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Ideias de Ficção Científica

Pulemos para 2042 em Nova Iorque. É o pano de fundo da metanarrativa do poeta e romancista Tao Lin sobre histórias futuristas.

por Tao Lin
20 Maio 2015, 10:00am

Definir ficção científica nunca foi fácil. Não é uma categoria quadrada; é um impulso que se manifesta de forma diferente em cada escritor. Um dos nossos objetivos no Terraform é encorajar mais escritores — e não só os versados no gênero — a seguir seus impulsos. Os resultados desse experimento entre gêneros podem ser surpreendentes, como é o caso desta fatia mundana e ébria do futuro daqui a 30 anos. —Os Editores.


Era outubro de 2042, e Lydia estava tentando lembrar se um dia soube, com toda certeza, quem veio antes, o ovo ou a galinha. A resposta sempre fugia dela, e o fato de que não fugia de outras pessoas fazia Lydia se sentir sozinha. Mas talvez escapasse das outras pessoas também; ou talvez não as incomodasse tanto ou sequer as interessasse, o que também a fazia se sentir sozinha, embora ela admitisse nunca ter sido muito perturbada ou interessada pelo paradoxo, nada que durasse muitos segundos, para falar a verdade. Então, pensou ela, talvez se sentisse sozinha pela razão oposta.

Ela não dava a mínima para quem veio antes, o ovo ou a galinha. Costumava até evitar questões assim. Suas reflexões naquele momento, percebeu, eram prova de que não se importava: ela estava considerando questões irrelevantes à origem de ovos e galinhas — e não estava considerando tais questões de maneira distraída, acontece que ela estava pensando em outras coisas; distraiu-se por explorar demais. De imediato, ela começou a pensar em como se sentia sozinha, e percebeu o fluxo de consciência, entretida. Ela havia se identificado com a sensação logo de cara.

Uma camada de distrações separava seus pensamentos atuais dos seus pensamentos acerca de ovos e galinhas, assim como a realidade concreta se sobrepõe à camada da imaginação, que por sua vez se sobrepõe a uma camada que não conseguimos acessar além da imaginação, que se separa da realidade concreta por apenas uma camada (a imaginação).

Ela intuiu que sua pergunta não foi "quem veio primeiro, o ovo ou a galinha" mas "será que eu já soube quem veio primeiro" e, aos poucos, se perdeu em pensamentos. Com calma, ela passou a prestar atenção no ambiente físico ao seu redor, recobrando a consciência do mesmo jeito e do jeito oposto que se desorientou.

"Você já se perdeu na imaginação?", perguntou Bern, que estava sentado com ela numa pedra, no Central Park, à luz do sol.

Lydia estava encarando um pássaro branco e pescoçudo que voava sobre a água.

"Sabe quando as pessoas perdem noção do que está acontecendo ao redor?", prosseguiu ele. "Hoje cedo me perdi em pensamentos. Foi engraçado", acrescentou, nervoso. Por que Lydia estava em silêncio? O que ela estava pensando? "Foi... engraçado", disse Bern, "ainda que incoerente", pensou. "Não foi engraçado", pensou. "Espera, foi engraçado, foi engraçado sim", disse ele, e começou a rir, embora continuasse a se sentir sozinho e sombrio por dentro.

"É engraçado", disse Lydia num tom monótono, embora achasse que a pergunta de Bern ou as ações dele ou qualquer coisa que ele fez ali parecessem engraçadas mesmo. Ela se sentia cansada e desanimada. Não era culpa do Bern, mas ela também não se importaria caso ele se sentisse culpado (além disso, ela atentou para o fato de que também não necessariamente lavaria as mãos caso Bern se sentisse culpado; e por conveniência, depois de considerar todas as variáveis, queria se importar, concluiu enquanto, em outra camada, pensava: "caralho, pára de pensar nisso").

"Foi engraçado mesmo", disse Bern alguns segundos depois, quando parou de rir. "Quer ouvir algumas ideias minhas para filmes ou livros de ficção científica?"

"Pode ser", disse Lydia.

"Uma espécie de vida ativa em 9 dimensões, que vê os humanos da mesma maneira que enxergamos coisas como 'a matéria desordenada dentro de uma simulação computacional do universo'. Mas diferente. Eles percebem que quase formamos uma unicidade — temos apenas 2 questões, sendo elas por que existe matéria desordenada e por que existe matéria ordenada. Essa espécie é ativa em 6 dimensões, então tem pelo menos 5 questões a mais que nós", disse Bern. "Então, essa é uma ideia."

Lydia fez um barulho, indicando, segundo Bern analisou ("meio neurótico", ele sentiu), algo como "entendi, próxima ideia, obrigada" ou talvez "percebi que ele parou de falar e me lembro vagamente dele mencionar que queria me contar uma série de coisas, então acho que ele acabou, então devo fazer um barulho para ele pensar 'ela me escutou' e sentir que deve continuar falando."

