Foto: Beto Martins​

Crochê, xepa e disciplina: Passei uma manhã no presídio Adriano Marrey, em Guarulhos

Fomos conhecer um pouco do proceder cotidiano da super lotada cadeia na Grande São Paulo.

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22 abril 2016, 10:00am

Foto: Beto Martins​

Por volta das 9h30, do dia 8 de março, paramos em frente ao portão de entrada da penitenciária Adriano Marrey, na Várzea do Palácio, em Guarulhos (Grande São Paulo). Este foi o primeiro acesso de muitos que se sucederam até chegarmos ao coração do presídio, inaugurado em 22 de outubro de 1998, onde há condenados por tráfico (em sua maioria), homicídio, roubo, furto, sequestro, estupro (estes separados dos demais presos). Todos cumprem pena em regime fechado.

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No segundo portão, pediram pra gente tirar tudo do bolso, além dos cintos que seguravam nossas calças. Tudo passou pelo aparelho de raio-x que, segundo agentes penitenciários, identifica qualquer coisa que não pode, em tese, entrar no sistema (como drogas e aparelhos eletrônicos, principalmente. Estes itens são usados diariamente pelos detentos. Um carcereiro afirmou que "sem maconha, o presídio estoura").

Todos sabem extraoficialmente que a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) dita as regras no local. O presídio vizinho, o José Parada Neto, é "comandado" pelo partido rival, o Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade (CRBC). Os criminosos que cumprem pena em Guarulhos são direcionados para cada uma das penitenciárias de acordo com as facções que seguem. Isso evita muita treta.

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Um agente orientou para que não deixássemos nossos celulares na recepção, como foi feito com nossos documentos de identificação. Por isso, voltamos novamente ao primeiro portão, saímos, e largamos nossos aparelhos dentro do carro.

Voltamos. Levamos uma geral, como as que são feitas antes de se entrar em baladas, e começamos nossa caminhada dentro do presídio. O Marrey conta com 2.154 presos, segundo senso atualizado no dia 28 de março pela Secretaria de Administração Penitenciária (SAP). Essa galera convive em um espaço que comporta, teoricamente, no máximo 1.268 detentos.

A VICE conheceu algumas quebradas dentro da penitenciária durante um dia de evento em que a SAP apresentou o resultado de oficinas culturais e que também realizou um mutirão de ações oferecendo aos presidiários possibilidade de emitir RG, certidão de nascimento, casamento ou óbito, carteira de trabalho, CPF, além de também prestar atendimento jurídico e ministrar palestras sobre empregabilidade e também sobre doenças sexualmente transmissíveis.

Um agente nos acompanhou, por vários portões, até chegarmos ao local do evento, no coração do Marrey (a galera que estava junto com a gente pediu pra não descrever com detalhes este trajeto, incluindo a altura dos muros e etc, para não "dar guela" com gente mal intencionada).

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A SAP repassou R$ 82 mil ao Marrey em meados de março. O dinheiro será usado pela unidade para investir na automatização da abertura e fechamento de portas de cela. "Agentes penitenciários terão mais segurança durante o trabalho", diz trecho de nota da pasta.

As oficinas

A oficina de teatro é uma das oferecidas aos condenados interessados. Há quase cinco anos, o grupo "Do Lado de Cá" possibilita que os detentos possam transformar em arte os sentimentos que os habitam por causa do confinamento.

Foi apurado que as histórias pessoais do elenco viram temas, que são explorados artisticamente a partir do Teatro do Oprimido, método criado pelo teatrólogo Augusto Boal (1931-2009). Concebida a partir de exercícios e jogos teatrais, a ideia é democratizar os meios de produção teatral, fazendo com que a galera menos favorecida possa transformar sua realidade mediante a linguagem teatral.

Além das artes cênicas, que não foram apresentadas no dia em que estivemos no presídio, também é ministrada a oficina de música.

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Vestindo calças cáqui, camisetas brancas e com os cabelos raspados totalmente, ou ainda com o corte de cabelo da personagem de desenho animado Zeca Urubu, os presidiários tocam violão, cantam e são acompanhados no batuque por um agente penitenciário em seus ensaios e apresentações. Ouvimos um som desta galera.

Outra oficina, que contrasta com a dureza da vida em cana, é a de crochê, batizada de Ponto Firme.

