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Um Cartão-Postal de Guantánamo: Como Mohamedou Ould Slahi se Tornou Suspeito de Terrorismo e Depois Autor de um Best-seller

A história por trás do livro Diário de Guantánamo é impregnada de detalhes obscuros e complexidades desconhecidas. talvez seja o exemplo mais palpável da era pós 9 de setembro.

por Peter Tinti
05 Março 2015, 2:20pm

Um cartão-portal que Mohamedou Ould Slahi enviou para sua família em Mauritania quando estava em Guantánamo Bay. Foto do autor.

Um conto popular da Mauritânia conta a história de um homem que quase enlouquecia sempre que via um galo.

"Por que você tem tanto medo do galo?", pergunta o psiquiatra.

"O galo pensa que eu sou milho."

"Você não é milho. Você é um homem grande. Ninguém pode te confundir com um pequeno grão de milho", disse o psiquiatra.

"Eu sei disso, doutor. Mas o galo não sabe. Seu trabalho é convencer o galo de que eu não sou um milho."

O homem nunca se curou, porque conversar com um galo é impossível. Fim da história.

Há anos, venho tentando convencer o governo dos EUA de que não sou milho.

– Trecho de Guantánamo Diary, de Mohamedou Ould Slahi

Era uma oração simples. Todo dia, Mariem Mint Elwadia pedia a mesma coisa a Deus: ela queria ver o filho, Mohamedou Ould Slahi, mais uma vez antes de morrer. Da última vez em que eles estiveram juntos, Slahi partiu para a delegacia de polícia local a fim de depor, um inconveniente que havia se tornado quase rotina na época, em novembro de 2001. Isso foi logo após o anoitecer nos arredores de Nouakchott, a poeirenta capital da árida Mauritânia, uma nação da África Ocidental. Slahi tinha chegado do trabalho e se preparava para tomar banho quando a polícia apareceu na porta da casa de sua família. Como de costume, ele foi até a delegacia em seu carro.

"Não se preocupem, volto logo", o homem de 30 anos disse à família. Mas Slahi nunca mais voltou. Seu carro ficou estacionado na frente da delegacia por semanas, e as autoridades mauritanas se recusavam a dar qualquer informação sobre seu paradeiro.

Dezesseis meses depois, em março de 2003, um cartão-postal chegou à casa da família. Isso não oferecia muitos detalhes. Havia um selo de 80 centavos dos EUA com um panorama pitoresco das montanhas. O endereço do remetente era Campo X-Ray 160, Washington, DC 20353, EUA. O carimbo, datado de 2002, sugeria que o cartão tinha sido enviado através do Serviço Postal americano. Numa seção rotulada "campo", havia uma sigla de quatro letras escrita a caneta.

"GTMO."

Mohamedou Ould Slahi estava detido na Baía de Guantánamo, e sua mãe descobriu isso através do cartão-postal.

"Estou escrevendo esse cartão-postal pela quarta vez e ainda não recebi nenhuma resposta sua. Não sei se você está recebendo esses cartões", Slahi escreveu na parte de trás do postal. "Não sei se Deus vai me ajudar e me salvar dessa injustiça, mas, em qualquer caso, seja paciente e reze."

Na época, Elwadia não tinha como saber que oficiais da inteligência americana consideravam seu filho uma peça-chave nas operações da Al-Qaeda na Europa e América do Norte e uma figura central nos ataques de 11 de Setembro. Nem podia saber que Slahi seria torturado por meses a cada vez no curso de vários anos ou que um juiz ordenaria sua soltura, mas que essa decisão seria cruelmente revertida. E ninguém poderia prever que Slahi se tornaria um autor de best-seller do New York Times de dentro da prisão mais infame do mundo. Mas pouca coisa na vida de Mohamedou Ould Slahi segue uma linha reta; por isso, sua história, mergulhada em complexidade e detalhes sórdidos, é talvez a melhor parábola para a era pós-11 de Setembro.

1. A Jornada

Rosso, Mauritânia, 1967, três anos antes do nascimento de Slahi. Foto via usuário do Flickr John Atherton.

Slahi nasceu em 1970 na cidade de Rosso, fronteira com o Senegal. Em 1988, ele ganhou uma bolsa de estudos em Duisburg, uma cidade portuária industrial da Alemanha Ocidental. Filho de um negociante de camelos e o nono de 12 filhos, Slahi seria o primeiro membro da família a ingressar na faculdade.

Mas, em dezembro de 1990, o curso de sua vida mudou – e alguns diriam que sua jornada para Guantánamo teve início – quando ele suspendeu seus estudos e saiu da Alemanha para lutar contra o governo comunista, apoiado pelos soviéticos, no Afeganistão.

"Meu propósito era ajudar meus irmãos muçulmanos na jihad contra os comunistas, que invadiram o país e proibiram a prática de sua religião", contou Slahi em seu depoimento diante do Tribunal de Revisão de Status de Combatentes, em 2004.

