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Moda

O Novo Documentário 'Fresh Dressed' Conta a Evolução da Moda de Rua

Um filme que quer celebrar os primórdios do estilo da cultura hip-hop e condenar a capitalização feita pelas marcas hoje em dia.

por Kaleem Aftab
03 Julho 2015, 4:30pm

Estilo de rua clássico, Brooklyn, por volta de 1986. Foto por Jamel Shabazz. Cortesia da Cable News Network. Uma empresa Time Warner. Todos os direitos reservados.

O novo documentário Fresh Dressed acaba refém de dois desejos conflitantes: querer celebrar os primórdios do estilo de rua da cultura do hip-hop e condenar a capitalização disso pelas marcas feita hoje em dia, o que permite a instituições de moda tradicionais reinarem supremas. Mas isso não é uma fraqueza do filme de estreia do diretor Sacha Jenkins. Pode-se dizer que é para aí mesmo que é preciso olhar, considerando a trajetória do estilo de rua de suas origens humildes até o momento mercantilizado atual.

O documentário começa como um conto sobre jovens negros da classe trabalhadora do Bronx encontrando uma voz através do rap. A música se traduziu num estilo que Run, do Run DMC, descreve como celebridades querendo se vestir de uma maneira que seu público pudesse bancar, continuando pelos anos 80 e 90 até as marcas fundadas e administradas por negros, como Cross Colors, Karl Kani, RocaWear (a marca de Jay-Z), Sean Jonh (a marca de Puff Daddy) e FUBU.


Assista a um trecho exclusivo de Fresh Dressed com Nas:


O filme mistura entrevistas com parte da realeza do hip-hop ( Nas, Kanye West, Sean Combs e Pharrell Williams) e filmagens de arquivo mostrando os prédios queimados do Bronx dos anos 70, lojas icônicas como a Dapper Dan's e imagens de 2Pac e Um Maluco no Pedaço. Tentando ir do blacksploitation do Harlem dos anos 70 até o A$AP Rocky usando os melhores tecidos das casas de moda da Europa em 83 minutos, não sobra muito tempo para Jenkins explorar alguns dos comentários sociais mais interessantes dessa obra. Em vez disso, temos trechos satisfatórios e menos complicados com a moda mais fresh e vislumbres do estilo de rua do passado.

As primeiras palavras de nostalgia vêm de Kanye West: segundo ele, "ter estilo era mais importante que ter dinheiro. Quando eu era moleque, eu queria dinheiro para poder ter estilo". Quanto ao que continua sendo estiloso, temos alguns exemplos, começando com um tributo à influência de Little Richard (o "Liberace sem as lantejoulas", diz o ex-editor da Vogue André Leon Talley), passando pela mistura inimitável de Melle Mel de jaqueta de motoqueiro, short de ciclismo e bota de cowboy, até o nascimento da cultura dos tênis, apresentando uma entrevista com um cara conhecido como Mayor em sua garagem, que abriga sua coleção de Jordans, Pro-Keds e adidas de quase meio milhão de dólares.


Assista a um trecho exclusivo de Fresh Dressed com Dapper Dan:


Vale dizer que isso tudo estava acontecendo numa época em que Nova York era uma cidade de cinco bairros distintos, antes de Manhattan gentrificar o Brooklyn e expulsar a classe trabalhadora de lá. Logo, temos uma amostra dos estilos de cada bairro, época em que se reconhecia as pessoas do Brooklyn por elas usarem Clarks nos pés, sharkskin, óculos Cazal sem lentes e chapéu Kangol para completar. Enquanto isso, no Harlem, a moda era conjunto esportivo de veludo com a marca do tênis combinando. As cores eram berrantes como os grafites nos trens do metrô. Ser fresh era sua habilidade de usar roupas novas e ter estilo.


Foto por Ricky Powell. Cortesia de Cable News Network. Uma empresa Time Warner. Todos os direitos reservados.

