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Uma história oral do anarcopunk em São Paulo – parte 2

Cansados do ganguismo e da estagnação que dominavam o cenário no final dos anos 80, os anarcos se autodenominam, rompem com o modelo punk caverna e surgem as primeiras bandas e militâncias.

por Eduardo Ribeiro
20 Julho 2018, 4:00pm

Brincando de lutinha. Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

O Movimento Anarco-Punk no Brasil tomou forma a partir de iniciativas que começaram em São Paulo. No começo dos anos 90 era comum encontrar os anarcopunks agrupados na Praça Ramos, entre a Galeria do Rock e a Woodstock Discos, e nas escadarias do Teatro Municipal. Em abril de 91, por exemplo, rolou na Praça Ramos um protesto contra a Guerra do Golfo Pérsico (!). Também era possível encontrá-los aos sábados à noite na Estação da Luz. O MAP surgiu espontaneamente entre punks da periferia. É simples de entender: eles sentiam na pele a desigualdade, o tédio e a opressão, atraíam-se pela crueza do punk, mas achavam que era chegada a hora de transpor a música e agir para tentar mudar alguma coisa. Era necessário pular fora da viciosa cultura das gangues, que estava consumindo muita energia produtiva.

Já esmiuçamos o contexto do punk no final dos anos 80 que propiciaria a busca dos jovens anarquistas, deslocados nas reuniões do Centro de Cultura Social e da Confederação Operária Brasileira, por uma representatividade legítima. Na segunda parte desta história oral, os entrevistados compartilham relatos do descontentamento que alimentou a vontade de criar um movimento mais ativista. E do rompimento, parte geracional parte ideológico, dos anarcos dos anos 90 com as demais bancas punks. As primeiras bandas anarco que se tornariam clássicas, como Execradores e Metropolixo, surgem no âmbito das iniciativas do Coletivo Altruísta, e descobrimos a razão do fim da Amor, Protesto y Ódio, entre outras fitas.

Leia a primeira parte da História Oral do Anarcopunk no link abaixo:

Fontes: Fontes: Antônio Carlos (Centro de Cultura Social), Diego Divino Duenhas (Movimento Anarco-Punk), Ivan Ribeiro (Anarquistas Contra o Racismo), Johnnny Revolta (CCS Vila Dalva), Josimas Ramos (Execradores), Katy Fon (MAP), Keli de Fátima (KRAP - Koletivo de Resistência Anarco-Punk, zine Libertação Feminina), Marcolino Jeremias (ULBS - União Libertária da Baixada Santista), Maria Helena (Coletivo Anarco-Feminista, banda Ira dos Corvos, MAP), Marina Knup (Imprensa Marginal), Nenê Altro (Juventude Libertária), Paulo Poeta (Amor, Protesto y Ódio), Ruivo Lopes (ULBS), Sergio Valdez “Loquinho” (Coletivo Altruísta), Silvio Shina (Coletivo Altruísta, zine Punto de Vista Positivo).

Encantamento e desilusão

Silvio Shina: Um dia, em meados dos anos 90, meu irmão chega em casa com um zine chamado Atitude Pessoal, do Nenê Altro. O No Violence, na figura do Ruy Fernando, juntamente com este zine, os shows do Execradores que eu tinha visto e os zines anarcopunks, me viraram do avesso. Comecei a ouvir cada vez mais som punk, anarco e hardcore. E comecei acompanhar essa movimentação. Só sei que, algum tempo depois, eu estava participando de um grupo libertário chamado Coletivo Altruísta, que se reuniu inicialmente ao redor das bandas Execradores, Metropolixo, Desertor e Atitude Consciente (da qual eu era vocalista). Isso se deu também pelo fato das bandas não possuírem todo o material necessário para ensaiarem. Então, dividíamos guitarras, baixo, bateria e equipamento de som. E o que não tínhamos, comprávamos coletivamente, quando podíamos. O que era de vez em nunca.

