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Entretenimento

Fuk Fuk Brazilian Style: a Boca do Lixo vai à Europa

Chegou a hora dos europeus verem um lado mais sujo e menos chato dos filmes brasileiros.

por FAUSTO SALVADORI
11 Janeiro 2012, 12:00am


Senta no meu que eu entro na tua (1985 Direção: Ody Fraga)

A imagem que o Velho Mundo tinha do cinema brasileiro pode mudar em 2012. Até hoje, o que a maioria dos cinéfilos europeus conhecia dos filmes feitos por aqui era a macumba para francês ver de Orfeu Negro, os miseráveis carregando a cruz da exclusão social em preto-e-branco de O Pagador de Promessas e Deus e o Diabo na Terra do Sol – e, nos últimos tempos, a miséria simpática de Central do Brasil ou a miséria armada explodindo em tiroteios e discursos em off contextualizantes de Cidade de Deus e Tropa de Elite.

Pois chegou a hora dos europeus verem um lado mais sujo e menos chato dos filmes brasileiros. Entre 25 de janeiro e 5 de fevereiro, cinemas da terra dos coffee shops de maconha vão mostrar o anão Chumbinho sendo esporrado por uma nave espacial em forma de caralho em Fuk Fuk à Brasileira (que por lá ganhou o nome de Fuk Fuk Brazilian Style), a boceta que fala, canta e debate de Senta no meu que eu entro na tua (rebatizado Sit on mine and I’ll Enter Yours) ou o diretor Claudio Cunha convidando todos os espectadores a tocarem uma bronha no final de Oh! Rebuceteio (que ficou Oh! Rebuceteio mesmo).


Fuk Fuk à Brasileira (1986 Direção: Jean Garrett)

Esses e outros 15 filmes fazem parte do programa The Mouth of Garbage, do Festival Internacional de Cinema de Roterdã, que apresenta uma seleção de filmes da Boca do Lixo, um polo produtor que, entre os anos 60 e 80, produziu milhares de filmes populares que custavam pouco e faturavam muito, localizado no centro de São Paulo, na mesma região que hoje abriga as pedras da Cracolândia. “Essas produções rápidas e sujas frequentemente iluminam o submundo decadente da sociedade brasileira usando gêneros estabelecidos como o noir, o horror, o faroeste e a pornografia”, afirma o programa do festival.

Falei com o Gabe Klinger, responsável pela mostra da Boca do Lixo no festival. Professor de cinema em Chicago, Gabe é um paulistano que mudou-se ainda criança para os EUA. Para ele, as produções da Boca “revelam muito mais sobre o caráter brasileiro do que os filmes do Cinema Novo”.

VICE: Como você tomou contato com o cinema brasileiro e os filmes da Boca do Lixo?
Gabe Klinger:
Como alguém que saiu do Brasil muito pequeno, sempre fui atraído pelo cinema brasileiro como uma maneira de entender a cultura. Os filmes feitos na Boca do Lixo eram especialmente dignos de nota porque geralmente retratavam São Paulo, em vez da beleza convencional do Rio de Janeiro ou o sertão, que todos nós conhecemos como um cenário importante para o desenvolvimento das artes e da literatura no Brasil do século 20. Os filmes da Boca me fascinaram não só porque eram mais urbanos, mas também porque pareciam dialogar com gêneros cinematográficos americanos e europeus que eu curtia (noir, horror, etc).

Meu primeiro contato com a Boca foi através dos filmes de José Mojica Marins. Acho que todo mundo passa por essa porta antes de chegar a Sganzerla, Reichenbach, Candeias... Sem falar das pornochanchadas de gente como Tony Viera e David Cardoso e dos filmes de sexo explícito que vários diretores fizeram. Para mim é difícil avaliar esse período do ponto de vista artístico porque há tantas atitudes retrógradas (misoginia, homofobia) aparentes na maioria dos filmes. Do ponto de vista sociológico, eles revelam muito mais sobre o caráter brasileiro do que os filmes do Cinema Novo.

E imagino que a razão pela qual os filmes não são mais conhecidos é que para chegar aos que são bons de verdade você tem que percorrer um monte de lixo. Mas espero que a retrospectiva de Roterdã ajude a guiar melhor os fãs de cinema.

Como você descreveria a estética da Boca do Lixo? O que tem em comum com outros gêneros cinematográficos ao redor do mundo?
Muitos dos cineastas da Boca vieram de origens modestas: José Mojica Marins era de circo, Ozualdo Candeias dirigia caminhão... Eram diferentes de cineastas do Cinema Novo, como Ruy Guerra e Nelson Pereira dos Santos, que eram viajados e levaram uma sensibilidade teórica mais organizada para seus trabalhos. E havia alguém como Rogério Sganzerla, que já era um grande cinéfilo e um crítico publicado quando fez O Bandido da Luz Vermelha. Mas era uma exceção, e Sganzerla acabou deixando a Boca. A maioria dos cineastas da Boca eram intuitivos, aprenderam na prática e não tinham qualquer pretensão de que aquilo que produziam fosse visto como grande arte. Por isso os filmes eram simples em seu objetivo de entreter, e ainda assim podiam ser bem complexos de maneiras que os cineastas nem tinham a intenção consciente de ser. Podem ser amadores em alguns casos e mostrarem extremo domínio técnico em outros. À medida que os produtores da Boca começaram a ganhar dinheiro, seus produtos se tornaram mais sofisticados: puderam contratar roteiristas e técnicos experientes saídos da TV, atores melhores.

