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'Pokémon Go' é o prenúncio de como a realidade aumentada mudará nossas cidades

Será possível vender, alugar ou compartilhar os direitos digitais de uma casa, jardim ou lobby? Poderemos cobrar uma taxa ou comissão por uso virtual?

por Geoff Manaugh
15 Agosto 2016, 6:07pm

Foto alterada de um jardim de casa americana, via Wikipédia.

Pokémon Go, o viciante joguinho que sobrepõe o mundo físico a uma mistureba de criaturas exóticas em realidade aumentada, pode catalisar uma nova forma de zoneamento urbano. Antes que você faça uma careta, vamos aos fatos.

Na semana passada, a Comissão Nacional de Telecomunicações da Tailândia anunciou que tentará restringir o zoneamento do jogoapós diversas reclamações de cidadãos que se sentem incomodados por jogadores.

Segundo o jornal Manager, o grupo espera trabalhar em parceria com os detentores do jogo "para restringir as localizações das Pokéstops, visto que muitas pessoas apresentaram queixas no site da comissão, por jogadores que invadem gabinetes públicos e hospitais para pegar os monstros digitais".

O bloqueio começaria com os postos de serviços de segurança nacional. Todos, dizem, seriam removidos do campo de jogo. Não é difícil imaginar, porém, cidadãos aproveitando sua influência política para determinar que casas — e mesmo que ruas ou bairros — sejam inseridas nessas "zonas sem game". Funcionariam como cercas virtuais na forma de planejamento urbano.

Veja só este exemplo da Inglaterra. Conforme o BuzzFeed informou dias atrás, "uma pessoa ficou tão perturbada por desconhecidos roderarem sua casa que forçou um membro do parlamento a intervir". Aparentemente, alguns personagens virtuais do jogo já apareceram dentro dos limites de sua propriedade e isso "tem atraído pessoas de tudo quanto é canto, dispostas a caçar e duelar". Ao que tudo indica, o parlamentar envolvido pretende estabelecer uma espécie de mecanismo legal para impedir que habitantes virtuais indesejados pipoquem em sua propriedade.

Treinadores Pokémon em um parque. Créditos: Flickr / Travis Wise

Enquanto isso, nos Estados Unidos, um morador de Nova Jersey também foi agraciado com as visitas pixeladas. Conforme Kashmir Hill escreveu para a revista Fusion, tantas pessoas apareceram na casa do homem com smartphones em mãos caçando Pokémons que agora ele processa os criadores do jogo por gerar incômodo e se enriquecer injustamente usando seu quintal como habitat virtual das criaturas caricaturais. De certo modo, os designers do game estão operando um negócio ilegal — ainda que virtual — em sua propriedade.

Será possível vender, alugar ou compartilhar os direitos digitais de uma casa, jardim ou lobby? Poderemos cobrar uma taxa ou comissão por uso virtual?

A queixa do morador de Nova Jersey alega que ele "percebeu a presença de pessoas estranhas em peso do lado de fora de sua casa, segurando telefones celulares como se estivessem batendo fotos". Mais: "pelo menos cinco indivíduos bateram à porta do Reclamante, informaram que havia um Pokémon em seu quintal e pediram para acessá-lo para 'capturar' o Pokémon".

Invasão, atividades comerciais sem autorização, ocupações ilegais e até mesmo roubos domésticos, tudo isso ocasionou um desafio fascinante para os limities dos direitos de propriedade privada.

É uma "novidade e tanto em ações judiciais", escreveu Hill, referindo-se especificamente ao caso de Nova Jersey. "É risível, por um lado, mas levanta questões interessantes acerca de quem detém o espaço de realidade aumentada sobreposto às propriedades do mundo real. Quando alguém tem um terreno próprio, lida com limites de altura e profundidade da construção. Uma nova variável seria a extensão dessa nova dimensão, a realidade aumentada."

Para Hill, isso levanta uma série de questões relacionadas: "se a realidade aumentada pegar mesmo, e a sobreposição do mundo da internet ao nosso ambiente real se tornar comum, quais serão as leis de uso do espaço aumentado? Será permitido colocar um outdoor na frente das nossas casas ou isso exigirá autorização?"

Ainda nessa linha de raciocínio, questiono: será possível vender, alugar ou compartilhar os direitos digitais de uma casa, jardim ou lobby? Poderemos cobrar uma taxa ou comissão por uso virtual?

"Tentamos descobrir se algum monstrinho estava escondido entre as paredes da própria redação do L.A. Times." Vídeo via o jornal L.A. Times

Um tempo atrás, houve uma análise das leis de zoneamento do Reino Unido para tentar entender até que ponto cidadãos comuns podem utilizar ou mesmo transformar bens imóveis privados. O que cabe ao estado regular — isto é, o que as leis de zoneamento podem controlar — e o que o proprietário comanda? E em termos digitais?

Os exemplos de Pokémon Go implicam são assustadores, eu diria. Imagine se uma empresa de entretenimento digital ganha acesso legal de fato a nossos quintais, carros, varandas, estabelecimentos comerciais, e passa a poder usar qualquer um desses lugares como plataforma de atividade econômica?

Adoraria ler uma decisão da Suprema Corte — e as discórdias! — sobre o caso, instituindo um limite ao direito à propriedade privada digital, determinando onde começam e terminam os domicílios ou até que ponto temos o direito de ocupar o espaço de terceiros com realidades aumentadas e intrusões.

O bairro Skid Row, em Los Angeles. Imagem via Wikipédia

Em suma, isso pode ter implicações de grandes roporções urbanas.

Conforme o portal Curbed LA observou semana passada, Los Angeles "tem uma baita coleção de Poké-criaturas variadas e incomuns", o que significa que, "a qualquer momento, a cidade pode ser tomada por Poké-turistas", pessoas de diversos contextos geográficos querendo capturar alvos de valor.

O Pokémon Go sumirá da memória coletiva em breve, claro, mas é certo que será substituído por outros jogos de realidade aumentada que também dependerão de locais (abre e fecha aspas) físicos reais para determinar o valor estratégico das ações dos jogadores.

Até que ponto entidades urbanas como Los Angeles tentarão colaborar com, ou até financiar diretamente habitantes virtuais — marcos virtuais, sítios históricos virtuais? Que regulamentações se aplicarão a isso?

Por fim, se — qualquer pessoa que tenha lido Nova York Delirante ou conheça o trabalho de Hugh Ferriss já sabe — as cidades são moldadas por leis de zoneamento, como será o zoneamento virtual ou digital delas? O que será dos ambientes urbanos daqui para frente?

Fica a pergunta de Kashmir Hill: "Até que ponto os direitos de propriedade cobrem essa nova dimensão, a realidade aumentada?"

Esta história foi originalmente publicada no BLDGBLOG. Geoff também é autor do livro A Burglar's Guide To The City [Guia da Cidade Para Ladrões].

Tradução: Stephanie Fernandes