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Menos professores, mais repressão policial: como as Olimpíadas podem aumentar a violência contra crianças de rua no Rio

Com a proximidade do megaevento esportivo, crescem os despejos e relatos de brutalidade nas favelas cariocas.

por Donna Bowater
15 Abril 2016, 3:51pm

​Foto: Donna Bowater.

Foto: Donna Bowater

Se não fossem os tiroteios frequentes perto do campo, Gabi Silva, 16 anos, podia jogar futebol o quanto quisesse. Três semanas atrás, ela e suas amigas do complexo da Penha, uma favela de 50 mil habitantes no norte do Rio, viram um garoto levar um tiro na cabeça em confronto com a polícia logo abaixo do quarteirão onde jogam.

"Foi um caos", disse Gabi, uma adolescente tímida, num tom sério porém casual. "No final de semana, sempre tem o risco disso acontecer. Quando o tiroteio é muito grande, temos que parar de jogar e nos esconder, mas não tenho medo porque já estou acostumada."

A Penha é uma das dezenas de favelas do Rio que foram "pacificadas" ou ocupadas pela polícia especial. O Brasil lançou sua estratégia de ocupação em 2008, um ano depois que venceu o direito de hospedar a Copa do Mundo de 2014 e um ano antes do Rio ser escolhido como cidade-sede das Olimpíadas de 2016.

A secretaria de segurança diz que as pacificações não estão relacionadas com nenhum dos eventos. No entanto, defensores dos direitos humanos dizem que o conflito armado aumenta com a proximidade do evento esportivo, o que trará um custo particularmente alto para as crianças pobres e sem-teto.

Segundo relatório de novembro de 2015, publicado pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro, "as taxas de mortalidade crescem significativamente nos anos de megaeventos esportivos". O documento afirma que 1.330 pessoas foram mortas pela polícia em 2007, o ano em que o Rio hospedou os Jogos Pan Americanos, um aumento de 300 mortes comparado ao ano anterior.

Tendências similares continuaram em 2013 com a Copa das Confederações e durante a Copa do Mundo da FIFA de 2014. Violência policial durante operações nas favelas e despejos ligados aos eventos são algumas das violações de direitos humanos destacados pela campanha Children Win, comandada pela organização humanitária suíça Terre des Hommes.

De acordo com pesquisa da UNICEF, os jovens são cada vez mais vítimas de crimes violentos no país. O número de crianças e adolescentes mortos no Brasil mais que dobrou entre 1993 e 2013, com 10.500 homicídios de adolescentes no ano anterior à Copa. Esse número dá ao Brasil a segunda maior taxa de assassinatos do mundo para vítimas menores de 19 anos.

Muitos outros que testemunham violência sofrem com traumas psicológicos duradouros. "Isso atrapalha porque estamos jogando aqui é aí o tiroteio começa, a polícia vem, eles pegam alguém, batem em alguém...", disse Gabi. Ela mora com a família perto do campo de futebol, onde a polícia e os traficantes geralmente se enfrentam. "Isso acontece desde que eu era pequena, e não tenho medo, mas é ruim. Não acho que isso vai mudar. Nada. Nem um pouquinho."

Gabi Silva (esquerda) jogando futebol no Street Child Games no Rio. Foto por Donna Bowater.

Gabi, fã da jogadora fenômeno Marta e da ex-astro do Botafogo Clarence Seedorf, recentemente foi uma das crianças convidadas para participar do Street Child Games, um evento inspirado nas Olimpíadas que promove os direitos das crianças diante de grandes competições esportivas. Adolescentes de nove países, incluindo Burundi, Reino Unido, Moçambique e Paquistão, viajaram para o Rio para um congresso sobre como proteger crianças em situação de risco contra abusos.

Além da ascensão da violência e dos despejos, as organizações dizem que as crianças do Rio também sofrem com uma redução dos serviços sociais, incluindo saúde e educação, porque o dinheiro público foi canalizado para os Jogos. O governo estadual do Rio, que vem sofrendo muito com a crise econômica do país, está sem pagar professores, médicos e outros servidores públicos. Pedidos de equipamentos médicos foram negados porque o orçamento foi todo para as Olimpíadas.

Como resultado dos cortes, os professores estaduais entraram em greve em março, o que significa que crianças como Gabi não estão tendo aula. "Acreditamos que, se mudarmos os corpos governamentais do esporte, eles terão o poder de evitar que essas violações aconteçam", disse Andrea Florence, oficial de estratégia do Children Win. "Como resultado da perda dos serviços sociais, essas crianças podem se tornar, como um segundo impacto, vítimas de exploração, trabalho infantil e violência sexual."