No Afeganistão, Slahi recebeu treinamento no acampamento Al Farouq, em Khost, que servia como ponto de encontro para combatentes e ponte do financiamento estrangeiro. O acampamento era comandado por um grupo obscuro de jihadistas novatos chamado Al-Qaeda. Como Slahi explicou em seu depoimento, "Quando fui ao Afeganistão, eu não podia escolher o acampamento de treinamento; a Al-Qaeda e os árabes comandavam os acampamentos. Eu disse: 'Ei, quero ajudar'. Eles disseram que eu não podia fazer isso até passar pelo treinamento. Então eu disse 'OK, vou fazer o treinamento'".

Slahi fez o juramento de lealdade bayat à Al-Qaeda em março de 1991, assumindo o nome de guerra "Abu Musab" (ele testemunhou mais tarde que seus superiores o encorajaram a pensar num nome falso). Ele saiu do Afeganistão em 1991, mas voltou em janeiro de 1992 para lutar ao lado dos mujahidin em Gardiz, onde, segundo Slahi, ele fez parte da unidade árabe que lutava sob o comando de Jalaluddin Haqqani, um notório barão da guerra afegão que era um trunfo da CIA, mas que acabou se juntando ao Talibã e lutando contra as forças americanas.

Depois de, segundo suas contas, três semanas lutando no Afeganistão, Slahi decidiu voltar para a Alemanha quando ouviu rumores de que os mujahidin tinham capturado Cabul e começado a lutar entre si.

"Decidi voltar, porque não queria lutar contra outros muçulmanos", Slahi relatou ao tribunal. "Meu objetivo era lutar contra os agressores, principalmente os comunistas, que proibiram meus irmãos de praticarem sua religião."

Segund Slahi, ele rompeu todos os laços com a Al-Qaeda quando saiu do Afeganistão. Mas os serviços de inteligência americanos e alemães não tinham tanta certeza; assim, começaram a investigar Slahi no final dos anos 90. Ele estava morando na Alemanha há quase uma década.Tinha se formado como engenheiro eletricista e havia se casado com uma mauritana.

Nessa época, Slahi teve os encontros que levariam os oficiais dos EUA a acreditarem que ele estava envolvido com terrorismo. Em 1998, agências da inteligência americana interceptaram uma ligação entre Slahi e Mahfouz Ould al Walid, seu primo e ex-cunhado, que estava no Sudão. Al Walid, também conhecido como Abu Hafs al Mauritani, era, supostamente, conselheiro espiritual de Osama bin Laden; além disso, o telefone que ele usou estava ligado ao líder da Al-Qaeda. De acordo com a Der Spiegel, Slahi era suspeito de ter mandado "fundos relacionados à Al-Qaeda" para um homem no Sudão através de uma conta comercial e tinha ajudado o primo a transferir parcelas de US$ 4 mil para sua família na Mauritânia. Mas, de acordo com fontes da inteligência citadas pela revista alemã, Slahi "se recusou a mandar mais dinheiro depois disso".

Em 1999, Slahi foi apresentado a três homens interessados em ir à Chechênia para se juntar à jihad contra o governo russo. Slahi teria recomendado que eles fossem ao Afeganistão em vez disso, onde poderiam receber treinamento. Um dos homens era Yemeni Ramzi Binalshibh, um dos "principais facilitadores dos ataques de 11 de Setembro", de acordo com o Diretório de Inteligência Nacional dos EUA. Os outros dois, Marwan al Shehhi e Ziad Jarrah, pilotariam os aviões no dia 11 de setembro. Anos depois, os EUA considerariam esse encontro a prova de que Slahi estava diretamente ligado aos ataques. (As agências de inteligência alemãs eram mais céticas que os colegas americanos, afirmando ao Der Spiegel que as declarações de Binslashibh sobre Slahi recrutando os sequestradores do 11 de Setembro tinham atingido "status de lenda".)

Sempre que eu saía, havia pessoas logo atrás de mim no mercado, olhando para a minha bunda. Eu pensava 'Mas que diabos?

Depois do encontro com Binalshibh, Slahi se mudou para Montreal, onde se matriculou em cursos da École Polytechnique de Montréal, e liderava as preces durante o mês sagrado do Ramadã na mesquita Al Sunna. Ahmed Ressam, um algeriano que morou no Canadá com um passaporte falso e que tinha frequentado a mesma mesquita anteriormente, seria pego com um carro cheio de explosivos viajando do Canadá para o Estado de Washington em dezembro de 1999. Na esteira da prisão de Ressam, como parte do que ficaria conhecido como "Conspiração Milênio", que pretendia explodir o aeroporto de LA, serviços de inteligência canadenses colocaram Slahi sob vigilância, mas nunca encontraram provas suficientes de nenhuma ação. Ele acabou decidindo deixar o Canadá e voltar para a Mauritânia, porque a vida sob vigilância, ele depois testemunharia, "não era uma vida boa".

"Sempre que eu saía, havia pessoas logo atrás de mim no mercado, olhando para a minha bunda. Eu pensava 'Mas que diabos?'", Slahi falou ao tribunal americano em 2004. "Essa não é a vida que quero viver; eu queria viver uma vida produtiva e pacífica."

Slahi voou de volta para a Mauritânia via Senegal, onde a polícia imediatamente o deteve a pedido do governo americano. As autoridades locais e os oficiais do FBI interrogaram Slahi por três semanas – o transferindo para a Mauritânia no processo –, esperando ligá-lo à Conspiração Milênio. Os americanos acabaram desistindo, e Slahi foi solto.

