Camille Paglia discute o feminismo contemporâneo

Numa entrevista sobre sua nova coleção de ensaios, a professora fala sobre o fracasso do feminismo nas universidades norte-americanas e explica por que os homens merecem mais crédito.

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mar 24 2017, 10:00am

Foto no topo: Michael Lionstar, cortesia Pantheon Books.

Esta entrevista foi originalmente publicada no Broadly.

Por cinco anos, a professora de história da arte e controversa feminista Camille Paglia permaneceu em silêncio — pelo menos se levarmos em conta os padrões que ela estabeleceu nos anos 90, quando gerou polêmica questionando a existência de date rape e louvando Madonna como "o futuro do feminismo". Durante a era Obama, Paglia publicou um livro com ensaios que ocasionalmente viralizavam, como a história de capa para o Sunday Times sobre como Rihanna é a nova Lady Di. Na maior parte do tempo, ela dá aulas na Universidade de Artes e estuda artefatos de tribos nativas norte-americanas que viveram no sudeste da Pensilvânia 10 mil anos atrás. Paglia, agora, está de volta com um novo livro, Free Women, Free Men: Sex, Gender, and Feminism, uma coleção de seus textos que mais fizeram sucesso falando sobre gênero, sexo e feminismo de 1990 a 2016.

A coleção — um tomo de 700 páginas —, inclui Sexual Personae, um ensaio sobre Nefertiti de 1990, uma palestra de 2014 sobre a força das mulheres do Sul dos EUA, e uma ode a Real Housewives, além de vários ensaios sobre a diminuição da liberdade de expressão nos campi do país. No livro, Paglia lamenta como o movimento feminista mainstream gira em torno de mulheres brancas com educação superior e esquece as mulheres de classe trabalhadora — e homens, como trabalhadores do saneamento que ela acredita não receberem crédito suficiente por seu trabalho perigoso. (Mais sobre isso adiante.) Juntos, os ensaios argumentam que para as mulheres serem livres, os homens precisam ser livres também.

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O timing de Paglia não podia ser melhor. Nos últimos dois anos, ela se tornou uma influência recorrente de algumas das figuras mais divisivas da internet. A provocadora Cat Marnell citou a feminista pró-sexo dos anos 90 como inspiração para seu best-seller aclamado pela crítica How to Murder Your Life, enquanto Milo Yiannopoulos e seu antigo empregador Breitbart citavam regularmente Paglia para justificar suas opiniões. Paglia, claro, sempre rejeitou críticas que a rotulavam como conservadora. Por e-mail, ela se recusou a discutir Breitbart e vários outros tópicos, incluindo Kim Kardashian, dizendo que não tinha tempo para isso. Semana passada, ela disse ao Metro Weekly: "Não tenho prestado nenhuma atenção em [Yiannopoulos] particularmente", e num episódio de 2012 de Watch What Happens Live with Andy Cohen, ela chamou Kim Kardashian de "clichê".

Grande parte de Free Women, Free Men passa longe do clichê. Os ensaios são polêmicos, provocadores, enraivecedores e corajosos. E hoje parecem prever o futuro, como Molly Fischer escreveu num perfil da autora para a revista New York. Antes que o presidente Donald Trump empurrasse a nação para debates sobre como os liberais esqueceram a classe trabalhadora branca norte-americana do Meio Oeste e Sul, os fracassos do feminismo contemporâneo, e liberdade de expressão nas universidades (por exemplo: estudantes do Middlebury College fazendo protestos violentos contra uma palestra do polêmico autor Charles Murray no campus semana passada), Paglia já discutia todos esses tópicos. Concordando ou não com ela (e muitas pessoas têm argumentos fortes discordando), Paglia sempre entendeu o país enquanto outros especialistas não entendiam.

Numa entrevista por e-mail, a escritora e professora falou sobre o novo livro, seus sucessos e fracassos, e como o Village People honra os homens da classe trabalhadora. Esta entrevista foi editada e condensada para melhor compreensão.

VICE: Seu livro se chama Free Women, Free Men. Por que você acredita que os homens precisam ser livres para que as mulheres sejam livres?
Camille Paglia: Minha principal inspiração desde a adolescência são as décadas emocionantes de 1920 e 1930, depois que as mulheres norte-americanas ganharam o direito de votar nos anos 20. Eram tantas figuras femininas entrando nas profissões — como meus ídolos Amelia Earhart e Katharine Hepburn, que estavam determinadas a mostrar que as mulheres podiam atingir o mesmo nível que os homens. As mulheres ousadas daquele período não insultavam ou denegriam os homens. Elas admiravam o que eles tinham feito e simplesmente exigiam a oportunidade de mostrar que as mulheres podiam se igualar a eles ou superá-los. Uma das minhas querelas persistentes com a segunda onda do feminismo é como insultar os homens se tornou o padrão desde o começo. Movimentos sempre atraem fanáticos ou pessoas com personalidades borderline, e foi exatamente isso que aconteceu. Muitas mulheres problemáticas amarguradas com homens tomaram o discurso feminista. Kate Millett era um bom exemplo disso — sua vida foi uma série de crises mentais e hospitalizações.