Na sequência do Street Child Games de março, as organizações trabalharam com jovens para escrever uma carta aberta para o Comitê Olímpico Internacional (COI), pedindo que o corpo se comprometa a garantir a segurança das crianças durante os Jogos. A mensagem, dirigida ao presidente do COI Thomas Bach, pedia um "comprometimento público claro com os direitos humanos", e tolerância zero com abusos e violações.

A Agenda 2020 do COI, um documento de 2014, pede "excelência, respeito, amizade, diálogo, diversidade, tolerância, jogo justo, solidariedade, desenvolvimento e paz" durante os Jogos. A Children Win diz que a agenda do COI falhou em incluir uma "exigência explícita" de que a cidade-sede respeite os direitos humanos, incluindo os direitos das crianças.

Um porta-voz do COI disse à VICE Sports que qualquer afirmação de que a Agenda 2020 não inclui "um pedido específico para respeitar e proteger os direitos humanos não é verdade" e que a organização "continua fortemente comprometida em proteger os direitos humanos em todas as atividades relacionadas aos Jogos".

Os ativistas respondem que o COI deveria realizar uma investigação em cada cidade-sede candidata para avaliar quais as diretrizes necessárias para proteger as crianças. "Não contestamos que a responsabilidade principal tem que ser do estado, mas os corpos esportivos também têm a responsabilidade de respeitar os direitos humanos", disse Florence. "O COI e a FIFA retratam valores como dignidade humana, desenvolvimento e respeito, então isso é uma contradição no cerne de seus valores. Isso deveria estar no centro dos negócios deles."

Dinara de Almeida comemora sua medalha de ouro no Street Child Games. Foto por Donna Bowater.

Durante o congresso do Street Child Games, os adolescentes falaram sobre suas experiências com a vida nas ruas, com a violência como um tema comum. O público no Copacabana Palace ficou em lágrimas com as histórias.

Outros mostraram revolta.

Dinara de Almeida, um mãe de 17 anos do Rio, preferiu não falar sobre seu passado nas ruas, mas não demonstrou dúvida quando perguntei se ela estava empolgada com as Olimpíadas em sua cidade natal.

"Não", ela disse. "Isso é ótimo para os atletas, mas a pior coisa para o meu povo, para os pobres. Não temos médicos, não temos hospitais, não temos escolas, não temos professores, não temos nada."

Ela disse que as preparações para os Jogos só melhoraram a Zona Sul já rica da cidade, além da Zona Oeste onde ficam a vila dos atletas e o Parque Olímpico.

A vida no Jacarezinho, uma favela no norte do Rio, é "horrível", ela disse. "Tem tiroteio. É muito violento."

Dinara ganhou a medalha de ouro nos 100 metros com barreira feminino do Street Child Games. Ela morou nas ruas dos nove aos 15 anos. Com ajuda da São Martinho, uma organização filantrópica para a juventude, agora ela mora com a avó, a mãe e os irmãos.

"Minha vida foi difícil, mas graças a Deus e ao meu filho, consegui mudar de caminho e sair das ruas", ela disse. "Mas aqui no Street Child Games, estou representando as meninas e meninos que continuam lá, para que eles tenham a força para sair como eu saí. Temos esperança de mudar, de ser alguém, de viver como todo mundo."

O evento vem na esteira do sucesso da Street Child World Cup, que aconteceu durante as Copas de 2010 e 2014, visando conscientizar sobre a situação das crianças de rua. Depois do torneio de 2014, que trouxe 20 times de crianças de rua para o Rio, o time do Paquistão fez uma turnê por 11 cidades em seu país para promover a campanha. Como resultado, a Assembleia Nacional do Paquistão aprovou uma resolução para proteger os direitos do 1,5 milhão de crianças vivendo e trabalhando nas ruas do país.

"O futebol não é o principal esporte do Paquistão, mas isso ainda teve todo esse impacto", disse John Wroe, fundador da Street Child United, que organiza a Street Child World Cup e o Street Child Games. "Nosso trabalho é colocar os países do lado desses jovens. Se eles os virem de modo diferente, vão tratá-los diferente. E sabemos que podemos fazer isso através do esporte. E com certeza podemos fazer isso através das Olimpíadas."

Ativistas acreditam que o contrato da cidade-sede de 2024 deve aprender com o Rio 2016 e incluir um pedido para reduzir o impacto dos Jogos em crianças. "As Olimpíadas são ótimas, mas quem realmente comemora?", disse Florence. "É importante que todos possam comemorar, não apenas uma parte da sociedade.

"Megaeventos esportivos são complexos por natureza. São um microcosmo da sociedade, mas não devem acontecer às custas da população local e suas crianças. Isso não deve ser uma batata quente. Estabelecer um exemplo ao nível do COI deveria ser uma prioridade."

Tradução: Marina Schnoor