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Ketamina na China

A droga recreacional mais popular no sul do país.

por Robert Foyle Hunwick
14 Outubro 2013, 3:00pm

A primeira coisa que você nota são os canudos: longos com listras em rosa e roxo, aqueles dobráveis de festa de criança. Eles estão por toda parte, nos bancos, mesas e bandejas, e são passados adiante como limonada. Fora isso, o lugar é exatamente o que você esperaria de uma sala privada de karaokê em Guilin, conhecida como a cidade mais bela do sul da China, se você entrasse nela às duas da manhã.

Um empresário taiwanês todo amarrotado faz contato visual. Enquanto seus amigos se preparam para a próxima música, ele me manda entrar entusiasmadamente. A sala está repleta de colarinhos afrouxados, homens de meia-idade um tanto barrigudos que fazem muitos brindes. Duas mulheres estão sem a parte de cima das roupas. Todos cheiram um trecho da grande carreira desenhada na bandeja e em seguida me ignoram.

Algumas horas depois, estou numa parte totalmente diferente da casa. Como quase toda boate de karaokê chinesa, o lugar conta com uma grande pista de dança iluminada por luzes néon e vários bares quase ignorados pela maioria dos frequentadores. A principal atração é uma área cavernosa adiante, uma rede de salas VIP escondidas num labirinto de corredores e andares idênticos, acessível somente para convidados pagantes – e curiosos.

Atravessando os corredores, encontro outra festa, dessa vez com um grupo muito mais extremo. Os olhos estão brilhando e todo mundo está frenético. É um grupo misto de homens e mulheres, todos da mesma idade. Em frente a uma TV de plasma gigante exibindo videoclipes de pop coreano, uma garota anda até a frente para exigir sua música favorita. As mulheres usam tops e saias pretas, os homens estão sem camisa e são quase esqueléticos; muitos deles têm tatuagens. Todos com a cara cheia de ketamina.

A ketamina é a droga recreacional mais popular do sul da China, provavelmente o epicentro global do consumo e produção da droga. Aqui, no coração da base industrial da China, a droga é consumida num nível desconhecido para o Ocidente.

Em 2008, a ONU observou que a ketamina – conhecida na China simplesmente como K ou K仔(K fen) ou “king” – era “a droga mais usada em Hong Kong [e] ganhava popularidade no sul da China”, mas devido a suas aplicações legítimas,“a real extensão do uso é incerto e provavelmente subestimado”. Um relatório da organização Danwei em 2009 mostrou que as apreensões de K em Hong Kong eram o dobro das apreensões de cocaína.

Estima-se que dois terços dos viciados chineses são usuários de heroína, principalmente devido à geografia: o país faz fronteira com os dois maiores produtores de ópio e heroína do mundo, Afeganistão e Mianmar. Mas na última década, o mercado chinês das drogas se expandiu rapidamente. De acordo com um artigo de 2006 de Niklas Swanstrom, um especialista em segurança da Universidade Uppsala na Suécia, “a China está se tornando um elo importante no tráfico de narcóticos, tanto como consumidor, rota e fonte de exportação de químicos precursores” para os países vizinhos.

Juntamente com a metanfetamina, cuja popularidade cresce no mundo todo, a demanda por ketamina na China está em ascensão. Enquanto a Organização Internacional de Saúde também aponta Goa, na Índia, como uma grande fonte de K, estima-se que em 2010, 99% de todas as apreensões globais de ketamina no ano anterior foram feitas na Ásia, onde a droga é “ilicitamente produzida na China”. Sobre as várias apreensões na fronteira dos Estados Unidos, o relatório acrescenta: “sabe-se que a substância é contrabandeada da China via México”.

Num relatório de 2011, no entanto, Yang Baohong e Wang Yan, dois especialistas da polícia chinesa, refutaram essa ideia, insistindo que mesmo que o suprimento de metanfetamina da China tenha chegado além-mar, a ketamina do país é cada vez mais consumida dentro do próprio território.