Os detentos são orientados a partir das ideias do estilista pernambucano Gustavo Silvestre. O rolê é ensinar aos presidiários técnicas manuais e também moda sustentável. "Ao mesmo tempo, (a oficina) desenvolve concentração, habilidade e potencial criativo dos alunos", diz trecho de nota da SAP.

O curso de introdução começou em dezembro do ano passado, ensinando aos detentos pontos básicos do crochê e proporcionando uma válvula de escape à espera pela liberdade.

Chegando ao sistema

Após passarmos pelo último portão, depois de uma caminhada bruta, finalmente chegamos ao regime fechado do sistema carcerário.

"Por favor, senhores, andem no meio deste corredor", foi indicado por um agente penitenciário. Explicou que nas laterais (onde faixas amarelas estão pintadas) é lugar de "mala". "Quem não é ladrão, anda no centro, é uma questão de disciplina", disse.

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Seguimos as instruções e chegamos em um dos pontos de atendimento da Jornada da Cidadania e Empregabilidade, promovida pela 28ª vez no estado de São Paulo e pela primeira em Guarulhos, numa parceria entre a SAP, Judiciário e entidades parceiras.

Enquanto presos faziam triagem para realizar exames médicos, a VICE trocou ideia com A.G, 23 anos.

Com o braço esquerdo fechado por uma tatuagem de temática oriental, evidenciando uma carpa nadando para baixo (característico de quem é do PCC), ele falou que "puxa cadeia" no Marrey há nove meses. "Estar preso é horrível, só quando se está (preso) é que se valoriza a liberdade".

Disse que foi detido após "fazer uma fita" (assalto) de uma carga da Apple. Afirmou que, juntamente com o bando que integra, conseguiu roubar R$ 100 mil em equipamentos da empresa. "Não atrasamos (roubamos) de quem é trabalhador. Fazemos o nosso lado pegando de quem sobra".

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Sempre atento ao seu redor, pois no presídio regem as regras de uma facção criminosa (que, por exemplo, proíbe que presos cumprimentem funcionários da SAP ou Secretaria Estadual de Segurança Pública), o detendo afirmou que não vai deixar de praticar crimes quando conquistar a liberdade. "Mano, vou me matar de trabalhar pra tirar R$ 1,2 mil de salário num mês? Faço uma fita e ganho R$ 50 mil, R$ 100 mil. Eu só sairia do crime se não visse mais meus irmãos de caminhada", falou com convicção sobre esta impossibilidade.

Olhando em meus olhos, ele afirmou que o objetivo de um ladrão, "como de qualquer outra pessoa da sociedade", "é ter dinheiro para cuidar da família, para ter uma vida boa".

Acrescentou ainda que o futuro de um criminoso é "caixão, cadeia, cadeira de rodas" ou "para quem souber proceder, ficar rico".

Um papo oficial

Uma plateia composta por engravatados e pessoas mais à vontade acompanhou a chegada de meia dúzia de detentos, que tímidos segurando violões se acomodaram em cadeiras, ficando frente a frente com os espectadores. Após alguns segundos de preparação, começaram a dedilhar "Stairway to Heaven" (do Led Zeppelin). Com a ausência do solo de guitarra, realizaram o som inteiro.

Aplausos provocaram sorrisos entre os detentos violonistas, que se entreolharam orgulhosos após a apresentação.

Depois disso, rolou uma dança. Uma mina rodopiou usando saia, enquanto foi observada por todos. Os sentenciados presentes ficaram hipnotizados com a presença feminina, algo que ocorre, com exceção deste dia, somente aos fins de semana em que é liberada a visita íntima (para os que contam com este tipo de regalia no sistema). Além da galera condenada, autoridades do Judiciário e diretoria da unidade acompanharam todo o rolê.

Após as apresentações, troquei uma ideia com o Juiz Federal Paulo Marcos Rodrigues de Almeida e com o diretor do Marrey, Antonio Samuel de Oliveira Filho.

"Estar preso não é algo definitivo. É um degrau para voltar à sociedade. Oferecer oportunidades (como cursos e trabalho) é uma alternativa (para ajudar aos presos). O preso está preso, porque conhecia um tipo de alternativa. Tendo contato com trabalho e disciplina pode ser que perceba que há muitos caminhos a se seguir", afirmou o juiz.

