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Como um Controlador de Tráfego Aéreo Aposentado se Tornou um dos Músicos Menos Ortodoxos do Canadá

Robert T usa apenas antigos sintetizadores e drum machines para fazer uma música sem classificação. O que importa é que ela é boa e soa como pouca coisa que você ouve.

por Natasha MacDonald-Dupuis
10 Julho 2015, 12:27pm

Photo by Alexandria Wllson

Sua sonoridade vai do ritmo marcado às batidas e paisagens sonoras típicas do ambient; um híbrido da música sci-fi analógica dos anos 70 e a eletrônica repleta de beats dos anos 90. Inspirado por artistas vanguardistas como o pioneiro francês Jean-Michel Jarre e o influente grupo de eletrônica alemão Tangerine Dream, Robert T usa uma variedade de sintetizadores modernos e das antigas além de drum machines para produzir sons ambient. Mas ele não é um artista experimental padrão — Robert se viu inserido neste universo de forma totalmente inesperada. Há cinco anos, ele foi forçado a se aposentar precocemente depois de uma carreira de 20 anos como controlador de tráfego aéreo na cidade canadense de New-Brunswick.

"É o trabalho mais estressante do mundo... Tive que pegar uma licença médica por conta do estresse e num dado momento o médico disse que eu não poderia voltar a trabalhar", diz Robert, conhecido formalmente como Robert T Wilson. De repente, o pai de família de 50 anos de idade se viu com muito tempo livre à sua disposição, e então começou a tocar uma velha drum machine e um Kaoss pad. Seus novos 'brinquedos' rapidamente se tornaram uma espécie de terapia.

"Durante toda minha vida fui obcecado por sintetizadores e drum machines, mas cresci na Inglaterra, e [naquela época] uma das coisas que o governo cortou foram os programas de música. Então nunca tinha tocado num instrumento", diz Robert. Ele cita o I am sitting in a room, do músico de vanguarda Alvin Lucier, uma obra de arte da música minimalista, como uma de suas primeiras influências, mas diz que sua paixão por eletrônica é algo ainda mais antigo, de quando tinha apenas 11 anos de idade. "Estava andando por uma loja de música e ouvi o hit de 1976 Oxygene, do Jean-Michel Jarre. Fiquei encantado. Na época, eu era um garotinho que assistia Dr. Who e era fascinado pela trilha sonora da série, que foi criada a partir de fitas remendadas e sintetizadores do arco da velha", ele diz.

Robert T no festival RE:FLUX. Foto por Annie France Noel (cortesia).

Uma vez que decidiu evoluir de connoisseur de música a artista, Robert rapidamente ficou fascinado por hardwares e começou a adquirir e restaurar synths old-school. Ele instintivamente começou a consolidar suas influências e inspirações, criando um som próprio. "Todo o equipamento e dispositivos que queria ter nos anos 80 e 90, agora finalmente eu podia comprar. Sintetizadores eram bizarramente caros naquela época. Eu não tinha quatro mil dólares para torrar num sintetizador em 1985", diz ele. "Hoje em dia, vivemos tipo nos Anos Dourados dos synths em geral".

Um fato sobre o Robert: ele poderia falar sobre hardware por horas a fio. "Recentemente comprei um sintetizador de um cara em Ontario por 27 dólares, que ele comprou por 3.800 em 1998. [Esses sintetizadores] não valem nada hoje em dia porque fazem a mesma coisa que um computador ou um Iphone, mas eu os amo", diz o músico.

O artista da Low Noise Productions descreve sua música como experimental apenas por não existir um termo melhor para classificá-la. "É fluido como o termo 'gênero', mas o gênero é fluido... não pode ser compartimentado ou facilmente definido. Pode ser atonal, pode não ter ritmo", ele diz. "Quando estou tocando os synths, às vezes tenho essa visão de sons viajando no espaço. É meio esquisito e difícil de descrever".

Recentemente, ele começou a usar reverbs naturais em seu trabalho, manipulando sons e ecos que grava em igrejas. Com seus pés direito altos, pisos de cerâmica e construções longas e estreitas, as igrejas oferecem uma acústica ambiental única. "Criei umas texturas e sons muito legais, usando os reverbs da igreja no lugar de efeitos de pedal. Então consegui uns sons com ecos e uma pegada espacial. Num dado momento você ouve os carros passando, crianças brincando do outro lado da rua, ou meu celular desligando porque minha esposa me ligou", ele diz dando risada.

Todas as suas faixas são gravadas ao vivo, em apenas um take, todas com hardware e sem fazer uso de nenhum computador. Na essência, tudo que ele faz é um show ao vivo para uma plateia de apenas uma pessoa... ele mesmo. "Isso faz com que a música seja menos previsível e a limitação é que tenho apenas dois braços, então fico alternando entre um dispositivo e outro, mas as pequenas imperfeições fazem as músicas parecerem mais orgânicas", diz.

Robert diz que frequentemente se depara com artistas quase 30 anos mais novos que ele que não conseguem acreditar que ele usa tanto hardware. "Um deles uma vez disse, 'Cacete, não sabia que um som feito com hardware podia ser tão bom!'. Mas isso é porque eles nunca escutaram esse som!", explica Robert. "O que é legal em relação ao hardware é que, sim, esses samplers antigos têm uma mísera memória de 64 meg (que não é nada), ou 22 segundos de tempo de sampling, mas por serem essas quinquilharias, eles transferem esse tom para o som real que você coloca nele, e isso é, sem dúvida, definidor", ele diz.

Ultimamente, Robert tem ouvido o artista de dub e eletrônica minimalista Deadbeat e o grupo dos anos 90 de música psy-goa Eat Static. Na verdade, o produtor canadense é um grande fã da música rave dos anos 90, o que é irônico, porque enquanto um ex-controlador de tráfego aéreo, ele jamais pôde tomar drogas e por isso mesmo nunca colocou os pés numa rave. No entanto, Robert diz que o caminho atípico que traçou no ramo da discotegem é o que faz com que ele se destaque como artista. "Por ser mais velho, tenho mais experiência para me apoiar e acho que isso reflete no meu trabalho", ele diz.

Robert T está baseado em Moncton e também faz parte de uma dupla, a RPG, com o músico de techno Paranerd. Confira o seu último EP, Tower, lançado pela label de Ottawa Low Noise Productions.

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Tradução: Stephania Cannone