São Paulo é selva: se Russomanno não disputar, quem ganha as eleições paulistanas?
Foto: Agência Câmara.
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São Paulo é selva: se Russomanno não disputar, quem ganha as eleições paulistanas?

Marta, Erundina, Haddad e Dória devem protagonizar uma bela briga de foice no escuro.
21 Junho 2016, 7:00pm

Eis que saiu a nova pesquisa de intenção de voto do Ibope para a Prefeitura de São Paulo, com Celso Russomanno (PRB) na frente, com 26% das intenções, seguido por Marta Suplicy (PMDB) com 10%, Luiza Erundina (PSOL) com 8% e o atual prefeito Fernando Haddad (PT) com 7%. João Dória, do PSDB, tem 6%, Andrea Matarazzo (PSD) e Marco Feliciano (PSC) têm 4% cada, o descontrolado do Delegado Olim (PP) tem 3% enquanto Major Olímpio (SD) e Roberto Trípoli tem 2%. Fechando a tampa, com 1% cada, vem Laércio Benko (PHS) e o folclórico Levy Fidelix (PRTB), além de Denise Abreu (PMB), Marlene Campos Machado (PTB) e Ricardo Young (Rede), com zero pontos mesmo.

O lance é que a pesquisa está atrasadinha, e entrega um cenário que deve mudar muito até o dia 20 de agosto, prazo final para o registro de candidatura. Antes disso, existe a possibilidade concreta de o STF julgar Russomanno num caso de improbidade administrativa (ele teria mantido uma funcionária fantasma em seu gabinete na Câmara Federal), e o Procurador Geral da República Rodrigo Janot já se mostrou favorável à condenação. Se ele for julgado e condenado até o dia 20 de agosto, é considerado ficha-suja e fica inelegível. E esse não é o único imbróglio jurídico de Russomanno, que foi apontado em delação de Pedro Corrêa como um dos deputados que recebia o mensalão de José Janene, na época em que estava no PP.

Se não for derrubado da disputa pelo STF, Russomanno tem realmente grandes chances de ir para o segundo turno na capital paulista, mesmo sendo desprezado como "cavalo paraguaio" ao sair na frente nas pesquisas e terminar as eleições de 2012 em terceiro lugar. Com a alta rejeição de Haddad, a ausência de um nome forte da direita como foi José Serra (PSDB) em 2012, e com o fim do financiamento empresarial, o candidato do PRB, partido ligado à Igreja Universal, realmente leva larga vantagem. Por outro lado, apesar da imagem televisiva, é muito fácil ligar Russomanno à Universal (sem contar a corrupção), o que pode garantir especial rejeição a ele inclusive no âmbito do voto evangélico (as igrejas Internacional e Mundial que o digam).

Outro ponto que a pesquisa falha em considerar, uma vez que parece ter sido realizada há algumas semanas, é o poder econômico e político por trás de Dória. Apoiado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), venceu na marra as prévias do partido, obrigando Matarazzo, apoiado por José Serra (PSDB), a mudar de partido para poder concorrer também. Dois candidatos, Benko e Abreu, já declararam seu apoio à Dória, e ele ainda está negociando com PP e PSC para faturar ainda mais dois candidatos e um comensurável tempo de propaganda eleitoral gratuita – se amarrar todos os apoios em negociação, pode acabar com mais de 20 minutos de espaço na TV.

Marta, por sua vez, conta com um legado forte nas periferias e provavelmente vai tentar jogar com o histórico anti-petismo paulistano na esteira de sua conturbada saída do partido. Apesar da ainda forte rejeição (perde apenas para Haddad), ela tem a chance de construir uma narrativa de "conversão" para atrair outros votos que se sintam "traídos" pelo PT – e, caso Dilma seja efetivamente derrubada pelo governo Temer, pode ter o apoio massivo do governo federal, que se mostrou decisivo para Haddad em 2012. Erundina se saiu melhor do que provavelmente ela mesma esperava, mas a chapa puro-sangue (o vice é Ivan Valente) do PSOL a deixa sem espaço de TV, vai ter que contar com muita rua e redes sociais, porém sem os movimentos sociais organizados e da dinastia Tatto que tendem a apoiar o PT e que foram cruciais tanto para a eleição de Haddad quanto de Marta.

Pode parecer estranho falar desse jeito, mas a pesquisa é boa para Haddad. Saindo atrás, leva menos pedrada dos outros candidatos no início da campanha (mas o chumbo vai seguir grosso), ganhando tempo para mostrar o que houver de bom na sua gestão, além de contar com um índice bom de votos na comparação entre a pesquisa espontânea (onde é líder, com 5%) e a estimulada. Por outro lado, Haddad já apanha forte na imprensa e ainda tem como vice Gabriel Chalita (PDT), implicado na delação de Sérgio Machado como receptor de propinas para campanha realizadas a pedido do interino Michel Temer em 2012. A ideia de ter Chalita perto de si como vice era contar com o apoio do PMDB, mas a debandada de Marta jogou o vice do prefeito dialético para o escanteio.

Se lembrarmos que em 2012 a campanha começou com o "poste" Haddad com 3% das intenções de voto, dá para saber que ainda há muito couro pra gastar. Só que, se em 2012 o prefeitão era novidade e contraponto ao vampírico Serra, "aquele que nunca termina um mandato", agora seu teto de vidro cresceu ao longo dos anos de gestão, seja em termos de administração ou de promessas não cumpridas, e eleição para prefeito tem mais a ver com buraco na rua do que com índice de desemprego. Além disso, vale lembrar que São Paulo não gosta muito de reeleger prefeito – o único caso foi Kassab, que ainda assim havia entrado para a Prefeitura como vice do desistente Serra. E, para deixar tudo no maior limbo possível, o índice de votos brancos e nulos da pesquisa atual é de 21%, um quinto dos eleitores, que podem decidir escolher um candidato mais pra frente, não duvide. Vai ser mais feio que briga de foice no escuro.

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