Em abril, a polícia da fronteira de Hong Kong prendeu um homem de 24 anos com mais de um quilo de ketamina, quantidade com um valor de mercado estimado em 140 mil dólares de Hong Kong (aproximadamente $18 mil). (Via Polícia de Hong Kong.)

A ketamina foi patenteada na Bélgica em 1963 e usada como anestésico e analgésico para animais. Depois de receber aprovação do FDA (o órgão governamental dos EUA que controla a venda de alimentos e remédios), a droga foi usada para tratar soldados feridos no Vietnã. No Ocidente, onde a K ainda não desfruta da mesma aceitação que seus primos de classe A e B, como a cocaína e a maconha, ela em geral é descrita como uma droga de balada capaz de tranquilizar cavalos, e é verdade que ela é frequentemente usada, em grandes quantidades, para dopar grandes mamíferos.

“Ketamina” foi a resposta que recebi do tratador de um grande parque de crocodilos na Tailândia, depois de perguntar como era possível fotografar crianças em cima de tigres e crocodilos com segurança. Mas o termo “tranquilizante de cavalo” não é uma descrição útil quando se descreve o uso recreacional da K.

SENTI COMO SE TIVESSE ENTRADO NUMA ANIMAÇÃO EM 3D. TUDO PARECIA PRÓXIMO E DEPOIS DISTANTE, EU ME SENTI RELAXADO E ÓTIMO... FOI ALGO ALÉM DA LINGUAGEM... ACORDEI UMA HORA DEPOIS E MINHA NAMORADA DISSE QUE EU TINHA RIDO E CHORADO.

Hoje, a droga é conhecida universalmente por deixar mesmo os usuários mais experientes completamente incapacitados, enviando-os para planos mentais distantes. Na China, como em outros lugares, o termo para esse lugar físico fora do corpo é buraco de K. Às vezes, considerado um barato de “hora do almoço”, os efeitos podem ser de curta duração. Com o DMT, outro anestésico dissociativo dos anos 1960, alguns usuários afirmam poder passar direto pelo buraco de K e voltar, relativamente sóbrios, uma hora depois, bem a tempo de voltar ao trabalho. Em algum ponto no meio disso, esses usuários – em geral, jovens das cidades grandes – experimentam sonhos despertos vívidos e, talvez, uma sensação profunda de iluminação, mesmo no meio de uma faixa do Zhou Jie Lun.

“Entrei num outro mundo... Foi assustador, mas o que mais assusta é a maravilha desse mundo”, escreveu o usuário de 20 anos Shenqiu de Liming (“Entardecer de um Dia de Outono”) em seu blog depois de uma experiência com K. “Senti como se tivesse entrado numa animação em 3D. Tudo parecia próximo e depois distante, eu me senti relaxado e ótimo... foi algo além da linguagem... todos os desejos foram despertados. De repente, pensei na morte do meu irmão. Acordei uma hora depois e minha namorada disse que eu tinha rido e chorado.”

O barato intenso da K pode gerar uma sensação de iluminação, mas também mandar usuários inexperientes para um estado de desgraça iminente. “Eu estava tão louca naquela noite que senti que estava morrendo”, escreveu uma garota chinesa de 25 anos. “Eles me fizeram beber um copo de leite e eu vomitei... depois comecei a suar. Suei tanto que minhas roupas ficaram encharcadas.”

Ativistas antidrogas de Hong Kong insistem que a droga pode causar a morte. O caso mais famoso de overdose envolveu uma garota que morreu em 2009, depois de participar de um concurso de cheirar ketamina numa boate de Hong Kong.

