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Como a Praça Taksim em Istambul se Transformou em Zona de Guerra

A truculência gratuita do governo turco contra manifestantes pacíficos.

por Zeynep Lokmanoglu e Esra Gurmen, Fotos: Nazim Serhat
30 Maio 2013, 7:51pm

Dezenas ficaram feridos depois de uma semana de enfrentamentos entre a polícia turca e manifestantes contrários ao governo em Istambul. As autoridades teriam reagido com força desproporcional, usando canhões de água e gás lacrimogêneo para dispersar uma multidão pacífica num parque do centro da cidade. Imagens de manifestantes feridos foram postadas em diversas redes sociais, vários ativistas tiveram suas barracas queimadas pela polícia e informações de um jornal turco sugerem que pessoas morreram durante os tumultos.

Milhares de turcos ocuparam o Parque Gezi e áreas adjacentes durante toda a semana. Na noite do dia 27, tratores e escavadeiras entraram na pequena ilha de árvores e grama no centro da Praça Taksim em Istambul e começaram a derrubar tudo. Isso era parte de um projeto do governo para transformar a praça histórica numa “zona exclusiva para pedestres” – o que significava, segundo muitos blogs, transformar um dos últimos espaços verdes da cidade num shopping center. Parece que o governo se esqueceu de perguntar o que a comunidade local achava dos planos, concebidos pelo Partido da Justiça e Desenvolvimento (o AKP). Planos estes que também incluíam a reconstrução de um quartel demolido nos anos 1940 e a adição de calçadas para tornar a praça mais propícia para pedestres.

Quatro dias mais tarde, depois que manifestantes pacíficos ocuparam o parque e sobreviveram a ataques com gás lacrimogêneo e canhões d'água, eles conseguiram uma vitória pelo menos temporária com uma decisão de interrupção das obras dada por um tribunal local. Na verdade, o prefeito de Istambul, Kadir Topbas, acabou de anunciar que nunca houve nenhum plano para a construção de um shopping. É uma reviravolta incrível que não aconteceu sem violência.

Logo depois que os manifestantes começaram a se reunir no parque na segunda-feira, as notícias se espalharam pelas redes sociais e mais pessoas pró-parque e antigoverno apareceram para se sentar na frente dos tratores. Na quarta, a polícia se envolveu e respondeu ao protesto não violento com táticas agressivas – o que chamou a atenção do mundo foi uma foto mostrando uma jovem ambientalista de vestido vermelho sendo atingida no rosto por um jato de spray de pimenta lançado por um policial mascarado. A imagem rapidamente se tornou um símbolo da “ocupação” do Parque Gezi, bem como da truculência policial.

Os protestos também são indicativos de queixas públicas mais amplas contra o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. Há um sentimento na Turquia de que o governo atual está se tornando mais autoritário nesse terceiro mandato consecutivo – há muita pressão sendo exercida contra a venda de álcool e demonstrações públicas de afeto.

Erdogan não estava interessado em iniciar um diálogo com a ocupação e um discurso na quarta-feira deixou claro que uma decisão sobre o destino do parque já tinha sido tomada. Nesse ponto, muitos mais manifestantes estavam acampando no parque e dormindo em barracas. No amanhecer do dia 30 de maio, quinta-feira, a polícia invadiu o parque, disparando gás lacrimogêneo e queimando barracas. No entanto, os tratores foram parados quando os políticos de oposição Sırrı Sureyya Önder e Gülseren Onanç entraram na frente deles e exigiram ver os documentos de permissão da demolição.

Mesmo com a polícia usando spray de pimenta como se fosse repelente de insetos, a ocupação continuou e até cresceu. Ainda na quinta, fotos dos manifestantes lendo para os policiais se espalharam pela internet e aqueles envolvidos na ocupação reafirmaram mais uma vez seu comprometimento com a não violência.

“[Os manifestantes são] pacíficos, um ajuntamento de ambientalistas sem líderes e sem agenda além de proteger um espaço público”, disse Utku Dorduncu, financista que retornou recentemente para Istambul depois de morar oito anos em Nova York. “Eu não diria que a maioria dos manifestantes é do público geral porque as 10 mil pessoas reunidas ali na noite de quinta eram principalmente universitários, recém-formados e trabalhadores independentes. Não chefes de família, mas aqueles com tempo e oportunidade de protestar pelos direitos dos cidadãos.”

Noite passada, um feed ao vivo de notícias do parque mostrava um clima de festa, com rodas de percussão e apresentação de bandas de rock. No FourSquare, 960 pessoas confirmaram presença no Parque Gezi e a hashtag #DirenGeziParki (Resista Parque Gezi) e a conta Ayaga Kalk Taksim (Levante-se Taksim) estavam por toda parte no Twitter turco. Mehmet Ali Alabora, ator e apresentador de um programa político satírico, coisa rara na TV turca, tuitou: “Não se trata apenas do Parque Gezi, amigo, você não entendeu? Venham todos”, e recebeu milhares de retuítes.

