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Fazendo a cabeça: a Batalha dos Barbeiros em São Paulo

Teve muito corte monstro em Diadema no último domingo (24).

por Débora Lopes
27 Abril 2016, 8:30pm

Foto: Felipe Larozza/ VICE

"Deus abençoe o rolê", prenunciava o adesivo colado em uma moto estacionada em frente ao Clube Municipal Mané Garrincha, na cidade de Diadema, em São Paulo. Lá dentro, aconteceu no último domingo (24) a Batalha dos Barbeiros Brasil, disputa regional para escolher os melhores profissionais de São Paulo e do país. O evento, que já passou pelo Rio de Janeiro, onde será realizada a final, irá acontecer também em Belo Horizonte (MG) e Salvador (BA).

O público, majoritariamente masculino e periférico, não deixava a desejar: as cabeças que atenciosamente se direcionavam para o que estava rolando no palco também ostentavam cortes de cabelo impecáveis. Ali em cima, a maioria dos concorrentes tinha entre 20 e 30 anos – e apenas duas mulheres na disputa. Eram três categorias: corte clássico, barba express e desenho. Sempre em dupla, ou seja, um profissional contra o outro.

Foto: Felipe Larozza/VICE

No início de todas as etapas, o DJ mandava o funk oficial e alto astral da disputa. "É a batalha dos barbeiros que faz (sic) o corte maneiro. Quero ver quem vai ganhar com o corte mais perfeito. Vai, vai, vai". Depois, rolava Drake, Rihanna e hits do momento.

CORTE MONSTRO, CHAVOSO, CHAVAIADO

De clássico, os cortes da primeira categoria não tinham nada. Os modelos eram levados pelos próprios barbeiros, que teriam 20 minutos para demonstrar suas habilidades na cabeça alheia.

"Fiz um corte degradê e ficou muito legal", relatou o vencedor Caio Moral, 24, cuja barbearia fica em Ibiúna, interior de São Paulo. Degradê é o grande corte da atualidade brasileira: os fios são gradativamente aparados à máquina, sendo a parte de cima do cabelo mais alta que a debaixo, na nuca.

Caio Moral, o vencedor da categoria corte clássico. Foto: Felipe Larozza/VICE

Entre os cortes dessa etapa, tinha de tudo: topete, samurai (o amado e odiado coquinho no topo da cabeça) e risca feita à máquina, também conhecida como razor part. Caio ousou para além do penteado: foi o único barbeiro a levar uma modelo mulher – que, inclusive, já era sua cliente. "Tirei de letra. Corto em 20 minutos mesmo. É meu tempo médio", gabou-se o vencedor, barbeiro desde os 14 anos.

Um garoto que assistia a disputa explicou como são chamados esses cortes na linguagem da meninada. "Corte monstro, chavoso, chavaiado", riu.

Djonata Vital, vencedor da categoria barba express. Foto: Felipe Larozza/VICE

Em 60 segundos, cada participante poderia fazer o que quisesse nos pelos faciais de seus modelos na categoria barba express. O único aparelho a ser usado seria a navalha. Sem espuma, creme, nada. Podia deixar um bigode, fazer cavanhaque, aparar pelos laterais ou tirar tudo, como fez o vencedor Djonata Vital, 27, da cidade de Itaquaquecetuba. Confiante, ele diz não ter treinado com cronômetro. No calor da emoção, o barbeiro dispensou qualquer pompa estética e apelou para a técnica "bumbum de bebê", de acordo com a sábia linguagem popular brasileira. "É uma adrenalina que não tem tamanho. É muito top. Muito bom", comemorou ao final do evento.

Desenho original dos Mamonas Assassinas e a reprodução no cabelo, feita pelo barbeiro Marcelo Anderson "Magnific", vencedor da categoria. Foto: Felipe Larozza/VICE

O momento mais esperado do domingão era a categoria desenho, que, obviamente, foi a mais cabeluda. Para homenagear os 20 anos da morte dos Mamonas Assassinas, três imagens da banda foram disponibilizadas para os concorrentes, que tiveram de reproduzir a parada na cabeça de alguém. Acredite: foi complexo. Teve até desistente. Para isso, foram disponibilizados 40 minutos.

"Não dá pra entender nada", "o que é isso?", "esse ficou louco", comentava a rapaziada enquanto os barbeiros corriam contra o tempo, precisando desenhar cinco manos na cabeça de alguém. Um dos participantes errou, tocou o foda-se e acabou raspando a cabeça inteira do modelo. O outro fez um desenho tão esquisito que parecia um ninho de passarinho tribal neorrealista.

O barbeiro Marcelo Anderson "Magnific" e seu modelo. Foto: Felipe Larozza/VICE

Acostumado a realizar cortes com desenho, foi Marcelo Anderson "Magnific" quem abocanhou o prêmio da categoria. O profissional, que trabalha na Favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, revela o mais requisitado do momento: diamante. "Pedem também tribal e o símbolo da Nike. Se for complicado, cobro mais caro. Qualquer rosto que a pessoa pedir fica R$120."

Para a batalha, ele treinou duas vezes: no papel e no cabelo. Obviamente, não trata-se de uma cópia fiel, mas, sim, de uma releitura. "É muito difícil e complicado. Se não tivesse treinado, até eu ia desistir."

Foto: Felipe Larozza/VICE

A MADRINHA DOS BARBEIROS

Criadora da Batalha dos Barbeiros, a funcionária pública e cabeleireira Erica Nunes tem se dedicado à profissionalização de jovens periféricos há alguns anos. "Começamos a tirar as pessoas do tráfico de drogas e formá-las", afirma a "madrinha dos barbeiros", como é conhecida pela categoria.

Os três vencedores da etapa em São Paulo ganharam seis máquinas profissionais da empresa que patrocinou o evento. Agora, eles irão disputar a final no Rio de Janeiro no dia 24 de julho e concorrer a R$ 47 mil reais em prêmios, como cadeiras e produtos cosméticos.

É o Ayrton Senna, caraio! Foto: Felipe Larozza/VICE

Antes da entrega dos prêmios em Diadema, dois barbeiros convidados subiram ao palco para deixar a galera pasma com suas habilidades cabelísticas. Em 20 minutos, um deles fez um tribal animal na cabeça de um modelo e o outro fez o rosto do Ayrton Senna. Nesse momento, o apresentador pediu que o DJ embalasse todos os anúncios dos vencedores com o famoso tema da vitória do Senna, aquele "tan tan taaan... Tan tan taaan". Que domingo, amigos!

O evento, que surgiu inspirado na Batalha do Passinho, acontece pela primeira vez fora do Rio de Janeiro atingindo proporções nacionais. "A barbearia era aquela coisa esquecida. Os salões de beleza e os cabeleireiros tomaram conta do mundo e o barbeiro ficou escondido", pontua a madrinha Erica.

Aparentemente, a Batalha dos Barbeiros está aí pra dizer que essa onda voltou. Como cantou o RZO: quem é, é. Quem não é, cabelo avoa.

Veja mais fotos do evento abaixo.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Foto: Felipe Larozza/VICE

Foto: Felipe Larozza/VICE

O corte vencedor da categoria desenho, que pedia uma reprodução dos Mamonas Assassinas. Foto: Felipe Larozza/VICE

Foto: Felipe Larozza/VICE