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Histórias de gente que já usou drogas com os pais

“Em certo momento, a gente não sabia se os azulejos na parede sempre foram daquele tamanho. Nos divertimos muito.”

por Bo Hanna
13 Julho 2016, 10:00am

Matéria original da VICE Holanda.

Considerando que você morou com eles por uns vinte anos e eles te viram pelado uma boa parte desse tempo, provavelmente não tem muita coisa que pode realmente envergonhar seus pais sobre você. Ainda assim, a maioria vai preferir não fazer certas coisas na frente deles — transar, assistir pornô ou usar drogas são as coisas que imediatamente me vêm à mente. Ainda assim, alguns não acham estranho cheirar umas carreiras ou tomar um doce com as pessoas que te colocaram no mundo.

Mas como é isso? Falei com três pessoas que costumam chapar com os pais para descobrir.

Robin, 21 anos, usa cocaína com o pai de vez em quando

VICE: O que seus pais te diziam sobre drogas quando você era mais novo?
Robin: Minha família é muito tranquila nessa questão. Meu pai chegou a vender drogas, minha mãe também. Eles frequentavam o [lendário clube noturno de Amsterdam] RoXY, e sempre foram muito sinceros sobre o passado e todas as coisas que fizeram. Meu pai queria que eu fosse completamente honesto com ele, especialmente em se tratando de drogas. Mas acabei não contando quando experimentei algumas coisas, porque ainda achava meio estranho. Eu tinha 16 quando tomei doce pela primeira vez, e claro que ele soube de cara quando cheguei em casa, porque ele conhecia os sinais.

Como ele respondeu?
Ele ficou bravo porque não contei para ele antes. Ele queria ter certeza que eu soubesse todos os riscos e não fizesse cagada — tipo tomar uma pílula escrota, por exemplo.

E da primeira vez que você usou drogas com seu pai, foi planejado ou espontâneo?
Não, não foi planejado. Meio que simplesmente aconteceu. Quando eu tinha uns 18 anos, meu pai me deu um papelote de cocaína quando eu estava saindo para a balada com um amigo. Isso meio que definiu o tom do resto do nosso relacionamento. Quando esse mesmo amigo veio jantar com a gente no Natal, simplesmente aconteceu. Meus pais, meu amigo e eu acabamos tendo um White Christmas.

E como foi?
Foi bem legal. Tivemos conversas ótimas e conseguimos falar sobre coisas que geralmente eram difíceis — foi um momento muito íntimo e todo mundo foi aberto um com o outro.

Como você vê esse momento agora?
Bom, meu pai realmente via isso como um jeito de se aproximar de mim, de fortalecer nossa relação. Então não sei quão espontâneo foi para ele. Talvez ele veja isso como um substituto para a ligação emocional que se perdeu entre nós. Realmente gostei de cheirar com ele por um ou dois anos, mas agora é um pouco diferente. Não acho que essa deveria ser a base do nosso relacionamento.

O que seus amigos acham quando você diz que usa drogas com seus pais?
Meus amigos já cheiraram com meu pai algumas vezes, e eles acham muito legal poder fazer isso na frente dos meus pais. Alguns amigos acham estranho — e eu entendo o por quê.

Já aconteceu alguma coisa constrangedora?
Uma vez, parei na casa dos meus pais com uns amigos depois da Parada Gay de Amsterdam, e cheiramos umas carreiras lá. Meu pai me fez passar vergonha esse dia — ele ficava dizendo que meus amigos eram superlegais e gritando coisas como "Ah, Robin, seus amigos são incríveis!"

Timo, 28 anos, tomou ecstasy com a mãe num festival

O que seus pais te falavam sobre drogas quando você era mais novo?
Timo: Era um grande tabu. Drogas eram ruins e viciantes — era isso que eles me diziam. Minha imagem de um usuário de drogas era alguém caído na sarjeta com uma agulha enfiada no braço — nem um pouco positiva.

E mesmo assim você acabou usando drogas?
Sim, eu tinha uns 23 anos e estava passando por um momento ruim no meu relacionamento. Meus amigos me levaram para um festival na Bélgica, onde experimentei ecstasy pela primeira vez. Foi uma experiência que abriu meus olhos — foi completamente avassalador. Eu nunca tinha me sentido daquele jeito antes, eu nem sabia que era possível se sentir assim. Foi o começo de algo novo para mim — tudo que tinham me dito sobre drogas estava errado. Não me tornei um viciado instantaneamente ou uma pessoa ruim — o ecstasy te deixa aberto, simpático e receptivo. Então fiquei imaginando o que mais eu estava perdendo, e basicamente passei pelo cardápio inteiro.

Como seus pais acabaram envolvidos?
Uns três meses depois, contei que tinha usado ecstasy para minha mãe. Fiquei nervoso, porque não sabia como ela ia reagir. Contei quando estávamos na academia, e ela ficou curiosa com a ideia. Eu disse que foi a melhor experiência que já tive. Acho que pintei uma imagem bastante rosa da coisa toda, porque não demorou muito para ela dizer que talvez pudesse experimentar isso algum dia.

