Contemple: o Maior Arquivo de Material Skinhead do Mundo

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Contemple: o Maior Arquivo de Material Skinhead do Mundo

O artista e colecionador Toby Mott juntou zines, cartazes, fotos e panfletos e lançou o livro 'Skinhead - An Archive' focando no revival skinhead influenciado pelo punk do final dos anos 70 e 80, mas também rastreia suas raízes até a Inglaterra...
21 Janeiro 2015, 5:07pm

É fácil entender por que o artista e colecionador Toby Mott é fascinado pela cultura skinhead; ela se espalha por décadas na história, teve várias interações e, se afastando e olhando para o movimento como um todo, você encontra um monte de contradições.

Por exemplo, se os primeiros skinheads eram influenciados pelos rude boys jamaicanos e música rocksteady, como eles acabaram definidos por sua propaganda racista? E se skinheads se tornaram associados à extrema-direita, por que seu visual foi amplamente adotado pela comunidade gay? E finalmente, se a preocupação dos skinheads é com a autenticidade e masculinidade da classe trabalhadora, por que o movimento é tão meticuloso com moda e estética?

Todas essas questões são abordadas no livro Skinhead – An Archive, uma coleção de material skinhead que Toby coletou durante os anos, compilada lindamente pela Ditto Press e com design de Jamie Reid. O livro se foca no revival skinhead influenciado pelo punk do final dos anos 70 e 80, mas também rastreia suas raízes até a Inglaterra dos anos 60. De zines, cartazes, fotos e panfletos, esse é provavelmente o mais extenso arquivo skinhead disponível para compra. Falamos com Toby sobre como tudo isso começou.

VICE: Como você se envolveu com a cultura skinhead?
Toby Mott: Bom, eu era punk nos anos 70, um punk classe média meio artístico. O legal do punk nessa época é que isso era um grande caldeirão onde classe e raça não faziam diferença, a maioria dos garotos atraídos para isso era revoltado, ou problemático de alguma maneira. Achamos um lar no punk. Mas no final dos anos 70 e começo dos 80, o punk meio que se dividiu, e você tinha os punks de esquerda da escola de arte e a cultura skinhead. As duas comunidades eram subculturas sob ataque de Margaret Thatcher, mas os skinheads tomaram um caminho mais de direita no geral, eu diria.

O punk era bem relaxado e criativo, mas o skinhead se tornou uma identidade muito mais rígida. Isso supostamente se inspirava nos skinheads originais da classe trabalhadora dos anos 60, mas se tornou algo muito mais fetichizado. Você vê isso no livro; para os skinheads do final dos anos 60 e começo dos 70, havia mais espaço para interpretação. Mas quando isso voltou nos anos 80, tudo era muito definido, a largura dos suspensórios, a barra da calça dobrada e quantos buracos tinha o seu Dr. Martens.

O que te intrigou nessas pessoas na época, já que você não se identificava como um deles?
Para se identificar como um skinhead na Inglaterra dos anos 80, você tinha que ter a roupa completa e aderir a um conjunto muito rígido de códigos. Quer você fosse de esquerda, de direita, gay – o que eles tinham em comum era uma interpretação muito rígida dessa identidade escolhida. A palavra que realmente definia todos eles era "autenticidade". O objetivo compartilhado era ser um autêntico skinhead, e o impulso em direção a isso é o que realmente me intriga.

Alguns skinheads eram bastante voltados para a direita, e punks como você se identificavam como de esquerda. Isso não criava um certo conflito?
Sim, punks viviam com medo de serem atacados por soul boys, teddy boys e então skinheads, que eram os mais notoriamente violentos e agressivos. Os skinheads dos anos 80 tinham suas raízes no punk, e algumas bandas mesclavam punk e skinhead, como o Sham 69, mas eventualmente, bem, nos tornamos inimigos.

No ensaio que está no livro, falo sobre momentos em que fui vítima de violência skinhead. Mas a única coisa que tenho a dizer, olhando para o passado, é que apesar da violência, ninguém acabava morto. A gente corria muito quando eu tinha 16 anos, muitas vezes tivemos que pular de ônibus em movimento; todas essas tribos de garotos estavam por aí. Era estranho.

Quando você começou a colecionar esses artigos skinhead?
Bom, quando era adolescente, eu ia a um show, digamos, no Hope and Anchor, na Upper Street em Islington. Eu assistia bandas como Ruts DC ou Adam and The Ants, e o público era composto só de moleques – 15, 16 anos -- e as pessoas circulavam seu material. Quer dizer, coleciono papel. Tenho alguns discos e coisas, mas isso era principalmente pessoas gerando publicações impressas e as fazendo circular na era pré-internet.

