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Choque Tóxico: Por Que Esta Mulher Está Processando um Fabricante de Absorvente Interno Depois de Perder a Perna

Síndrome do choque tóxico (SCT) é uma emergência médica rara causada por uma toxina bacteriana.

por Tori Telfer
18 Junho 2015, 2:30pm

Aos 24 anos, Lauren Wasser tinha a vida perfeita. Ela era a filha de 1,80 metro de dois modelos, loira, olhos azuis e com uma estrutura óssea que era a resposta andrógina de Santa Monica à Lara Stone. Ela tinha recusado uma bolsa integral de basquete numa escola de primeira divisão para investir na carreira de modelo – que começou quando ela tinha dois meses de idade e apareceu na Vogue Itália junto com a mãe. Quando não estava modelando, Lauren tinha aulas de atuação no The Groundlings, jogava basquete por diversão e pedalava 48 quilômetros por dia. Ela tinha um apartamento em Santa Mônica e estava incorporada à badalada cena social de Los Angeles.

"Tudo era baseado na aparência", ela diz. "Eu era aquela garota e nem pensava nisso." Lauren tinha tantos amigos que, quando eles se reuniram no St. John's Health Center, algumas semanas depois, para se despedir dela, a fila deu a volta no hospital.

Tudo começou no dia 3 de outubro de 2012. Lauren se sentia um pouco estranha, como se estivesse começando a ficar gripada. Ela também estava menstruada; assim, Lauren correu até a loja Ralph's mais próxima para comprar sua marca de sempre de absorvente interno, Kotex Natural Balance. A tarefa parecia não ter nenhuma relação com o vago mal-estar que ela sentia. Lauren já lidava com a logística da menstruação há 11 anos naquele ponto, e Kotex era só mais uma parte do ritual. Como a maioria das garotas, a mãe dela a ensinou como usar absorvente interno quando ela tinha 13 anos, mostrando como usar o aplicador e ensinando a trocar isso a cada três ou quatro horas. A regra era algo quase automático: Lauren conta que, naquele dia, trocou o absorvente de manhã, de tarde e (de novo) à noite.

Mais tarde naquela noite, ela decidiu parar no aniversário de uma amiga, no Darkroom da Melrose Avenue. "Tentei agir normalmente", ela revela, mas naquele ponto Lauren já sentia dificuldade para se manter em pé. "Todo mundo disse: 'Meu, você está péssima'." Ela voltou dirigindo até Santa Monica, tirou as roupas e caiu na cama. Ela só queria era dormir.

Tudo que ela lembra depois é de acordar com seu cocker spaniel cego em cima do peito, latindo agressivamente. Alguém estava batendo na porta e gritando "Polícia, polícia!". Lauren se arrastou até a porta, e o policial entrou para inspecionar o apartamento. A mãe de Lauren, recém-saída de uma cirurgia, ficou preocupada com a falta de comunicação da filha e pediu uma checagem de bem-estar.

"Eu não tinha levado meu cachorro para passear; então, havia xixi e cocô dele no apartamento todo", ela frisa. Ela não tinha ideia de quanto tempo tinha dormido e não lembra se era dia ou noite. O policial verificou a situação, falou para ela ligar para a mãe e foi embora.

Lauren conseguiu dar algumas cenouras para seu cachorro e depois ligou para a mãe, que perguntou se ela precisava de uma ambulância. "Eu estava tão mal que não consegui tomar essa decisão", diz Lauren. "Eu disse que só queria dormir e que ligava para ela de manhã. Isso é a última coisa que lembro." No dia seguinte, a mãe mandou um amigo junto com a polícia para a casa de Lauren. Eles a encontraram caída de frente no chão do quarto.

Ela foi levada às pressas para o St. John com uma febre de mais de 40 graus – dez minutos antes da morte, eles disseram. Seus órgãos estavam parando, e ela sofreria um ataque cardíaco. O médico não a conseguiu estabilizar; além disso, ninguém ali fazia a menor ideia do que estava acontecendo até chamarem um médico especialista em doenças infecciosas, que imediatamente perguntou: "Ela está usando absorvente interno?". Ela estava, e isso foi mandado para o laboratório. Os exames deram positivo para síndrome do choque tóxico.

Foto via usuário do Flickr Brad Cerenzia.