No entanto, havia indicações de algo mais complexo começando, com Nas comparando a ênfase na moda dos líderes tribais africanos ao dandismo dos reis britânicos. Ou o fato de que as roupas de domingo eram obrigatórias para que os donos de escravos brancos mostrassem sua piedade cristã, permitindo que seus escravos tivessem roupas melhores para irem à igreja, apesar de o filme reconhecer que muitos escravos não acreditavam na filosofia para a qual estavam rezando. Lorina Padilla, ex-membro da gangue Savage Skulls, postula que as calças jeans rasgadas que eram moda no Bronx nos anos 70 eram inspiradas em Easy Rider, destacando que tanto influências brancas como negras definiam as escolhas de roupas. "Muita gente não vai admitir isso", frisa Padilla, "mas é verdade".

Jack Nicolson, Peter Fonda e companhia interpretam foras da lei vivendo na periferia da sociedade, figuras com que os excluídos conseguiam se identificar; então, por que não se vestir como eles? Mas logo o hip-hop se tornou parte de um movimento de inspiração que varreu os EUA com os sons do funk, rap, Michael Jackson e Prince (artistas fora da alçada de Jenkins). Poder usar Ralph Lauren ou Tommy Hilfiger era um sinal avaliável de mobilidade social, mesmo que sua casa não tivesse móveis e você só tivesse 50 centavos no bolso. Damon Dash, cofundador da Rocawear, afirma que essas tendências eram "símbolos de status baseados na insegurança".


B-boys nas ruas, Brooklyn, por volta de 1983. Foto por Jamel Shabazz. Cortesia da Cable News Network. Uma empresa Time Warner. Todos os direitos reservados.

O problema com documentários é que a narrativa da vida real nem sempre é linear. Enquanto vemos um trecho de " My Adidas", do Run DMC, não temos a história de como um funcionário da Adidas chamou a atenção da empresa para a música depois de ter visto a banda tocar para 40 mil fãs num show num estádio. Agora, a adidas já transformou a história em parte do folclore da marca ("Essa fusão de arte e esportes não só definiu uma tendência duradoura de moda de rua, mas também marcou o nascimento da promoção de não atletas para a indústria de produtos esportivos"). Jenkins também não menciona a colaboração de Jordan/Spike Lee nas propagandas Mars Blackmon, que basicamente levaram a Nike à onipresença nesse mercado. Talvez porque isso não se encaixe na narrativa de que nenhum negócio oficial estava saindo disso – o que é verdade até certo ponto –, embora, com isso, deixe de mostrar que, assim que a cultura dos tênis se tornou um grande negócio, marcas brancas entraram de cabeça no jogo.

Essa é uma narrativa que Jenkins aborda depois de celebrar a ascensão da moda urbana nos anos 90 e o nascimento de empresas de moda fundadas por negros, aqueles que tiraram essas roupas das lojas de bairro e levaram até as grandes lojas de departamentos. Ali havia um espírito de união, destacado por 2Pac ter se recusado a receber pagamento de Karl Kani por promover sua marca, porque ele era negro. Porém esse foi um sonho que tinha data de validade, e logo todo rapper criou sua própria linha de roupas. A saturação do mercado manchou não só a imagem de rappers iniciantes como também a de magnatas estabelecidos do hip-hop, como Russell Simmons e Sean "Puff Daddy" Combs.

O filme parece desistir quando entramos nos anos 2000. Uma época em que marcas de luxo como Gucci e Louis Vuitton descobriram que havia muito dinheiro para se tirar de carteiras negras. Não há uma grande análise aqui. Nem mesmo uma anedota sobre como a Burberry tentou um rebranding para capitalizar em cima do movimento de moda de rua e começou a perder valor de mercado: seus clientes de classe superior deram as costas para a marca, enquanto isso se tornava roupa dos chavs britânicos. Só ficamos sabendo que o argumento de raça se tornou um argumento de classe: assim que você fica rico o suficiente, há clubes em que você será aceito, independentemente da etnia. No entanto, para aqueles que querem subir nesse trem, o preço da passagem ficou muito mais caro.

Fresh Dressed, de Sacha Jenkins, está em exibição nos cinemas dos EUA e faz parte do festival In-Edit, em São Paulo. Ele pode ser visto por demanda em www.freshdressedmovie.com e estará disponível no iTunes a partir de 10 de julho.

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Tradução: Marina Schnoor

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