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Mais de Um Ano Depois do Desaparecimento do Amarildo, a Chapa Continua Quente na Rocinha

Visitei familiares e amigos do Amarildo, junto com o diretor de O Estopim, filme sobre o caso que estreia hoje no Festival do Rio.

por Matias Maxx
29 Setembro 2014, 5:57pm

Cartazes de candidatos a deputado cobriam o verde e amarelo desbotado das ruelas da Rocinha, em seu ritmo frenético de sempre de pessoas subindo e descendo a pé ou na garupa de mototaxis. Estou acompanhando o diretor Rodrigo Mac Niven na entrega dos convites de seu novo filme O Estopim aos principais personagens do filme - a família do Amarildo e Carlos Eduardo Barbosa, o Duda. Mac Niven me explica que a história é contada pelo Duda, morador que registrou várias denúncias de tortura e ameaças praticadas por policiais da UPP meses antes do desaparecimento do Amarildo. "A ideia não era fazer um filme sobre o Amarildo, mas algo maior, aí vim aqui e conheci o Duda, conheci a família dele, a história dele, a relação dele com a polícia desde a infância. Me contou que ele começou a fazer as primeiras denúncias." Além de depoimentos de familiares e moradores da comunidade, o longa, que estreia hoje no Festival do Rio, traz o ator Brunno Rodrigues vivendo algumas cenas do dia a dia da vida do ajudante de pedreiro e pescador. "Existem apenas duas fotos do Amarildo, por isso a gente resolveu usar um ator" explica Mac Niven.

Uma característica sempre marcante das favelas cariocas que reforça o sentimento de comunidade é a alta densidade populacional, as ruas são estreitas e as casas empilhadas são remodeladas constantemente para abrigar as crescentes famílias. Não é diferente na casa de Dona Bete, viúva de Amarildo, cheia de jovens de várias idades, a maioria deles com marcantes olhos verdes e pele morena. "A primeira manifestação que fizemos, foi praticamente apenas a família de Amarildo. Os pais deles tiveram doze filhos, e todo mundo teve mais ou menos o mesmo, juntou todo mundo é uma família do barulho" nos disse uma das familiares presentes. Após o convite formalizado, conversei com Duda, Bete e Rodrigo, enquanto as produtoras do filme preparavam a enorme lista de convidados para a estreia. Duda foi categórico em lembrar que as arbitrariedades da polícia continuam, desde o desaparecimento de Amarildo em julho de 2013 pelo menos dois inocentes foram mortos pela polícia na Rocinha. Dois dias antes de nossa visita um morador de sessenta anos foi atingido no pé por um disparo de um policial a 800m de distância.

VICE: Então vocês já tinham sofrido ameaças antes?
Dona Bete: Esse Cara de Macaco, o Vidal, ele ficava dizendo "um dia a casa de vocês vai cair". Mas quem é a gente pra debater com eles? A gente escutava o que ele falava. Só que uma vez eles encontraram com o Amarildo Jr, meu filho de dezenove anos, aí colocaram um saco de material de construção na cabeça dele. O Amarildo estava sempre trabalhando, ele só chegava a noite. E essa turma do Cara de Macaco trabalhava ou de dia, e de noite, quando era ele ninguém botava a cara na rua, porque ele chegava dando tapa na cara, torturando, gritando "sabe com quem você tá falando? Com Cara de Macaco". Até meu vizinho Júlio, ele tem uma birosca e estava descendo pra comprar biscoitos no valão e encontrou com a turminha dele subindo o morro, aí ele parou o Júlio e perguntou: "e aí? Como tá lá atrás? Avisa lá que a gente tá subindo, se eles não descerem a gente sobe". Sempre que me convidam para falar, eu falo para o público, que a ditadura acabou pros ricos, porque pobres, negros e negras continuam sendo humilhados pela UPP, eles chegam dando tapa na cara, perguntando se você trabalha... Metendo o pezão nas costas.