Slahi começou uma nova vida na Mauritânia, trabalhando como especialista em computação. Mas, em 29 de setembro de 2001, ele foi detido pelas autoridades mauritanas, de novo a pedido dos EUA, e interrogado por agentes mauritanos e americanos.

Slahi diz que foi espancado, passou fome e foi ameaçado com tortura se não confessasse estar envolvido na Conspiração Milênio.

Slahi foi levado para depor e liberado diversas vezes até 20 de novembro, quando, depois de mantê-lo sob custódia por uma semana, os EUA arranjaram um jeito de enviar seu prisioneiro para a Jordânia. Esse era um processo pouco conhecido na época chamado rendição extraordinária (ou "tortura por procuração"), em que o cativo é mandado para uma prisão estrangeira a fim de se contornar leis domésticas que restringem os interrogadores americanos.

"Cara, o que aconteceu comigo lá está além de descrições", Slahi afirmou a um painel de revisão anos mais tarde, descrevendo seu período na Jordânia. Ele diz que foi espancado, passou fome e foi ameaçado com tortura se não confessasse estar envolvido na Conspiração Milênio. Depois, no dia 19 de julho de 2002, um time de rendição da CIA na Jordânia despiu e vendou Slahi, o vestiu com uma fralda e o algemou antes de jogá-lo num jato Gulfstream de propriedade da CIA. Esse avião, usado rotineiramente para transportar detidos secretamente pelo arquipélago de bases militares e "pontos escuros" do mundo, ficaria conhecido nos círculos dos direitos humanos como "táxi da tortura". No caso de Slahi, o jato o levou da Jordânia para o Campo Aéreo de Bagram, no Afeganistão, onde ele foi interrogado por duas semanas antes de ser levado para a Baía de Guantánamo. Lá, em 5 de agosto de 2002, ele se tornou o detento 760 do Campo Delta.

O irmão mais velho de Mohamedou, Mohamadin. Foto pelo autor.

Por um ano, o governo mauritano garantiu à família de Slahi que ele estava sob sua custódia; eles até visitavam a prisão regularmente para deixar roupas limpas e pagar pelas refeições dele. Até hoje, o governo se recusa a esclarecer as circunstâncias dessa rendição ilegal, mesmo com o presidente que entregou Slahi aos americanos fora do poder.

Entre os amigos e familiares de Slahi, há um profundo sentimento de traição. "Nossa experiência com esse assunto é que o governo mente", frisou o sobrinho de Slahi, Jemal, que era apenas um menino quando seu tio desapareceu. "Eles só dizem ao público o que ele quer ouvir."

Em uma visita recente à casa da família, Jemal mostrou a pilha de cartas que Slahi enviou para casa durante esses anos. Mesmo de Guantánamo, ele ainda oferece conselhos educacionais a Jemal, o incentivando a aprender inglês, ler muito e estudar matemática.

"Quando eu era pequeno, meu tio adorava garotas, futebol, brincar com crianças e sempre me ajudava nos estudos", contou Jemal; com 20 e poucos anos hoje e o único a dominar o francês na família, ele acabou virando porta-voz dos parentes. "Ele era o oposto de um terrorista. Tenho certeza de que ele não é um terrorista. Ele é inocente."

Mas a insistência da família na inocência de Slahi é pontuada por derrotismo, um mecanismo de defesa contra falsas esperanças. Em junho de 2013, notícias de que Slahi tinha sido solto e estava voando para a Mauritânia começaram a aparecer na internet. A maioria dessas notícias citavam Hamoud Ould Nabagha, presidente da Popular Initiative for the Defense of Guantánamo Detainees, confirmando que Slahi tinha sido entregue às autoridades mauritanas. A história era falsa, e Nabagha até hoje não sabe quem liberou essa informação.

Sua organização opera de uma pequena sala com sofás velhos e tapete gasto. Parece um lugar que já abrigou sessões de estratégia emocionantes, mas há poucas indicações de que algo acontece ali hoje em dia. Apesar do ambiente, Nabagha, que se descreve como "um militante contra a tortura e agentes secretos", se veste com esmero, trajando ternos sob medida e gravatas da moda.

"Ajudamos na libertação de Mohammad Lameen Ould Sidi Mohammad. Ele é um exemplo de reintegração. Ele foi ao Afeganistão para lutar a jihad, mas agora vive uma vida normal na Mauritânia", explicou Nabagha, se referindo a outro mauritano detido em Guantánamo e depois repatriado. "Ele tem uma esposa. Uma família. Ele trabalha."

Para Nabagha, o caso de Slahi é simples, tanto legal como moralmente. "Se você tem uma acusação, se você tem provas, nos dê isso e vamos julgá-lo aqui", ele resume. "Acho que está claro que Guantánamo é um grande erro e um exemplo de que George Bush mentiu para o nosso país e para o mundo.

"Somos contra a Al-Qaeda e já lutamos contra eles aqui", ele continuou, citando as operações do exército mauritano contra a Al-Qaeda no norte da África. "Levamos essa situação muito a sério."

Nabagha preenchia os vácuos da nossa conversa com o mesmo refrão usado por outros ativistas na discussão do caso de Slahi. "Treze anos", ele repetia. "Treze anos."