Num relatório publicado este ano, cientistas da Universidade de Hong Kong e Oxford apontaram que a ketamina pode aumentar a taxa de batimentos cardíacos e a pressão sanguínea, mas lançaram dúvidas sobre os riscos fatais da droga. “Quando a ketamina é registrada em fatalidades relacionadas às drogas, ela é em geral encontrada combinada a drogas mais propensas a contribuir para a morte”, escreveram os pesquisadores. No entanto, eles alertam para um risco grave: a autoflagelação devido “à redução na percepção da dor, alucinações, paranoia e outros efeitos.”

Atravessando as fronteiras do continente, a cultura K fen pode parecer totalmente fora de sintonia com um país conhecido pelo medo social das drogas, supervisão extrema dos pais e governo autoritário. Mas mesmo que alguns aspectos estejam mudando na China – apesar dos argumentos de alguns chineses de que seu país é complexo demais para que estrangeiros entendam – o grande sucesso da droga aqui não é nenhum mistério.

“Comparada à metanfetamina e à heroína, a K é mais barata”, explicou o policial Wang, membro sênior do Departamentode Segurança Pública em Dongguan, capital de Guangdong, a gigantesca província industrial que faz fronteira com Hong Kong. (Wang é um pseudônimo, policiais não têm permissão para falar com a mídia.) “O público em geral não tem conhecimento dos perigos da K”, disse ele. “Muitos acreditam que a droga não é viciante e não sabem que isso pode ser perigoso para a saúde.” E acrescentou: “[K] é capaz de [...] não somente prejudicar nosso tecido moral social, mas até de destruir a sociedade como um todo”.

O policial Wang disse que a popularidade da ketamina no sul se deve a vizinha Hong Kong e sua localização na rota de transporte no Mar do Sul da China. “Por causa da localização geográfica e influências estrangeiras, no sul há uma curiosidade ainda maior sobre essa droga”, disse ele. As autoridades de Hong Kong, enquanto isso, apontam o dedo de volta para o continente, por fornecer o pó branco que lota as salas de karaokê da ex-colônia.

Guangdong já foi o Cantão, o eixo do flagelo histórico do ópio estrangeiro que, por volta de 1839, explodiu em rebeliões e na primeira de duas guerras sangrentas. Não é de se surpreender então que as penalidades por tráfico de ketamina, como qualquer narcótico ilegal na China, sejam severas. Ano passado, três taiwaneses foram executados na província de Fujian por tentar contrabandear centenas de quilos de ketamina de Taiwan. Em junho, outros três homens foram executados e quatro foram sentenciados à morte na província de Hainan, por vender 7,9 quilos de ketamina e quase 40 gramas de metanfetamina. (Embora a China venha tentado descriminalizar o uso de substâncias ilícitas, os centros de reabilitação do país estão mais para campos de trabalhos forçados, de acordo com um relatório de 2010 da Human Rights Watch.)

E ainda assim as drogas continuam prontamente disponíveis na China, se você souber onde procurar. Numa busca superficial por drogas na internet chinesa, encontrei promessas de metanfetamina “entregue na sua porta em questão de horas!” Algumas empresas farmacêuticas oferecem “serviço de entrega 24h... faça apenas uma ligação, entregaremos o produto em suas mãos no período de uma a cinco horas.” Uma consulta em chinês por “'k fen' + 'comprar'” rendeu mais de treze milhões de resultados, muitos deles oferecendo detalhes de contatos visíveis (geralmente um número de QQ, similar ao Skype, ou, às vezes, um celular), apesar de ser impossível saber quantos deles realmente funcionam.

Aplicativos populares como o WeChat, conhecido em chinês como Weixin, um serviço gratuito de mensagem que tem mais de 300 milhões de usuários na China, também se tornou um canal popular de tráfico de drogas. No WeChat, “arroz” é o apelido para K (metanfetamina é “carne de porco”) e os traficantes geralmente usam homófonos de “venda de drogas” como apelidos, ou pílulas como avatares, para atrair clientes em potencial.