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O diretor Samuel, como prefere ser chamado, está há cinco anos e meio coordenando os trabalhos na penitenciária e foi categórico: "Com as iniciativas que tomamos (cursos, trabalho) mostramos um caminho a ser seguido. Cabe aos detentos fazer a escolha deles".

Não consegui falar mais com as autoridades que, nitidamente, estavam cumprindo agenda e saíram fora assim que concluíram suas observações comigo.

Dentro do sistema

Após a conclusão da primeira parte do evento da SAP, perguntei pra um agente o que era um portão fechado na lateral de um dos vários corredores da unidade. Falaram que a quebrada é o "castigo" (conhecido popularmente como solitária). Os detentos que cometem infrações, ou novos crimes dentro da penita, são levados para esta área do sistema.

Foi apurado que, dos 38 detentos punidos neste lugar (até o dia 8 de março), 30 estavam envolvidos com a fabricação de Maria Louca (como é conhecida a bebida alcoólica feita em presídios com ingredientes como arroz, casca de batata, uvas e tudo que fermente e vire álcool. Estes insumos são, teoricamente, proibidos de entrar no presídio). O tempo mínimo para o castigo é o de dez dias. Portar celular, desacatar agentes penitenciários, agredir detentos ou funcionários da unidade também são motivos para ir para a solitária.

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Pertinho daí, fica o "seguro" (ala onde presos jurados de morte precisam permanecer). Três motivos principais os levam pra este tipo de cana:


1. Estão endividados (dentro do sistema) por causa de drogas;
2. Estão condenados por crimes sexuais;
3. Ou ainda contam com inimigos em algum dos pavilhões do presídio (não contanto com a proteção do PCC.

Na mesma quebrada, ainda há o Regime de Observação (RO). Nestas celas ficam os caras que "não são do crime", mas que acabam sendo presos. É como se fosse um "estágio" para que entendam como funciona a "cultura de cadeia" (A VICE ouviu isso de detentos).

Falaram que, por exemplo, quando rola uma revista de surpresa em um "barraco" (a cela de cadeia, também conhecida como "X") a bronca cai em cima dos caras que não estão envolvidos com a bandidagem, ou seja, que não são "batizados" da facção.

Mais de um preso ainda falou que os condenados que, por algum motivo, querem ser transferidos da unidade, costumam agredir funcionários. Quem faz isso sabe que este tipo de infração implica em transferência compulsória e, antes disso, solitária.


Trabalhando para se libertar

Colamos nas empresas que funcionam no presídio (uma fábrica de acessórios de cabeleireiro e outra que produz de parafusos até torneiras). Depois, conhecemos a cozinha e filamos uma bóia, junto com alguns detentos.

No primeiro pico, um mano responsável pela firma, e que puxa cadeia há dois anos no Marrey por tráfico de drogas, explicou que 18 presos manufaturam presilhas de cabelo, sacadas também como "piranhas", para uma empresa. Para cada três dias de trampo, um é tirado da pena de cada presidiário. "Produzimos umas 30 mil piranhas por dia", afirmou.

Os caras trampam das 8h às 16h, com meia hora de almoço. "Ganhamos por produção, daí preferimos xepar (almoçar) meia hora para garantir isso". O quadro de funcionários "antes da crise econômica", segundo o preso, era de 30 sentenciados. O tempo médio para se conseguir uma vaga no local é de oito meses.

Foto: Beto Martins

Enquanto eu entrevistava o detento responsável pelo pico, outro condenado, que cumpre há três anos pena por tráfico de drogas, me chamou e disse que queria registrar as ideias dele. Sentado em um banco, com as costas curvadas, afirmou que o trampo, além de ser uma terapia, contribui para planejar uma "nova vida no mundão. Quero sair daqui para poder acompanhar o crescimento de minha neta e ajudar minha filha com isso". Acrescentou que, graças à falta de liberdade, percebeu a riqueza de poder contar com pessoas queridas no mundão. "Não volto mais pra cá (presídio). O trabalho me ajudou a ter uma visão além do crime, com minha família".

Esta firma é constituída por várias bancadas rústicas, onde os condenados montam os acessórios de beleza, e também por centenas de sacos plásticos, em que o resultado final do trampo deles é embalado e enviado para fora do sistema. As cores vivas das piranhas contrastam com a homogeneidade dos uniformes e a escuridão do lugar.

