Desastre em Mariana

Por que voluntários estão fazendo o trabalho da Samarco na crise em Governador Valadares?

"Eu queria que o diretor da Samarco fosse da minha casa até o posto de distribuição pegar água de ônibus no horário de pico", relata, em tom de indignação, um morador.

por Débora Lopes
07 Dezembro 2015, 3:10pm

Foto: Felipe Larozza/VICE

"O senhor é meu pastor e nada me faltará", evoca, ao microfone, uma pastora evangélica que tenta organizar a fila de moradores no bairro da Bela Vista, em Governador Valadares (MG), para receber doações de água. Com o rompimento da barragem de rejeitos em Bento Rodrigues, na cidade de Mariana, e a morte do Rio Doce – principal fonte de abastecimento da região –, travou-se uma verdadeira batalha no local. A palavra "água" soa tão valiosa quanto "ouro".

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Foto: Felipe Larozza/VICE

Apesar de a mineradora Samarco informar que já forneceu mais de 8,5 milhões de litros de água potável para o município, o caos hídrico ainda não foi resolvido. E, para sanar a deficiência de parte da população – que ainda duvida da qualidade da água encanada –, caminhões abarrotados de doações chegam de diversas partes do país.

Em Governador Valadares, cuja calamidade pública foi decretada em 10 de novembro, voluntários se juntam à Polícia Militar para levar água até os pontos mais críticos e, consequentemente, pobres da cidade.

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Foto: Felipe Larozza/VICE

Foi através de um post no Facebook que dois amigos de São Paulo mobilizaram 220 toneladas de doações. Para a operação ganhar forças, eles se juntaram ao advogado Moacyr Junior, que já estava arrecadando um alto número de doações na Zona Norte de São Paulo. Feita a parceria, seis carretas se dirigiram à cidade até o momento.

De família mineira, a jornalista Luciana Nunes se sensibilizou com a causa instantaneamente. "Eu estava superagoniada. É o Estado da minha família. Queria fazer alguma coisa", resume.

De carro, ela e o publicitário Sadao Futaki percorreram 900 quilômetros até Governador Valadares, uma das cidades que mais têm sofrido com a crise de abastecimento desde o fatídico 5 de novembro, quando a barragem de Fundão se rompeu.

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Moradores do bairro da Bela Vista, em Governador Valadares, orando na fila. Foto: Felipe Larozza/VICE

"Quando cheguei lá, vi que o negócio não era pontual. Não era o meme da semana, do ativista e do doador cool", explica Sadao.

O trâmite, detalha o publicitário, não é fácil. Para armazenar a quantidade de doações foi preciso contar com a ajuda de muita gente, já que as casas e as empresas dos amigos estavam abarrotadas.

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Foto: Felipe Larozza/VICE

O primeiro ponto de entrega foi no bairro da Bela Vista, região carente da cidade. Quando souberam da ação, programada para as 11h, os moradores começaram a formar fila por volta das seis da manhã. Nem mesmo o calor escaldante fez com que desistissem de permanecer ali. Para ajudar na distribuição, a Polícia Militar convocou cerca de 20 policiais que estavam de folga ou que trabalhariam no período noturno. À paisana, eles se revezavam retirando fardos e galões de água do caminhão, organizavam e fiscalizam a fila, entregavam os produtos para a população e, vez ou outra, acalmavam os ânimos de vizinhos que começavam a discutir quando alguém furava a fila – o que acontecia todo o tempo.

Assim que os policiais – de bermuda, camiseta e arma na cintura – se aproximaram (havia somente uma policial mulher), uma moça arregalou os olhos e não resistiu à piada. "É doação de água ou de homem?", suspirou antes de gargalhar com as amigas.

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Foto: Felipe Larozza/VICE

"Trabalhei de madrugada e vou trabalhar de noite. É importante fazermos esse trabalho; então, não medimos esforços", conta o policial Patrick Domingos, de 27 anos e há oito na corporação.

BATE-BOCA ENTRE MORADORES

Não há uma alma que não transpire gotas sofridas de suor. O tumulto começa antes mesmo de as doações serem distribuídas. Um vizinho acusa o outro de ter furado a fila ou até mesmo de ter passado ali mais de uma vez. Mas nada além de um bate-boca interceptado pelos policiais – que pedem calma.

