Publicidade
Esta história tem mais de 5 anos de idade.
Noticias

Quem Ainda Tá na Humaitá

Como estão vivendo os moradores da comunidade Humaitá, da zona oeste de São Paulo, que pegou fogo dia 27 de julho.

por Bruno B. Soraggi, Imagens por Edward Davies
03 Setembro 2012, 9:40pm

Quando soubemos que outra favela pegava fogo em São Paulo (em 2012 a Coordenadoria Municipal da Defesa Civil já tinha atendido 23 ocorrências do tipo, além dessa), enviamos nossa equipe de vídeo atrás de depoimentos. Era dia 27 de julho, e dessa vez queimavam os barracos da comunidade Humaitá, na Zona Oeste da capital, que há dez anos ocupa, com “200 imóveis”, uma “propriedade particular” às margens de um córrego ao lado do centro de convenções ITM Expo. Dados da prefeitura, que no mesmo site aponta como “0” o número de projetos de urbanização previstos para a comunidade.

Um mês depois do incêndio os desabrigados ainda se dividem entre casas de parentes, amigos ou o alojamento improvisado no vestiário do clube-escola Pelezão, na Lapa. Umas 20 pessoas ainda estão por lá, segundo um funcionário contatado por telefone. Duas semanas antes, quando visitamos o local pelas 16h de uma sexta-feira, eram por volta de 30. Estávamos à procura dos entrevistados no dia do incêndio, mas, pelos nomes ninguém soube dizer se aquelas pessoas estavam alojadas ali. Fora que muitos tinham saído pra trabalhar e só voltariam no final da tarde.

Fotos do interior do local estavam vetadas. Mesmo sem nenhuma autoridade oficial presente no momento, o segurança do clube tinha ordens pra evitar que o ambiente abafado e úmido, com colchões pelo chão e roupas estendidas próximo aos chuveiros, fosse retratado. A situação não chegava ao ponto de parecer um cortiço, mas uma olhada rápida bastava pra torcer pra que aquilo fosse de fato só uma medida emergencial.

Mas o impasse continua. De acordo com a Secretaria de Habitação, por hora os atingidos pelo incêndio serão atendidos pelo Programa Parceria Social, vulgo bolsa-aluguel, que prevê um “auxílio de R$ 300 por mês” para a locação de imóveis durante 30 meses. Só que segundo informações dadas à Rede Brasil Atual, há quem diga que o processo está indefinido de tão parado — e alguns desabrigados já estão deixando o clube sem assistência.

Na sexta-feira retrasada fomos de novo à Humaitá. Reencontramos três dos cinco moradores ouvidos da primeira vez. A ideia era saber como tudo estava andando depois desse tempo passado. Papo vai, papo vem, outra favela ali próxima, do Areião, começou a pegar fogo.Ao finalizar esse texto de abertura, mais uma, a Favela da Paixão, na Zona Leste, estava tostando. Quando fomos publicar, saía a notícia da 30ª favela incendiada em São Paulo esse ano. Veja abaixo os depoimentos em vídeo feitos logo após o incêndio e os depoimentos colhidos no mês seguinte.

Valmir José da Silva, 27, vulgo “Índio”. Trabalha na construção civil, morador há cinco meses.
“A minha casa não foi atingida, não. Eu moro ali mais pra frente. Agora mesmo tô parado de serviço. Tô aqui ajudando o pessoal. Tava limpando aqui, religando a água, e os guardas embaçaram na minha. Mas a gente conversou e se acertou. Tipo assim: lá na frente [do outro lado do córrego que divide a favela] tem umas 20 famílias. Com crianças. E elas precisam de água. Pra tomar banho, pra alimentação. Não querem que mexa em nada. Todo dia aqui a gente é filmado. O pessoal quer construir de novo, mas [as autoridades] não querem que mexa. Essa ponte mesmo [que liga as duas margens] queimou. Faz 15 dias que construí ela. Tem que fazer, né? Vai deixar o pessoal na mão? Vereador, prefeitura, governo, ninguém faz nada. Muita gente perdeu e quer resposta. Se vai ter projeto de um lugar pra morar definitivo, se vai ser esse seguro aluguel. Tinha mais ou menos umas 25 pessoas lá no Pelezão [clube no qual algumas famílias toparam ser abrigadas, no vestiário]. Falaram que elas iam receber tanto, e ninguém recebeu nada ainda. Mesmo que paguem esse seguro por três anos [R$ 300 por mês], como fica depois? Qualquer lugar que você for sair aqui pela região é uns R$ 600 de aluguel. Não tem como sobreviver assim. Se pelo menos dessem algum emprego bom pro pessoal. Mas aí o pessoal o quê: invadindo o terreno, não paga aluguel, não paga água... É uma economia, se for pra caneta. Aí ninguém sai dessa vida. Agora, se dessem uma proposta, ficava diferente, né? Eu mesmo moro em Barueri. Tô aqui faz cinco meses —  vim pra cá construir um barraco pra uma colega nossa —, mas em breve tô indo embora pra lá de novo.”