Um vendedor do WeChat, foi encontrado recentemente com 550 gramas de ketamina em sua casa em Guangxi, droga que ele comprou por apenas 12 mil RMB ou $1.950 – uma pequena fração do preço disso na Califórnia, onde a grama pode custar cerca de $50.

“Temos três tipos, cotados de acordo com a pureza”, um vendedor, contatado via Dahe.cn, um portal de notícias de Henan, me disse por telefone. “'Platina' e 'diamante' saem por 40 kuai a grama e a versão indiana sai por 60. Claro, quanto mais você comprar, mais barato fica.” Se norte-americanos quiserem que a droga seja enviada para os Estados Unidos, eles podem encomendar isso via frete – com entrega em duas semanas – ou via ar (“mais caro e um pouco mais arriscado”).

De acordo com o “Relatório de Crimes Online na China” de 2012, um documento anual da Universidade de Segurança da República Popular da China, a internet se tornou um campo “chave” na luta eterna contra os narcóticos. Os autores descrevem uma gangue de 400 traficantes presos este ano em Jilin, no nordeste da China, que usava o QQ e o Taobao, o maior mercado online do país, para vender para mais de 18 províncias. O relatório revela que mais de 66% dos suspeitos tem menos de 35 anos – devido, parcialmente, a “busca desse grupo demográfico por emoção e uso extenso da internet.”

“Os jovens na China querem ser 'ousados' e consideram tomar K como um critério para ser 'legal'”, escreveu Zhong Yan, da Universidade Policial de Jilin, numa tese de 2006 publicada online. Zhong oferece uma anedota para provar seu ponto, uma história sobre um jovem “rico” que apareceu na festa de um amigo com um saco da droga. De acordo com Zhong: “Ele ficou envergonhado de trazer apenas o baijiu convencional” – um tipo de destilado chinês – “e cigarros. Ele achava que isso não demonstrava sua amizade o suficiente.”

Nessa situação, a modicidade do preço da droga não é tão importante quanto suas qualidade exóticas. Apesar de Zhong admitir que a maioria dos usuários de K são atraídos pela droga simplesmente porque “é mais barata e fácil de encontrar”, a história ajuda a demonstrar o status sui generis da K através dos estratos da sociedade chinesa.


Em março, a polícia de fronteira chinesa em Zhuhai apreendeu 5 quilos de quetamina com um contrabandista. (Via Departamento de Polícia de Zhuhai.)

Na China, a ketamina é geralmente referida como um tipo de xing du pin, ou “nova droga”, algo que, diferente da heroína, pode ser produzido em qualquer lugar. E, na China, não faltam indústrias químicas onde todo tipo de composto, legal ou ilegal, pode ser sintetizado, às vezes bem longe do olhar do governo. De acordo com um “Relatório Crítico” de 2006 da OMS sobre a ketamina, sua “produção moderna é um processo complexo que leva tempo, o que torna a fabricação clandestina pouco prática”. Laboratórios legais e ilegais de ketamina podem existir em países “como a Bélgica, China, Colômbia, Alemanha, México e Estados Unidos” especula o relatório, embora regiões onde a corrupção é mais forte, e a força da lei mais fraca, serem mais propensas a levar a culpa pela fabricação ilegal.

Em 2003, depois que o governo central da China designou somente16 fábricas como produtoras legalizadas de ketamina, uma auditoria descobriu que mais de nove milhões de frascos de ketamina injetável tinham desaparecido da rede de distribuição farmacêutica do país. Isso levou a um reforço na regulamentação para a ketamina médica e seu principal precursor, a hidroxilamina. Mas propagandas on-line de ketamina e seus ingredientes para compradores estrangeiros continuam generalizadas. Em 2010, só uma companhia tinha autorização para produzir hidroxilamina no continente e mesmo ainda não tendo começado a produzir, uma pesquisa no Google pelo químico na China mostrava aproximadamente 200 mil resultados na época.

