Trato um câncer e fumo maconha pra amenizar os efeitos da quimio

Como foi migrar do uso recreativo pro medicinal depois de descobrir um câncer de mama aos 22 anos.

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24 maio 2017, 11:00am

Michelle Kaloussieh. Foto: acervo pessoal

Michelle Kaloussieh, 22, anos é jornalista e relatou como enfrenta um câncer de mama. Ela já retirou o tumor e se trata com quimioterapia. Abaixo, Michelle nos conta como a maconha ajuda a aliviar os efeitos do tratamento.


Sou uma jornalista de 22 anos passando pelo tratamento de um câncer de mama. É pra ficar chocado mesmo. Muita gente nem sabe que é possível ter o tal ' big C' com essa idade, mas a incidência da doença em mulheres com menos de 40 anos aumentou 2,6% entre 2010 e 2015, segundo dados do INCA (Instituto Nacional do Câncer).

Felizmente a chance de cura hoje é de 95% nos casos diagnosticados precocemente, como o meu, mas o tratamento continua cruel. Tão cruel que tem gente que chega a ter que interromper o tratamento por estar desnutrido. Não por conta do câncer, mas em decorrência da tão temida quimioterapia. O tratamento da doença tira o apetite, dá enjoo e ânsia, muita ânsia. Isso fora a lista extensa de outros efeitos colaterais.

Ainda assim, tenho usado um remédio milagroso durante o meu tratamento. Mesmo sendo ilegal no Brasil. Tô falando de maconha. De ganja. De beck. De Cannabis Sativa, para quem prefere termos científicos. Eu já era usuária recreativa da erva desde o primeiro ano da faculdade, e sabia dos seus vários usos terapêuticos, mas nunca tive coragem de militar pela maconha medicinal nas redes sociais com medo de ser julgada e pior, tomar bronca da mãe.

Minha família não sabia que eu fumava. Até descobrirem, no ano passado. Na época, lidaram da forma mais família tradicional brasileira: sem espaço pra conversa e com aquela chuva de clichês, como mencionar que a maconha "é a porta de entrada para outras drogas", "maconheiro não leva a faculdade a sério" e a chantagem emocional básica "o que você tá fazendo com a sua vida?".

Na primeira consulta com minha oncologista, quando soube que teria que fazer quimioterapia, perguntei o que achava sobre usar maconha durante o tratamento. Sem parecer surpresa, mas também sem mostrar muito entusiasmo, ela respondeu que eu podia usar, mas sem deixar de tentar resolver o problema com as opções de remédios disponíveis.

Boa parte do mundo já sabe que a cannabis tem sido usada com sucesso no tratamento da náusea induzida pela quimioterapia, e esse uso já está estabelecido na medicina. Em todos os países que legalizaram o uso da maconha medicinal, o tratamento da ânsia com a erva foi comprovado via testes clínicos, estudos e relatos de quem já passou pela experiência. Canadá, Chile, Uruguai, Israel e pelo menos 20 estados dos EUA são alguns exemplos.

Aqui no Brasil, ainda que o assunto esteja em pauta — até o Fantástico fez matéria sobre —, a legalização do cultivo pra uso medicinal da maconha anda a passos lentos. O que parece rolar é uma desburocratização do uso medicinal, com leis e resoluções que vão se sobrepondo umas às outras, sem uma mudança efetiva.

As duas principais substâncias derivadas da maconha são o THC (tetrahidrocanabinol) e o canabidiol (CBD). O mais polêmico é o THC, responsável pelo efeito psicoativo/barato/brisa/chapação da erva. E mesmo com a inclusão da Cannabis Sativa na lista de plantas medicinais da ANVISA, fumar maconha como parte do tratamento de uma doença ainda pode ser considerado ilegal no Brasil.

Falta um tanto para regulamentação efetiva da maconha medicinal no país. Somente em novembro de 2016, por exemplo, três famílias conseguiram autorização judicial para manter uma plantação doméstica e, a partir dela, produzir o medicamento feito à base de óleo de cannabis, importante composto no tratamento de surtos epiléticos.

A ação que vota a descriminalização da maconha no Brasil segue parada no Supremo Tribunal Federal. O ministro Teori Zavascki tinha pedido vista do caso, e depois de falecer o processo está nas mãos de Alexandre de Moraes, ministro substituto de Teori, que tem uma visão bastante conservadora sobre a guerra às drogas.

O enjoo que a quimio me deu não é um enjoozinho leve. É um enjoo que não passa. São ânsias de vômito uma atrás da outra. Daquelas que até dói de tanto fazer força na barriga. Já tomei inúmeros remédios para náuseas, que ajudam, claro, mas também têm seus efeitos colaterais, como um sono insuportável — o que torna meu dia totalmente improdutivo. Quero lembrar que minha oncologista está ciente do meu uso da maconha, e deixar claro que não abri mão desses remédios todos. Apenas passei a combinar a maconha a algum remédio permitido legalmente — o que, pra mim, tem sido bastante eficaz. Principalmente antes das refeições.

Outro efeito das 'gotinhas da cura' é a falta de apetite. Nos formulários que assinei antes de começar o tratamento, consta até anorexia como efeito colateral do medicamento.

A porcentagem de casos em que o paciente oncológico apresenta algum grau de desnutrição como efeito colateral da quimio chega a 66,4%, segundo IBRA-NUTRI (Inquérito Brasileiro de Avaliação Nutricional). Não é uma questão de estar sem fome e mesmo assim se forçar a comer. Quando sinto o cheiro de comida me dá ânsia. Pensei em comida? Ânsia. Comida favorita? Não consigo nem imaginar sem contrair os músculos da garganta.

Já tinha ouvido falar que beck ajudava, mas na primeira semana de tratamento, quando testei fumar, só conseguia pensar em quem não tinha nem ideia que dava pra passar por todo o processo da quimio de um jeito um pouco mais leve, com menos sofrimento.

Minha vida mudou bastante do ano passado pra cá. De universitária rolezeira que fumava maconha por diversão, me tornei a mina com câncer, faz quimio, careca. Mas, mesmo assim, continuo fumando maconha.

Até minha mãe quer que eu conte pro máximo de pessoas possível o que eu tô passando, pra que mais pessoas possam se beneficiar do uso da erva nesse momento tão foda que é a quimioterapia. Meu pai, imigrante libanês superconservador, agora me manda todo tipo de conteúdo que viraliza na internet sobre maconha medicinal: as freiras que cultivam, a mãe que mudou pro Colorado pro filho usar maconha, o vídeo do senhor com parkinson. Eles se desconstruíram. Pena que tanto eu quanto eles tivemos que precisar do uso medicinal para apoiar a causa e falar abertamente sobre o assunto.

Por isso, você, sendo usuário ou não, resta falar sobre o assunto no almoço de família. Não espere precisar da cannabis para apoiar a causa, porque muita gente, muita criança já precisa e não tem acesso.

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