Maria José Avelino de Brito, 35, cabeleireira. Mora na favela desde a ocupação, que completa 10 anos em fevereiro.
“Dali o que sobrou foi o gato, cachorro e, graças a Deus, né, meu filho. O que tinha vida nós tiramos de dentro de casa. Acho que a situação que eu tô vivendo é menos pior que a situação de muita gente aqui. Tinha pessoas que foram pro abrigo, gente que os pais moram no Nordeste. O meu barraco queimou uma parte. A outra o bombeiro abriu pra poder jogar água por cima, pro fogo não alastrar. Agora tô ficando na casa da minha mãe, que mora ali embaixo [numa rua próxima]. Tudo bem que é mãe, e mãe é sempre mãe, uma benção, mas eu me sinto incomodada. Porque eu tenho três filhos, né? Quando eu saí de casa eu não tinha, e o meu mais velho tinha só 8 anos. Agora ele tem 18. Tenho filho moço, filha moça, eles tem os costumes já. Minha mãe é senhora, também, né? Fica difícil. A proposta que vieram trazer pra gente é uma proposta indecente, tem que convir. Dar R$ 300 [bolsa-aluguel] pra uma família, não dá pra nada. Ainda mais que as pessoas que perderam aqui a maioria é tudo pai de família. Tem criança. Aí a proposta deles é o auxílio-aluguel. Tipo: recebeu a primeira parcela do auxílio-aluguel e eles derrubam o resto da favela. “Dinheiro na mão, barraco no chão” foi exatamente o que uma assistente social disse numa reunião. A proposta tá sendo essa. Mas não se aluga casa nesse valor. E quando as pessoas sabem que é pela prefeitura, eles não aceitam. Porque a prefeitura atrasa, né? Isso quando continua pagando. Se você não tiver condições de trabalhar, for uma pessoa incapaz de trabalhar, você não tem o direito de reivindicar um pouco mais, ou uma durabilidade disso. Já perdeu a dignidade quando queima, né, porque, fala sério, você olhar pra trás e ver a única coisa que você tem queimando... Depois chega alguém e tentam pisar mais em cima? Ninguém mora em favela porque quer.”


Raimundo Donato Nascimento Batista, 41, trabalha numa distribuidora de revistas. Mora lá desde a ocupação.
“Eu saio pra trabalhar às 4h. Durmo com dois despertadores, um que toca às 3h e outro às 4h. Quando o primeiro tocou eu fiquei deitado e garrei no sono de novo. Levantei com o segundo, escovei o dente, troquei de roupa e fui trabalhar. Só deu tempo de eu chegar na firma, que é aqui perto, passar o crachá, sair de um galpão pro outro... Aí um rapaz falou: “Colocaram fogo nas árvores”. Falei: “Não é nas árvores, não. Ali é a favela”. Voltei correndo. Meu cunhado tinha dormido lá, então já tava carregando as coisas. Minha mulher também não tava lá — ela ficou internada no hospital, aí quando voltou já foi direto pra casa dos meus sogros [na rua que dá entrada pra favela], então ela nem tava lá. Meu filho também já tava com ela. Mas larguei o serviço e saí correndo. Pelo menos pra pegar os documentos. Minha preocupação mesmo eram os documentos. As outras coisas tudo bem, se queimasse conseguia outra. Mas documentos ia dar um trabalhão pra tirar outros. Mas não cheguei a perder nada. O fogo parou ali do lado mesmo. O bombeiro subiu no telhado de um barraco perto pra jogar água, pro fogo não passar. Ajudei a tirar as coisas e voltei pro serviço. Mas saí de lá às 8h. Não tinha cabeça pra nada. Agora tô indo lá só dormir. De resto fico aqui com minha mulher na casa dos pais dela. Tão com uma conversa aí de seguro aluguel, que vão derrubar os barracos da lateral do córrego. Se for o meu tá incluído lá. Mas o que vai dar ninguém sabe.”

Se quiser ajudar, pode doar comida pro templo na praça ali perto, na Rua Galileo Emendabili, 258, em frente à praça Rodolfo Trevisan.
 

Tagged:
Sao Paulo
Favelas
Vice Blog
Comunidade Humaitá
favelas em chamas
Secretaria de Habitação