Um bom exemplo de cineasta da Boca é Carlos Reichenbach. Ele permaneceu bastante na Boca e fez filmes ali por trinta anos, gerando alguns dos trabalhos mais satisfatórios do ponto de vista técnico e artístico daquele contexto. Ele sempre atendeu a uma cota necessária de sexo e violência para os seus produtores, mas nunca de uma maneira desinteressante ou gratuita. Também desempenhou todas as funções cinematográficas para vários diretores e produtores: ator, roteirista, diretor de fotografia... Ele foi, em vários sentidos, um Cineasta Total.

Na outra ponta do espectro, havia filmes muito mal produzidos e dirigidos, alguns tão tecnicamente inaptos que é difícil apreciá-los até num nível sociológico. Não vou dizer os nomes, porque não quero marginalizá-los ainda mais. Acredito que todo o período da Boca e seu contexto merecem mais pesquisa.

Quando comentava sobre o projeto de levar os filmes da Boca a Roterdã, as pessoas mencionavam cenários parecidos de filmagem de baixo orçamento na Grécia, nas Filipinas, na Coréia do Sul, no Uruguai e muitos outros lugares. Onde há uma indústria, mesmo que seja só a TV ou um movimento artístico de elite como o Cinema Novo, sempre haverá uma alternativa.

Mergulhando nos gêneros cinematográficos, os cineastas da Boca pegaram muita coisa emprestada de todos os filmes americanos e europeus, principalmente filmes noir e faroestes. O filme de crime urbano que chegou ao apogeu nos anos 1950 foi provavelmente a maior influência. A onda seguinte de filmes exploitation e pornô softcore vindos principalmente dos EUA e da Itália foram a segunda maior influência. E, como uma última influência, e essa em especial para a comunidade cinematográfica de São Paulo, havia os filmes de estúdios japoneses que era distribuídos e exibidos no bairro da Liberdade. Reichenbach, Sganzerla, João Silvério Trevisan, Jairo Ferreira e outros foram profundamente influenciados por esses filmes.

Isso sem falar que esses cineastas também estavam interessados em gêneros brasileiros, como a chanchada, e que flertaram com os formatos comerciais e até os descontruíram e reinventaram (a pornochanchada é o melhor exemplo).


O Império do Desejo (1980 Direção: Carlos Reichenbach)


A Margem (1967 Direção: Ozualdo Candeias)

Por que você acha que um cinéfilo deveria prestar atenção a filmes como Oh Rebuceteio ou Senta no meu que eu entro na sua?
Não sei ao certo, mas eu acho que são engraçados, incrivelmente estranhos e experiências cinematográficas “completas” em termos de narrativa, atuação, mise-en-scene, etc. Alguns elementos são melhores do que outros nesses filmes (acredito que ...Rebuceteio tem uma fotografia muito impressionante, por exemplo, e uma mise en scène perfeita para o que se propõe), enquanto que em Senta no meu... a estrela óbvia do filme é o roteiro; é um exemplo de como Ody Fraga era muito melhor roteirista do que diretor. Mas quem liga? Os cineastas de hoje são tão conservadores em seus temas comparados aos autores da Boca. Não houve um único filme que vi em minha pesquisa em que não tenha encontrado uma coisa para me maravilhar. Alguns são chatos, mas geralmente têm uma cena redentora ou um momento que fazem valer a pena. Eles ainda conseguem expressar muito sobre suas épocas: estavam engajados com o momento presente de um jeito que o Cinema Novo nunca conseguiu.


Oh! Rebuceteio (1984 Direção: Cláudio Cunha)


Oh! Rebuceteio (1984 Direção: Cláudio Cunha)

Como surgiu a ideia dessa retrospectiva?
O projeto surgiu quando o programador integral do Festival de Cinema de Roterdã, Gerwin Tamsma, me disse, há um ano atrás, que estava querendo fazer uma retrospectiva relacionada a Brasil e sexo (especificamente, creio, pornochanchadas). Depois de conversar por alguns meses, decidimos focar na Boca do Lixo e não só nas pornochanchadas – ainda que nós sentíssemos que seria importante que um elemento chave em todos os filmes fosse o erotismo ou a identidade sexual no Brasil. A palavra sexo tem uma carga forte, chama a atenção das pessoas, então era mais fácil atrair interessados para a ideia ligando-a com sexo... E, claro, à medida que entramos nos anos 70 e 80, quase todos os filmes têm o sexo como elemento central. Nos 80, era difícil achar um filme que não fosse sobre sexo de uma forma direta, mesmo algo mais sincero e refinado como A opção, de Candeias, tem como tema central a prostituição. Então foi isso: pensamos que Brasil e sexo seria comercial o bastante para que pudéssemos programar um monte de filmes bacanas que queríamos desenterrar e ver na tela grande em 35 mm. No final de outubro e novembro, finalmente conseguimos o sinal verde para ir frente e começar a procurar por cópias e direitos autorais. Foi uma batalha dura em alguns casos – muitos filmes estão perdidos ou completamente abandonados – mas tive uma sorte incrível com o que encontramos. Além disso, a Cinemateca Brasileira deu uma grande ajuda, chegando a fazer novas cópias em 35 mm de certos filmes especialmente para nossa retrospectiva. Se não fosse pela ajuda deles, o evento seria uma mera sombra do que é.

 Imagens: Divulgação.

Site oficial do IFFR.

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