“É um ajuntamento muito diverso”, disse Aysegul Yidirim, um estudante. “Há até um grupo chamado 'Muçulmanos Anticapitalistas' que se descreve como islâmico.”

Enquanto as barracas queimadas eram substituídas, os tópicos de discussão entre os ocupantes incluíam os planos controversos de construção de uma terceira ponte sobre o Estreito de Bósforo, leis restringindo o consumo de álcool aprovadas semana passada e a demolição recente do histórico Teatro Emek. Cartazes no parque diziam coisas como “Ombro a ombro contra o fascismo”, “A Taksim é nossa, o Parque Gezi é nosso”, “O governo deve renunciar” e “O povo não se curvará”, com o desenho do primeiro-ministro Erdogan usando um turbante de sultão.

Quando o ator e comediante Okan Bayulgen compareceu ao parque naquela noite para ler Os Sofrimentos do Jovem Werther de Goethe, o número de manifestantes tinha chegado a 30 mil segundo algumas estimativas. Foi aí que tudo virou um caos.

Elif Cerrahouglu, um universitário de 20 anos, descreveu a cena: “Tudo estava pacífico, as pessoas estavam reunidas num protesto muito calmo. Por volta das cinco da manhã, notei pessoas se levantando e tentando fugir, foi então que vi a polícia e tudo virou um grande tumulto. Não estávamos no meio, então conseguimos fugir, mas milhares de pessoas foram feridas com pedras e apanharam. Uma garota que estava do meu lado gritou 'Por que vocês estão fazendo isso?' e eles bateram nela na minha frente.”

Yigit Guneli, um programador de 26 anos, disse que os manifestantes que conseguiram ficar no parque até as 7 da manhã foram molhados por canhões d'água. “Mas não acho que era água”, ele acrescentou. “Os que foram atingidos sentiram a pele arder.” Na manhã de sexta-feira, no entanto, Yigit estava confiante: “Vamos resistir com uma multidão ainda maior hoje à noite. Se a polícia não tivesse agido dessa maneira, acho que a multidão reunida aqui seria menor.”

Pelo menos cinco pessoas foram parar na UTI com ferimentos sérios na cabeça depois do ataque da polícia, e os manifestantes contaram que espectadores que estavam apenas tentando chegar ao trabalho também foram vítimas do spray de pimenta e do gás lacrimogêneo. Grupos de policiais podiam ser vistos em cada esquina, mas os ocupantes foram chamados pelo Twitter para se reagrupar. A polícia trouxe grandes portões para bloquear as entradas do parque, mas o protesto já tinha se espalhado pelas ruas vizinhas. “O que mais poderíamos fazer além de não deixar a praça desocupada e continuar a resistir?” disse o manifestante Utku Dorduncu na manhã de sexta-feira.

No meio do quarto dia de protestos, uma multidão se reunia na Praça Taksim apesar de mais três tentativas violentas da polícia de dispersar os manifestantes. De acordo com os ocupantes, os policiais atacaram todos que passavam pela área com spray de pimenta, incluindo pedestres que tentavam chegar ao metrô. “Eles atacaram mulheres, crianças, velhos, todo mundo”, disse Utku. “E reagimos a isso permanecendo pacíficos, compartilhando máscaras de gás e água. Isso não é nem força desmedida, é simples brutalidade.”

Relatórios oficiais do governo sugerem que um total de 12 manifestantes se feriram até o momento. A Câmara de Medicina de Istambul declarou mais cedo que seis pessoas sofreram traumas graves na cabeça e que um professor teve a perna quebrada. Testemunhas com quem falamos, no entanto, afirmam que o número de feridos é drasticamente mais alto. A Anistia Internacional condenou “o uso excessivo da força, incluindo spray de pimenta, contra manifestantes pacíficos num parque no centro de Istambul”.

Na sexta, mais protestos foram planejados nas proximidades da praça – apesar da incerteza de onde e como as pessoas iriam se reunir por causa das agressões policiais –, assim como uma manifestação na capital, Ancara, para apoiar o crescente movimento de ocupação de Gezi. Mas parece que as autoridades já tinham visto conflito suficiente, apesar da dura retórica de Erdogan mais cedo naquela semana. Na sexta, um tribunal decidiu que os planos de construção precisavam ser interrompidos até que fossem revisados, e o prefeito Topbas afirmou que o parque nunca seria demolido. Ainda não está claro por que ele não disse isso quatro dias atrás, antes da violência.

Os detalhes ainda são escassos, mas traremos mais informações – incluindo relatos de testemunhas, fotografias e vídeos – assim que eles chegarem até nós. Enquanto isso, você pode monitorar os conflitos pelo Twitter com a hashtag #occupygezi, usada pelos manifestantes para se organizar e informar sobre os acontecimentos em Istambul.

Este artigo foi atualizado na sexta-feira, 31 de maio, às 18:37h, para ficar mais completo.

Veja mais fotografias de Nazim aqui.