SCT, que recebeu esse nome em 1978, é uma complicação de uma infecção bacteriana, frequentemente envolvendo a bactéria estafilococos (Staphylococcus aureus). Não é uma condição apenas feminina, mas há uma ligação entre isso e o uso de absorvente interno há décadas devido a um pico de mortes relacionadas à SCT nos anos 80. (Apenas o absorvente interno não é suficiente para causar SCT – a pessoa tem de ter o Staphylococcus aureus presente no corpo. Cerca de 20% da população carrega a bactéria.)

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Absorventes internos e objetos do tipo são usados durante a menstruação há séculos, mas, nos últimos 50 anos, sua composição mudou de ingredientes naturais, como algodão, para materiais sintéticos, como raiom e plástico, especialmente entre os grandes fabricantes: Playtex, Tampax e Kotex. Essas fibras sintéticas, mais a absorção dos absorventes, podem formar um ambiente ideal para a proliferação do estafilococos. Quando a Proctor & Gamble estreou nos anos 80 um absorvente poderoso chamado Rely, isso criou a tempestade perfeita para a SCT, resultando em várias mortes. De acordo com um estudo conduzido pelo Yale Journal of Biology and Medicine, "o gel de carboximetilcelulose" dos absorventes Rely "agiam como o ágar-ágar de uma placa de Petri, fornecendo um meio viscoso onde a bactéria podia crescer".

"Foi a dor mais excruciante que já... nem sei como descrever isso." – Lauren Wasser

No hospital, os médicos disseram à mãe de Lauren para rezar – e preparar seu caixão. Lauren foi colocada num coma induzido. A notícia de sua internação vazou pelo Facebook, e amigos e conhecidos fizeram fila em frente ao hospital para prestar seus respeitos.

Lauren, claro, não relembra de nada disso. Nem da postagem no Facebook "Reze por Lauren", nem dos amigos passando nervosamente por seu quarto, nem mesmo quando seu longo cabelo loiro, embaraçado depois de dias na cama do hospital, teve de ser raspado. Ela se lembra de acordar com 36 quilos de fluido sendo bombeados em seu corpo; desorientada, ela achava que estava no Texas.

"Minha barriga estava enorme. Eu tinha tubos enfiados por todo lado. Eu não conseguia falar", ela diz. "Do lado de sua cama, havia um tubo com toxinas pretas retiradas de sua circulação. Ela olhou pela janela e viu várias casinhas lá fora, o que seu cérebro grogue associou com o Meio-Oeste dos EUA. Seu corpo estava inchado e parecia alienígena. "Achei que eu tinha tido uma overdose de comida", ela destaca. "Eu não fazia a menor ideia do que estava acontecendo."

Muito pior que a desorientação era a sensação ininterrupta de queimação nas mãos e nos pés, não importava o que ela fizesse. A infecção tinha virado gangrena. Três anos depois, enquanto ela me conta sua história num café em Los Angeles, Lauren ainda não tem palavras para explicar como se sentiu. "Foi a dor mais excruciante que já... nem sei como descrever isso", ela reitera. Ela foi levada até a UCLA para fazer terapia hiperbárica, onde os médicos a colocaram numa câmara de pressão numa tentativa de fazer o sangue voltar a circular em suas pernas.

Enquanto esperava pelo tratamento, Lauren ficou sozinha em seu quarto por um momento. Sua mãe e o padrasto tinham saído, e ela estava sentada numa cadeira grande. Havia uma cortina; atrás dela, uma mulher falava com alguém pelo telefone. Lauren conseguia ouvir a conversa. A mulher insistia que algo era urgente, que certa coisa precisava ser feita o mais rápido possível. Então ela disse: "Tenho uma garota de 24 anos aqui que vai precisar de uma amputação logo abaixo do joelho na perna direita".

"Pensei: 'Meu Deus, ela está falando de mim'", rememora Lauren. "Vou perder a perna."

Foto por Jennifer Rovero/Camraface.

Enquanto Lauren estava no hospital, sua mãe deu início a um processo judicial contra a Kimberly-Clark (a fabricante e distribuidora dos absorventes Kotex Natural Balance) e contra as lojas Kroger e Ralph's, que vendem o Kotex Natural Balance. Os absorventes internos da marca Kotex não carregam um risco necessariamente maior de SCT do que outras grandes marcas, mas ela está nomeada no processo porque essa era a marca que Lauren usou. A equipe de advogados da família espera criar uma discussão sobre o uso de materiais sintéticos pela indústria de absorventes. A denúncia atesta que todos os acusados foram "negligentes e responsáveis de alguma maneira" pela hospitalização de Lauren por SCT. (Um porta-voz da Kimberly-Clark se recusou a comentar o caso para esta matéria, já que a empresa "não comenta sobre processos judiciais em andamento".)

