O Estudante que Comeu o Próprio Quadril como um Projeto de Arte

Fazer seu projeto de arte da universidade emplacar não é bolinho. Você precisa de talento, dedicação, conexões e, às vezes, ferver e comer um pedaço do próprio corpo.

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jun 3 2014, 12:00pm

Fazer seu projeto de arte da universidade emplacar na Time, no Huffington Post, no Independent, no Mirror, no Telegraph e no Die Welt na mesma semana não é bolinho. Você precisa de talento, dedicação, conexões e, às vezes, ferver e comer um pedaço do próprio corpo.

E esse foi o caminho que o norueguês de 25 anos Alexander Selvik Wengshoel escolheu. Wengshoel nasceu com um quadril deformado e passou boa parte da vida sentindo dor, teve que andar de cadeira de rodas por muitos anos, fez tratamento com morfina e passou por incontáveis cirurgias. Quatro anos atrás ele teve a oportunidade de substituir seu quadril por uma prótese de metal, e ele aceitou, mas só porque o médico concordou que ele filmasse a operação e levasse o quadril antigo para casa. Chegando lá, Alexander cozinhou a carne presa ao osso e comeu com batatas gratinadas e uma taça de vinho, tudo em nome da arte.

Me encontrei com ele para descobrir o porquê.

VICE: The Body Project atraiu muita atenção da mídia. Quando você decidiu transformar seu corpo em arte?
Alexander Wengshoel: Em 2010 eu estava estudando animação. Meu tutor me mostrou a arte sangrenta de Hermann Nitsch, e eu fiquei hipnotizado e inspirado. Eu já achava sangue uma coisa fascinante. Aí fiquei sabendo que minha operação final do quadril estava marcada – uma cirurgia que prometia livrar minha vida da dor. Meu tutor disse que a história era muito forte para ser documentada e usada. Então eu tive a ideia de filmar a operação e levar o osso do quadril substituído para casa.

O novo quadril de metal do Alexander.

Como você convenceu o hospital a te deixar filmar a cirurgia e levar o osso para casa?
Liguei para o hospital e eles imediatamente responderam que eu não podia filmar. Continuei tentando, ligando para eles várias vezes por dia, até eles me colocarem em contato com o cirurgião principal. Ele também disse não no começo, mas depois que contei minha história e apresentei meu projeto ele disse que sim. Felizmente ele gosta muito de arte e amou a ideia.

Aí vinha a questão do osso. Geralmente eles trituram isso para usar o pó em materiais de molde médico. Ficar com meu quadril também estava totalmente fora de questão. Mas dei a eles um ultimato: ou eu ficava com o quadril ou mudava de hospital. Discutimos até o cirurgião ficar de saco cheio das enfermeiras reclamando e me deixar fazer isso do meu jeito.

E como foi o grande dia?
Foi em 18 de março de 2010. Deitei na cama do hospital e eles me empurraram pelos corredores até uma vida sem dor no quadril. Segurei o tripé e a câmera entre as pernas. Quando cheguei à sala de operação, a equipe médica começou a fazer perguntas, mas o cirurgião disse que eles iam fazer exatamente como eu tinha pedido. No final, o anestesista se ofereceu para segurar a câmera. Aí ele injetou a droga mais incrível de todos os tempo em mim. Eu estava no paraíso e comecei a rir pra caralho, mas aí eles injetaram outra coisa e começaram a desmontar meu quadril.

O que aconteceu quando você acordou?
Tentei estrangular meu médico. Cinco enfermeiros tiveram que me segurar, e eu levei outra dose de alguma coisa forte. Na vez seguinte que abri os olhos, vi a garota que era minha namorada na época. Me virei na cama e encontrei um osso ensanguentado. Eles tinha colocado meu osso numa embalagem plástica, embalado a vácuo, com um bilhete de boa sorte do meu cirurgião.

Levar um pedaço seu para casa num saco plástico é uma coisa. Mas como você acabou comendo seus próprios tecidos?
Originalmente minha carne não era parte do projeto. Quando fervi o osso pela primeira vez, numa chaleira, a carne saiu e eu joguei tudo na pia. Foi quando senti o choque – pensei: “Meu deus, essa é a minha carne!”.