Enquanto a ketamina legal continua a deslizar para o mercado negro, laboratórios clandestinos caseiros proliferam. Químicos autodidatas de ketamina escondem seus laboratórios em montanhas e florestas, informou o Southern Daily, um jornal de Guangzhou, em 2010. “A nova geração de drogas é fácil de fazer”, uma fonte revelou ao jornal, “exigindo apenas ingredientes disponíveis em qualquer drogaria e conhecimentos em química básica”. Em março, a mídia chinesa cobriu um caso em Hubei, onde a polícia apreendeu aproximadamente 300 quilos de ketamina e prendeu 12 suspeitos num laboratório ilegal numa granja abandonada que afirmava estar “processando medicamentos”. Isso é um eufemismo agudo: os usuários recreacionais não se referem a isso como xi du – literalmente “inalar veneno” – mas como haiyao, que significa medicamento “de alto nível”.

Apesar da ilegalidade, a K está ganhando algum reconhecimento entre profissionais de saúde: em alguns lugares, a droga é considerada cada vez mais eficiente para o tratamento do alcoolismo. Apesar dos efeitos do uso em longo prazo ainda necessitarem de investigação, a literatura recente sugere que o uso crônico pode produzir efeitos neuropsicológicos e urológicos. Ainda assim, em 2010, um pesquisador da Universidade de Yale proclamou a K como uma “droga mágica” para lidar com a depressão de curto prazo e alguns médicos norte-americanos já estão prescrevendo o produto.

“Não há um vício físico, mas os usuários ficam muito dependentes psicologicamente”, disse Patrick Wu, do centro de reabilitação Shek Kwu Chau em Hong Kong, ao AFP. O programa de tratamento para K deles dura “pelos menos seis meses, diferente dos dois meses do programa para o uso de heroína”.

Mas Gong Jing, o chefe do Hospital de Tratamento de Vício em Narcóticos Qinduankou em Wuhan, província de Hubei, discorda: “Não temos muitos pacientes viciados em ketamina em nosso hospital, os sintomas são bem leves”, Gong me disse. “Isso não é muito viciante.”

A cidade adotou o que a Comissária de Narcóticos Erika Hui chama de abordagem “holística” de cinco eixos, algo que envolve policiamento, educação, tratamento e cooperação com as autoridades do continente. “Nosso foco tem sido encorajar as pessoas a buscar ajuda cedo e a não esconder o problema”, disse ela. “A primeira prioridade é ajudar em vez de prender ou perseguir as pessoas que usam drogas.”


Um laboratório clandestino e equipamentos de produção de ketamina. Foto via Polícia de Yancheng e de Xinhua.

Do outro lado da fronteira, a segurança pública chinesa não fornece muitas informações verificáveis sobre os esforços de combate à ketamina. Mas em 2012, de acordo com estatísticas públicas, a polícia confiscou 4,7 toneladas de K, juntamente com 7,3 toneladas de heroína, 16,2 toneladas de metanfetamina e mais de 5.800 toneladas de agentes químicos usados na produção de drogas.

A maior apreensão registrada de ketamina no continente envolveu centenas de quilos. De acordo com o Straits Herald, um jornal de Fujian, dois taiwaneses teriam adquirido 50 mil RMB, cerca de $7.500, em estátuas de madeira de Buda de um comerciante em Fuzhou, um “Sr. Lin”. Depois que Lin registrou na polícia a aparente indiferença dos homens quanto ao seu artesanato, eles rastrearam a compra e encontraram 700 sacos de K escondidos em 50 esculturas, todas a caminho de Taiwan via Xiamen e Fuzhou.

Entre as “novas drogas”, no entanto, a ketamina não é a principal preocupação do Dr. Gong – ou da China. Como no resto do mundo, o país encara a ameaça crescente do vício em metanfetamina. Capaz de manter pessoas como caminhoneiros e trabalhadores de fábricas acordados e altamente produtivos a curto prazo, a metanfetamina é uma droga altamente viciante e destrutiva.