Começamos organizando shows na região do Grajaú e em outros lugares. Depois, passamos a também editar um boletim, O Altruísta, por meio do qual divulgávamos as atividades do coletivo e de outros grupos anarquistas, além de textos e charges feitas pelo grande Sérgio Valdez, vulgo Loquinho. Ele fazia manualmente toda a arte do coletivo. Desde cartazes até capas das split tapes que lançávamos e a arte do boletim. As duas split tapes que lançamos foram a Muito Além do Barulho (que vinha acompanhada de um livreto em papel sulfite rosa como uma forma simbólica de protestar contra a homofobia e o machismo dentro do punk), com as bandas Desertor, Atitude Consciente, Metropolixo e Execradores; e a Ideologicamente Perigosos (1994), com Metropolixo e Execradores, pois a essa altura a Desertor tinha saído do coletivo, e, a Atitude Consciente, acabado.

E a gente divulgava tudo isso nos shows, nas manifestações, nas atividades e afins. Mas o principal meio por onde escoávamos essa produção para além do Centro de São Paulo eram os correios. Haja cola no selo para tanta carta! Eu mandava muitas cartas toda semana pelo correio. Mais de 50. Era muito foda. A atitude punk dos anos 80 estava muito atrelada às gangues, à violência cega, à despolitização e a um certo niilismo. Tanto os anarcopunks como eu, morador de uma periferia violentada pelo Estado, estávamos à procura de outra coisa. Mesmo não sabendo direito o que era essa outra coisa.

Paulo Poeta: Logo que comecei a colar com esse pessoal, eles estavam organizando um ciclo de manifestações no Centro chamado Ciclo Antimilitarista. Era no mês de agosto, provavelmente como uma prévia do 7 de setembro. O que eu ouvia da galera é que era tradição ser preso tentando zoar o desfile [risos]. Depois comecei a dar rolê de som, já com essa pegada politizada, bem numa época em que era grande o racha entre o anarcopunk e o restante dos punks de gangue, que conheci bem depois.

A primeira banda em que toquei foi o Metropolixo (baixo). Entrei no Execradores (baixo) um pouco depois e toquei também no Amor, Protesto y Ódio (guitarra). Foi um pouco depois da demo Ideologicamente Perigosos. A primeira coisa que saiu depois da minha entrada foi o split compacto cor de rosa, editado na França, com as mesmas músicas da demo. Gravar mesmo, só tardiamente, em 96, pro Resistência Anarcopunk . Com a Execradores eu gravei mais cedo, em 94 mesmo. Foi aquele compacto Revolucionar o Cotidiano, Cotidianizar a Revolução .

Depois da gravação do Resistência o Metropolixo miou. Foram rolando várias coisas. O que aconteceu foi que o Alan (guitarra, vocal), o cara que compunha, que era a cara da banda, acabou saindo. Com a saída dele não tinha mais muito sentido continuar. A gente ia conhecendo coisas novas que não se encaixavam na proposta de determinada banda, aí montava uma pra fazer aquilo. Amor, Protesto y Ódio surgiu da febre pelo Disrupt. Quando começou aquele lance crust todo mundo ouvia muito Sin Dios e essas bandas espanholas, e Disrupt, Detestation, esses grupos de Portland.

De nenhuma banda eu saí, todas foram acabando. No caso da Amor, Protesto y Ódio, é uma coisa tão doida que eu nem saberia explicar. Mas o que acontece é que os outros integrantes – Josimas (guitarra), Max (baixo), que tocava bateria nessa época na Execradores também, Estilou (voz) e Naira (voz) –, pessoal que morava naquele espaço Casa da Esquina, tinha treta com a galera que morava na mesma rua, e nessa época eles estavam numa pegada bem pesada, bem mórbida.

Tinha uma menina que morava com eles, a Luana, que se suicidou. O Estilou entrou numas de não tomar banho, ficou oito meses sem tomar banho. Rolavam umas tretas bem pesadas, um clima pesado. São Paulo pra eles foi ficando insustentável, e aí eles foram pra Florianópolis. A banda acabou meio que nessas. Era atrapalhação da vida de gente que tava saindo da adolescência e que tinha que se virar, e no meio das tretas políticas vinham as tretas de relacionamento, de não saber cuidar da própria vida, de não ter grana pra nada. No meio de tudo isso entra droga, bebedeira, falta de perspectiva mesmo. Esse pessoal, Max, Estilou, Naira e tal, entrou numa pegada, usando o termo no pejorativo mesmo, e não no sentido real, niilista. Era muita negatividade. Se você quiser pegar o clima, ouça aquele compacto do Provocazione, a banda que eles tinham. É só abrir o encarte e ver aquele desenho. Bem bad.

