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Entretenimento

Falamos Com o Fundador do Partido Pirata Sueco Sobre a Atual Guerra de Informação nos EUA

Depois que meu artigo foi publicado, o Pirate Bay retornou à internet, navegando por aí com sua bandeira de caveira e ossos cruzados como se desse um grande F*#@-$&, mesmo que esse F*#@-$& possa ser apenas temporário.

por Patrick McGuire
30 Outubro 2012, 1:30pm

Algumas semanas atrás, relatei que a suposta falha de energia que derrubou o Pirate Bay parecia ter sido causada por um emaranhado muito mais complicado de acontecimentos políticos. Algumas horas depois que meu artigo foi publicado, o Pirate Bay retornou à internet, navegando por aí com sua bandeira de caveira e ossos cruzados como se desse um grande F*#@-$&, mesmo que esse F*#@-$& possa ser apenas temporário. No entanto, nem tudo está salvo. O cofundador do site, Gottfrid Svartholm, continua preso numa detenção que foi estendida pela segunda vez pelas autoridades suecas. Ações legais foram tomadas contra vários outros sites, incluindo um site de torrent sueco chamado Appbucket, que agora recebe os visitantes com o mesmo selo antipirataria do FBI que você encontra no Megaupload. Mas no Appbucket o selo está em alta definição. Por que isso, departamento de design do FBI?

O mais interessante é que o Appbucket está registrado no nome de Gottfrid Svarthold no sistema público da internet WHOIS, ou seja, o mesmo cara que tenta se esquivar de acusações relacionadas ao The Pirate Bay e, em outro caso, de um suposto ataque hacker a uma empresa de logística chamada Logica. Seu nome estar registrado na entrada do Appbucket no WHOIS não significa necessariamente que ele esteja envolvido nas operações do site. É mais provável que seu nome esteja lá porque o Appbucket era hospedado pela PRQ, uma companhia cofundada por Gottfrid. A PRQ é a companhia de hospedagem que a polícia sueca invadiu no que pareceu ser uma colaboração com o FBI. O Appbucket podia estar usando um serviço privatizado oferecido pela PRQ pra manter o nome do dono verdadeiro fora dos registros públicos do WHOIS. Como a PRQ foi cofundada por Gottfrid Svartholm, talvez ele tenha colocado seu próprio nome ali pra clientes que tivessem pagado pelo serviço, ao invés de usar uma informação de contato da própria PRQ. Parece uma coisa bem idiota, se for mesmo o caso.

Se você procurar no WHOIS por outro site que gostaria de permanecer escondido, o Nambla.net por exemplo, que também é hospedado pela PRQ, você vai conseguir o endereço de Toronto do domínio deles no Tucows, e o e-mail "nambla.org@contactprivacy.com”. Contactprovacy é um serviço intermediário pra donos de domínio que preferem ser difíceis de contatar. Parece que os amantes de meninos são ligeiramente mais cuidadosos, pelo menos nesse caso em particular.

Pelo que temos visto em outros casos, o FBI não é tão cuidadoso no que se trata de invasões antipirataria. Quando falamos com o DJ Drama, que foi alvo de um ataque injustificado no estúdio onde ele grava suas mixtapes (numa entrevista que será publicada em breve na VICE), ele nos contou que o FBI foi atrás dele depois de ver fotos de CDs do Michael Jackson e Beyoncé em seu site, o que os levou a presumir que ele estava dirigindo um negócio de pirataria de CDs em grande escala. Na verdade, ele estava apenas vendendo loops e batidas prontas e a maioria de seus produtos são gratuitos, mixtapes oficialmente sancionadas pra rappers underground. É possível que o nome do Gottfrid no Appbucket tenha provocado a mesma sede de justiça no FBI.