Enquanto os químicos precursores da China são conhecidos por alimentar as indústrias de metanfetamina do norte do México e do sudeste dos Estados Unidos, o avanço da droga através da China tem sido ligado ao vizinho do nordeste, a Coreia do Norte, onde a metanfetamina é amplamente usada e produzida dentro do país e nas regiões de fronteira.

Apesar do status da Coreia do Norte na China atualmente ser a de um embaraçoso “inimigo”, do que a de um verdadeiro aliado, os dois países continuam resolutamente camaradas em público. Isso significa que muitos dos atos notórios do regime de Kim – como os assassinatos na fronteira e sequestros envolvendo militares norte-coreanos – são tratados com discrição. Ainda assim, é amplamente entendido que a Coreia do Norte está bombardeando seu amigo com metanfetamina. As histórias tímidas, porém frequentes, do problema da China com a metanfetamina na mídia estatal nunca mencionam o vizinho-problema que fornece a droga pelo norte. Mas um relatório recente, em inglês, do diário comunista Global Times sobre a produção de metanfetamina é extraordinariamente direto e aponta que apesar de “muitas fontes oficiais continuarem estranhamente caladas... muitos... apontam o dedo para a Coreia do Norte.”

Dito isso, metanfetamina é uma droga da “classe baixa”: não há glamour envolvido nisso, e nada parecido com um viciado em metanfetamina funcional. Em contraste, a K é um anestésico alucinógeno não-viciante. Isso não tem propósitos econômicos para os usuários. A droga transcende fronteiras socioeconômicas. Numa China cada vez mais rica, a K não é um problema.


Foto via Mop.com.

UM TRAFICANTE CONTATADO PELO WECHAT EM PEQUIM AFIRMOU VENDER METANFETAMINA E K, TANTO A VARIEDADE DOMÉSTICA COMO A IMPORTADA DA ÍNDIA. AS DUAS CUSTARIAM CERCA DE 200 RMB POR GRAMA NA CAPITAL. A PUREZA? 90%, ELE GARANTIU. ELE PODERIA NOS ENVIAR 10 GRAMAS? SEM PROBLEMA.

Uma noite em Guangzhou no começo do ano, conheci Golden, um “empresário” africano, como ele se apresentou. Ele me ofereceu algo para animar minha noite; parecia que ele estava oferecendo para todo mundo ali. Dois dias depois, eu me encontrei com ele de novo, no que eu tinha definido como um território seguro: uma área movimentada de bares. Em vez disso, ele veio me buscar e me levou para um passeio de táxi não programado com outro cara armado.

Apesar da repentina mudança de planos, eu me senti bastante calmo. Afinal de contas, Golden provavelmente estava somente sendo tão cuidadoso quanto eu. Dirigimos para uma parte distante da cidade e logo a paisagem urbana mudou para um distrito que eu ainda não conhecia, o lar da comunidade africana que ajudou a revitalizar a economia exportadora de Guangzhou nas últimas décadas.

Entre cervejas e kebabs, num café onde flutuava uma misteriosa fumaça doce, Golden me deixou pagar a refeição. Ele e seu amigo – que, logo fiquei sabendo, era chamado apenas de Casey – me contaram o que sabiam.

Golden me disse que uma grama de K era vendida por 280 reminbi em Guangzhou, ou cerca de $45. Claro, por esse valor ele estava simplesmente tentando me passar uma conversa: K é uma droga made in China e mesmo Dean Zhong, do Departamentode Segurança Pública chinesa, me disse, seu valor nas ruas era de 40 a 60 RMB por grama – por volta de $10 em áreas costeiras, cerca de um quinto do que Golden sugeriu. No interior, nas proximidades de Guanxi, isso pode custar de 160 a 180 RMB.

Um traficante contatado pelo WeChat em Pequim afirmou que vendia metanfetamina e K, tanto a variedade doméstica como a importada da Índia. Ambas custavam cerca de 100 RMB por grama na capital. Pureza? 90%, ele garantiu. Ele poderia nos vender 10 gramas? Sem problema.