"Quando começamos a tomar LSD surgiram muitos 'por quês' na cabeça, e começamos a desacreditar de algumas coisas, sabe? Via que tava foda, parecia que não tinha futuro mesmo, era uma vida muito à margem da sociedade. Amigas se prostituindo, o pessoal passando fome. Aconteceu muita coisa triste pra gente se ligar."

Keli de Fátima: Quando nos mudamos pra Floripa, tentamos viver em comunidade, eu, a Naira, o Max, o Estilou, meu companheiro na época. A gente plantava. Morávamos num lugar que era só sítio, foi lá que tivemos a experiência com cogumelo, outras drogas lisérgicas. Isso pegou muito pra esse negócio de desencanto. Porque quando começamos a tomar LSD surgiram muitos "por quês" na cabeça, e começamos a desacreditar de algumas coisas, sabe? Via que tava foda, parecia que não tinha futuro mesmo, era uma vida muito à margem da sociedade. Amigas se prostituindo, o pessoal passando fome, não tinha ajuda de pai. Tinha que resistir ali, pra comprar um gás era foda. Foi uma época de repensar sobre tudo o que estávamos vivendo. Aconteceu muita coisa triste pra gente se ligar. Depois foi morar eu e o Estilou, passamos um tempo morando juntos, eu tive uns problemas, assim, de deprê e tal, passei um período difícil, fui pra Sampa. Ele foi lá passar um tempo comigo, e quando a gente estava voltando pra cá, ele morreu.

Paulo Poeta: Lembro de uma vez que a gente foi tocar num pico onde sempre rolava show nessa época, no Jardim Donária, onde os caras vendiam aquele pão com soja que tinha gosto de miojo. A entrada era de terra, tinha um barranco, aí abria pra um salão. Chegamos lá pra tocar e começou uma treta entre o pessoal da banda. Eu não sabia nada do que estava acontecendo. Sentei no ampli com a guitarra, baixei o volume e fiquei brincando, esperando a treta acabar porque eu queria tocar. Mas, no fim, só virou uma briga pública, tipo Metallica, sabe? Os caras brigando diante do público, e voltei pra casa triste porque não toquei. Essas brigas deram fim à Amor, Protesto y Ódio. No caso da Execradores, quando o Max [bateria] anunciou que sairia, que eles iam se mudar, a gente foi atrás de outro baterista e aí que entrou o Zorel, lá de Sorocaba. A Execradores continuou até 2007, e acabou por esgotamento, mesmo.

Josimas Ramos no pico de ensaios da casa onde mora, em Itanhaém, SP. Foto: Felipe Larozza/VICE

"Punks e anarquistas"

Josimas Ramos: Nos anos 90, eu, o Valo Velho, o Alex (KRAP/ Iconoclasta), tentamos muito entender quais eram os primeiros vestígios que se podia identificar do punk no mundo. Se for falar de música nós vamos encontrar muitas bandas anteriores àquelas de 77, como o With No Name, de 74, que já tinha uma postura punk e já falava sobre isso, o próprio Crass é pré-77... Um recorte de jornal que um cara mandou pra gente, de 73, mencionava "Jovens vestidos de preto, com bandeiras negras, fazem manifestação anárquica no centro de Nova York". Então, assim, essa rebeldia que explodiu em cada continente de uma determinada forma, sempre esteve muito ligada ao questionamento. O punk questionava tudo.

Essa essência questionadora é que eu acho que caminhou para o vínculo com o anarquismo. Acho que foi se associando, sobretudo depois que as pessoas começaram a ler sobre anarquia, a conhecer a literatura antiga. No Brasil, se você pegar os fanzines punks dos anos 80, tem um monte de (A). Em 86, na retomada do movimento anarquista, que se abafou durante a ditadura militar, já tinha punk envolvido. E em todo Primeiro de Maio, dentro do bloco anarquista estavam os punks. Nós nos encontramos durante um tempão diariamente e fizemos diversas coisas, não só shows, mas passeatas pelo Centro da cidade nas efemérides: agosto era o mês nuclear, setembro o mês antimilitar, dezembro a farsa do Natal, coisas que existiram por muito tempo no punk.