Duda: Eles (o grupo de policiais liderados por "Cara de Macaco") davam muito tiro, arrebentavam as casas dos moradores todas. Aí a gente começou a ver que ninguém tinha direito nenhum e a soberania era toda deles. E os moradores foram denunciar pela primeira vez lá na UPP com o Major Edson (mais tarde preso por participar da tortura e desaparecimento de Amarildo), esse grupamento ficou afastado uma semana daqui, e na semana seguinte voltaram falando que quem caguetou, quem reclamou eles já sabiam e que iam cobrar e que agora poderia ir mesmo caguetar que eles iam continuar fazendo o que já vinham fazendo que é torturar as pessoas e bater nos moradores. Foi ai quando ele olhou na minha cara e disse "onde que estão os fuzis? Onde que tá o dinheiro do tráfico que você guarda? Ah vocês são tudo amigo de vagabundo, então são vagabundos também". Começou a ficar tudo muito violento, tanto na forma de falar quanto na violência mesmo. Quando eles pegaram meu irmão e torturaram, eu não aguentei mais. Pô, o moleque trabalha comigo na lanchonete. Um dia de manhã, minha mãe me acorda e tá o moleque todo marcado, com tapa na cara, peito roxo, falando meio com fadiga. Fui ver, os policiais entraram dentro da casa dele, jogaram gás lacrimogêneo, torturaram ele por quase quarenta minutos. Falaram que iam matar.

Quando você encaminhou as primeiras denúncias de tortura e ameaças na comunidade?
As primeiras denúncias que eu encaminhei depois da tortura do meu irmão e das ameaças que a família do Amarildo estavam sofrendo foi em 24 de abril de 2013 para a Secretaria Estadual de Direitos Humanos. Quando em julho aconteceu de fato de matar o Amarildo, aí eu me desesperei. Como é que eu dei ciência ao governo do que estava acontecendo dentro da comunidade com essa antecedência toda? Abril, maio, junho, julho... Ninguém fez nada, tanto que está no relatório da secretaria de direitos humanos que foi comunicado ao comandante geral da PM, ao coordenador das UPPs, ao Comando da Unidade e nada foi feito. Está no registro, eles estavam cientes do que estava acontecendo na Rocinha, mas mesmo assim nada fizeram. E a gente viu na nossa frente o que a polícia fez com o Amarildo. Ia ser comigo, ia ser com meu irmão, ia ser com o vizinho, com morador e não tinha mais o que fazer. Foi quando a gente fez uma manifestação: fechamos a autoestrada Lagoa Barra, e dali eu negociei a presença do presidente da comissão de direitos humanos da ALERJ, na ocasião o Marcelo Freixo, que foi a única esperança que eu tive de que tivesse alguma atenção do poder público, da justiça, da mídia, que alguém pudesse olhar aqui pra dentro e enxergar o que estava acontecendo. Porque cada vez que acontece isso na comunidade os moradores são invisíveis. A mídia ela procura os fatos, com a polícia, pode ver que cada vez que tem uma matéria é "procuramos a polícia", "procuramos a unidade de polícia pacificadora e a informação que tivemos".

É que "o cara era envolvido com tráfico".
Tá me entendendo? Então todo mundo que mora na favela é bandido? Eu não queria mais isso...

As ameaças e torturas que estavam rolando e que te levaram a fazer a denúncia, elas eram justificadas pelo que?
Os policiais, eu acredito, eles querem, a todo custo, obter resultados, e o resultado seria prender traficantes, ou apreender fuzis, armamento e drogas. Mas para eles poderem chegar perto dos objetivos dele, que eles já estavam há muito tempo sem conseguir esses resultados positivos, então começaram a pressionar todo mundo. Se não conseguem pegar o bandido, pegam morador, e o morador tinha que dar conta do bandido, da boca de fumo, do armamento, então começaram várias sessões de tortura na comunidade. Foi quando eu particularmente fui ameaçado pelo próprio comandante na frente da minha mulher e minha filha. Ele falou que ali onde eu morava era muito fácil dele me pegar, que eu não estava passando batido e que ele ia me pegar. Eles cismavam que ali onde eu moro tinha uma boca de fumo. Eu falei, esses caras vão me dar um tiro, falar que eu era bandido, que estava trocando tiro com eles - e foi de fato o que aconteceu. Em dezembro invadiram minha casa falando que eu troquei tiro com a polícia, me botaram deitado no chão, com fuzil na cabeça, sem mandado de busca e é assim que funciona. E hoje, nada disso mudou, continuamos sofrendo, continua morrendo morador, continuam pessoas tendo sua casa invadida sem mandado de busca, continua dessa mesma forma, a polícia cometendo os mesmos erros, e a gente só pede a Deus, porque eu não sei até quando eu vou poder falar, se amanhã eu vou estar aqui pra falar. É uma realidade muito triste, muito triste e que infelizmente não tem a atenção devida do poder público.