O advogado de Lauren, Hunter J. Shkolnik, está acostumado a ver o lado negro de produtos que a maioria considera seguros. Por exemplo, ele já deu início a um processo porque ingredientes de um xarope para a tosse provocavam derrame. "Queria poder dizer [que o caso de Lauren] me chocou, mas não", ele frisa. "Os absorventes não mudaram desde a epidemia de SCT original. Eles só colocaram o aviso 'Você pode ter um choque tóxico' na embalagem. O material não muda há décadas." Para evitar a ira do FDA, Shkolnik diz, as empresas simplesmente colocaram um aviso nas caixas de absorventes. Ele chama isso de "um passe livre da cadeia".

As caixas de absorventes vendidas nos EUA devem conter o aviso desde os anos 80, mas Shkolnik afirma que o aviso na caixa comprada por Lauren não era claro o suficiente, especialmente quanto à indicação do uso do absorvente durante a noite. O aviso informa: "Troque o absorvente a cada quatro ou oito horas, incluindo durante a noite". A família alega que essa instrução não estava clara. Eles planejam argumentar que "a noite" pode significar mais de oito horas, especialmente para garotas mais novas, que podem facilmente dormir nove ou dez horas nos finais de semana. "[As empresas] deviam dizer: 'Não durma usando isso. Use um absorvente externo'.", destaca Shkolnik.

Claro, a maioria das mulheres se lembra do aviso sobre choque tóxico nas caixas de absorvente; mesmo que nem todas processem isso toda vez que usam absorventes ou compram uma caixa, elas sabem, mesmo que vagamente, que isso está ali. O aviso diz:

O uso de absorventes internos tem sido associado à síndrome do choque tóxico. SCT é uma doença rara, porém séria, que pode levar à morte. Leia e guarde as informações da bula. Use por no máximo oito horas.

Shkolnik admite que a existência do aviso do FDA será a parte mais difícil do caso. "Parte do nosso trabalho será mostrar para o júri que isso não tem a ver com o aviso da caixa – é sobre o fato de eles terem acesso a materiais que poderiam tornar [os absorventes internos] mais seguros há 20 anos e preferirem não os usar. Eles chamam esses absorventes de 'naturais' quando, na realidade, eles são feitos de materiais sintéticos que os tornam perigosos. O marketing deles faz as mulheres pensarem 'Ah, esses são naturais, de algodão', mas eles não são naturais, não são de algodão – e, se fossem, a chance de choque tóxico seria quase zero."

Dr. Philip M. Tierno, professor de microbiologia e patologia da Escola de Medicina da NYU, vem fazendo pesquisas independentes sobre a ligação entre absorventes internos e a síndrome do choque tóxico. Ele concorda que algodão seria mais seguro. "Os maiores fabricantes de absorventes internos usam uma mistura de raiom de viscose e algodão ou puro raiom de viscose, e, em ambos os casos, esses absorventes fornecem condições físico-químicas ótimas para a produção da toxina TSST-1 se a cepa Staphylococcusaureus for parte normal da flora vaginal de uma mulher", explica. "A síndrome do choque tóxico pode acontecer se uma mulher não tem anticorpos para a toxina ou uma produção baixa de anticorpos. Portanto, os ingredientes sintéticos dos absorventes são um problema. Os absorventes 100% algodão oferecem um risco menor, se é que oferecem algum."

Foto por Jennifer Rovero/Camraface.

No hospital, Lauren foi confrontada com uma situação de pesadelo: ter de assinar os documentos autorizando a amputação de sua perna direita logo abaixo do joelho. "As duas pernas estavam começando a mumificar", ela conta. "Eu tinha de agir rápido." O calcanhar e os dedos do pé esquerdo estavam danificados, e os médicos pensaram em amputar a perna esquerda também, mas Lauren lutou para mantê-la. "Eu via isso como uma chance de 50%", ela frisa. "Fizemos dois enxertos de prepúcio de bebê que – milagrosamente, graças a Deus – salvaram meu pé. Hoje, meus dedos foram amputados. Meu calcanhar finalmente fechou, mas é supersensível e não tem uma proteção de gordura."

Como Lauren ainda é jovem, seu corpo está produzindo cálcio numa tentativa de curar seu pé, o que, ironicamente, só prejudica isso ainda mais. "Estou andando sobre pedras", ela diz. Ela passa por cirurgias de manutenção frequentes e ainda sente dor depois de três anos. Os médicos dizem que ela pode precisar de outra amputação mais tarde, quando tiver cerca de 50 anos.

