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Quão legal é o Fluxo Legal?

No último domingo (29), a primeira função legalizada da Zona Norte de São Paulo teve 12 carros de som, muita curtição e umas cassetadas da PM.

por Larissa Zaidan
31 Março 2015, 7:55pm

Renato Martins

A rapaziada estaciona seus carros tunados com o melhor que existe no mercado de aparelhagem de som e luzes piscantes e vendedores ambulantes chegam com seus isopores gigantes recheados de cerveja, energéticos de todas as cores e garrafas de destilados: tá armado o baile funk. Conhecidas popularmente como "fluxo", essas festas chegam a reunir até 10 mil pessoas numa só noite, quase sempre em pontos de encontro periféricos da cidade de São Paulo.

Fotos: Renato Martins

É difícil precisar quando o movimento começou, mas dá para dizer que os fluxos são hoje as maiores e mais importantes festas de rua de São Paulo. Esse eventos são em sua maioria auto-organizados pela internet, especialmente no Facebook e pelo Whatsapp. A fanpage do Eliza Maria e o Fluxo, por exemplo, tem mais de 13 mil curtidas e lá são postadas fotos do rolê do fim de semana e divulgadas as datas dos próximos fluxos.

Lógico que essas festas acontecem muito longe do olhar da Prefeitura, portanto a presença de menores de idade fazendo o que a UNICEF não quer que aconteça é quase natural. Tem também o fato de que os fluxos acontecem, em sua maioria, noite adentro em áreas de alta densidade residencial, por isso o som altíssimo dos paredões e o ronco agudo das motos atrapalham o sono da vizinhança e chama a atenção da força policial do Estado. Por isso, há registros de frequentadores dando conta da dispersão violenta por parte da polícia. Pessoas que vão às festas falam em bombas de gás, balas de borracha e, segundo relatos que colhemos, a utilização de armas de fogo.

A ação da polícia rola de duas maneiras: se antecipando ao fluxo e tentando coibir a realização festa e, caso ele aconteça mesmo assim, dissipando o público. Essa tática não parece capaz de deter o público frequentador das festas. É contínuo o crescimento desse tipo de rolê nos bairros mais distantes do centro da capital paulista.

De quinta a domingo, diz o Secretário de Promoção da Igualdade Racial, Antônio Pinto, acontecem cerca de 700 bailes funks ilegais por dia nas ruas de São Paulo. Diante da popularização dessas festas, o atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, pediu ao seu secretário que elaborasse um projeto de ações para diminuir a criminalização sofrida pelo movimento do funk.

"A gente tinha a preocupação de garantir o direito da comunidade de dormir, chegar e sair de casa, de não ter as frentes dos seus portões como banheiro e ao mesmo tempo garantir os direitos dos meninos e das meninas de terem lazer e diversão, algo bastante difícil e complexo na periferia", disse o secretário Antônio Pinto ao THUMP.

De quinta a domingo, acontecem cerca de 700 bailes funks ilegais por dia nas ruas de São Paulo.

Numa tentativa de unificar os diferentes fluxos em um único rolê, nasceu o Funk SP, com organização da própria comunidade e estrutura cedida pelas subprefeituras dos bairros. No ano passado, rolaram duas festas piloto no bairro Jardim Três Marias, na Zona Sul paulistana, e, nesse ano, a parada parece ter começado para valer. A subprefeitura dos bairros Freguesia do ?"/Brasilândia também abraçou o projeto e organizou o primeiro fluxo legalizado da Zona Norte de São Paulo.

Foi assim que no último domingo (29), aconteceu o Mega Fluxo Dahora Legal, na Zona Norte da cidade. Marcado para começar às 14h, somente por volta das 17h a molecada chegou em peso e foi se espalhando em um dos lados da Avenida Inajar de Souza, no Jardim dos Francos.