Como vocês dois se conheceram?
Eu estava indo na 15ª e o caso já estava na mídia, por conta das manifestações, e eu saindo da delegacia encontrei o Rodrigo e por um acaso ele perguntou, "poxa estou acompanhando o caso, você mora lá?". Começamos a conversar, ele falou sobre o trabalho dele e eu achei que nesse momento, pela forma a qual a gente estava sendo dado como invisível, nada do que a gente fala tem valor, nada do que a gente passa querem saber. Eu achava que deveria ser registrado, e até por questão de segurança, se eu tivesse minha imagem ali mostrada pra sociedade, talvez servisse para encorajar outras pessoas a também denunciar. Aquele negócio de colocar uma venda para tampar a sua cara, mudar a sua voz, isso só te deixa mais vulnerável ainda. Porque aí ninguém sabe quem é você, mas a polícia sabe. A polícia sabe com certeza quem é você, e vai ser fácil você sumir do mapa. A gente não tem que ter medo da polícia que trabalha errado, e comete crime, tortura e mata morador, é ela que tem que ter medo da comunidade, e ter medo da sociedade. Mas eles acham que vão passar impunes.

Você também dirigiu o Cortina de Fumaça sobre maconha e Armados sobre armas, o que você acha que tem em comum nesses três filmes?
Rodrigo: Cara no fundo, é tudo a mesma história. O próprio Estopim fala rapidamente da questão das drogas. Mas eu considero a questão da política de drogas hoje um dos principais problemas, pois ela justifica uma porrada de coisa, justifica um projeto de segurança pública como esse que a gente tem, justifica a matança toda que acontece. É impressionante, é o que o Dr. Nilo Batista diz, "se tem droga pode tudo". A polícia pode entrar, quebrar tudo e está tudo justificado. Parece uma besteira, mas não, é uma parada muito forte que a gente continua tendo que discutir profundamente. Tem religião no meio, preconceito pra caceta, isso aí é muito difícil de desconstruir. Tá muito enraizado, e a arma acho que entra como grande coringa, porque ela está dos dois lados. Munição, você não para de produzir, quanto mais tiro você der, mais munição você produz. Você vai lá na CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos), é impressionante, uma fábrica que trabalha 24/7, não fecha, nem para nunca, aquelas balas sendo produzidas o tempo inteiro. Você foca nessa discussão que é o lucro, os interesses, e que o último da lista certamente é a saúde pública, a justiça chegando nas pessoas... Todos os filmes estão conectados, porque é a grande discussão. Esse filme novo traz uma história de quem está no final da trajetória do projetil. Uma coisa que a gente fala também no filme, é a questão da desumanização do traficante.

A polícia tentou argumentar que Amarildo seria traficante, como se isso justificasse sua tortura e desaparecimento.
Essa é a discussão. Quer dizer, que se ele fosse traficante você ia justificar a agressão? Pode ser que muita gente ache que sim, mas acho que muita gente não acha, mas está lobotomizado pela palavra traficante. Você vê, a Rede Globo ganhou prêmio por conta daquelas imagens do Alemão, dos caras tomando tiro do helicóptero ao vivo. A gente também traz essa discussão mais ampla do estado violento, aonde a polícia é a ponta desse processo, mas já começa no judiciário, o policial que está aqui entrando, ele tem uma permissão do executivo, de um secretario se segurança, do judiciário, para que ele possa entrar. Contra o traficante pode tudo, cara isso é foda, isso é muito complicado, isso é uma ferida na sociedade braba.