Mas o valor acima do mercado de Golden era normal, traficantes estrangeiros são cuidadosos e nunca vendem para locais. Golden disse: “Se você vender para os chineses, as penalidades são maiores” e, além disso, a margem de lucro não compensa. “Os chineses vendem isso entre eles, eles têm muito mais disso no estoque.”

“Em qualquer clube que você for, eles colocam isso na mesa e cheiram, garotos e garotas”, ele disse. Conto a ele a história de um clube em Guilin – onde policiais locais uniformizados estavam cheirando e se divertindo como todo mundo – e ele concordou com a cabeça.

“É como na Jamaica”, ele disse. “Se as pessoas estão fumando maconha, ninguém se importa. Na China, se as pessoas estão cheirando K, é a mesma coisa.”


Em maio, a polícia de Dongguan fez uma batida num karaokê de luxo e prendeu 2 mil pessoas por posse de ketamina. (Foto: Weibo.)

Ainda assim, a polícia do sul da China continua vigilante. Em agosto, a polícia de Guangzhou prendeu 168 suspeitos numa batida no Lihua Hotel. Muitos dos detidos eram descendentes de africanos e foram acusados de posse de heroína e metanfetamina. “Muitos desses traficantes estrangeiros pegos na China serão repatriados depois de anos de prisão”, um oficial de Pequim disse ao Global Times.

Num exemplo raro e dramático de repressão às drogas em maio, um pelotão de mil policiais, alguns armados com metralhadoras, fez uma batida nas primeiras horas da manhã num “extravagante” hotel de quatro andares e 60 salas de karaokê em Dongguan, capital de Guangdong, prendendo cerca de dois mil clientes por posse de ketamina. O número de detidos foi tão grande que os policiais tiveram que mobilizar oito ônibus públicos para levá-los à detenção.

A mídia local sugeriu que o luxuoso Jun Huang Hotel era uma “conhecida boca de drogas”. A batida em si provavelmente foi resultado de uma misteriosa mudança na dinâmica de poder local, mas a grande escala de prisões – e o opulento “quatro estrelas” onde isso aconteceu – dão uma ideia da popularidade, aceitação e perigo cercando a K.

Sem surpresa, a história passou apenas superficialmente pela mídia e pelos microblogs chineses, no entanto, isso provavelmente se deve menos à censura e mais a uma atitude social. Muitos usuários nem mesmo veem a K como contrabando.

“Acho que é legal”, disse Golden, ao ser questionado sobre a polícia. A tese de Dean Zhong Yan sugere que esse é um equívoco comum: “Muitos [chineses] não acham que tomar ketamina é ilegal epensam nisso como um símbolo de status”, ele escreveu.

Isso não quer dizer que a ketamina não apareça ocasionalmente em histórias terríveis. Num exemplo bizarro em Hunan, em 2010, cinco homens, incluindo dois policiais, foram condenados por tentativa de estupro coletivo e homicídio de duas garotas de 16 e 15 anos, depois de encontrá-las num karaokê e enchê-las de ketamina. A história causou uma comoção local, segundo o portal de notícias Rednet.cn. Mas apesar da onipresença da droga, a máquina de propaganda do Estado nunca realmente se mobilizou especificamente contra a K.

“Alguns estão tão acostumados com isso que misturam K e cocaína” – uma combinação chamada às vezes de “CK” – Golden me contou.

Brindamos com nossas cervejas e discutimos a política em Guangzhou. Em cinco minutos, ele teria que sair para tentar uma venda difícil. No final, ele me deixou com seu cartão de visita: um número de celular, o nome de sua firma – “Lucky Global” – e seu lema, “Feel Good”.

Agradecimentos especiais a Valentina Luo, por sua ajuda inestimável na pesquisa para este artigo.

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