"Outra ideia... é... hm. Se passa em 2080", disse Bern num tom de voz diferente do normal. "Pais estabelecem uma mitologia vazia a favor do nomadismo — e implementam certa tecnologia ou algo restritivo do tipo — para crianças de 3 anos, uma geração de crianças de 3 anos. Eles manipulam o mundo para que só existam crianças de 3 anos e acabam com suas próprias vida voluntariamente, para que uma nova geração de humanos possa crescer sem agricultura ou outros 'cânceres' quaisquer que temos hoje. Mas... as crianças crescem, e correm boatos de que alguns de seus "criadores" estão vivos. A história poderia ser contada da perspectiva de um pai que discordava do plano insano de reiniciar a humanidade, um pai que não se suicidou, e talvez termine com um motim de crianças de 3 anos contra uma terceira força. Poderia ser um elemento absurdo, essa força."

"Legal", disse Lydia depois de alguns segundos. "Posso compartilhar uma agora?" Ela tentou improvisar. "Se passa em 2088. Sinto que alguém está encarando minha nuca de uma distância enorme, de outra galáxia, usando um telescópio potente. Sinto que meu rosto está seguro. Talvez eu esteja sempre me movendo numa única direção, então permaneço escondida de seja lá quem for que está esperando eu virar o rosto. Será possível ver um rosto por trás?" Ela estava falando devagar, mais devagar que o normal, mas estava impressionada e surpresa com o que tinha acabado de dizer, embora não se sentisse contente com a história nem achasse que houvesse algo de bom nela.

Bern estava encantado por Lydia ter recitado um excerto de uma ideia para um livro. Ou talvez fosse um poema em prosa. Mas ela perguntou "posso compartilhar uma agora?", o que indicava que compartilharia algo semelhante ao que Bern compartilhara. Bern compartilhou ideias, conforme ele imaginou ter dito, de romances ou filmes de ficção científica. Ou talvez livros ou filmes. Ele sabia que não havia dito "poemas em prosa". Bern pensou e sentiu tudo que foi descrito neste parágrafo, e também pensou em outras coisas, enquanto Lydia contava sua ideia.

"Você já imaginou, tipo", disse Bern vagarosamente, com vergonha de si. Ele percebeu que não queria dizer o que estava prestes a dizer, e não tinha mais certeza se deveria dizer ou se poderia dizer de outra forma, de alguma maneira que o deixasse contente por ter dito. Resolveu dizer. "Desembucha", pensou num tom monótono e desgastado, e sentiu-se distraído pelo que parecia ser parte de si "blindada", pronta para gerar tédio ou autocomiseração. Tanto ele quanto Lydia ficariam entediados agora, graças a ele. Sim, ele estava focado em parecer criativo e se interessar pelo que ela dizia, em dizer algo que surpreendesse, que interessasse e não entediasse, mas em vez disso, ele só conseguia pensar no que estava pensando sobre aquele momento. "O que estou pensando", pensou ele, sabendo que já tivera o mesmo pensamento em outras situações, pelo menos uma dúzia de vezes, estimou. Talvez centenas de vezes. "Você já imaginou, tipo", repetiu, sentindo que estava procrastinando mais ainda, embora já tivesse decidido o que iria fazer.

"Você já imaginou este mundo como um mundo de ficção científica?", perguntou Bern. "Digo, como um filme ou livro de ficção científica que gostamos. Você já tentou imaginar este mundo de uma perspectiva, tipo, do ano 1990, a partir de outro mundo? Por exemplo, aplique a admiração e o interesse que você sente pelo mundo, digamos, de O Fim da Infância, que eu sei que você leu, ou E.T. ou outra obra qualquer, esses não são bons exemplos, mas qualquer filme de ficção científica ou fantasia que deixa você admirada ou interessada enquanto está imersa neste mundo. Talvez eu esteja falando mais de fantasia." Bern observou as ondulações da água da superfície do lago e desfocou os olhos. As ondulações do lago pareciam pulsar e distender, tornando-se, naquele momento, globos prateados. "DMT", ele pensou.

Lydia estava em silêncio.

Bern encarava um pássaro. Se ele tivesse que adivinhar, diria que era um pato, mas ele acreditava que patos não viviam na América do Norte, embora isso não pudesse ser verdade — não, não era verdade.

"Vivemos num mundo em que todos trabalham numa fábrica, vendendo a mente para o governo local, um mundo que acredita que a melhor solução para o problema da existência de milhões de robôs autossuficientes que causam destruições colossais em nome da 'arte' é alugar a mente para um grupo alheio de robôs não-artísticos, para angariar fundos e descobrir o que fazer acerca do apocalipse iminente. Robôs de inteligência artificial passaram a se interessar por arte e alguns, naturalmente, ficaram com vontade de se aplicar em artes performáticas, expandindo as performances para outros meios de arte. Um meio consiste em ser cruel e fazer coisas absurdas com as mentes e vidas dos seres humanos", disse Lydia, e pausou por alguns segundos. "E eu sou o 4o indivíduo, entre os 9 exigidos para reprodução, da unidade-grupo-40392-9298-jn, e você é o 8o, e não nos conhecemos muito bem, não sei por quê, mesmo depois de termos 4 filhos juntos", acrescentou.

"Se eu fosse mais feliz, isso talvez soasse mais fascinante e interessante, 'se eu fosse mais feliz'", pensou Bern depois de alguns segundos após uma distração leve e fugaz.


Esta remessa é parte da seção Terraform, nosso lar online para ficção futurística. Arte por Koren Shadmi.

Tradução: Stephanie Fernandes