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Ao lado da fábrica de piranhas, há um lance bem mais treta. Maquinário pesado rala literalmente metal e produz desde parafusos até torneiras. Esta é a segunda firma em que colei.

O mano que nos guiou, indicado pelo responsável pelo local, está há dois anos e meio preso por tráfico. Ele já puxou cadeia antes por roubo. Apesar de serem escassos os estudos sobre reincidência criminal no Brasil, relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), feito em colaboração com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em maio de 2015, indica que 70% dos detentos brasileiros não são novatos em cumprimento de penas no sistema prisional.

O mano reincidente apresentou todo a linha de produção, incluindo os projetos enviados pela empresa que os contrata. "Tem que fazer certinho. Estudamos os projetos e garantimos a produção", acrescentou que não pretende mais voltar para o sistema quando retornar "pro mundão".

A crise econômica também atingiu essa galera, cortando pela metade a equipe de funcionários. Segundo o mano, 60 presos trampavam na empresa, atualmente são 30 (os presos que ralam neste corre começam a labuta meia hora antes que a firma das piranhas). "Outra coisa, quem trabalha em nossa firma tem salário fixo (de aproximadamente R$ 580, considerando os descontos que não foram muito bem explicados). Na outra (empresa de assessórios estéticos) o lucro é por produção". Não foi informado quanto ganham os caras da outra linha de montagem.

Xepa e papo

A xepa (como os presidiários chamam as refeições) é feita por presos em um turno e por funcionários terceirizados pelo Estado em outro, na cozinha do Marrey. Falando com a malandragem, todos foram unânimes em afirmar que o rango "feito pelos ladrão (sic)" é bem melhor.

Foto: Beto Martins

A VICE apurou que no local são feitas refeições para o Marrey e para o Centro de Detenção Provisória II (CDP II), que está perto da penita. São agitados para cada xepa (café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar) 2,6 mil rangos pro CDP II e 2,4 mil pro Marrey. "Só no almoço, são 480 quilos de arroz e 180 de feijão", disse um dos manos que trampa na cozinha. O cardápio do dia, pro presídio, foi de frango frito (tipo passarinho), arroz, feijão com quiabo, salada de alface com pepino, batata frita e, de sobremesa, mousse de chocolate. A mistura do CDP II foi linguiça.

A reportagem rangou com os manos. O talher foi a tampa de uma marmita descartável de alumínio (chamada entre os presos de 'blindada'), dobrada para poder pescar a refeição, que contou com o frango frito e demais acompanhamentos.

(Antes de trocar ideia, a reportagem tentou cumprimentar alguns presos. Eles mantiveram as mãos para trás, deixando as do repórter e fotógrafo no vácuo.

Os manos desconfiados foram avisados pelos detentos que acompanhavam a VICE que a reportagem "não era polícia". Após isso, sorrisos se abriam e justificativas foram dadas. "Aqui tem uma disciplina do PCC, que impede que detentos cumprimentem, fisicamente, agentes do estado. Mas ela não vale para vocês."

Biblioteca e "liberdade"

Após o almoço, fomos à Biblioteca do presídio. Disseram que os livros mais requisitados são os jurídicos, usados por detentos "para entenderem os motivos de estarem presos" e de literatura "para fugirem da realidade onde estão". Além disso, o acervo conta com tomos de biografias e religião em geral. O material chegou à unidade após uma universidade doar os volumes, recebidos durante eventos beneficentes.

Depois de quase quatro horas no Marrey, e com a apuração feita, a vontade de sair apertou. Escrevendo este trampo constatei que as palavras são insuficientes para descrever a sensação de não poder ir e vir, um direito que é perdido quando as regras (leis) que regem nosso dia a dia são oficialmente quebradas, resultando nas milhares de prisões feitas diariamente pela polícia.

Foto: Beto Martins

Segundo a SSP, um pouco mais de 27 mil pessoas foram detidas no estado de São Paulo entre janeiro e fevereiro deste ano. Em Guarulhos, no mesmo período (a mais recente atualização da pasta), foram 715.

Saímos do Marrey, fotógrafo e eu, com a certeza de que é impossível em uma reportagem descrever tudo o que rola em uma das 82 penitenciárias do estado de São Paulo. Porém, voltamos ao mundão com a convicção de que todos que lá estão são pessoas que se adaptaram, à sua maneira (concordem ou não), às necessidades impostas pelo sistema dos livres.

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