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Pátio da Vale repleto de fardos de água. Foto: Felipe Larozza/VICE

No final de novembro, a reportagem da VICE flagrou uma enorme quantidade de fardos e galões de água no pátio da Vale, dona da Samarco juntamente com a anglo-australiana BHP Billiton. Os produtos estavam ao ar livre e sob constante exposição ao sol. "Ali não estava sendo feito armazenamento, mas sim o recebimento e a automática disposição para os órgãos que estavam fazendo a distribuição, como a Defesa Civil e a Polícia Militar", informou a assessoria de imprensa da mineradora, que afirma ter apenas disponibilizado o local. "Não tem nada a ver com a Vale."

De acordo com o jornal local Figueira, moradores revoltados tentavam invadir o local no dia 24 de novembro. Depois do acontecido, a Vale deixou de estocar água ali.

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Pátio da Vale repleto de fardos de água. Foto: Felipe Larozza/VICE

Por e-mail, a Samarco informa que "todos os esforços necessários, com apoio irrestrito de seus acionistas, Vale e BHP Billiton, foram mobilizados para priorizar o atendimento e a integridade das pessoas que estavam no local do acidente ou nas áreas afetadas".

A Vale afirma que comprou 14,5 milhões de litros de água para ajudar as cidades de Governador Valadares, Colatina e Baixo Gandu (as duas últimas no Espírito Santo). "Mas toda a responsabilidade sobre essa questão é da Samarco", justificou a assessoria de imprensa.

O DIA A DIA DOS AFETADOS PELA FALTA DE ÁGUA

Pedreiro, Geraldo de Oliveira mora no bairro da Bela Vista com a esposa e os filhos. Para ele, o grande problema é a Samarco disponibilizar água mineral em postos em vez de entregar de casa em casa.

O posto mais perto da residência de Geraldo fica a seis quilômetros de distância. Ele relata ter de chegar do trabalho e enfrentar o ônibus lotado. "Eu queria que o diretor da Samarco fosse da minha casa até o posto de distribuição pegar água de ônibus em horário de pico", relata, em tom de indignação. "Estão me chamando de otário. É terrível fazer isso com o povo."

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Geraldo de Oliveira, pedreiro e morador do bairro da Bela Vista, e seus filhos. Foto: Felipe Larozza/VICE

O morador reclama da qualidade da água fornecida pelo Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto). "Tem aquele cheiro forte de cloro", destaca. Numa reportagem publicada anteriormente pela VICE, diversos moradores de Valadares faziam a mesma reclamação.

De acordo com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que analisou a água do Rio Doce, ela "não apresenta indícios de insegurança para o consumo humano".

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Foto: Felipe Larozza/VICE

Boa parte da população, assim como Geraldo, duvida. "Com essa água, não dá nem pra cozinhar", diz o pedreiro, que está unindo outros moradores para entrar com uma ação coletiva contra a Samarco na justiça.

LEVANDO ÁGUA ATÉ OS HOSPITAIS

O trabalho voluntário não para. Maquiadora profissional, Suellen Rodrigues troca os pincéis e os batons diariamente pelos fardos de água. Fundadora do grupo Trupe do Bem, a mineira acredita que o resto do Brasil não tem ideia da atual situação de Valadares. "Falei pros meus amigos que precisamos gritar pra imprensa brasileira o que estamos passando, porque as pessoas não têm noção", relata.

O objetivo da Trupe, conta Suellen, é entregar a água diretamente na mão de quem precisa. "E para as pessoas carentes nos topos da cidade, onde ninguém tem coragem de ir. Nem a polícia, às vezes."

Durante um domingo no final de novembro, acompanhamos os voluntários levando as doações até o Hospital Municipal de Governador Valadares. Ali, cada paciente ganhava três garrafas de 1 litro.

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Foto: Felipe Larozza/VICE

Dentro de uma das alas, José Carlos cuidava de seu sogro, que passaria por cirurgia. Para ele, o pessoal que leva as doações é "nota 10". Enquanto dá comida na boca do idoso, que fala e se movimenta com muita dificuldade, ele discorre sobre a situação da cidade. "Estamos passando um sufoco muito grande. Para nós, que temos idosos e crianças em casa, essa situação pesou bastante."

As arrecadações em São Paulo continuam. "O próximo passo é percorrer o Rio Doce e chegar até outras cidades", informa Sadao. Atualmente, o grupo conta com cinco postos de coleta pela cidade.

Realizar o trabalho voluntário é puxado. "Faz duas semanas que nem sei o que é dormir", resume Suellen, que considera absurda a situação da região em que vive. "Estamos sem saber até quando vamos tomar banho com essa água fedida", indigna-se. "A obrigação da Samarco é doar água mineral pra todos os moradores. Entregar de casa em casa."

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