Nós éramos os punks que não estavam nem aí pra briga, mas que estavam construindo coisas. Ali nós ainda não nos definíamos com o nome de coletivo, mas já estava a um passo disso, porque todo mundo se identificava como "punk anarquista". E essa diferenciação, ainda que por identidade ela tenha sido muito boa, para os demais punks não era, pois eles se sentiram inferiorizados. Aí a gente começou a ter os primeiros problemas.

Nenê Altro: Existe um erro histórico aí que as pessoas tentam mudar, mas a verdade é uma só: a politização do punk não começou com o anarcopunk. Quer queira, quer não, na galera punk dos anos 80 tinha gente muito esperta. O Redson, o Ariel... pô, o que são as letras do Restos de Nada!? Pelamordedeus! O Vlad do Ulster, o Indião do Hino Mortal, um monte de gente que, mesmo não sendo maioria, tinha uma visão de anarquismo e trabalhava com esperança dentro da molecada. Com quem você vai trabalhar senão no seu próprio meio? Em Guarulhos tinha um punk que foi o cara que me levou pros rolês, o Alberto. Ele cantava numa banda chamada Coiote Maldito. Mano, o cara tinha uma cabeça sobre anarquismo que me fez aprender muita coisa. E ele era Punk da Cidade, drogadão, foda-se, sabe? Ele era muito mais velho do que eu.

Nesse intervalo entre as gangues do começo dos anos 80 até o final da década existiam, sim, os coletivos. O Coletivo Libertário, a Falange Anarquista, o Núcleo de Consciência Punk, um monte de gente que falava de anarquismo. Isso é uma coisa muito heroica do movimento não só sul-americano, mas especificamente do Brasil. O movimento punk brasileiro não teve a mesma cultura dos americanos e europeus. A gente veio de uma ditadura. O que se aprendeu, foi na raça. Então, se havia discrepância ou erros, são erros completamente justificáveis porque não existia internet, nem professor... Você ia no CCS, o pessoal meio que virava a cara, torcia o nariz porque a molecada aparecia lá e causava – por que a função social é causar [risos]. Então o que houve na época de anarquismo e punk é muito louvável, muito heroico, sobretudo numa fase em que o que se mostrava no Documento Especial, no Fantástico, era briga, facada, porradaria, aquelas coisas totalmente mal interpretadas e sensacionalistas. O anarquismo, mesmo entre o pessoal mais roots, que era minoria, circulava sim. Nos fanzines, em tudo.

O Pica-Pau, um brother da época, falava: "Nós somos punks e anarquistas. Não existe esse negócio de movimento anarco-punk. É só um jeito de falar." Na época realmente ainda não existia. Aí surgiu uma galera muito legal, pra quem eu tiro o meu chapéu. Aquele pessoal de Mauá: Carlinhos, Valo Velho, Mendigo, Sapo, que abraçou a causa de iniciar uma movimentação anarquista mesmo dentro do punk. Eu andava com os punks Devastação, e lembro que eles foram lá conversar. Até rolou um atrito, mas mesmo assim me interessei. Eu estava lá, curtia um som, era brother dos caras, mas meu interesse no punk sempre foi político. Daí passei a ir lá pra Mauá, Franco da Rocha... antes de se iniciarem as reuniões na Luz. Foi essa a movimentação que gerou o Movimento Anarco-Punk. Que nem era pra ser um movimento. O nome foi completamente acidental. Não foi algo estudado.

O pessoal era independente, punk e anarquista, aí começaram a chamar de "anarco", e virou "anarco-punk". Tanto que eu lembro de uma reunião feita pra se definir o nome. Havia uma preocupação sobre colocar um nome e ser associado a um rótulo. Havia a preocupação com o uso da palavra "movimento", e a sugestão era usar apenas "Anarco-Punks". Pra você ver a inteligência que se tinha na época, cara. Como as pessoas conseguiram ser tão visionárias, lá atrás, de ver que isso poderia dar uma merda no futuro. Nem todo mundo estava ali de oba oba, alienado, sabe? E nisso essas pessoas começaram a participar dos encontros punks e anarquistas. Teve em Londrina, em Curitiba. Eram encontros de fanzines que deram origem ao 1º Encontro Punk Libertário. O Cientista, lá de Londrina, organizou alguns. Aí os punks de diferentes estados com os mesmos objetivos se conheceram e nasceu a movimentação.