2. O Destino

Soldados americanos correm no Campo Delta em Guantánamo, onde Slahi foi detido. Foto via conta do Flickr do Exército Americano.

Inicialmente, os oficiais americanos acreditavam que Slahi poderia estar envolvido com a Conspiração Milênio, mas a captura de outro detido iniciaria uma cadeia de eventos que o mandaria pelo caminho da notoriedade indesejada.

No dia 11 de setembro de 2002, Binalshibh foi capturado em Karashi, Paquistão, e transferido para um ponto escuro da CIA no Marrocos, onde, sob tortura, disse aos interrogadores que Slahi tinha falado para ele e outros envolvidos nos ataques de 11 de Setembro irem ao Afeganistão. De repente, vários oficiais da inteligência passaram a considerar Slahi o detento mais importante de Guantánamo.

Em janeiro de 2003, os interrogadores militares de Guantánamo começaram a circular um documento de "Operação Especial de Interrogatório", que detalhava o plano de sujeitar Slahi a meses de isolamento extremo, sessões de interrogatório de 20 horas, privação do sono, extremos de temperatura, humilhação sexual e tortura psicológica.

No dia 1º de julho, o general no comando de Guantánamo, Geoffrey Miller, aprovou o status "Projeto Especial" para Slahi, assinando um plano de interrogatório de 90 dias que, além de incorporar as técnicas mencionadas acima, culminaria numa rendição falsa. Slahi, segundo o plano, seria colocado num helicóptero e informado de que seria mandado para um país do Oriente Médio, onde "as regras tinham mudado".

Investigadores do FBI substituíram os interrogadores da inteligência militar, o que significou que Slahi teve de lidar com um homem mascarado chamado "Senhor X". Ele foi algemado e colocado numa sala escura iluminada por luzes estroboscópicas, enquanto a música "Let the Bodies Hit the Floor", da banda de heavy metal Drowing Pool, tocava continuamente por horas. Ele foi sujeitado a revistas arbitrárias da cavidade anal e colocado numa sala coberta de fotos de órgãos reprodutores. Lá, uma interrogadora zombava de sua incapacidade de engravidar a esposa, tocava em seus genitais e esfregava o peito nu contra ele.

Em certo ponto, de acordo com os documentos do Departamento de Defesa, o Sr. X disse a Slahi que tinha tido um sonho no qual viu "quatro detentos acorrentados pelos pés. Eles cavavam um buraco de 1,80 metro de comprimento, 1,80 metro de profundidade e 1,20 m de largura. Os detentos jogavam um caixão de pinho no buraco com o número de identificação do detento pintado em laranja na tampa". O Sr. X explicou a Slahi que o sonho significava que ele nunca sairia de GTMO, a menos que cooperasse.

Os espancamentos e a dor física não são a pior coisa do mundo", o mensageiro disse a Slahi. "Depois de apanharem por um tempo, os humanos tendem a desconectar a mente do corpo para poder suportar.

Por pior que aquele mês de julho tenha sido para Slahi, agosto foi pior. Um interrogador militar fingindo ser um oficial naval chamado "Capitão Collins", afirmando ter sido mandado pela Casa Branca, mostrou a Slahi um documento falso atestando que as autoridades americanas tinham detido sua mãe. "Collins" – na verdade, era Richard Zuley, um ex-policial acusado recentemente pelo Guardian de torturar suspeitos em Chicago e detidos em Guantánamo – contou a Slahi que sua mãe seria mandada para Guantánamo e que sua segurança não podia ser garantida no "ambiente principalmente masculino da prisão".

Em 2 de agosto de 2003, os interrogadores mandaram um "mensageiro" a Slahi, que disse que seus colegas "estavam cansados de ouvir as mesmas mentiras e consideravam seriamente lavar as mãos no seu caso.

"Os espancamentos e a dor física não são a pior coisa do mundo", o mensageiro disse a Slahi. "Depois de apanharem por um tempo, os humanos tendem a desconectar a mente do corpo para poder suportar." O mensageiro afirmou que Slahi poderia "desaparecer num buraco escuro" se não cooperasse e que, se todos seus arquivos fossem destruídos, a existência dele seria "totalmente esquecida".

Cinco dias depois, Slahi pediu para ver o Capitão Collins, dizendo que queria cooperar. Mesmo assim, seis dias depois, no dia 13 de agosto, o secretário da Defesa, Donald Dumsfeld, aprovou um memorando autorizando "interrogatório especial" para Slahi. O general Miller decidiu contra a rendição falsa, não porque isso era uma má ideia em si, mas porque a farsa "seria difícil de organizar logisticamente".

Em vez disso, no dia 23 de agosto, os interrogadores vendaram Slahi, o espancaram e o jogaram num barco. O navio foi mandado para o Caribe, onde interrogadores egípcios e jordanianos discutiam, na frente de Slahi, planos de executá-lo e jogar seu corpo no mar.

Depois desse incidente, Slahi foi transferido para o Campo Echo e colocado em uma das celas de isolamento recém-construídas por todo o mês de setembro. Em outubro, uma delegação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha visitou Guantánamo. Desobedecendo leis internacionais, o general Miller não permitiu que o comitê visse Slahi, que estaria "inacessível" devido a "necessidades militares".

