“Ghetto Brother” é uma graphic novel sobre o novo começo do mundo

O fotógrafo alemão Julian Voloj e a ilustradora Claudia Ahlering usam a HQ para contar a história do fim da era das gangues de Nova York e início da cultura hip hop.

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01 abril 2016, 2:15pm

Em 1979, o filme (que hoje é cult) chamado The Warriors - Os Selvagens da Noite chocou o mundo retratando Nova York como uma selva infestada por gangues. Alguns anos antes, a história real era muito pior: um banho de sangue lavava as ruas do Bronx numa guerra anárquica por território e disputa de poder entre nomes como The Turbans, Seven Immortals e Black Spades. As ruínas urbanas se transformaram em um perigoso playground. E é nesse contexto que Benjamin "Yellow Benjy" Melendez, fundador da Ghetto Brothers, orquestra um encontro entre líderes das gangues, resultando no maior tratado de paz da história do Bronx e no surgimento de um movimento global de hip hop.

Ghetto Brother - Uma lenda do Bronx, a nova graphic novel da editora Veneta, que está sendo lançada neste 1º de abril, narra a vida de Benjy Melendez — desde sua mudança para o Bronx quando criança, até os dias de hoje — e o renascimento da Nova York do final do século 20.


A obra do escritor e fotógrafo alemão Julian Voloj é contada em primeira pessoa sob a perspectiva de Melendez e é permeada por elementos biográficos e pela contextualização do momento socioeconômico da época. Já no prefácio, o jornalista e crítico musical especializado em rap Jeff Chang explica os elos entre a pacificação promovida por Melendez e o surgimento do hip hop em Nova York.

A construção do personagem principal e o desenrolar de sua trajetória são extremamente detalhados e dichavam outros âmbitos da vida de Benjy para além de sua atuação na gangue, como a relação com sua primeira esposa, com seus pais, com a religião e com o ativismo. Os diálogos de Ghetto Brother são poucos e sempre muito curtos, dando maior importância à narrativa na voz de Benjy. Apesar disso, a linguagem é quase sempre muito formal e sisuda. As fotos que Joe Conzo, o primeiro fotógrafo de hip hop, tirou do Bronx nos anos 1970 retratando a decadência urbana do bairro, foram usadas como referência pela artista Claudia Ahlering para compor as ilustrações do livro. A história das gangues e de Melendez é retratada em preto e branco e ganha traços grossos e esfumaçados, dando um ar de sobriedade ao enredo. Talvez um reflexo de como o próprio protagonista enxerga o mundo ao seu redor.

Assim como também mostra o recente (e muito foda) documentário Rubble Kings, o bairro do Bronx estava arruinado nos anos 1960. Metade da população branca abandonara a área para novos subúrbios. O distrito do South Bronx rapidamente virou símbolo de decadência urbana: mais crimes, mais pobreza, mais desemprego, recorde mundial de incêndios criminosos, número de homicídios quadruplicado entre 1960 e 1970.

Um novo pessimismo e desespero assolava as ruas. Diante da violência e desamparo, a melhor forma pros jovens encontrarem solidariedade, segurança e emoção era se juntando a uma gangue. "Você sempre saía de casa pensando que aquele podia ser o último dia da sua vida. E aqueles também foram os melhores dias da minha vida", diz Benjy em uma das passagens da graphic novel.

Troquei um ideia com Julian Voloj sobre sua nova obra Ghetto Brother - Uma lenda do Bronx. Saca só:

No seu livro, percebi que você conta muitos detalhes da vida de Benjy, coisas que eu ainda não visto em nenhum outro lugar. Como você o conheceu?
Em 2010 eu estava trabalhando numa série fotográfica baseada na diversidade judaica e um amigo de um amigo me contou a história do Benjy. Eu fiquei intrigado e, por meio da Deborah Meyers, consegui o telefone dele. Nós nos encontramos no South Bronx e ele me contou mais sobre sua história de vida e, como eu não consegui fazer a melhor foto, me encontrei novamente com ele para outra sessão. Quanto mais eu aprendia sobre sua vida, mais eu sacava como a foto deveria ficar e, finalmente, tirei o retrato que queria.

A foto foi exibida em algumas exposições, incluindo uma retrospectiva dos 10 anos do consulado alemão aqui em Nova York. Benjy e eu ficamos amigos no decorrer desses encontros que tivemos e eu queria ajudá-lo a contar sua história para o mundo. Nesse mesmo período, eu me reencontrei com uma amiga das antigas, a Claudia [Ahlering], e a ideia de uma graphic novel foi concebida. O Benjy amou quando eu fiz a proposta a ele.



O tal retrato do Benjy Melendez mencionado pelo Julian.

Você se encontrou com mais alguém da gangue?
Quando a ideia de fazer uma graphic novel amadureceu, era alguns meses antes do 40º aniversário da trégua das gangues. Eu perguntei pro Benjy o que ele achava da ideia de organizar uma reunião e ele adorou. Então organizei com a ajuda dele. Nós tínhamos cerca de 60 ex-ativistas que se reuniram no South Bronx, falando sobre a trégua. Essa foi a virada para que eu escrevesse o livro, pois depois disso as histórias foram chegando até mim. Todo mundo tinha uma ou duas histórias que queria compartilhar. De certa forma, foi um evento familiar. Eu levei meus próprios filhos comigo — meu filho Leon tinha quatro anos, Simon não tinha nem dois anos naquela época — e muitos dos ex-líderes das gangues levaram seus filhos com eles na reunião, também como uma forma de mostrar que, no final, deu tudo certo pra eles.

O que fez você se interessar por essa história?
Eu tenho muito interesse pela história de Nova Yrok. É minha casa por opção e é uma cidade maravilhosa que pensa muito no futuro, mas muitas vezes se esquece do passado. Ao mesmo tempo, eu tenho interesse em questões de diversidade e histórias judaicas — e eu sou, lógico, fã de hip hop — e a história mais estranha que ficção do Benjy é uma combinação de tudo isso. Eu tinha que contar essa história!

Você é fotógrafo, né? Fiquei curiosa pra saber porque escolheu fazer uma HQ desta história.
Eu acho que a graphic novel é um meio muito apropriado, uma vez que permite recriar o passado sem um grande orçamento — mesmo que o meu sonho seja fazer um filme desta história. Após a reunião, eu entrei em contato com o fotógrafo da cultura hip hop Joe Conzo e outros caras que me deram suas fotografias antigas, que a Claudia transformou em desenhos. Ela foi capaz de recriar o sentimento autêntico do Bronx que eu não consigo imaginar que nenhuma outra forma pudesse.

Pensando, por exemplo, no filme "The Warriors" e todas as cores vibrantes que ele tem, porque escolheu fazer o livro em preto e branco?
O livro tem o ar de um filme francês noir, é mais artsy que um HQ americano de super-heróis e eu acho que a Claudia usou o conceito visual apropriado. Como fotógrafo, eu prefiro imagens em preto-e-branco e, neste projeto, tem o mesmo sentimento que você encontra em muitos dos meus projetos artísticos.

Ghetto Brother - Uma lenda do Bronx
Autores: Julian Voloj e Claudia Ahlering
Tradução: Alexandre Matias e Mariana Moreira Matias
Gênero: História em quadrinhos
128 páginas – P/B
Preço: R$ 44,90

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