Todas as fotos são do João Paulo Machado/VICE.

Os góticos do Amazonas viverão para sempre, mas você não

Se você acha que ser gótico é foda, imagina quem é gótico num Estado onde o verão está presente o ano inteiro?

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26 junho 2015, 12:30pm

Todas as fotos são do João Paulo Machado/VICE.

Sabia que precisava fazer algo quando um grande amigo meu voltou falando mais sobre o fato de ter visto muitos góticos circulando nas ruas de Manaus do que sobre seu banho gostoso no Rio Amazonas. Suavemente fascinada – jovem que sou – por essa subcultura jovem, rapidamente fui procurar alguém disposto a encontrar as misteriosas criaturas da noite que vivem num lugar onde a temperatura média anual é de 26° C e a umidade relativa do ar trabalha lá na casa dos 80%. Eu precisava saber: afinal, quem são os góticos de Manaus?

O fotógrafo manauense João Machado topou a missão de ir em busca dessas pessoas da escuridão. Então, em uma sexta-feira à noite, com um calor de suar qualquer buço, João deu um rolê no Parque dos Bilhares com os góticos da cidade para saber como eles vivem, do que se alimentam, como se reproduzem e como conseguem andar de preto no calor.

Uma das primeiras entrevistas foi com o Lúcio Ruiz, 41 anos, que conta que seu primeiro contato com a subcultura foi quando ainda morava em Belém do Pará e se deparou com o álbum Head In The Door , do The Cure. Fascinado com aquele homem de batom vermelho, maquiagem borrada e cabelos bagunçados, que posteriormente descobriu ser o Robert Smith, Lúcio começou a ir atrás de mais informações.

"Ouvindo The Cure, fui procurar o que isso representava. Onde [haveria alguém] que parecia o Robert Smith? Aí cheguei em Edward Mãos de Tesoura, cheguei em Drácula de Bram Stoker, e a gente vai criando um consumo, uma cultura. A gente vai consumindo a arte de Van Gogh, consumindo as poesias de Casemiro de Abreu, Augusto dos Anjos, e começa a ver que juntamos um contingente ", explica o almoxarife e também um dos responsáveis pela festa Bela Lugosi Is Dead , um dos poucos eventos em Manaus que procuram celebrar a subcultura gótica.

Lúcio Ruiz. Foto por João Paulo Machado/VICE.

Lúcio estava acompanhado de sua esposa, Cristiane Ruiz de 28 anos, que, antes de se apaixonar pelo estilo e por essa subcultura, era dançarina de forró na época em que conheceu seu marido. "Não me identificava com o estilo, achava muito frustrante, muito triste, muito sem nada a ver. Nós brigávamos por causa disso, (...) mas aos poucos fui conhecendo, passei a ouvir mais coisas", conta.

Ser gótico também carrega um exercício grandioso de humildade, meio rap nacional, porque grande parte dos entrevistados não se considera gótica. "Se considerar gótico é muito pesado, mas estou na cena, apoiando desde 2000. Tem 15 anos já", frisa Cristiane.

Luciana Silva e sua irmã Beatriz. Foto por João Paulo Machado/VICE.

A mesma coisa acontece com a Valéria Smith: "Até hoje, não me considero gótica. Porque, para mim, a subcultura gótica é apreciar a arte, é leitura, filme, arte e cultura de um modo geral", confidencia a garota de 20 anos, usando um vestido preto e batom vermelho-sangue.

Muitas vezes, a cena gótica na cidade é vista tristemente como algo atrelado ao satanismo, à magia negra, às drogas e aos assassinatos. Nada contra (inclusive, adoro), mas basta uma inocente procurada no Google com as palavras-chave "gótico" e "Manaus" para que uma série de reportagens de cunho sensacionalista noticie assassinatos e rituais que automaticamente são atrelados à cena gótica. "A gente tem problemas com a família, com pessoas que criticam os góticos por causa do modismo, por causa do emo. Uma cidade como a nossa, uma província em crescimento, trouxe um certo preceito e preconceito que está crescendo e tem uma ideia predefinida do nosso estilo. Existe uma deformação e uma falta de informação sobre nós", destaca Lúcio.

"Ninguém imagina o gótico como um cara que paga aluguel, paga imposto, cria seus filhos, alguém que trabalha e que exerce sua função social. A gente faz isso: independente[mente] do que for, a gente tem nossa parcela que sustenta a sociedade. E o que a gente não aceita é a sociedade se colocar contra nós", desabafa.

Luciana Silva. Foto por João Paulo Machado/VICE.