Oito dias depois da visita da delegação da Cruz Vermelha, um interrogador da Força Tarefa Conjunta Guantánamo (JTF-GTMO) enviou um e-mail para um psicólogo militar informando que Slahi estava ouvindo vozes. "Isso acontece com pessoas que têm pouco estímulo externo, como luz do sol e contato humano, etc.???? Parece meio bizarro", escreveu o interrogador. "Privação sensorial pode causar alucinações, geralmente visuais em vez de auditivas, mas nunca se sabe", respondeu o psicólogo. "No escuro, você cria coisas com o pouco que tem."

As cartas censuradas que Slahi mandou para casa. Foto pelo autor.

Durante esse tempo, Slahi teria "quebrado", se tornando o que os oficiais de inteligência consideraram um dos informantes mais significativos da Baía de Guantánamo. Documentos do JTF-GTMO relatam que ele começou a fornecer inteligência aos interrogadores em 8 de setembro de 2003 e que continuou a "cooperar" em setembro e outubro.

"Ele nos disse mais do que podíamos processar", afirmou uma pessoa, supostamente familiarizada com os interrogatórios, a Jess Bravin, que publicou um livro sobre o assunto em 2013. "Ele escreveu e escreveu. Ele fazia a lição de casa toda noite. Nós demos um computador a ele, e ele imediatamente escreveu uma longa autobiografia. Depois, ele começou a mapear a estrutura da Al-Qaeda – cada nome com hyperlink, mostrando quem mais ele conhecia."

Slahi afirma que a informação que ele deu não era uma admissão de culpa, mas um produto de meses e meses de interrogatórios e tortura contínuos, que finalmente o levaram a "cooperar", dizendo aos interrogadores "o que eles queriam ouvir". Slahi descreveria essa fase como o período em que ele "confirmou" toda as acusações que seus interrogadores fizeram.

"Se tivesse feito as coisas de que eles me acusavam, eu teria confessado no primeiro dia. O problema é que você não pode simplesmente admitir algo que não fez: você precisa entregar os detalhes, o que você não consegue se não tiver feito nada", escreveu Slahi em Guantánamo Diary. "Não é só dizer 'Sim, eu fiz!'. Não funciona assim: você tem de inventar uma história completa que faça sentido para os mais idiotas", ele continua. "Uma das coisas mais difíceis de fazer é contar uma história inventada e a manter, e era exatamente a isso que eu estava preso."

Durante esse período, escrevi mais de mil páginas sobre meus amigos com informações falsas. Tive de usar o terno que a Inteligência dos EUA fez para mim.

De acordo com o diário de Slahi, a inteligência que ele vomitou era falsa. "Me sinto muito mal por todos que prejudiquei com meus testemunhos falsos", ele escreveu. "Durante esse período, escrevi mais de mil páginas sobre meus amigos com informações falsas. Tive de usar o terno que a Inteligência dos EUA fez para mim."

Anos mais tarde, quando seus advogados pediram que ele detalhasse tudo que tinha dito aos interrogadores, Slahi, incrédulo, respondeu: "Você está louco! Como posso processar um interrogatório ininterrupto que tem durado sete anos? Isso é como perguntar a Charlie Sheen com quantas mulheres ele já saiu".

Uma foto de Slahi divulgada pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Só depois que Slahi "quebrou", o tenente-coronel Stuart Couch, o advogado militar designado para processá-lo, foi a Guantánamo pela primeira vez.

Couch chegou ao caso através de uma conexão pessoal. Um dos copilotos do Voo 175 da United Airlines, o segundo a atingir o World Trade Center em 11 de setembro, era um velho amigo desde que foi piloto dos Fuzileiros Navais.

Na esteira do 11 de Setembro, Couch retornou à ativa, se voluntariando como parte das recém-criadas comissões militares. "Fiz isso para chegar aos caras que atacaram os EUA", ele afirmou a Bravin. "Eu queria fazer o possível com as habilidades que eu tinha."

Couch pegou o caso de Slahi na época em que se acreditava que ele era o único detido em Guantánamo diretamente ligado ao 11 de Setembro. "Dos casos que vi", Couch disse a Bravin, "ele era o que tinha mais sangue nas mãos".

Em sua primeira visita a Guantánamo, em outubro de 2003, Couch estava preparado para assistir ao interrogatório de um detento cooperativo. Enquanto esperava, Couch ouviu heavy metal alto tocando no final do corredor. Ele assumiu que deviam ser guardas de folga ouvindo música, que isso não tinha nada a ver com a outra entrevista no corredor.

Ele encontrou a fonte da música, uma sala com a porta escancarada, e espiou sob a luz estroboscópica. Um detento algemado, usando um macacão laranja, rolava no chão como se estivesse drogado.

Quando os dois civis que supervisionavam o detento perguntaram a Couch o que ele estava fazendo ali, ele se apresentou e pediu que eles desligassem a música. Eles o mandaram dar o fora e fecharam a porta na cara dele.

Couch ficaria sabendo em breve que a prática era aprovada e que 'as regras eram diferentes' em Guantánamo.

Numa entrevista para o Democracy Now!, Couch destacou que o incidente resultou num flashback de seu próprio treinamento SERE (Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga) dos primeiros dias de sua carreira militar.

