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Fotos

Uma Entrevista Com o Fotógrafo da Nossa Capa

por Jonathan Smith
08 Junho 2011, 6:12pm

Muir Vidler é o fotógrafo que retratou aquele incrível punho líbio pra capa da nossa Edição Punho de Ferro. Ele também fez um artigo esse mês sobre suas múltiplas viagens à Líbia com um monte de gostosas para os bizarros concursos de beleza de Gaddafi.

Apesar dos ambientes por vezes estranhos e oprimidos (Líbia, Turquia) das fotos de Muir, suas imagens são sempre cheias de cores, luzes e curtição. Cinco minutos no site dele já são suficientes para te levar a travestis em Istambul,  fãs de death metal em Israel, Nick Cave (RISOS), o presidente das Maldívas, Tony Alva... Já deu pra entender onde vamos parar. O cara tem um portfólio bem diverso.

Achamos que provavelmente haveria uma história inteira atrás daquela foto do punho feito toscamente com um caça norte-americano amassado, então demos uma ligada pro Muir pra conseguir todas as histórias doidas de bastidores, além de outras coisas.

VICE: E aí, Muir. O que você pode me dizer sobre essa exuberante foto na capa da nossa Edição Punho de Ferro?
Muir Vidler:
É a frente da antiga casa de Gaddafi, em Trípoli. Ela foi bombardeada em 1986 pelo governo do Ronald Reagan, entre outros, eu acho. Eles deixaram aquilo ali como evidência do que os líbios chamam de terrorismo norte-americano, e eles levam visitantes para fazer um passeio pelo lugar. Acho que eles adicionaram o caça americano depois dos bombardeios.

Eles fazem grupos turísticos passearem por lá?
Não são exatamente turísticos. Quando a imprensa visita Trípoli, eles os levam até lá. Como você sabe, fui lá cobrir um concurso de beleza. Tinha um monte de mordomos do governo com grande bigodes falsos e ternos bem lustrosos que ficavam com a gente o tempo todo.

Eles o deixaram andar por ali e explorar?
Sim, completamente -- o que era estranho. Eles nunca consertavam nada, então você podia passar no meio de uns prédios abandonados e dar uma olhada. Tem algumas fotos do Gaddafi penduradas na parede e o negócio inteiro é completamente sujo e empoeirado.

Além de tirar fotos de monumentos estranhos, você também escreveu sobre concursos de beleza líbios pra essa edição. Tem alguma história que não deu pra contar no artigo?
Sim, não consegui encaixar uma coisa no artigo, mas tinha um agente de modelos americana que parecia exatamente como o personagem Bruno, do Sacha Baron Cohen. Na mansão tem muitas fotos do Gaddafi usando óculos tipo aviador e olhando para o horizonte, e me lembro que esse agente ficava berrando para um oficial líbio sem expressão que o Gaddafi deveria lançar sua própria linha de óculos escuros. Ele falava como seria absolutamente fabuloso. Eu ria tanto que quase me mijei.

O oficial líbio respondeu alguma coisa?
Não, ele só olhou pra ele até que o cara entendesse a mensagem que suas sugestões para a linha de moda de Gaddafi não seriam recebidas com muito entusiasmo.

No seu site tem uma foto de um senhor de idade cuspindo uma quantidade incrível de fogo pela sua boca enrugada. Quem é esse cara? A foto é real?
Sim, totalmente real. Seu nome é Danny Lynch. Ele trabalhava num circo chamado Great Strong Stromboli. É parte de uma série que fiz sobre velhos rebeldes e aventureiros. Essa foto foi feita em frente a sua casa em Manchester.

Aquela é sua esposa no fundo? Ela parece bem distraída com a coisa toda.
Sim, ela estava literalmente entrando na casa pra tomar um chá. Ela falou: “Quer uma xícara de chá, querido?” Eu disse sim, então de repente ele estava cuspindo fogo, e ela estava correndo pra apagar. Com o cachorro e a perua na foto também, o cenário ficou bem suburbano.

Falando na justaposição da esposa indo fazer chá enquanto que ele cospe fogo, esse contraste parece ser um certo tema constante na suas fotos. Tipo aquele negro com uma tatuagem de suástica, o cara vestido com roupas tribais no meio de uma área suburbana coberta de neve, e o careca pelado sentado em um banco do lado de dois mauricinhos.
É bom ouvir isso. Você acertou em cheio. Estou trabalhando em um projeto para um livro, e a ideia é exatamente essa. Contradições culturais. O cara tribal que você mencionou era de uma tribo de Papua Nova Guiné. Eles estavam visitando uma família nas montanhas do País de Gales.