O que estou dizendo em Free Women, Free Men é que as mulheres nunca serão verdadeiramente livres se não deixarem os homens serem livres — o que quer dizer que os homens devem ter o direito de determinar suas próprias identidades, interesses e paixões, sem a vigilância intrusiva e censura das mulheres com sua própria agenda política. Por exemplo, se há um Centro das Mulheres oficial na Universidade de Yale (que existe mesmo), deveria haver um Centro dos Homens também — e os homens de Yale deveriam ser livres para fazer e dizer o que quisessem lá, sem gente bisbilhoteira pronta para denunciá-los ao escritório totalitário de assédio sexual.

A escritora Camille Paglia posando ao lado de mictórios num banheiro masculino. (Foto por Mario Ruiz/The LIFE Images Collection/Getty Images.)

O livro argumenta que os homens da classe trabalhadora são ignorados. Como a sociedade tem ignorado as contribuições deles?
Fico indignada com mulheres mimadas, afluentes e de classe média alta cuspindo cronicamente retórica feminista anti-homens, enquanto continuam cegas ao trabalho e sacrifício constante ao redor delas, trabalho de homens de classe trabalhadora que continuam criando e mantendo as fabulosas infraestruturas que tornam a vida moderna possível no mundo ocidental. Apenas uma pequena porcentagem de mulheres quer entrar nas indústrias nas quais o trabalho físico pesado realmente acontece — encanamento, eletricidade, construção. As mulheres não tiveram virtualmente nenhum papel em erguer essas torres magníficas em cada grande cidade do mundo. São os homens que operam os guindastes, deitam as fundações ou lavam janelas no 85º andar. São homens que se levantam às 2 da manhã durante uma tempestade de gelo para restaurar a energia nos bairros onde árvores caíram e derrubaram as fiações. São os homens que misturam e espalham alcatrão fétido quente nos tetos das cidades. Ano passado, numa cidade próxima, passei de carro por uma cena caótica: trabalhadores em macacões de proteção lutavam contra um gigantesco cano quebrado, com esgoto puro vazando pela rua. Claro que todos aqueles trabalhadores que estavam até o joelho na água marrom eram homens! Já vi números indicando que 92% das pessoas mortas no trabalho são homens — e precisamente porque os homens estão heroicamente fazendo a maioria dos trabalhos perigosos na sociedade moderna. A cegueira burguesa das líderes feministas ao trabalho de baixo escalão dos homens é moralmente corrupta! Os homens gays, por outro lado, sempre mostraram sua admiração com a masculinidade e força da classe trabalhadora. Não é coincidência que um pedreiro musculoso de capacete era um dos personagens icônicos do grupo disco The Village People durante a era do Studio 54!

O que o feminismo poderia aprender com as mulheres do campo?
"Mulheres do Sul: Velhos Mitos e Novas Fronteiras", uma palestra que dei na Universidade do Mississippi em 2014, foi publicada pela primeira vez nesse novo livro. Foco em três estereótipos do Sul dos EUA: a velha mulher da montanha, a mãe e a bela do Sul. Um dos temas recorrentes do livro são os pressupostos excessivamente burgueses ou classe média branca de muito do pensamento feminista hoje. Por exemplo, acho Sheryl Sandberg, do Facebook, insuportavelmente presunçosa e metida. Acho que o best-seller dela, Lean In, foi desonesto em não reconhecer como o estilo de vida de executivas como ela depende de um exército de empregadas e babás, que ela cuidadosamente manteve invisíveis. Argumento que as mulheres do campo da era agrária eram física e mentalmente mais fortes que as carreiristas do feminismo de hoje, que fazem pilates e aulas de spinning em academias caras. Mulheres do campo tinham grandes vozes e grandes atitudes — algo que observei por mim mesma quando criança. As idosas italianas, frequentemente viúvas usando preto, eram duronas e destemidas. Você não devia ficar no caminho delas ou seria derrubado — ou elas te derrotavam com uma voz que poderia quebrar paredes! Uma das minhas cenas favoritas de todos os tempos é o primeiro momento em que vemos Hattie McDaniel como Mammy em E o Vento Levou: ela está com a cabeça para fora de uma janela no segundo andar, gritando com Scarlett — uma reprimenda no volume máximo. Isso me leva de volta para minha infância, porque era exatamente assim que as mulheres italianas do interior se comportavam, incluindo minha querida avó materna. A grande ironia é que muitas das garotas brancas privilegiadas de classe média hoje, nas escolas de elite, não conseguem se expressar assim nem para gerenciar sua vida amorosa. Elas correm para proxies em comitês dos campi para intervir por elas. Isso não é feminismo — é neurose e histeria.