"Minha preocupação imediata foi saber se era assim que as provas estavam sendo coletadas em alguns dos nossos casos, porque isso seria inadmissível: isso era a menos coerciva e pior tortura", ele frisou.

Couch ficaria sabendo em breve que a prática era aprovada e que "as regras eram diferentes" em Guantánamo. Para Couch, seria difícil provar a culpa de Slahi se todas as provas contra ele tivessem sido obtidas através de técnicas suspeitas. Mas, quando perguntou sobre as circunstâncias nas quais Slahi tinha sido interrogado, Couch foi cortado pelos oficiais da inteligência. Foi só em março de 2004 que ele começou a descobrir detalhes do tratamento dado a Slahi através de canais não oficiais.

Couch leu sobre o Sr. X e o Capitão Collins, sobre a privação de sono, as execuções falsas e a humilhação sexual. Quando ele obteve uma cópia dos e-mails entre o interrogador do JTF-GTMO e o psicólogo, nos quais eles discutiam as alucinações de Slahi, Couch concluiu que essas alucinações não eram um subproduto do tratamento dado a Slahi, mas o resultado esperado.

O advogado determinou que as provas contra Slahi tinham sido obtidas sob tortura e que, portanto, eram inadmissíveis no tribunal. Ele também concluiu que o tratamento dado a Slahi era uma violação da Convenção Contra a Tortura da ONU, ratificada pelos EUA em 1996, o que inclui tortura mental.

Como cristão devoto, Couch se sentiu em profundo conflito sobre o caso de Slahi – até participar de um batismo em sua igreja anglicana conservadora na Virgínia, onde o pastor perguntou se os membros da congregação respeitavam a dignidade de cada vida humana. Foi nesse momento que ele, segundo sua fé, percebeu que não podia continuar no caso.

Couch escreveu um memorado ao seu superior, o coronel Robert Swann, argumentado que o tratamento dado a Slahi era ilegal, uma violação da Convenção de Genebra e da Convenção Contra a Tortura da ONU. Ele também expressou preocupação de que o caso contra Slahi fosse antiético, porque se recusava a considerar provas que podiam exonerá-lo.

Couch renunciaria uma semana depois.

O presidente George W. Bush assina o Ato das Comissões Militares de 2006. Foto por AP/Charles Dharapak.

Em novembro de 2004, três anos depois de Slahi ter sido detido na Mauritânia, um Tribunal de Revisão de Status de Combatentes se reuniu para "determinar se o detido cumpria os critérios para ser designado combatente inimigo".

Apesar de Slahi nunca ter sido inimigo dos EUA, o tribunal determinou por unanimidade que ele era "corretamente classificado como combatente inimigo e que fez parte ou apoiou a Al-Qaeda e forças associadas envolvidas em hostilidades contra os EUA e seus parceiros de coalizão".

Ainda assim, Slahi continuou a protestar quando podia. Em 3 de março de 2005, ele submeteu uma petição escrita a mão para um recurso de habeas corpus, o princípio legal que exige que o governo leve a pessoa diante de um juiz ou tribunal para determinar as bases legais de sua detenção.

"Não cometi crimes contra os EUA, nem os EUA me acusaram de crimes; portanto, peço minha libertação imediata", ele escreveu.

Mas, em outubro de 2006, usando uma mesa com uma placa onde se lia "Protegendo a América", o presidente Bush assinou o Ato das Comissões Militares de 2006, que proibia os detidos designados como inimigos combatentes, como Slahi, de fazerem petições de habeas corpus.

O problema é que as provas do governo de que [Slahi] deu material para apoiar o terrorismo são tão atenuadas ou manchadas pela coerção e pelos maus-tratos, ou secretas, que não podem apoiar um processo criminal de sucesso. – Juiz James Robertson

Slahi estava definhando num limbo legal indefinido – isso até junho de 2008, quando a Suprema Corte decidiu o caso Boumediene v. Bush, estabelecendo que a anulação de habeas corpus do Ato de Comissões Militares era inconstitucional. A decisão por 5 a 4 significava que os detidos de Guantánamo tinham direito de pedir habeas corpus.

Em agosto de 2009, o juiz da Corte Distrital dos EUA James Robertson realizou uma audiência sobre a petição de habeas corpus de Slahi. Três meses e meio depois, oito anos depois de ser preso em seu país, Slahi finalmente teve o que se pode chamar de seu dia no tribunal – apesar de ter testemunhado via vídeo de Guantánamo e de seu testemunho continuar sendo secreto.

Em 22 de março de 2010, o juiz Roberton aceitou a petição, oferecendo, através de uma versão não secreta de sua opinião, uma repreensão devastadora do caso do governo contra Slahi:

"O problema é que as provas do governo de que [Slahi] deu material para apoiar o terrorismo são tão atenuadas ou manchadas pela coerção e pelos maus-tratos, ou secretas, que não podem apoiar um processo criminal de sucesso. No entanto, o governo quer manter Slahi preso indefinidamente, temendo que ele possa renovar seu juramento à Al-Qaeda e se tornar um terrorista depois de solto.
[...]
Mas um tribunal de habeas não pode permitir que um homem seja mantido preso indefinidamente por uma suspeita, ou porque o governo prevê que ele possa cometer atos criminosos no futuro – um tribunal de habeas pode confiar em sua previsão de que um homem não será perigoso no futuro e ordenar sua soltura se ele foi detido injustamente em primeiro lugar."

