Publicidade
VICE Sports

Skatistas brasileiros ameaçam boicotar Olimpíadas por causa de escolha de federação

Mineirinho, Rony Gomes, Sérgio Yuppe e outros profissas não querem que o órgão responsável por gerir a modalidade seja um que nunca trabalhou com o skate.

por Iuri Salles
27 Janeiro 2017, 4:49pm

Em agosto do ano passado, numa tentativa de deixar as Olimpíadas mais atraente aos jovens, o Comitê Olímpico Internacional (COI) inseriu o skate entre as modalidades que farão parte de Tóquio 2020. Poderia ser uma boa notícia para muita gente do esporte no Brasil, mas o que tem rolado nas últimas semanas é uma disputa de pranchas entre dois órgãos para ver quem será o responsável por gerir a coisa toda: a Confederação Brasileira de Hóquei e Patinação (CBHP) ou a Confederação Brasileira de Skate (CBSK).

No início deste ano, a CBHP se apresentou como entidade representativa do skate nas Olimpíadas. Aproveitando-se da experiência jurídica de já ter atuado junto do Comitê Olímpico Internacional e do Comitê Olímpico Brasileiro, fez crer, para muitos gestores, que seria a escolha ideal. E assim foi acatado. A CBSK, que regulariza e organiza as competições de skate no Brasil há mais de uma década, claro, não gostou da ideia. Para agremiação, o mais lógico seria que seus representantes, responsáveis por alçar o skate nacional entre os melhores do planeta, fossem os escolhidos.

Os skatistas parecem ter comprado a ideia da CBSK e ameaçam boicotar caso ela não vire a gestora da modalidade nas Olimpíadas. "Nunca participei de nenhum evento organizado pela CBHP, nada, não sabia nem que existia", disse o hexa campeão mundial Mineirinho a VICE Sports. "Eles nunca fizeram nada pelo skate no Brasil, pelo menos nos meu 32 anos de skate nunca vi nada."

O também campeão mundial Rony Gomes endossa o coro. "Um absurdo. Como uma federação que nunca trabalhou com o skate em nada teria know-how pra fazer isso numa fase tão importante de preparação para as Olímpiadas?". Sérgio Yuppe, um dos principais nomes do downhill mundial, crê que haverá uma paralisação por parte dos skatistas caso a CBSK seja deixada de lado. "Estou do lado da CBSK, eu nem conheço a CBHP e acho que o boicote é uma possibilidade caso isso não seja alterado", comentou.

Em sua defesa, a CBHP afirma que gerir o skate é uma determinação da Fédération Internationale de Roller Sports (FIRS) e que não abrirá mão do seu direito de abrigar o esporte em seu rol. "O skate só entraria nas nossas prioridades caso fosse aceito nos jogos de 2020 como realmente aconteceu", diz Moacyr Junior, presidente da  CBHP. "Tudo o que foi feito até agora, tudo, não vale mais nada, o que vale agora é o planejamento do ciclo olímpico. O que foi não importa, se foi feito muito ou pouco. Não adianta o skatista falar que vai boicotar, ele não se inscreve nas Olimpíadas, quem inscreve ele é o COB. Aconteceu esse mesmo processo com snowboard, com o BMX."

Em tom conciliatório, Ed Scander, vice-presidente da CBSK, diz que não há rixa com o CBHP, e sim com os responsáveis pela escolha. "Na verdade, o problema é com o COB, que ainda não foi notificado pelo COI das determinações de entidades internacionais que regem o skate", diz. "Por isso eles rejeitaram nosso pedido de filiação e aceitaram de outra entidade."

Para Scander, deixar a CBSK de lado tem peso negativo não só para a entidade, mas também para os eventos de skate nacional, já que há risco da decisão acarretar em perda de patrocinadores. "Como o planejamento das grandes empresas ocorre entre dezembro e janeiro, já corremos o risco de perder a temporada inteira", afirma.  

Uma das possibilidades para a solução é, segundo Moacyr Junior, CBHP, uma co-gestão entre as duas federações. "Eu acho possível [a co-gestão], se a CBSK realmente não quiser, pode ser outra entidade que rege o skate no Brasil. A gente quer seguir um caminho de paz, onde possamos remar pra frente juntos."

Se considerarmos os desempenhos dos atletas mundo afora, o Brasil é um dos favoritos a dominar o quadro de medalhas no skate em Tóquio 2020. A CBSK acumula 15 campeões mundiais, que trouxeram para o Brasil 47 títulos mundiais. A torcida agora é para que o entrave seja resolvido logo, e os atletas possam treinar as manobras em condições ideais. O COB e o COI ainda não se pronunciaram sobre a possibilidade de boicote no Brasil.

As modalidades do skate olímpico serão street e park masculino e feminino, com um total de 80 skatistas – 40 homens e 40 mulheres – competindo. As datas de seleção ainda não foram confirmadas.