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Jovens brasileiros tomam drogas desconhecidas

João Paulo Vicente

João Paulo Vicente

Enquanto a apreensão de sintéticos cai no país, o consumo aumenta e novas substâncias são encontradas regularmente.

A foto do topo foi originalmente publicada no Motherboard.

No carnaval do Michael Douglas, muita gente engoliu um José Mayer. Com o aumento da circulação de drogas sintéticas pelas ruas brasileiras, cresce a preocupação de cientistas e grupos de redução de danos com quais substâncias, de fato, estão presentes nos cristais, gotas, comprimidos e papéis que fazem a alegria — ou o terror — da galera. Para piorar, a rapaziada mais nova chegou voraz no rolê e não parece esquentar a cabeça com esse jogo de gatos e lebres.

"O MD foi o loló desse ano", diz Gabriel Pedroza, psicólogo e coordenador do ResPire, uma organização de redução de danos de São Paulo. "E o lança-perfume nasceu assim, no meio da classe média, um espaço que o MD está ocupando no país", conta. MD é como se chama o MDMA, do vernáculo metilenodioximetanfetamina. Nas ruas, virou sinônimo das substâncias consumidas em formato de mini cristais.

Leia também: "A silenciosa epidemia do lança-perfume no Brasil"

MDMA também se confunde com o Ecstasy, a bala. Na realidade, esta é uma droga híbrida composta originalmente pelo MD e anfetamina, mas que hoje traz praticamente qualquer coisa. O outro personagem dessa história é o LSD, o doce, disponível em líquido e cartões de papel, os blotters. Na mesma toada que o primeiro, o LSD virou menos uma substância alucinógena do que um nome para se vender uma variedade de fórmulas químicas psicoativas bem mais perigosas, como o grupo dos NBOMe.

Foto via Flickr

Grosso modo, o problema dessa história é que drogas bem sintetizadas são menos danosas do que as mal sintetizadas. "Drogas malfeitas não são específicas, encaixam em vários receptores de neurotransmissores diferentes como adrenalina, noradrenalina e dopamina e são mais neurotóxicas, enquanto o MDMA, por exemplo, interage mais especificamente com a serotonina, sendo um pouco menos danoso", explica Clarice Madruga, pesquisadora da pós-graduação em psicologia da Unifesp e colaboradora brasileira do Global Drug Survey.

A serotonina está ligada a uma sensação de saciedade, prazer, mas não é combustível para dançar doze horas seguidas. Por isso, o Ecstasy que embalou a acid house inglesa no segundo verão do amor, ali na virada dos anos 80 para os 90, também tinha anfetamina. O usuário nunca mais vai dormir? Michael Douglas puro não é o que ele tomou.

A falta de especificidade sobre a substância ingerida cria dificuldades na hora de oferecer tratamento a quem passou da conta e põe em risco — inclusive de morte — usuários experientes que acreditam estar dentro de uma zona de conforto. O carioca Fernando Bezerra, membro da Associação Psicodélica do Brasil e autor do site Portas da Percepção, cita o caso do PMA para exemplificar essa situação. Vendido como bala, o PMA está ligado a diversas mortes na Europa nos últimos anos.

"O problema é que a diferença entre a dosagem segura e a fatal do PMA é muito pequena, quase não há margem de segurança, enquanto esse intervalo no MDMA é bem maior", conta. Outro cenário: o LSD tem um efeito rápido no organismo, enquanto os DOM — outra substância que se passa pelo ácido — demoram a agir. Ansiosos para que o doce bata, acontece de alguns usuários ficarem impacientes e tomarem uma segunda dose em cima da primeira. E aí, quando a onda vem, é um trem desgovernado.

O NBOMe ficou famoso no Brasil em 2014, quando um estudante de medicina da USP morreu afogado depois de ingerir a substância.