Apesar da ordem de liberação concedida a Slahi, a administração Obama – sob pressão de membros do Congresso que citavam o ato defasado das comissões do 11 de Setembro e retratavam Slahi como um arquiteto do ataque terrorista – apelou imediatamente da decisão.

A sorte limitada de Slahi logo acabou. Para decidir se o governo americano tinha demonstrado suficientemente que Slahi era parte da Al-Qaeda quando foi preso, o juiz Robertson usou uma fórmula de pertencimento que se resume a "se o indivíduo funciona ou participa dentro ou sob a estrutura de comando da organização – ou seja, se ele recebe e executa ordens e direções".

Mas o Tribunal de Apelação de DC concluiu que decisões subsequentes pertinentes a outros detidos "geravam sérias dúvidas" para essa fórmula e decidiu anular a decisão do tribunal distrital, devolvendo o caso de Slahi para apuração adicional de fatos.

"O circuito de tribunais de DC emitiu uma série de decisões, que, essencialmente, transformavam a revisão judicial de argumentos de detenção pelo governo num carimbo desses argumentos", disse Hina Shamsi, diretora do Projeto de Segurança Nacional da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU). "Essas decisões dão deferência excessiva aos padrões de detenção demasiado vagos e reivindicações de provas do governo, e isso é parte do que aconteceu aqui."

O governo desde então apresentou uma moção pedindo "julgamento em registro limitado", o que poderia significar que o caso de Slahi teria de ser decidido apenas com os documentos que eles liberassem. Os advogados de Slahi se opuseram à moção, e o juiz do caso ainda não tomou nenhuma decisão.

"Nos 13 anos em que ele está detido, passamos por uma única audiência independente; e, como conclusão dessa audiência, o governo dos EUA ordenou a soltura do Sr. Slahi", destacou Theresa Duncan, um dos advogados pro bono de Slahi. "O juiz Robertson passou por quatro dias de audiência, leu milhares de páginas de documentos – a maioria deles, fornecidos pelo governo – e, tendo considerado todas essas evidências, ordenou a soltura de Mohamedou", ela continuou. "Para mim, esse é o desenvolvimento mais significativo no caso."

3. O Best Seller

A capa de Guantánamo Diary, escrito por Slahi e editado por Larry Siems.

Produzido inicialmente em parcelas manuscritas durante 2005, cada seção do diário de 466 páginas de Slahi foi confiscada pelo governo dos EUA logo depois de escrita. O manuscrito ficou anos numa instalação de segurança perto de Washington, onde, de acordo com Larry Siems, o editor do livro, o calhamaço foi "carimbado como 'SECRETO', um nível de segurança para informação que pode causar danos graves à segurança nacional se tornada pública, e 'NOFORN', significando que isso não pode ser compartilhado com nações ou serviços de inteligência estrangeiros".

Foram seis anos de litígio e negociação entre os advogados do detido e o governo para permitir a publicação do manuscrito, uma conquista que, de acordo com Slahi, representa uma pequena vitória em si.

"Guantánamo é um lugar tão isolador que tirar apenas a história de lá já é significativo em si", disse Duncan, parte do time legal que encorajou Slahi a escrever sua história.

Muitos dos detalhes angustiantes da jornada de Slahi – as execuções fingidas, os meses em isolamento, o abuso sexual, as ameaças de que sua mãe seria estuprada na cadeia – eram públicos há anos, mas estavam enterrados em notas de rodapé e camuflados em linguagem codificada de documentos públicos.

E, mesmo que Slahi reconte muitas dessas cenas, Guantánamo Diary não é apenas um trabalho desafiador de documentação. Depois de anos lutando para entender as torturas e as forças geopolíticas, econômicas e espirituais que o levaram até ali, Slahi pede aos cidadãos do país que o detém indefinidamente para considerarem a crueldade e a estranheza de sua situação. "O que o povo americano acha?", pergunta Slahi. "Estou ansioso para saber."

Guantánamo é um lugar tão isolador que tirar apenas a história de lá já é significativo em si. – Theresa Duncan

No diário, Slahi tira inspiração de pequenos atos de bondade em meio à brutalidade do sistema. "Quando conheci melhor [CENSURADO] e o ouvi falar, fiquei pensando: como um homem tão inteligente pôde aceitar um trabalho tão degradante, que, com certeza, vai assombrá-lo para o resto da vida?", escreve Slahi sobre um dos guardas mais jovens. "Talvez ele tenha tido poucas escolhas, já que muitas pessoas do exército vêm de famílias pobres, e, por isso, o exército, às vezes, dá a essas pessoas os empregos mais sujos." (Slahi acaba concluindo que o guarda obedece ordens desumanas, porque tem de pensar em seu próprio bem-estar.)

Guantánamo Diary examina a condição humana com uma consideração digna do livro Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl. Outras passagens sugerem uma sensibilidade para os detalhes da cultura, as relações de raça e o governo dos EUA que lembram Alexis de Tocqueville. Que Slahi tenha tirado isso do confinamento escuro e psicologicamente perturbador de GTMO torna Guantánamo Diary ainda mais profundo.

