Esta história é mais de 5 anos de idade.
Noticias

Momentos de Lazer Com os Separatistas do Quênia

O Conselho Republicano Mombasa é formado por jovens locais marginalizados pelo governo e brutalizados pela polícia estão prontos para fazer barulho nesta eleição.

por Paige Aarhus
27 Abril 2012, 12:20pm

A costa do Quênia é conhecida por suas praias imensas de areia branca, oceano azul turquesa e um mistura charmosa das arquiteturas islâmica e colonial britânica. Os turistas vêm pra cá pela bebida barata, o povo atraente e o cenário exótico. Mas o que a maioria não sabe é que muitas dessas pessoas servindo drinks e trocando toalhas são parte de um movimento separatista clandestino que pode vir a trazer caos e derramamento de sangue para a próxima eleição presidencial.

O governo queniano gostaria que todos acreditassem que o Conselho Republicano Mombasa, grupo da costa sul do país, é uma gangue de criminosos e terroristas. 

Na realidade, esse movimento fora da lei é formado por jovens locais pobres e sem-terra cansados de serem marginalizados pelo governo e brutalizados pela polícia. Eles estão prontos para fazer barulho nesta eleição. Planejam boicotar as zonas eleitorais em Mombasa e região e trazer muitos problemas pra quem tentar organizar uma votação na província.

O CRM é similar à milícia shifta da Somália (um grupo do nordeste do país que defendia a separação nos anos 60 até que o governo os colocou fora da cena de forma violenta), e está entre outros 32 grupos declarados “organizações criminosas ilegais” em 2010. Seus líderes afirmam ser contra a violência, mas a maioria de seus membros são jovens excluídos que estão prontos para pegar em armas. 


Líderes do CRM: o vice-presidente Ali Mwatembe, presidente Rashid Kivyaso e porta-voz Mohammad Rashid Mraja.

Tive a chance de conversar com os fundadores do CRM recentemente. Em Likoni, uma pequena cidade fora da movimentada zona portuária, me encontrei com o presidente Rashid Kivyaso, o porta-voz Mohammad Rashid Mraja, o secretário geral Randu Mzai Ruwa e o vice-presidente assistente Ali Mwatembe.

Eles concordaram com o encontro porque queriam expor suas muitas queixas para o mundo. De maneira similar aos seus colegas do nordeste da Somália, os moradores da região compartilham uma profunda sensação de marginalização e por muito tempo ninguém pareceu se importar com eles.

“As pessoas da costa estão cansadas de serem mandadas e desmandadas pelo governo queniano. Sua riqueza foi saqueada pelo governo... Isso é o novo colonialismo”, diz Ruwa.

Formado em 1999, o CRM afirma que apesar da província costeira ser a maior contribuinte da economia nacional através do porto de Mombasa e uma florescente indústria turística, o povo da região ainda não se beneficiou dessas fontes de renda. Os políticos reservam a maior parte dos investimentos na área para novos resorts turísticos e muito pouco para infraestrutura e desenvolvimento humano.

Apesar de ser a segunda maior cidade do Quênia, Mombasa não possui universidades. Os estudantes da província costeira ficam nas últimas posições do ranking nacional de educação, os moradores raramente ocupam cargos mais altos no governo e a pobreza e o desemprego são endêmicos. Mais importante, a popularidade da região como destino turístico significa que muitos tiveram suas terras compradas ou desapropriadas por estrangeiros ou homens de negócio de outras partes do Quênia para que outro grande resort pudesse ser construído.

Os membros do CRM também afirmam serem vítimas frequentes de brutalidade policial, e que estão ficando cansados disso.

“Somos pressionados pelas demandas das pessoas. Percebemos que o governo não vai nos ajudar. A lei é aplicada de maneira diferente contra a população local aqui. O CRM nasceu por causa desse abuso”, diz Ruwa.

Desde quando o CRM foi considerado uma organização ilegal, a repressão policial em reuniões e cerimônias de juramentos tem sido frequente. Numa batida desse tipo em outubro, a polícia atirou contra a multidão, ferindo muitas pessoas e matando um pescador.