Você tem uma ótima série de fotos de Istambul. Parece que saiu bastante com travestis e foi a muitos clubes de strip-tease, não é verdade?
Exatamente, mas nunca comi nenhum travesti, só quero deixar isso claro. Nunca fiquei bêbado o bastante. Isso faz parte do mesmo tipo de projeto, eu acho. Contradições culturais. Nunca tinha ouvido falar sobre esse lado de Istambul até ler sobre esse lugar chamado Clube Saara em algum lugar. Acabei indo até lá para tirar fotos, apesar de não saber muito sobre isso. Fiquei na balada por um tempo, até que arrancaram o filme da minha câmera. Depois disso fiquei amigo com o filho de um dono de um clube, então comecei a tirar fotos lá.

Por que eles arrancaram o filme da sua câmera?
Quando entrei pela primeira vez no lugar, pedi permissão para tirar fotos, mas ninguém admitia ter nenhum tipo de autoridade, então comecei a tirar. Estranhamente, os cara que vão nessas baladas não são gays e não curtem transexuais. Eles são héteros que se afastaram bastante da sociedade bem conservadora. “Qualquer buraco é negócio”, como dizem na Escócia. Eles estão apenas procurando algum tipo de encontro sexual.

Então eu tirei uma foto e alguém deve ter visto o flash e pensou que eu tinha tirado uma foto dele... Talvez eu até tenha tirado uma foto dessa pessoa. Mas acho que ele não queria ser visto naquele lugar, então me arrastaram pra fora. Pensei que seria espancado em um beco escuro turco, mas eles só abriram a câmera, arrancaram o filme e me empurraram um pouco.  E então saí correndo.

A maioria das suas fotos tem cores muito vibrantes e pessoas animadas que parecem estar se divertindo. Olhando o seu site, não consegui achar uma foto sequer da qual não quisesse ter participado. Suas sessões são divertidas? Por que todos estão tão felizes?
Não sei, espero que sejam divertidas. Está acontecendo uma grande mudança na fotografia agora, especialmente fotos de galeria, que eu fiz um pouco, com duas exposições. Fotos suaves e tranquilas são a nova moda. Jovens lunáticos e abandonados olhando para o horizonte enquanto o sol se põe atrás deles ou algo assim. Não quero denegrir esse estilo, mas acho que está prevalecendo demais no mundo da fotografia no momento. Pessoalmente gosto de fotografias que parecem ser uma momento real quando alguém está se divertindo. Acho que é mais difícil fotografar alguma coisa assim do que alguém parecendo todo profundo e pensativo e triste. Então sim, acho que tento conseguir registrar esse tipo de atmosfera nas minhas fotos quando posso.

Você também fez as fotos de moda para o ensaio Riot Girls, Literalmente há uns meses. Foi difícil fazer um editorial no meio de um protesto?
Foi mais difícil do que pensava que seria, na verdade. Pensei que se visse algo que funcionasse como violência, talvez fosse dar tempo de virar, tirar uma foto rápida e sair fora. Foi muito mais intenso que isso. O fato de que estávamos em um grande grupo – oito modelos mulheres, três ou quatro caras da revista, os estilistas e tal – o que significa que éramos bem perceptíveis. Falei no dia da foto que não queria arriscar a segurança das garotas, o que é verdade, mas só meia verdade. Não queria um lança chamas na minha cara ou um tijolo jogado na minha cabeça também. Meu instinto de auto-preservação definitivamente acordou.

Algum dos manifestantes ficou puto por vocês fazerem um editorial de moda ali?
Na verdade, não. O que acontece em protestos é que sempre vão muitos fotógrafos. Dá pra passar despercebido por causa disso. Também tentamos não parecer muito da moda, obviamente. Não estávamos mandando beijinhos ou algo assim. A única parte um pouco assustadora foi quando estava fotografando uma garota na Praça do Parlamento e um cara começou a gritar, me chamando de pedófilo. Eles ficaram gritando que ela tinha 12 anos de idade. Dei de ombros e os ignorei, porque não queria chamar mais atenção. Só que, depois disso, pensei que deveria ter falado pra ele: “Bom, pelo menos eu não estou comendo ela. Você poderia começar a reclamar se eu estivesse. Estou só tirando fotos, cara”.

Se por acaso você for à Londres em breve, o Muir estará em uma exposição coletiva chamada The Possessed dia 5 de maio na galeria Charlie Smith.

TEXTO POR JONATHAN SMITH VICE US
TRADUÇÃO POR EQUIPE VICE BR