Que tipo de coisas você pegava?
Eu colecionava material político da esquerda e da direita ao mesmo tempo. Éramos garotos altamente politizados, apesar de termos uma interpretação muito crua da política. Eu era de esquerda, mas nos mesmos espaços que eu frequentava, você podia receber panfletos do British Movement. Ninguém podia votar, então era tudo meio ridículo, mas os skinheads estavam distribuindo coisas como o Bulldog, que era tipo... Não dá para chamar de revista, mas uma publicação do National Front visando crianças de escola. Bom, guardei todas essas coisas porque sempre fiquei intrigado com isso. Não pelas ideias, mas pelos objetos em si.

Fora o aspecto político, como material punk e skinhead se diferenciam?
Bom, havia muito menos coisas skinhead porque eles eram menos articulados, visualmente. As coisas que eles criavam eram muito mais cruas de certa maneira, porque eles não tinham essas pretensões de escola da arte que o punk tinha. O punk tinha conhecimento, fazia referência ao Dada ou às colagens de John Heartfield. Os skinheads não tinham isso porque eram um grupo autêntico da classe trabalhadora, e também rejeitavam esse tipo de coisa, essas aspirações de entrar para uma escola de artes ou algo assim.

É interessante que a cultura skinhead seja considerada tão de direita mas, como visual, tenha sido adotada rapidamente por certas partes da comunidade gay. O que você acha disso?
Isso é uma coisa que as pessoas teorizam academicamente, mas acho que, por um lado, observando a cultura gay e, digamos, as roupas de couro e aquela banda, Village People, os gays buscam identidades de figuras fortes e hipermasculinas. Nos anos 70, havia um certo tipo de gay chamado de "Castro clone" que você via no mundo inteiro, o cara de bigode, boné de couro, camiseta branca, jaqueta e calça de couro e botas. Mas acho que os gays mais jovens do Reino Unido não se identificavam tanto com isso e provavelmente estavam ouvindo sua própria música, como Bronski Beat, e queriam se vestir como skinheads, como o vocalista do Bronski Beat Jimmy Somerville, que também era gay.

É realmente estranho, porque essas pessoas adotaram o uniforme do opressor e cooptaram isso. Então, num minuto os skinheads eram esse grupo de quem os gays tinham medo, e dois anos depois, em King's Cross, havia centenas de skinheads que eram todos gays.

Bem inteligente.
Sim, foi mesmo. E aí o skinhead mais notório de todos os tempos, Nicky Crane, que era um racista condenado e líder do British Movement, se revelou gay. Então isso se tornou algo ainda mais bizarro, porque alguns dos skinheads gays eram realmente de direita. Mesmo os skinheads que não eram abertamente gays... há algo extremamente gay nisso. Isso é chamado de dandismo de classe operária, porque os dandis eram muito delicados e alguns skinheads eram muito específicos sobre o que usavam. Os fanzines são muito rígidos sobre que roupas você podia usar. Antes os homens não eram tão interessados assim em roupas.

Como o livro aconteceu depois de todos esses anos?
Eu tinha 3.750 artigos punks e skinheads, principalmente do período entre 1976 a 1980. Levei cerca de 18 meses para passar por todo esse material, e foi difícil, porque queríamos mostrar todos os lados desse fenômeno. Então essa foi meio que a primeira encarnação disso, e então o revival e as garotas, aspectos internacionais, os antirracistas, os racistas – não queríamos deixar nenhuma pedra no lugar.

Acho que acabamos com algo que conta essa história de maneira objetiva e neutra. Há coisas ali que você poderia descrever como tóxicas e certamente não compartilhamos essas ideias. Não queríamos ser ofensivos nem nada assim, só queríamos apresentar o material.

É realmente o primeiro livro do tipo. Há muitos livros de fotos sobre os skinheads, porque quem estuda fotografia geralmente mergulha em alguma subcultura; skinheads, viajantes, ravers. Nick Knight imergiu nos skinheads e abriu precedentes, então há muitos livros de fotografias. Mas esse não é um livro de fotos, é um livro de material gerado por skinheads. Então é realmente a cultura deles contada por eles mesmos, não uma visão de fora.

Compre Skinhead – An Archive no site da Ditto Press. Veja mais da coleção de Toby abaixo.

@MillyAbraham / @DittoPress

Tradução: Marina Schnoor