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Balão é compromisso: por dentro da cena de baloeiros da Zona Sul de São Paulo

O fotojornalista Apu Gomes acompanhou durante três meses um grupo de baloeiros de SP em sua rotina de fabricação, soltura e resgate dos balões.

por Larissa Zaidan; fotos por Apu Gomes
07 Março 2016, 2:54pm

Todas as fotos por Apu Gomes

São 6 horas da manhã de um sábado quando o fotojornalista Apu Gomes chega no extremo da Zona Sul da cidade de São Paulo pra acompanhar uma galera que vai soltar balões. É estranho associar um horário desses a qualquer prática que envolva curtição, mas pra esses caras não. Acordar cedo é parte integrante da pira de ser baloeiro. Quando o Apu chega ao local de encontro, todos já estão no pique, tanto que o fotógrafo acabou perdendo a revoada dos primeiros, que foram lançados ao céu antes mesmo da alvorada. Às 10 da matina, todo mundo já soltou os balões, resgatou, trocou ideia e está pronto pra encerrar as atividades do dia.

Por três meses, essa foi a rotina do Apu durante seus fins de semana. Ele acompanhou e retratou de perto um grupo de baloeiros durante a fabricação, soltura e resgate de diversos balões. "Eu comecei a fazer essas fotos porque gosto muito da cultura do balão. Um dia, procurei um pessoal que soltava e pedi para acompanha-los pra sacar todo esse processo", conta o fotojornalista. Um dos integrantes da galera, o Carioca, aprendeu a soltar balão desde pivete, quando acompanhava seus pais durante esses rolês. Não é à toa que justamente em sua casa é que são guardados os balões do seu grupo de amigos. "Tem foto dele criança junto com o pai e a mãe soltando balão", conta Apu. Os outros dois parças do Carioca trabalham um como motoboy e o outro com pintura. Nas horas vagas, ele conta, os caras se reúnem para fabricar ou soltar algum balão.

E foi o que aconteceu numa das noites em que o Apu colou com eles. "Estávamos todos juntos trocando ideia quando um dos caras falou 'Vamos soltar um balão agora'. E foram lá, em 15 minutos fizeram uns pequenos, abriram o teto do barraco e soltaram por dentro da casa mesmo." Não contentes, eles ainda foram pra rua e soltaram mais um, lembra Apu. "Eles soltaram esses à noite pra ver como estava o vento, pois no outro dia de manhã ia ter uma revoada."

No caso desses balões menores, o pessoal não costuma pirar muito na questão do resgate, mesmo porque são poucos os minutos em que o objeto permanece voando, ele logo apaga e cai em algum lugar próximo. Já os maiores, que podem atingir muitas dezenas de metros de altura, a cultura de acompanhar o trajeto até alcançar o pico onde o balão vai cair é coisa séria e pura adrenalina. E não importa o meio de transporte, o triunfo é sempre de quem chega primeiro. "Teve um dia que um balão saiu e a galera me contou como foi o resgate. Alguns foram de bike, mas tinha uma galera que tava de carro e outros de moto. Os que foram de bicicleta saíram lá da Zona Sul de SP, foram até São Bernardo do Campo pedalando e conseguiram pegar o balão antes de todo mundo chegar. Os caras vão na febre mesmo", se diverte. E o mais curioso, diz ele, é que cada um tem sua pira particular nesse universo. "No dia em que eles resgataram, nem foram eles que soltaram, eles foram pro point que os caras tavam soltando balão só pra fazer esse corre. Tem outros que a pira é ver o balão subir mesmo, soltar, ganhar o céu e voar."

Apesar do amor e capricho que os caras têm pela cultura do balão, essa ainda é uma prática criminalizada e marginalizada. Pela lei, de fato, a atividade é um crime ambiental, com pena de detenção de um a três anos ou multa – em alguns casos, cabendo as duas penalidades ao mesmo tempo.

Um dos caras presentes em vários dos rolês que o Apu colou, o Júlio*, contou à VICE que solta balão desde moleque, quando tinha 10 anos de idade. Sobre a prática ser crime, ele é enfático: "Eu vejo muito como uma arte proibida. Existem crimes muito piores, mas como não temos porte e nem poder, a repressão é maior". Ele revela também que, atualmente, com as penas mais duras para quem é pego praticando a atividade, muitas turmas optam por alugar uma chácara mais afastada da cidade e em ser mais rigorosas quanto ao acesso a celulares e a meios de comunicação durante o período de soltura dos balões. "Tem que ficar off, desligar todos os aparelhos quando chega lá. E é área de mata, então dá pra ficar despreocupado", afirma. Júlio afirma também que muitos dos acidentes são consequentes da inexperiência de alguns baloeiros na hora de escolher a carga da tocha. "Tem como controlar isso, existe uma tabela para você colocar em cada balão específico." Segundo ele, isso está ligado também com o tempo de prática dos caras. "Eu conheço muito 'cabelo branco' com técnica que quebra todos os novinhos. Tiozão mil grau mesmo", se diverte.

Mesmo assim, os acidentes rolam. O Apu conta que num dos encontros de baloeiros, houve um lance que quase terminou em tragédia. "Um dos balões que os caras soltaram tinha pelo menos uns quatro metros e carregava uma bandeira gigante. Era um dia com muita neblina e, ao invés do balão subir, ele acabou preso numa árvore. Nisso, o vento bateu e a tocha caiu, envolvendo o balão em chamas." A sorte é que, logo em seguida, os caras conseguiram apagar o fogo, sem que ele se alastrasse pelo mato.

Saque mais fotos do Apu destes meses de imersão total no universo de cores vibrantes e hipnotizante que é o dos balões:

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*os nomes foram trocados para manter o anonimato.