“Queriam nos calar, mas a juventude resistiu. Alguns começaram a jogar pedras e a polícia atirou de volta”, diz Mwatembe.

Os líderes que conheci se apegam fortemente a política de não-violência, mas reconhecem que a juventude que forma a maioria do grupo talvez não pense da mesma forma.

Uma grande porção dos jovens afirma que estamos perdendo tempo e que deveríamos nos armar”, diz Mraja.

“Se eles começarem uma guerra, não teremos como impedi-los”, acrescenta Ruwa.

Todos os líderes do CRM me garantiram que estão determinados a esgotar todas as vias legais para atingir seus objetivos. Um estranho tratado antigo entre o Sultão de Zanzibar e a Rainha da Inglaterra estabelece que um trecho de 10 milhas de toda a costa queniana deve ser devolvido à população local em 2013, o que provavelmente será ignorado pelo governo queniano.

O grupo também está em vias de registrar algumas petições legais para descriminalizar o CRM e impedir que a comissão eleitoral queniana instale zonas eleitorais na próxima eleição.

Mas até agora o processo tem se arrastado, é pouco provável que eles tenham sucesso através dos meios legais, e se eles realmente não conseguirem...

“O CRM não vai permitir que o processo de votação aconteça. Se os processos legais falharem, não há opção se não a violência para impedir essas pessoas. Mas não queremos ter que chegar a esse ponto”, diz Mwatembe.

O CRM quer apenas a separação. Esse é o único objetivo — sem compromissos. Mas a batalha legal não está saindo como o grupo esperava.

Os membros do CRM estavam no Tribunal Superior de Mombasa no dia seguinte, esperando pelos últimos desenvolvimentos dos dois casos. O processo foi adiado mais uma vez — o grupo tem esperado nos últimos dois anos para que a data do julgamento seja marcada — e os membros parecia bem insatisfeito junto aos seus advogados quando cheguei ao lado de fora do tribunal.

“Esse foi outro exemplo da tática de adiamento usada pelo governo para ignorar nossa situação”, disse Mraja.

No parque do outro lado da rua, um grupo de 250 pessoas com os rostos pintados e cartazes políticos fizeram sua presença ser notada. Fui puxado pro meio disso enquanto Mraja incendiava a multidão. Gritando slogans e zombando do caminhão da tropa de choque estacionado nas proximidades.

“No último ano, o CRM cresceu apesar dos trancos e barrancos, parcialmente porque o governo tentou silenciá-lo. A atenção da mídia cresceu muito. Nossas conferências de impressa costumavam ser vazias. Não mais”, disse Mwatembe, que estima que sejam 2.2 milhões de membros ativos do CRM na província.

As pessoas estão prestando mais atenção na situação porque a costa é uma área crucial para os políticos famintos por votos. Um movimento separatista aqui dificilmente terá sucesso já que a área é tão valiosa para o resto do país, mas isso não vai dissuadir o CRM.

Eles querem sua própria bandeira, moeda, nome (República de Mombasa) e legislação, e querem isso até o final do ano. Eles ainda não se decidiram por um sistema de liderança, mas estão analisando as possibilidades.

“Somos apenas simples revolucionários. A liderança virá depois”, diz Mraja.

O CRM é predominantemente muçulmano, anteriormente eles haviam defendido o retorno a Sharia, embora a pressão política e a recente incursão do Quênia na Somália pra lidar com o grupo militar islâmico Al-Shabaab tenha levado o grupo a se afastar das doutrinas religiosas. Rumores de que o grupo mantinha contato secreto com a Al Qaida e com a Al-Shabaab prejudicaram sua reputação. E o CRM está tentando jogar da maneira certa.

“Não temos uma direção religiosa. Aprendemos nossa lição com erros anteriores. Aceitamos pessoas de todas as outras religiões e evitamos discussões religiosas”, diz Mraja.

É uma jogada inteligente, algo que vai angariar ainda mais apoio ao grupo na área. Outra coisa que parece ajudar são os incidentes frequentes de brutalidade policial — o ataque já mencionado de outubro e uma batida policial em dezembro onde dezenas foram espancados, presos e humilhados pela polícia. 

