico pelos cortes sucessivos de ambas as máquinas, explica a Nautilus em seu site, referindo-se aos veículos como "não muito diferentes daqueles utilizados em terra".

Após a extração do material, a Máquina de Coleta entra em campo. Ela "coletará o material minerado ao dragá-lo junto da água do mar com bombas internas; assim o levará por meio de um cano flexível até o sistema de elevação" que, por sua vez, levará a mistura à superfície. Já no barco, a mistura é secada, e os sólidos desejáveis são armazenados no casco, onde aguardam transporte de outra embarcação.

Cada um desses robôs pode ser operado remotamente a partir da superfície. Eles são fabricados de forma a aguentarem a forte pressão das profundezas.

Crédito: Nautilus

É um empreendimento complexo, que envolve tecnologia de ponta e grandes riscos. O processo todo se dá em um ambiente de condições extremas e, caso os robôs quebrem por algum motivo, os reparos saem caro, já que o envio de um submersível para tal profundidade seria um desafio. E um acidente numa situação tão delicada como essa poderia poluir o ambiente e atrair muita atenção indesejada.

Logo, a Nautilus deixou muita gente irritada.

Crédito: Papua New Guinea Mine Watch

Protestos locais contra a mina tem pipocado em Rabaul, liderados por nativos preocupados com tais riscos, me disse Van Dover. As preocupações vão do barulho e luzes gerados pela operação, bem como danos ao meio ambiente. Enquanto passamos pelas ruas cobertas de cinzas da cidade em um ônibus, Van Dover pergunta a uma guia turística da região se ela viu os protestos.

"Ah sim", a mulher murmura e olha janela afora. Pouco depois, ela me disse que muitos dos nativos "estão insatisfeitos", mas não quis comentar mais; parecia preocupada em não passar uma impressão ruim de Rabaul. O turismo aqui caiu após a última erupção e parece que estrangeiros eram coisa incomum na ilha. Onde quer que fôssemos as pessoas sorriam, acenavam, até mesmo nos chamavam ao nos ver.

Por mais que a Nautilus ainda não tenha chamado atenção em escala internacional de outros projetos pioneiros de extração, causa muita discórdia. Ambientalistas por todo o mundo começam a se organizar em torno do tema. Protestos contra Solwara-1 já foram ampliados por um nascente movimento global que tem como objetivo impedir a mineração em águas profundas logo de cara.

Um dos opositores do projeto é Richard Steiner, biólogo de preservação marinha que lecionou na Universidade do Alasca, nos Estados Unidos. Ele estuda desastres marinhos desde o vazamento da Exxon Valdez. Conheço-o há anos: foi um dos primeiros especialistas a chegar no local do derramamento de petróleo da BP em 2010, onde ajudou a monitorar e analisar as consequências do desastre.

Hoje ele lidera uma organização sem fins lucrativos chamada Oasis Earth e dispõe seu conhecimento a diversos esforços de preservação. A Campanha de Mineração em Águas Profundas foi organizada para frear a mineração no fundo do mar e, em especial, seu projeto de maior destaque.

"A ideia de destruir as comunidades biológicas no sistema de fontes hidrotermais de Solwara-1 vai contra tudo que a preservação marinha defende", declara Steiner via e-mail. "A mineração destruirá uma comunidade no fundo do mar que ainda não é compreendida cientificamente, causando a extinção de espécies que não foram nem mesmo identificadas."

"Isso por si só é uma linha ética que não podemos tolerar", comenta. "Causará problemas sérios e de longo prazo à região, por conta de minerais dos quais não precisamos (especialmente o ouro). Este projeto é um exemplo de péssima ideia."

O impacto total do projeto no ambiente do fundo do mar é complicado de prever. A Nautilus contratou uma entidade ambiental norte-americana sem fins lucrativos chamada Earth Economics para fazer uma avaliação em Solwara, com resultados relativamente favoráveis. Mas Steiner e demais críticos se referiram ao relatório subsequente como equivocado, acusando-o de não levar em conta a miríade de serviços do ecossistema e vulnerabilidades da vida marinha.

A Nautilus, claro, insiste que seus planos não são apenas seguros; são, dizem, mais seguros que a alternativa. Minas em terra firme são grandes poluidoras; a lixiviação e seus resíduos podem contaminar bacias hidrográficas e o solo, criar sumidouros e encorajar a atividade madeireira e imobiliária. Com a mineração de águas profundas, isso deixaria de ser um problema.

Cortador auxiliar. Crédito: Nautilus

"Não existe sociedade – não existe civilização, nenhum ser humano morando no leito oceânico, claro", afirma Van Dover. "Então isso simplifica um pouco em termos de impactos sociais, ao contrário do que ocorre em terra firme, onde pessoas estão envolvidas."

Os ambientalistas argumentam que existem outras maneiras de se obter cobre sem rumar para as profundezas. "A mineração de águas profundas raramente comenta os recursos abundantes ainda em terra, ou a necessidade de aumentar drasticamente a eficácia do uso de metal na economia global, do design de ponta a ponta e mineração em aterros", comenta Steiner. "Temos que acabar com a 'economia do desperdício' – extrair matéria-prima, usá-la uma ou duas vezes e descartá-la, assim gerando mais demanda por mineração."

A grande questão, é claro, não são só os perigos em Solwara-1. É se O projeto serviria de pontapé inicial para uma indústria mais ampla, em lugares não tão bem avaliados. "Coréia e Japão estão na ativa, há uma empresa chamada Neptune também se movimentando agora", afirma Van Dover.

De fato, nos últimos anos, a Coreia testou com sucesso um robô para mineração em águas profundas, e o Japão aprovou direitos de cessão em suas águas para exploração do leito oceânico. A Lockheed Martin está entrando na jogada, e a Neptune objetiva garimpar na Nova Zelândia. Todas seguem distantes, e dificilmente começarão antes de 2018. Os olhares estarão voltados para a Nautilus, que lidera a matilha.

A construção da sua enorme a Embarcação de Apoio à Produção, que servirá como centro de comando na superfície, começou de acordo com o planejado. Em outubro de 2015, o CEO da Nautilus celebrou o marco em uma declaração: "Nosso objetivo segue como o desenvolvimento do primeiro projeto de cobre-ouro de alto nível no leito oceânico e o lançamento da produção de recursos em águas profundas", disse. "Com o mundo todo aguardando o nascer deste novo setor, estamos ansiosos para entregar a embarcação em dezembro de 2017 o que nos permitirá dar início às operações no mar no primeiro semestre de 2018". Ele me disse o mesmo.

"As ferramentas de produção para o fundo do mar e o sistema de elevação, incluindo a bomba de elevação, estão prontas ou próximas disso", declarou Johnston. "O cortador auxiliar, o cortador em massa e a máquina de coleta estão todos prontos e estão em testes, com testes em água a serem conduzidos no primeiro semestre de 2016."

"Penso que precisamos compreender o que pode ser perdido", diz Van Dover. "Os impactos cumulativos são a parte complicada. Solwara-1, ok, vá em frente e comece a minerar lá e vejamos o que acontece. Mas e a próxima? Qual o ponto crítico? Quantos destes locais pode-se destruir? E em que ritmo, antes que não retornem ao normal? Creio que S-1 voltaria ao normal se ficasse intocada. Se mexer em algo mais daquela bacia, quanto seria demais? Não sei."

Van Dover dá uma espiada pela janela de nossa cabine. "Pode ser algo sustentável do ponto de vista ambiental? Sim. Será? Não estou tão otimista."

Tradução: Thiago "Índio" Silva