Como os jovens devem preservar a liberdade de expressão?
Se levantem, falem, se recusem a ser silenciados! Mas identidade é a verdadeira fonte de opressão, que é algo incorporado na estrutura cada vez mais bizantina da educação superior. Vá contra o estado-babá das administrações universitárias, que te sujeitam a uma vigilância autoritária e controle de pensamento antidemocrático! Escrevi um alerta profético sobre isso no meu artigo de 1992 "A Corrupção das Humanas nos EUA", que foi publicado em Londres e reimpresso no meu novo livro. O avanço rápido e descontrolado dos administradores pagos em excesso nas universidades nos últimos 30 anos marginalizou o corpo docente, degradou a educação e converteu os estudantes em ferramentas de marketing. Os administradores estão trancados numa relação comercial mercenária com os pais que pagam as mensalidades, e numa simbiose coerciva com reguladores intrusivos do governo federal. Os jovens têm sido passivos demais sobre o grau em que suas vidas são controladas por comissários da engenharia social, que se alia ao liberalismo, mas cujas raízes estão nos autocratas stalinistas que desprezam e sufocam o individualismo. Não há desculpas para essa ascensão grotesca dos valores nas mensalidades universitárias, que têm falido famílias e imposto dívidas incapacitantes para estudantes que estão tentando começar a vida. Quando os jovens vão acordar para a ligação entre as dívidas rampantes dos estudantes e a repressão sancionada pela administração à liberdade de expressão nos campi? Siga o dinheiro — a estrada de tijolos amarelos que leva até uma nova classe de senhores administradores.

"A cegueira burguesa das líderes feministas ao trabalho de baixo escalão dos homens é moralmente corrupta!"

Em 1992, você disse a Daniel Richler que ia jogar o pós-estruturalismo "no mar". Você conseguiu?
Não consegui! Apesar de ter ajudado a derrubar Jacques Derrida e Jacques Lacan, o pós-estruturalismo centrado em Michel Foucault continuou a se espalhar como uma praga pelas universidades norte-americanas, e já chegou ao Brasil multirracial, que tinha um sistema sexual muito superior ao nosso. Em Free Women, Free Men, publiquei um artigo longo que escrevi em 2013 para The Chronicle of Higher Education, onde revisei três livros de jovens acadêmicas sobre novas tendências em bondage e dominação. Foi chocante encontrar tantas evidências atuais da tirania intolerável de professores pós-estruturalistas, sugando o sangue vital de jovens professores e escritores idealistas. Esse lixo elitista tem destruído as humanas. Pós-estruturalistas são falsos e ignorantes. Eles sabem tão pouco sobre história intelectual de alto nível que realmente acham que Foucault inventou a maioria das ideias pelas quais o saúdam. Ele era um ladrão que escondia suas fontes reais (como Emile Durkheim e Erving Goffman). Foucault era um jogador cínico que não sabia literalmente nada sobre qualquer período ou disciplina antes da Revolução Francesa. O exército de professores de humanas que caíram na conversa de Foucault são ingênuos de dar pena. Não dou a mínima para eles, mas eles deveriam ser punidos com escárnio e perda de reputação por sua destruição amoral da nova geração de acadêmicos.

No livro, você chama a si mesma de pornógrafa. Alguns dos pornógrafos mais influentes dos EUA, Hugh Hefner e Larry Flint, estão envelhecendo para a morte. Qual será o legado deles?
Apesar de estar no mapa cultural há décadas, Hugh Hefner foi um dos maiores pioneiros da revolução sexual, e a história vai honrá-lo de acordo. O rotular como um sexista antediluviano seria errado, porque ele estava à frente da redefinição de masculinidade no período após a Segunda Guerra Mundial. Revistas masculinas eram sobre caçar, pescar ou sobre guerra — tradicionais buscas masculinas. Hefner, um descendente de puritanos da Nova Inglaterra, projetou um modelo novo e sofisticado de masculinidade, um estilo europeu mais urbano. Ele mostrou que homens de verdade podiam apreciar roupas bem cortadas e aparelhos de som sofisticados, além de vinho, cozinha e sexo. Os EUA sempre foi um país prático, onde trabalho era uma religião. Hefner elevou o princípio do prazer — a Playboy não era apenas sobre sexo! Quanto a Larry Flint, sua importância na época foi sua celebração de um populismo de classe trabalhadora, com gostos e humor rudes, crus e quebrando tabus. Mas Flynt é apenas uma nota de rodapé da saga épica de Hefner.

Ao longo de sua carreira, você deu opiniões controversas sobre vários temas. Muitas pessoas não ousariam compartilhar opiniões assim por medo. O que assusta Camille Paglia?
Liberdade é meu valor principal. Por isso não aguento me sentir confinada ou presa — como em longas e demoradas filas de aeroporto. Tenho medo de ficar horas presa na pista, enquanto uma fila de 30 aviões atrasados pelo tempo espera para decolar. Sou uma motorista — amo meu carro, onde posso ser livre como vento! Viagens aéreas hoje são como ser pega num voo em massa para refugiados esfarrapados e de olhar vazio da Berlim destruída pela guerra.

Tradução: Marina Schnoor

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