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Jovens mulheres contam como foi viver sob o comando do ISIS

“O cabelo e a pele da minha mãe estavam espalhados pelas paredes. Já limpamos tudo, mas quando voltamos pra cá lembrei do que aconteceu e pensei na nossa família.”

por Harriet Hernando ; Traduzido por Marina Schnoor
24 Novembro 2017, 9:00am

Salih mostra fotos de sua casa destruída. Foto: Tommy Trenchard / Oxfam.

Matéria originalmente publicada na VICE UK.

Depois de nove meses de batalha, o ISIS foi finalmente expulso de Mossul alguns meses atrás, deixando destruição em seu caminho – casas em ruínas e moradores tendo que lidar com as cicatrizes físicas e psicológicas da guerra.

Adolescentes cresceram conhecendo a vida apenas em conflito. Nascidos na época da guerra do Iraque, eles viram seu país ocupado pela coalizão liderada pelos EUA, depois se tornaram jovens adultos numa era de brutalidade do ISIS, com Mossul sob o controle do grupo jihadista por dois anos. Muitos sofreram traumas inimagináveis – mas estão determinados a reerguer seu país dos escombros.

A Oxfam (a organização para qual trabalho) tenta alertar sobre as consequências de longo prazo para uma geração de iraquianos crescendo na guerra. O relatório “We Have Forgotten What Happiness Is” da agência internacional conta os traumas sofridos durante a ocupação do ISIS.

Anos de educação se perderam e mulheres ficaram presas em suas próprias casas, só podendo sair acompanhadas de um homem da família. Aí vieram as batalhas. A mãe e a irmã de Malak, 15 anos, morreram quando sua casa foi bombardeada, a irmã de 10 anos de Salih foi morta num ataque aéreo. Zahra, de 17 anos, teve as pernas quebradas quando o telhado caiu sobre ela. Mais importante, essas garotas agora carregam o bastão para um futuro melhor em seu país.

Zahra quer ser professora, Salih, costureira, e Malak quer voltar a estudar. Aqui, elas contaram suas histórias para a VICE.

Os nomes foram mudados para proteger as identidades das garotas.

Zahra, 17 anos

Zahra fotografada em sua casa no distrito de Qayarreh, que foi retomado do ISIS no final de 2016. Foto: Tommy Trenchard / Oxfam.

Cresci aqui e conhecia todo mundo. Eu era feliz até meu tio ser sequestrado. Quando o ISIS veio, queríamos fugir, mas eles executavam qualquer pessoa tentando sair, então decidimos ficar.

Eu me sentia muito insegura, então ficava só em casa. O ISIS usava qualquer desculpa para matar. Eu estava com muito medo. Quando saía, eu precisava cobrir meu rosto e as mãos, e tinha que estar acompanhada por um homem. Isso não é liberdade.

Três dias depois que nosso bairro foi libertado, fugimos. Uma casa atrás da nossa foi bombardeada, metade da nossa casa caiu e quebrei minhas pernas. Consegui escapar com minha mãe, meu irmão e minha irmã. Meu pai ficou, ele tinha medo que alguém ocupasse nossa casa. Fomos para Makhmour e depois Kirkuk para tratar minhas pernas.

Me sinto segura agora que o ISIS se foi. Voltei a estudar. Quero continuar estudando e trabalhar depois. Estou muito feliz que voltamos para o nosso bairro e as famílias estão juntas de novo. Quero estudar e ser professora. Quero continuar aqui porque é onde pertenço. Não quero ir para qualquer outro lugar. Quero que todo mundo estude e reconstrua o Iraque.

Salih, 20 anos

Foto: Tommy Trenchard / Oxfam

Quando o ISIS chegou, eles obrigaram as mulheres a se cobrir e não podíamos sair sozinhas. Tentamos escapar, mas o ISIS não deixava ninguém sair.

O mais difícil de viver sob o ISIS era não poder sair sozinha. Eles anunciaram da mesquita que se uma garota fosse pega sozinha ou não se cobrisse, eles levariam o irmão dela e o matariam.

Queríamos fugir, mas era muito assustador, porque se o ISIS via uma família tentando deixar a cidade, eles a executavam. Quando as batalhas começaram, com os ataques aéreos, minha irmã de dez anos morreu e meu pai ficou ferido.

Minha família acabou conseguindo fugir, e quando as batalhas acabaram, minha mãe e meu pai perguntaram se queríamos voltar. Dissemos que sim. Eles disseram “Mesmo se nossa casa estiver destruída, vocês querem voltar?” E dissemos sim.

Estou feliz que o ISIS se foi, mas estou triste porque não estou na minha própria casa e minha irmã morreu. Penso muito nisso. Quero que a gente consiga reconstruir nossa casa no mesmo lugar. Quero continuar no nosso bairro – toda a minha família e parentes estão aqui – mas tenho medo que o ISIS volte.

Eu queria acordar um dia e descobrir que reconstruímos nossa casa e tenho uma máquina de costura para fazer roupas.

Malak, 15 anos

Foto: Tommy Trenchard / Oxfam

Muitas pessoas fugiram durante a batalha, mas ficamos com o exército. Mas aí um morteiro do ISIS atingiu minha casa e minha mãe e irmã morreram, meu pai ficou ferido.

O cabelo e a pele da minha mãe estavam espalhados pelas paredes. Já limpamos tudo, mas quando voltamos pra cá lembrei do que aconteceu e pensei na nossa família. Fico triste porque sinto saudade delas.

Fomos para o acampamento e tive que cuidar do meu irmãozinho, que ainda mamava no peito. Eu não queria ficar no acampamento; eu queria voltar para casa. Fazia muito calor e era difícil ficar na barraca. Foi muito difícil para mim. Eu cozinhava e fazia pão, ninguém me ajudava – meu pai ainda estava se recuperando.

Voltamos neste verão, mas nossa casa foi destruída; agora estamos na casa do meu avô. Me sinto livre agora: posso ir a qualquer lugar porque é seguro. Mas não estou feliz – tudo está bem, mas perdi minha mãe e minha irmã, então estou muito triste.

Sou muito jovem para casar; quero terminar os estudos primeiro, depois me casar. Eu gostaria de ir para Mossul; prefiro assim porque lá eles têm de tudo – é uma cidade grande.

Se eu pudesse acordar e todos os meus sonhos se tornassem realidade, a gente teria uma nova casa, condições melhores, mais dinheiro e uma nova vida onde fosse seguro.

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