A família de Slahi mostra as cartas que ele enviou para casa. Foto pelo autor.

Acredita-se que Slahi tenha esgotado qualquer utilidade que poderia ter para o governo americano. De acordo com uma reportagem de 2010 de Peter Finn para o Washington Post, ele leva uma vida de "relativo privilégio" junto a outro detento, Tariq al Sawah. Cada um tem seu próprio quarto, TV a cabo e uma geladeira cheia. Seu alojamento cercado inclui um jardim, onde eles cultivam hortelã para fazer chá.

Os advogados de Slahi criticam a descrição das condições de vida de Slahi citadas acima. "Não tenho permissão para comentar as condições de seu confinamento, mas posso dizer que Mohamedou está numa prisão", disse Duncan, que visitou Slahi mês passado. "Seus movimentos são controlados pelo exército americano. Então, a sugestão de que ele está vivendo uma vida de luxo em Guantánamo é completamente infundada. Ele é um prisioneiro numa prisão, e ninguém que conheço iria querer viver nas condições em que ele vive."

Enquanto isso, sua família e amigos na Mauritânia esperam por alguma coisa semelhante a justiça, apesar dos anos de alarmes falsos e recuos desoladores.

"Tínhamos tanta esperança com Obama, mas, infelizmente, fomos todos enganados", lamentou Nabagha, em seu escritório na Mauritânia. "Achamos que Obama faria mudanças radicais em se tratando de direitos humanos."

"Quando o World Trade Center caiu, fiquei chocado", ele continuou. "Os americanos ficaram feridos e com medo. É normal que eles cometessem erros. Mas, 13 anos depois, isso não é normal. Isso não se justifica."

"Os ex-procuradores militares de Guantánamo afirmaram repetidas vezes que Mohamedou nunca esteve implicado em nenhuma conspiração terrorista", aponta Shamsi, que também trabalha como advogada da ACLU no caso de Slahi. "O caso do governo contra ele é essencialmente de culpa por uma associação muito antiga, não por uma real má conduta."

Não consigo acreditar, mas é verdade", Yahdih me disse por telefone. "Ele gosta da cultura americana, ele gosta da língua inglesa.

Enquanto o caso de Slahi se arrasta pela justiça americana, seus advogados veem dois possíveis caminhos para a libertação. Um Conselho de Revisão Periódico pode libertá-lo se decidir que ele não representa ameaça para os EUA. O segundo caminho, mais difícil, seria se o governo parasse de contestar o habeas corpus que garante sua libertação, um resultado extraordinário neste ponto.

O governo da Mauritânia afirmou em várias ocasiões que o receberia de volta, mas, de sua parte, Slahi falou a seu irmão Yahdih, um cidadão alemão que vive em Düsseldorf, que gostaria de ser mandado para os EUA. "Não consigo acreditar, mas é verdade", Yahdih me disse por telefone. "Ele gosta da cultura americana, ele gosta da língua inglesa."

Mas Yahdih logo esclareceu que Mohamedou estaria disposto a ir a qualquer lugar fora de Guantánamo. "Só podemos esperar que essa catástrofe acabe", ponderou Jemal, que segue os conselhos do tio e está aprendendo inglês e estudando matemática.

Eu gostaria de acreditar que a maioria dos americanos quer ver a justiça feita e não está interessada em financiar a detenção de um inocente.

A mãe de Slahi, Elwadia, morreu em 2013, com suas orações para ver o filho de novo, pelo menos neste mundo, nunca atendidas. Mas, como o próprio Slahi, a família e seus amigos têm uma admiração surpreendente pelos americanos e pelos processos legais dos EUA.

"Adoramos os advogados americanos. Eles dão seu tempo e dinheiro para defenderem alguém que não conhecem", elogiou Jemal. "São pessoas que respeitam os direitos humanos e que representam o melhor do povo americano. Temos muito respeito por eles."

O aspecto mais marcante de Guantánamo Diary talvez seja a extensão da crença de Slahi na bondade inerente do povo americano. Sua fé no sistema de justiça contrasta com a visão de políticos como Tom Cotton, que, numa polêmica audiência do Comitê dos Serviços Armados no Senado no mês passado, disse que todos os detentos de Guantánamo "podiam apodrecer no inferno". Ou a dos colegas republicanos de Cotton, Kelly Ayotte, John McCain, Richard Burr e Lindsey Graham, que propuseram recentemente uma nova legislação para suspender as transferências e impediram o fechamento de Guantánamo.

"Eu gostaria de acreditar que a maioria dos americanos quer ver a justiça feita e não está interessada em financiar a detenção de um inocente", escreveu Slahi antes de datar as páginas finais de Guantánamo Diary.

"Eu sei que existe uma minoria extremista que acredita que todo mundo nesta prisão cubana é mau e que somos mais bem tratados do que merecemos. Mas essa opinião se baseia apenas na ignorância. Fico impressionado que as pessoas consigam construir uma opinião tão incriminadora sobre alguém que nunca conheceram."

Peter Tinti é um jornalista independente. Ele já escreveu para o Foreign Policy, New York Times, Wall Street Journal e muitas outras publicações. Siga-o no Twitter.

Tradução: Marina Schnoor