De volta a Likoni, encontrei Mdune Julo e Mwana Siti, dois moradores locais que continuam indecisos sobre se juntar ou não ao CRM. Eles estavam em casa na noite de 18 de dezembro, um dia depois que dois policiais foram mortos com machetes. Os moradores insistem que os assassinatos não tiveram motivação política, mas a polícia não parece ter acreditado nessa história. 

De acordo com Julo, cerca de 20 policiais paramilitares apareceram na vizinhança onde o crime aconteceu e começaram a por as portas abaixo. Ele foi preso por esses policiais assim que se levantou da cama. 

“Eles começaram a bater em todo mundo. Estavam procurando pelo CRM. Nos fizeram deitar no chão e nos espancaram no caminho até o camburão”, diz ele.

Siti, uma mulher pequena e humildemente muçulmana, diz que os abusos e a brutalidade foram algo semelhante à Abu Gharib — muitos dos presos tiveram que ficar nus e foram forçados a sentar no colo dos outros antes de ter que ir aos pulos até o camburão enquanto eram espancados pela polícia. Siti diz também que todos sofreram abuso verbal antimuçulmano. 

“Eles quebraram minha loja e estavam batendo nas pessoas com pedaços de pau. As mulheres foram obrigadas a sair de casa e assistir”, diz ela.

“Não vou votar nas próximas eleições como ato de desafio ao governo”, diz Julo.


Comissário Aggrey Adoli.

Na delegacia de polícia da província, o Comissário Aggrey Adoli diz que os relatos de brutalidade policial são rumores sem fundamento.

“Não ouvimos essas reclamações. São apenas fofocas. As pessoas poderiam ter ido ao tribunal fazer suas reclamações. Poderíamos estar tendo protestos agora. As batidas são feitas apenas durante o dia e ninguém reportou nada a respeito”, disse.

De acordo com Adoli, o CRM é um grupo pequeno e sem poder de arruaceiros procurando por atenção e dinheiro, possivelmente funcionários aposentados no governo que não planejaram direito seu futuro.

“Eles não são uma ameaça. O governo tem força no local para lidar com eles”, disse.

Adoli afirma que o grupo é motivado exclusivamente por dinheiro, atraindo só os jovens mais pobres e sem estudo do lugar. Quando a nova Constituição do Quênia criar 47 governos municipais individuais por todo o país ainda este ano, a província terá mais o que dizer a respeito de pra onde vai o dinheiro, promete.

“Eles simplesmente seguem. Já dissemos que precisam esperar pelos governos municipais. Qualquer ameaça feita a outras pessoas não vai desencadear desenvolvimento econômico. A questão da terra será estabelecida sob a nova constituição”, continua.

Adoli jura que não houve nenhum incidente de brutalidade policial, argumentando que eles apenas fazem seu trabalho e mantêm a lei e a ordem no local.

“Como você sabe, o CRM é uma organização clandestina, então não há como eles reivindicarem participação legal”, diz ele.

Mas é exatamente esse tipo de pensamento que causará problemas durante as eleições, diz Mwinyi Juma, diretor da ONG local Likodev.

Juma trabalha intensivamente com o CRM para ajudar o grupo através de canais legais e prevenir a violência, mas nem sempre foi assim. Numa série de conflitos no distrito de Kimbau durante as eleições de 1997, Juma e amigos guerrilheiros invadiram delegacias de polícia com armas que eles afirmam terem sido dadas pelo governo para que eles varressem a oposição.

Juma passou várias semanas lutando contra a polícia nas florestas que cercam as cidades, e apesar de ter abandonado suas tendências revolucionárias violentas, ele vê a história se repetir este ano.

“Há muitas injustiças que o governo se recusa a enfrentar. A abordagem deles deixa muito a desejar. Espancar jovens sem nenhum motivo não é uma tática válida. É por isso que estávamos na floresta em 1997 lutando com a polícia. Começamos por causa disso”, diz ele. 

Anteriormente:

É Ano de Eleições na África