E o que aconteceu depois?
Eu realmente queria que ela experimentasse. Comecei a pensar numa situação em que eu pudesse usar ecstasy com ela, e achei que deveria ser em num lugar aberto, num dia de verão, num lugar onde ela não se sentisse "a mãe". Acabei escolhendo o festival Dance Valley, na Holanda, onde ninguém ia achar estranho se eu levasse minha mãe. Eu tinha ido duas vezes antes — a música deles é acessível, um house alegrinho, e o evento não atrai só gente de vinte e poucos anos.

E aí?
Minha mãe tinha 51 na época, e eu dei um quarto da dose inteira de ecstasy para ela. Eu tinha testado a droga antes, e cheguei nessa dose pensando no peso dela e no que ela ia sentir. Eu não queria que ela ficasse insegura, mas as coisas não deram muito certo no começo; ela sentiu a cabeça pesada e ficou meio perdida. Então dei outro quarto pra ela, aí ela melhorou — ela começou a dançar e deixou as coisas acontecerem. Ela gosta de ter tudo sobre controle, mas eu queria que ela se soltasse um pouco.

Como as pessoas em volta reagiram?
Meus amigos no festival acharam muito especial e fizeram minha mãe se sentir bem-vinda. Mas muita gente não consegue nem imagina fazer uma coisa dessas com a mãe.

Isso mudou seu relacionamento com a sua mãe?
Foi um pouco arriscado, claro, porque nossos papéis se inverteram. Eu é que tinha que ser responsável. Mas ainda penso nesse dia com carinho, porque ela confiou em mim e foi uma sensação ótima. Isso só fortaleceu nossa relação.

E vocês chegaram a usar drogas juntos outra vez?
Com certeza. Depois da primeira vez ela ficou ainda mais curiosa, porque a coisa não foi tão bem logo de cara. Então a gente foi ao Dance Valley no ano seguinte e dei uma dose mais alta para ela — e correu tudo às mil maravilhas. Ela ficou superfeliz e tivemos conversas ótimas. Ela me disse que eu era um filho incrível, o que foi muito legal. Eu tinha tido conversas desse tipo com meus amigos, mas não com a minha mãe.

Aconteceu alguma coisa constrangedora?
Não, ela precisava sentar de vez em quando, mas só. Foi muito legal. Claro, não ficamos nos abraçando toda hora e tal, só sentamos na grama e tivemos uma boa conversa.

Você recomendaria essa experiência?
Bom, se você pode ter uma experiência intensa com seus pais, um dia que você vai lembrar com carinho pro resto da vida, então sim. É um presente para eles e para você. Realmente vi minha mãe mudar depois disso — ela está diferente e é uma pessoa muito mais carinhosa.

Por causa das drogas?
Sim, com certeza. Minha mãe só conhecia festas em que as pessoas bebiam, ficavam chatas e agressivas. Lá, a atmosfera era amigável e cheia de amor — ela não estava esperando isso. E ela realmente começou a apreciar a música. A gente até foi ao Amsterdam Dance Event juntos ano passado. Tomamos 4fmp e 2cb, e foi ótimo.

Fleur*, 21 anos, usou 2cb com o pai depois de perder o último trem para casa

VICE: O que seus pais te diziam sobre drogas quando você era mais nova?
Fleur: Meus pais sempre foram muito abertos sobre tudo, mas não encorajavam o uso de drogas. Eles me passaram panfletos informativos, porque sabiam que as chances de eu nunca experimentar nada eram bem pequenas. Às vezes eles diziam coisas como "a gente já foi jovem também, sabe" — então eles não eram completamente inocentes.

A primeira vez em que você usou drogas com seus pais foi planejada?
Não, foi bem espontânea. Não discutimos isso antes nem nada. Só acabou acontecendo.

Como?
Uns três anos atrás, quando eu tinha 18, meu pai e eu fomos tomar uns drinques num bar em Amsterdam. Ficamos bêbados e perdemos o último trem para casa, então fomos dormir na casa de um amigo do meu pai. 2cb ainda era novidade na época, e o amigo do meu pai estava falando sobre a droga. Aí brincamos que seria legal experimentar. E o cara perguntou se a gente queria mesmo, porque ele tinha um pouco em casa, e a gente topou.

Então vocês tomaram 2cb juntos. O que aconteceu depois?
Bom, foi engraçado principalmente. Tivemos conversas ótimas, começamos a filosofar sobre um monte de coisas. Em certo momento, a gente não sabia se os azulejos na parede sempre foram daquele tamanho. Começamos a alucinar, então tentávamos descobrir o que era real e o que não era juntos. Nos divertimos bastante.

O que sua mãe achou da história?
Ela achou engraçado. Eu já tinha fumado maconha com meus pais antes, então não era realmente um problema.

O que você pensa desse dia hoje — foi meio constrangedor ou você curtiu?
Pensando agora, acho que foi uma coisa boa — compartilhei uma experiência maravilhosa com meu pai e não vou esquecer isso tão cedo.

*O nome foi mudado para proteger a privacidade dela e do pai.

Ilustrações por  Fernando Leon .

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

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