Para amenizar esse tipo de situação, no final dos anos 2000 alguns grupos de redução de danos começaram a testar as drogas sintéticas consumidas em festas de música eletrônica. É um processo rudimentar de colorimetria a olho nu, em que uma amostra é exposta a determinado reagente e muda de cor. Conforme o resultado, se identifica qual é o grupo de substâncias predominante ali — ainda que não fique clara a composição total da bala, doce ou cristal.

Em um exemplo de como o perigo pode estar ainda mais próximo, Guilherme Storti, membro dos coletivos baianos Se Plante e @TEST, lembra o caso de uma garota que teve uma reação alérgica forte depois de tomar um comprimido em uma rave no Nordeste. "Nós conseguimos achar uma bala igual e fizemos um teste. Era paracetamol. A menina era alérgica a paracetamol", conta ele, que diz ter visto recentemente ecstasys nos quais a codeína era predominante.

"A testagem também é importante porque gera discussão. É como a prática de distribuir cachimbos para usuários de cracks para reduzir hepatite. Além do benefício de saúde pública, abre um espaço e cria um momento para trocar uma ideia, criar um vínculo e explicar que menos pode ser mais", diz Bezerra, que afirma estar nos planos da Associação Psicodélica do Brasil fazer uma ação de testagem no Carnaval de 2018.

Em 2016, durante um festival de música eletrônica no Rio de Janeiro, a Associação fez uma ação do tipo e os resultados não foram muito animadores, apesar da amostragem pequena. De 14 blotters averiguados, apenas dois continham LSD. Dos cinco comprimidos, dois apresentaram como substância principal MDMA, MDA ou MDE.

Notou a falta de precisão no último item? O teste colorimétrico de olho nu é motivo de críticas por isso. "Esses testes descartam a possibilidade de algumas substâncias e mostram várias outras dentro do mesmo resultado. No exterior há muitas críticas a eles porque dão uma falsa segurança, você acha que está tomando MDMA e não, deu um falso positivo", diz Rafael Baquit, psiquiatra e membro do Balanceará, outro grupo de redução de danos.

Afinal, MDA e MDE, que geram a mesma resposta de cor do MDMA em contato com os reagentes do teste, são substâncias bem mais perigosas. MDE é Mefedrona, o sal de banho que aterrorizou a internet alguns anos atrás. Para ter um resultado preciso, seriam necessários testes dentro de um laboratório com uma infraestrutura melhor, que inclui equipamentos de cromatografia gasosa.

Um exemplo: estudo realizado pela Superintendência da Polícia Técnica-Científica de São Paulo com uma metodologia confiável mostrou que apenas 44,7% dos ecstasys apreendidos no estado de São Paulo entre 2011 e 2012 continham MDMA. Mas como fazer com que esse tipo de informação seja acessível aos usuários? Alguns países europeus como Holanda e Áustria permitem que as pessoas enviem substâncias sintéticas para que sejam testadas anonimamente.

Estudo da Superintendência da Polícia Técnica-Científica de São Paulo mostra que apenas 44,7% dos ecstasys apreendidos no estado entre 2011 e 2012 continham MDMA.

"Isso é uma oportunidade tanto para o governo saber o que está circulando quanto para oferecer uma segurança para os usuários", afirma Baquit. Enquanto essa realidade continua distante do país, sites como o EcstasyData trazem um banco de dados de amostras testadas a partir de cromatografia gasosa. O brasileiro Projeto Fique Legal, por sua vez, mostra o que tem nas drogas sintéticas que rodam por aqui de acordo com testes feitos a olho nu.

Por outro lado, há outro perigo: também circulam comprimidos com dosagens além do seguro do MDMA. Organizações europeias como a The Loop volta a meia emitem alertas nestes casos. "É bom lembrar que mesmo o MDMA em grandes doses é extremamente tóxico e tem risco de overdose", ressalta Clarice.

Foto viaFlickr

Não há dados precisos sobre consumo de drogas sintéticas no Brasil. O último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, de 2012, indica que 4.1% dos brasileiros já usaram algum tipo de estimulante semelhante a anfetamina (o que incluí o MDMA, mas não o LSD). De um ponto de vista oficial, as apreensões dessas substâncias pela Polícia Federal têm caído nos últimos três anos. Foram 12.289 selos de doce interceptados em 2014, 11.605 em 2015 e 882 no ano passado. Para o ecstasy, os números são respectivamente de 877.853, 566.373 e 490.270 unidades.