Independente disso, toda essa tempestade em torno da Suécia está mantendo Gottfrid na cadeia, derrubou o Appbucket e o site de compartilhamento de arquivos sueco Tankafetast – que agora redireciona pro site do Partido Pirata –, além de possivelmente também ter levado à derrubada do Pirate Bay por um curto período de tempo e ter prejudicado a PRQ, uma das maiores empresas de hospedagem que mantém o compartilhamento de arquivos vivo na Europa. Há também paralelos bem claros entre os impasses legais kafkianos de Gottfrid Svartholm do Pirate Bay, Julian Assage do Wikileaks e Kim Dotcom do Megaupload. Kim, que tem mais em comum com o P. Diddy do que o velho Julian, parece ser o dominante desse trio de azarados legais. A Nova Zelândia, onde o Kim mora e continua tentando escapar da extradição aos Estados Unidos, teve sua própria reviravolta contra o primeiro ministro John Key nesse caso. John aparentemente teve um encontro clandestino em Hollywood antes da invasão ilegal que foi impulsionada por espionagem também ilegal do governo. E até a noite passada, o Megaupload continuava indiciado nos EUA, mas Kim ainda não havia sido extraditado.

De uma perspectiva canadense, parece que a imagem sueca de internet rápida e pirataria livre está sob ameaça. No entanto, quando falei com Rick Falkvinge, fundador e agora autointitulado “evangelizador político” do Partido Pirata sueco, ele me contou que essa imagem não é exatamente correta. Ops. “A Suécia nunca foi particularmente amiga dos piratas aos olhos da administração política. O que diferencia a Suécia é que tivemos um ativismo e organização políticos que lutaram, logo no começo, pela liberdade de expressão através da digitalização da sociedade; o governo nunca tomou nenhuma ação ou sequer foi favorável a isso.”

É verdade que a Suécia sempre foi avançada no que diz respeito à banda larga. Eles estão na 11ª posição em penetração de banda larga no mundo, muito à frente do Reino Unido, que ocupa a 17ª posição, do Canadá, que está na 19ª, e dos EUA, que estão atualmente na 23ª posição. No entanto, o país sempre pareceu ser um farol ou mesmo um refúgio pra piratas. Foi onde Rick fundou o Partido Pirata em 2006. Estamos num lugar onde um pirata mantém um escritório com 60% do voto popular, trata-se de um pequeno vilarejo da Suíça com 1.481 habitantes de onde agora ele é o prefeito.

Então parece que a posição elevada da Suécia em penetração de banda larga tem fornecido as ferramentas necessárias pra que vozes independentes encontrem o apoio que necessitam pra se tornar um movimento global, mas isso nunca foi realmente uma indicação de apoio nacional à pirataria. Rick concorda: “As organizações de base dos piratas continuam lutando através de seus altos e baixos, e um dia poderemos ser capazes de mudar as atitudes contrárias do governo nessas questões. Mas agora, o país só é amigável a indústrias obsoletas e interesses americanos.”

Quando pergunto sobre a influência do FBI na Suécia, que parece bastante notável quando se trata de antipirataria, considerando o ataque à PRQ e o fechamento do Appbucket, ele me contém: "O FBI não tem muita influência nos assuntos domésticos suecos (diferentemente do fiasco recente do caso Dotcom na Nova Zelândia). No entanto, politicamente, a administração sueca é mais ou menos um cachorrinho dos Estados Unidos na parte política. Uma operação do FBI não poderia vir até aqui a serviço sem ser presa por violar todo tipo de lei, mas é uma questão diferente quando a administração política recebe 'uma oferta que não pode recusar'. Temos vários exemplos disso – até uma lista de como a legislação sueca pode mudar pra agradar interesses americanos, seja lá quais forem os interesses suecos.”

Parece que estamos assistindo a tudo através de uma névoa de informações erradas, uma guerra de informação entre a América do Norte e os aliados a seu serviço. Demonoid e Megauload já se foram. O Pirate Bay está vivo, mas com saúde questionável. E mais, o site de MP3 vietnamita Zing, que hospedava cópias sem licença de música mainstream, perdeu seus anúncios da Samsung e da Coca-Cola depois da invasão à PRQ. As dúvidas continuam: os EUA vão continuar brincando de polícia e ladrão com os últimos portais restantes de compartilhamento de arquivo, ou será que uma legislação mais drástica estilo SOPA vai ganhar força de novo nos próximos meses? Aposto que vai ser uma mistura dessas duas coisas.