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Adeus Toninho Meliande

Diretor de fotografia de trabalhos expressivos do cinema da Boca do Lixo morreu na última quinta (8), aos 71 anos.

por Matheus Trunk
12 Dezembro 2016, 1:17pm

Um técnico dedicado que realizava seu trabalho com rapidez e eficiência. Antônio Meliande (1945-2016) foi um dos mais importantes diretores de fotografia do cinema brasileiro. É curioso notar o número de trabalhos realizados por ele em algumas décadas de trabalho. Seu currículo possui mais de 100 longas-metragens dos mais variados gêneros. Sua parceria com o cineasta Walter Hugo Khouri é um diferencial dentro da sua carreira. Toninho fotografou dez longas-metragens do conhecido realizador paulistano. Seu cuidado era tanto que o técnico chegou a receber o prêmio de Melhor Fotografia no festival de Gramado por O Anjo da Noite (1975). "Os dois se deram muito bem. O Khouri também era um cara amável e alegre durante as filmagens. Nesses trabalhos o Toninho manteve uma qualidade impecável, um refinamento grande", lembra o diretor Alfredo Sternheim, que conviveu com os dois.


Pela fotografia em "O Anjo da Noite", Meliande recebeu prêmio de melhor fotografia no Festival de Gramado de 1975. Foto: reprodução

O professor Renato Luiz Pucci Júnior pesquisou a obra de Khouri e escreveu um livro sobre o diretor, O Equilíbrio das Estrelas: filosofia e imagens no cinema de Walter Hugo Khouri, lançado em 2001. Pucci acredita que Meliande foi um dos colaboradores mais fiéis do realizador. "Não resta dúvidas da qualidade dele como técnico dada a exigência do Khouri quanto aos aspectos estéticos de seus filmes. Cada um dos filmes do diretor abordava problemas existenciais. Daí a necessidade e uma luz que sugerisse a profundidade da consciência dos personagens, o ambiente alternadamente depressivo e eufórico em que viviam. Eram filmes com uma fotografia excepcional, a serviço e à altura dos seus respectivos roteiros", diz o pesquisador.

Nascido na Itália, Meliande emigrou ainda criança para o Brasil. Sua vida profissional no cinema começou no Rio de Janeiro nos estúdios Herbert Richers como assistente do diretor de fotografia Ruy Santos em 1965. Seu primeiro filme um longa-metragem estrelado pelo cantor Jerry Adriani, Jerry, a Grande Parada (1967) de Carlos Eduardo de Souza Barros. Meliande veio para São Paulo para trabalhar como assistente do diretor de fotografia Osvaldo "Carcaça" de Oliveira em filmes de cangaço produzidos pela produtora Cinedistri. Acabou ficando e radicando-se na Boca paulista.

Um dos seus primeiros trabalhos como fotógrafo foi longa-metragem Paixão na Praia (1968), primeiro filme dirigido pelo então crítico de cinema Alfredo Sternheim. "O Toninho veio como uma imposição do (produtor) Galante. Éramos dois iniciantes e nos demos muito bem. Ele era uma pessoa bacanal amável e bem-humorada", recorda Alfredinho. Eles trabalharam juntos em mais três outros filmes: Lucíola, o Anjo Pecador (1975), Mulher Desejada (1978) e A Herança dos Devassos (1979). "Esse foi uma produção difícil. Tivemos um problema com o produtor argentino, mas o Meliande contornou tudo mantendo o bom humor mesmo com o clima pesado", destaca Alfredo.


Antônio Meliande dirigindo filme da Boca nos anos 1980. Foto: Cinemateca Brasileira

Dentro da Boca, Toninho tornou-se um dos técnicos mais requisitados do quadrilátero. Sempre entregava filmes bem acabados mesmo quando as condições eram adversas. Trabalhou com diferentes diretores como Adriano Stuart (A Noite dos Duros), Carlos Coimbra (O Signo do Escorpião), Cláudio Cunha (Amada Amante), David Cardoso (Dezenove Mulheres e Um Homem) e José Miziara (Nos Tempos da Vaselina e Embalos Alucinantes).

Diretor com veia autoral, João Batista de Andrade contou com os serviços de Toninho em dois trabalhos. O fotógrafo foi premiado em ambos com o prêmio de melhor fotografia pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). A parceria dos dois iniciou-se em Doramundo (1978), longa-metragem baseado em obra do escritor Geraldo Galvão Ferraz rodado na vila ferroviária de Paranapiacaba, na Grande São Paulo. A obra recebeu o prêmio de melhor filme e direção no Festival de Gramado. Batista também chamou Meliande para trabalhar em A Próxima Vítima (1983), filme estrelado pelo ator Antônio Fagundes. "Nesses dois trabalhos ele esbanjou qualidade e criatividade. Toninho era exigente e não admitia que a escassez de recursos reduzisse a qualidade da fotografia e do filme. Uma pessoa muito querida e talentosa", relembra João Batista.


Meliande sabia trabalhar com poucos recursos. Nesse registro ele está improvisando uma grua. Foto: acervo pessoal

A confiança dos produtores era tamanha no técnico que Toninho passou para a direção cinematográfica. "Iluminador excepcional, várias vezes premiado (...) é capaz também de ser um homem cinematográfico de sete instrumentos: além de seu mister específico, faz câmera, pode produzir, ser ator, escrever argumentos, roteiros, fazer produção executiva", escreveu o crítico Rubem Biáfora no O Estado de São Paulo durante o lançamento do filme Bacanal (1980), quarto longa-metragem assinado por Meliande.

Toninho também foi um dos dez fundadores da produtora Embrapi (Empresa Brasileira de Produtores Independentes). Uma tentativa dos técnicos da rua do Triunfo fazerem cinema sem precisar dos produtores tradicionais. "A Embrapi começou num bate-papo de bar", lembra o cineasta Mário Vaz Filho. "Nossa ideia era fazer todo mundo trabalhar nas suas áreas com orçamentos pequenos controlados por nós mesmos. Infelizmente dos sócios originais agora só estão vivos eu e o Concórdio (Matarazzo, assistente de câmera)", afirma Marinho que atualmente prepara um documentário sobre a produtora. Para a Embrapi, Meliande dirigiu o longa-metragem Amado Batista em Sol Vermelho (1982). "Esse filme foi um prejuízo como a maioria daqueles trabalhos", aponta Mário Vaz.

A chegada dos filmes de sexo explícito acabou condenando o cinema softcore realizado pela produtora. Os exibidores passaram a exigir filmes nesse gênero. Meliande embarcou no hardcore assinando diversos títulos tanto como técnico e diretor com o pseudônimo de Tony Mel. "O Toninho era talentoso e eficiente. Mas a grande qualidade dele era a rapidez", destaca Mário Vaz Filho que teve quatro explícitos fotografados por Meliande: A Mulher que Se Disputa (1985), A Grande Trepada (1985), Um Pistoleiro Chamado Papaco (1986) e A Vingança de Uma Mulher (1987).

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Após o fim do ciclo da Boca, nos anos 1990, Toninho ingressou na Rede Globo, emissora na qual trabalhou como iluminador de minisséries como Boca do Lixo, Malhação e Sandy e Júnior. Nessa época, passou a morar no Rio de Janeiro, onde residia no bairro de Guaratiba.

Meliande estava debilitado devido a um AVC sofrido recentemente. Morreu na última quinta-feira (8), aos 71 anos com diversos prêmios e mais de 100 filmes no currículo. Deixa esposa e três filhos.

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