"Levei um tempo para descobrir se eu ainda valia alguma coisa, se ainda era bonita." – Lauren Wasser

"Quis me matar quando cheguei em casa", ela desabafa. "Eu era aquela garota – então, do nada, eu não tinha uma perna, estava numa cadeira de rodas, tinha só metade de um pé e não conseguia nem ir ao banheiro. Eu estava na cama, sem poder me mexer, e sentia como se aquelas quatro paredes fossem minha prisão." Às vezes, ela se levantava da cama, enganada pela síndrome do membro fantasma, e despencava imediatamente no chão. A única coisa que a impedia de se machucar era pensar em seu irmão, que tinha 14 anos na época. "Eu não queria que ele chegasse em casa, me encontrasse e soubesse que eu tinha desistido", ela comenta.

Lauren revela que levou muito tempo para conseguir lidar com sua nova identidade. "Eu chorava num banquinho embaixo do chuveiro, com a cadeira de rodas me esperando lá fora", ela conta. "Isso fode com você. Você viveu a vida inteira pensando 'Sou uma atleta', 'Sou bonita', mas isso era algo físico que eu não tinha controle. Levei um tempo para descobrir se eu ainda valia alguma coisa, se ainda era bonita."

Quem ajudou nisso foi sua namorada, a fotógrafa Jennifer Rovero, que tirou centenas de fotos de Lauren enquanto ela se recuperava, tratando o processo como um tipo de terapia. Á medida que fotografava pela cidade, a dupla criou o hábito de perguntar às garotas que passam se elas já ouviram falar da síndrome do choque tóxico ou se acham que isso é uma coisa real. A maioria responde que não.

No outono, Lauren espera comparecer diante do Congresso Americano com a congressista Carolyn Maloney. A política de Nova York está tentando aprovar a Robin Danielson Act, batizada em homenagem a uma mulher que morreu de SCT em 1998. Isso "estabeleceria um programa de pesquisa sobre os riscos impostos pela presença de dioxina, fibras sintéticas, fragrâncias químicas e outros componentes em produtos de higiene íntima feminina". O projeto de lei já foi bloqueado antes da votação nove vezes.

Para esclarecer: o que Lauren, seus advogados e Maloney querem é transparência, não a proibição de absorventes internos. Esse tipo de absorvente é prático – e, quando se trata de parar o fluxo menstrual, eles fazem sentido.

Mas, até hoje, Lauren não consegue assistir a comerciais de absorvente interno com garotas se divertindo na praia ou descendo um escorredor brilhante num short branco imaculado. Essas propagandas não trazem nenhum aviso sobre a síndrome do choque tóxico. "Não consigo subir num escorregador, não quero nem pensar em usar biquíni, não posso entrar no mar se eu quiser", ela lamenta. "Esse produto fodeu com a minha vida."

Como acontece com cigarros, ela quer que absorventes internos venham com grandes avisos claros sobre os potenciais riscos à saúde. "Você sabe que cigarros podem matar; então, se você fuma, a escolha é sua", ela pondera. "Se tivesse todas as informações sobre SCT, eu nunca teria usado absorvente interno." E ela nunca mais vai usar um.

Foto por Jennifer Rovero/Camraface.

Lauren e sua namorada geralmente não fazem fotos mostrando a perna prostética, preferindo concentrar-se no rosto dela. Porém, hoje, elas me mostraram fotos de sua última sessão. Nas fotos, Lauren usa maquiagem pesada preta nos olhos e está em pé. Sua perna prostética está enquadrada num tênis New Balance. Ela tem a postura alerta e imparcial de uma modelo atleta. Três anos se passaram desde o tubo de toxinas pretas do lado de sua cama, a câmera hiperbárica, o vendedor de próteses chegando a seu quarto do hospital, oferecendo opções sobre as quais ela nem conseguia ponderar ainda. Hoje, Lauren até faz piada com a situação: ela chama suas pernas de "perninha" e "pezinho".

Pergunto se ela ainda joga basquete, pensando em vidas divididas entre antes e depois, além de imaginar se há alguma margem de manobra ali, algum jeito de trazer partes de você entre essa grande divisão. "Se você tem jogo, você tem jogo para sempre", ela responde.

Fotos por Jennifer Rovero/ Camraface .

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Tradução: Marina Schnoor