Logo concluí que isso era muito pessoal para fotografar e peguei um pedaço. Fiquei olhando pro pedaço um bom tempo e pensei “Foda-se”. Coloquei na boca, senti o gosto, mastiguei, engoli e comecei a chorar descontroladamente. Era felicidade, raiva e frustração combinadas.

O Alexander nunca quis jogar seu osso do quadril fora. Ele guarda isso junto com a parafernália médica que colecionou durante os anos.

Você vomitou?
Não, depois de alguns minutos chorando, tudo começou a parecer muito natural, e eu já não pensava mais nisso como carne humana. Então continuei cozinhando e tirando a carne, depois joguei pimenta e alho e fritei tudo numa panela. Sal e pimenta são obrigatórios, assim como um bom vinho. Aí acendi umas velas e também fiz batata gratinada. Me sentei à mesa e comi tudo – isso se tornou uma cerimônia, um ritual.

E como foi defecar a si mesmo?
[Risos] Simplesmente fui ao banheiro. Não teve nada de especial, o cocô tinha o mesmo aspecto de sempre. Eu poderia ter feito um clone acho, mas não.

O que você pensa sobre canibalismo?
Não vejo isso desse jeito. Canibalismo se baseia principalmente na ideia de matar outra pessoa e comê-la – geralmente crua. Gosto de comparar o meu ato a comer a placenta depois de dar a luz. É parte do seu corpo. Você pode chamar de canibalismo se quiser, mas eu não acho que seja isso.

Este ano você exibiu seu projeto final de graduação. A instalação tem três partes: o vídeo da cirurgia, uma mesa com seu longo histórico médico e uma suspensão. Você pode falar um pouco mais sobre isso?
A maioria das coisas e remédios da mesa são de quando eu morri na Tailândia.

Você morreu?
Ano passado eu estava andando de moto em Koh Phangan, sem capacete, muito bêbado e chapado. Bati numa SUV e fiquei destruído. Fragmentos de vidro penetraram no meu pescoço e ficaram a três milímetros da minha artéria principal. Minha cabeça abriu, mas meu crânio ficou intacto. Desloquei o ombro e quebrei o cotovelo e os dedos. Eu já era. Acordei cinco dias depois com placas e pinos em todo lugar. Felizmente eu tinha um seguro bom e acabei num hospital particular.

Alexander faz suspensão há dois anos e se juntou à comunidade de artistas de modificação corporal de Berlim. Essa foto é da exposição de graduação dele.

Como as pessoas reagem quando ficam sabendo que você comeu uma parte sua?
O apoio que venho recebendo do mundo inteiro é inacreditável. As pessoas estão curiosas e muitas ficaram enojadas. Mas sinto que elas entenderam mal meu projeto. Não fiz isso por atenção. Essa é a minha história e não quero que ninguém tenha pena de mim. Minha vida é ótima.

Meu objetivo é fazer o público refletir. A vida é curta e as pessoas têm o hábito de fugir da dor. Um corte no dedo e elas já estão engolindo algum comprimido. A dor não é física – é uma ideia, algo que você pode aprender a lidar. Não precisa ser algo negativo. Só quero que o público pense sobre o que é a vida, e o que o corpo significa para você.

Alguém já tinha feito algo assim antes?
Não, e eu quero mudar a cena artística, injetar sangue novo nela literalmente. Hoje tudo é muito intelectual, teórico e filosófico. Eu quero que as pessoas sintam.

E qual será seu próximo projeto?
Vou continuar esse projeto, mas contextualizando isso através de palavras. Ano que vem planejo me mudar para a Itália e montar uma galeria de arte corporal. Depois disso, ainda não sei. Minhas tatuagens também são parte do The Body Project. Estou cobrindo meu corpo todo com tinta, e quando morrer não quero ser cremado – quero ser esfolado e que minha pele seja salgada e esticada como uma tela. Minha carne vai ser injetada com silicone especial, o que vai me transformar num tipo de escultura. Meu osso do quadril em uma mão e minha calça aberta para mostrar o quadril exposto. Vai ser minha última obra.

E quem vai fazer isso para você?
Estou conversando com pessoas na Alemanha e na Polônia. É um negócio extremamente caro, mas foda-se – vou sacrificar minha vida pela arte. Tudo que tenho são meu corpo e minhas histórias.

Tradução: Marina Schnoor

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