De acordo com a subprefeitura, o primeiro fluxo legal da Zona Norte reuniu cerca de cinco mil pessoas. O público, em sua maioria, era composto por uma galera bem novinha, de 15, 16 anos. Eles com cortes de cabelo milimetricamente esculpidos e elas com calças ou shorts jeans coladinhos ao corpo e batons de cores lacradoras como roxo e pink. Tinha também muita família, mulher grávida e crianças sozinhas.

Logo no começo da festa, três minazinhas pediram para que eu comprasse uma catuaba para elas. Olhando direito, dava para perceber que elas não tinham mais que dez anos. Conversa vai, conversa vem, me mandaram um papo retão de que já tinham provado da bebida mais de uma vez e que as preferidas delas eram energético e vinho. Nesse momento me senti a caretona do rolê.

Ali, no fluxo legalizado, foi montado um esquema que impedia menores de idade de comprar bebida alcoólica. A organização fez uma tentativa de cercar as barracas com grades metálicas permitindo a entrada de quem apresentasse o RG e tivesse mais de 18 anos. A estrutura funcionou apenas no começo da função; após quatro horas de festa, as grades foram retiradas e a venda de bebida alcoólica ficou liberada pra geral.

Um dos vendedores credenciados pela subprefeitura, Fabiano de Souza, não pareceu curtir muito a vibe de ter uma organização por trás do fluxo, uma festa que costuma acontecer de maneira quase orgânica. Os sistemas de som e barracas de bebida são montados pelos próprios moradores e comerciantes da região em que as festas de rua acontecem. Fabiano contou que a barraca (obrigatória para os vendedores) que a subprefeitura disse que daria nunca chegou. O vendedor teve que alugar a estrutura por R$ 150. O posicionamento de cada tenda também causou um desconforto para ele, que acharia mais justo se tivesse sido feito um sorteio para definir as posições. Apesar desses contratempos, o saldo da noite para o comerciante foi bom. Fabiano faturou cerca R$ 500, valor que disse ganhar em uma noite de fluxo ilegal.

Trocando ideia com vários grupos, saquei que a grande maioria das pessoas acredita não haver diferença se o fluxo acontece com ou sem apoio da prefeitura ou Polícia Militar. "A gente vai beber e usar droga do mesmo jeito", afirma, dando risada, uma das meninas com quem conversei. Muitos deles também falaram que depois do final do Mega Fluxo Dahora Legal, eles colariam nos fluxos ilegais.

Eram 18h30 e o som rolava no talo. O pessoal estava no clima de festa, bebendo, curtindo e fumando um. Tudo estava pacífico. Até que seis PMs se dirigiram ao fluxo (eles ficaram a festa inteira do outro lado da rua, apenas observando) e começaram a abordar agressivamente quem estava fumando maconha. Um menino que usava uma camiseta com o símbolo da erva foi obrigado a rasgar a própria roupa na frente dos policiais.

Acompanhei de perto a abordagem dos policiais que, em certo momento, bateram com o cassetete em alguns frequentadores do fluxo. Questionados pela reportagem, um dos policiais militares se recusou a dar maiores esclarecimentos sobre a ação, limitando-se a dizer que alguns dos frequentadores tinham hostilizado os policiais. O Sargento Marcelo Morais do 47º Batalhão da Polícia Militar, responsável pela segurança no dia do evento, afirmou que usuários de droga seriam "abordados e tirados daquele ambiente de uma forma segura sem causar nenhum perigo à sociedade".

Ainda assim, o clima de festa e curtição permaneceu até o final. A molecada mostrou que estava lá só para se divertir. O som foi desligado às 22h e a dispersão aconteceu naturalmente. Para o futuro do fluxo unificado e legalizado, a subprefeitura tem o projeto de construir um polo cultural e esportivo no final da Avenida Inajar de Souza. "A nossa ideia é ter um parque igual o Parque Ibirapuera, para a periferia", diz o supervisor de cultura da subprefeitura, Luis Tadeu Eugênio. Agora resta saber se a medida vai mesmo agradar a molecada que já cresce acostumada a se divertir na rua, sem o paternalista e atento olhar do Estado.

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