A PF revelou à VICE que, em 2016, apreendeu 16.105 anfetamínicos, contra 894.572 no ano anterior.

Por meio de Lei de Acesso à Informação, a PF também revelou que, em 2016, apreendeu 16.105 anfetamínicos, contra 894.572 no ano anterior — uma queda gritante. No entanto, é difícil entender o que de fato entra nas definições de ecstasy e anfetamínicos.

Em nota, a Polícia Federal explicou que a variação de apreensão ano a ano ocorre por conta de grandes operações pontuais e alterações na rota de entrada do tráfico, e que a interceptação de carregamentos é mais difícil se comparadas a drogas como maconha e cocaína, já que são rentáveis mesmo em pequenas quantidades. A PF também ressaltou que todas as substâncias são periciadas para determinar sua composição, apesar de não haver discriminação dos resultados.

De qualquer forma, a percepção geral é de que o consumo aumentou bastante. "A história de uso de drogas sintéticas no Brasil é crescente, não só o uso como cultura, locais onde são consumidos", diz Baquit. E, claro, grande parte dos novos usuários são jovens — e são esses que fazem um uso mais excessivo e desinformado dessas substâncias.

Mais do que as experiências com testagens, o grande foco dos grupos de redução de danos é informar os interessados na parada sobre os riscos e efeitos de cada substância no organismo para que façam uso delas da maneira mais segura possível. "A ideia é permitir ao usuário que ele consiga tomar a decisão mais sustentável para seu corpo", afirma Guilherme Storti, que chama atenção para os adolescentes que "dropam tudo ao mesmo tempo da maneira mais inconsequente".

Uma alma menos simpática ao consumo de drogas logo dirá o óbvio de que são proibidas e, portanto, não haveria por que gastar tempo com práticas de educação a respeito dela. Mas isso não tem funcionado muito bem, certo? A questão é que as políticas públicas não acompanharam a realidade. "Não use drogas é um conceito atrapalhado e ineficaz. É preciso ser mais científico e menos moralista", diz Gabriel, do ResPire.

Claro, às vezes as coisas saem do controle. O outro pilar da redução de danos é oferecer suporte para quem exagerou na dose e entrou em algum tipo de crise durante uma festa. Os nomes das ações variam ("S.O.S Bad Trip", "P.S.P - Primeiro Socorro Psicodélico"), mas a ideia em geral é acolher a pessoa a ajudá-la a atravessar aquele momento difícil — e, em último caso, encaminhá-la para um atendimento médico. Apesar de serem mais comuns em festas de música eletrônica, esse tipo de iniciativa tem se por vários tipos de eventos.

Mas para que ações desse tipo sejam eficientes, o ideal é saber exatamente o que foi consumido. E por que as drogas sintéticas são tão adulteradas? Complexidade de produção, preço de matéria prima e tentativa de fugir da lista de substâncias controladas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). A partir do começo dos anos 2010, essa lista explodiu e quase dobrou de tamanho — hoje, tem perto de 600 psicoativos.

Disso, muito pouco é produzido no Brasil. A PF estourou oito laboratórios identificados como de ecstasy em 2015 e nenhum relacionado a qualquer tipo de droga sintética em 2016. As drogas, então, são trazidas do exterior. Fora o clichê dos comprimidos e blotters que vem de avião da Europa, a China é um grande fornecedor do mercado. "E na China a Metilona [outra substância que passa por MDMA] é muito barata, tem preço de areia", conta Rafael Baquit.

Como um todo, o cenário pode ser pior: cética, a pesquisadora Clarice Madruga afirma que dificilmente existe MDMA no Brasil. "É uma droga mítica, que virou um nome genérico para outros estimulantes, muito mais fáceis e baratos de serem sintetizados em laboratórios de fundo de quintal", acredita.

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