Afora os preconceitos existentes em uma cidade provinciana majoritariamente composta por católicos ou evangélicos, o que unanimemente torna a vida uma coisa difícil para os góticos do norte do Brasil é o calor somado à alta taxa de umidade, o que faz qualquer look se desmontar. Se você acha que ser gótico é foda, imagina quem é gótico num Estado onde o verão está presente o ano inteiro?

"É só se hidratar muito", Lúcio dá a dica. Segundo ele, foram três anos para adaptar a indumentária trevosa aos calores de Manaus. "Como o calor já é uma coisa completamente controversa à nossa filosofia e nossa tendência, que é mais de ambiente de frio, que se originou no frio, é difícil." Valéria Smith conta que, "como a maioria dos eventos são à noite, nós damos a sorte de fazer um friozinho, dá para usar um visual mais elaborado".

Portando uma cartola que adorna seus cabelos milimetricamente cacheados, Luciana Silva é mais sucinta: "O calor é tenso demais, mas normal. Não me impede de jeito nenhum de me vestir do que jeito que quero."

Cristiane explica que, "na vizinhança, é [um] pouco ruim. Na minha casa, então... minha mãe e as minhas irmãs não gostam e me perguntam que tipo de gótica eu sou, já que tô andando assim no calor."

Foto por João Paulo Machado/VICE.

Basicamente, o clima da capital serve como uma seleção natural de quem realmente leva a sério o estilo de vida. "É pra quem quer se assumir mesmo e pra quem gosta mesmo", explana Lúcio.

Ao contrário de São Paulo, onde um amante do gótico pode achar roupas e adornos trevosos na Galeria do Rock, os adeptos de Manaus são seus próprios estilistas para conseguir montar suas identidades. Lúcio e Cristiane garimpam seus looks nos brechós da cidade, customizam as peças do jeito que querem ou mandam fazer suas camisetas de bandas, como Sisters of Mercy ou toda aquela patota deprê dos anos 80.

beatriz, Luciana e Angel. Foto por João Paulo Machado/VICE.

Angel Lohan, de 21 anos, vai na mesma linha DIY: "Compro algumas; outras, eu mesma faço, e umas eu compro por aí. Não vivo de moda, eu mesma faço meu visual". Já Murilo, de 18 anos, diz que adquire seus looks na Soturna, loja especializada da cidade.

Assim como qualquer subcultura, a resistência gótica faz o possível para que as poucas células sobreviventes não morram na cidade. Não são muitos os rolês dedicados a tocarem EBM, synth pop, darkwave e pós-punk, mas, quando rola, há uma atração irresistível. "Quando fazemos eventos aqui, vai gente do punk, do trash metal, do black metal. Só que disfarçadamente. Eles ficam olhando, e, quando a gente olha de volta, eles desviam o olhar. Se não tem ninguém da turma deles por perto, os caras começam a se empolgar com o EBM, synth pop, o que tocar. Manaus precisa chegar em uma maturidade musical e entender que as ramificações acontecem e respeitar o espaço de cada um", diagnostica Lúcio.

Cristiane. Foto por João Paulo Machado/VICE.

Perguntados sobre a memetização do gótico e a figura do gótico suave na internet, a opinião é unânime: trata-se de posers. Valéria até aceita algumas zoeiras, mas fica puta da vida quando associam algumas coisas com o gótico. "Gosto bastante da maioria. Uns são exagero, associando o sadomasoquismo com o gótico. Aí acabam associando a imagem da mulher com um objeto, o que muitos estilos gostam de fazer. Acho que não deveria haver essa mistura."

Angel já deixa claro que não se mistura com essa gentalha: "Acho que é gente que quer aparecer, que acha que gótico é modinha. Não tem nada a ver comigo. É gente poser".

Luciana, Angel, Murilo, Cristiane, Val Smith e Beatriz. Foto por João Paulo Machado/VICE.

Superando todas as adversidades sociais, climáticas e territoriais, quer você queira ou não, enquanto houver pessoas sombrias a fim de consumir toda a poesia disponível de Lord Byron e a discografia do Joy Division, pontinhos pretos serão vistos andando pela Praça do Congresso ou em qualquer outro lugar na capital manauense.

Antes de a entrevista terminar, Lúcio faz um pedido: "Queria complementar isso com uma frase do Lupicínio Rodrigues: 'Há pessoas que deixam o céu por ser escuro e vão ao inferno em busca de luz'. Isso é gótico, mas é um samba dos anos 50. Depende da forma que eu absorvo e da forma que você entendeu."

Então tá.

Veja mais coisas sobre góticos e outras criaturas trevosas nos links abaixo:

Uma História do Gótico

A Plantation Continua Aqui: por Dentro de "Negrogothic, A Manifesto", de M. Lamar

A Morte de uma Máquina Sexual Alienígena

Góticas na Praia

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