Lembro do primeiro Encontro Anarco-Punk, que usou esse nome, em Franco da Rocha. Outro momento histórico foi a nossa ida ao programa Matéria Prima, do Serginho Groisman. Rolou uma polêmica sobre o show do Ramones, que não tinha nada a ver com os anarcopunks, aí o programa citou os punks, e acho que a esposa do Carlinhos escreveu pra lá pedindo o direito de resposta. Eles foram atrás da gente, e eu nem sabia que ia ter gravação aquele dia. A perua da TV Cultura passou e levou a gente. Era um dia de reunião lá na Brigadeiro Tobias. E foi aquilo. Eu estava com a camiseta do Cólera e os caras falaram pra eu colocar alguma coisa por cima pra não vincular. Foi engraçado que durante o programa nós mesmos discordávamos um do outro sobre várias coisas. Muita gente do Brasil inteiro começou a se interessar por conta do programa. A mídia pode ter um lado negativo, mas sempre tem um lado positivo: se não fosse pela matéria do Fantástico eu não teria me envolvido com o punk.

Rompimento

Josimas Ramos: Fui procurar os punks de São Paulo — descobri os lugares onde o pessoal se encontrava, tipo ali em torno da Galeria do Rock, no Teatro Municipal, na Luz, ou mais pra Diadema, Santo Amaro, que era onde eu morava. Mas não gostei do que vi. O mundo das gangues era superior a qualquer outra movimentação existente. Lá em Salvador, de onde vim, a gente não tinha essa prática da carta, eu não tinha o contato de ninguém. Mas quando cheguei, lembro que tava num ônibus, encontrei um punk e ele veio me perguntar quem eu conhecia. Falei: "Olha cara, não conheço ninguém, cheguei aqui agora." E ele começou a falar o nome de um monte de gangue: "Você é SP ou é ABC?". Conheci uma galera, depois, que estava envolvida em manifestações, mas a primeira galera, era só treta, só briga, o tempo todo. A violência era constante. E esteticamente era um punk diferente pra mim, porque usava umas jaquetas. Em Salvador, de onde vim, ninguém usava jaqueta, era muito quente. Era camiseta escrita à mão. Aqui todo mundo tinha serigrafia, os zines eram xerocados, as k7s eram super bem feitas, tudo diferente. Era um outro degrau da coisa. Claro, isso tem a ver com a realidade econômica e social do lugar.

De vez em quando ouvíamos a notícia de que alguém conhecido tomou facada de alguma gangue e desapareceu, aí pensei: "Mano, o que eu tô fazendo?", e saí fora. Foi quando conheci uma galera que tava mais afim de construir outra realidade. Galera de ambas as gerações, a anterior e a minha. Porque alguns dos mais velhos também não gostavam, estavam mais voltados pra tocar, fazer outras coisas ao invés de brigar. Alguns queriam fazer zines, mas se sentiam muito solitários. Não tinham espaço. Se você organizasse um show em São Paulo, nessa época, com certeza ia ter muita violência. Então ninguém queria mais saber de organizar shows. As pessoas tavam afim de escrever suas coisas e ficar no seu universo. Aí fui conhecendo uma galera. Um dia, passeando no Centro da cidade, vi um pessoalzinho com um zine. Todo mundo que não estava afim de seguir aquele mesmo caminho decidiu se juntar pra fazer outras coisas. Começamos a nos reunir e a resgatar as paradas que os anarquistas antigos faziam na cidade. Os teatros de rua, manifestações...

Maria Helena, à frente, indo pro rolê com a sua banca no Jd. Sto. Eduardo, em Embú das Artes, 1997. Foto: Arquivo pessoal

Maria Helena: A geração do anarcopunk rompeu com o pessoal da primeira geração porque nós já achávamos que eles estavam com uma mentalidade ultrapassada, engessada, do punk. Eles queriam que a geração seguinte imitasse eles. Eles não estavam aceitando o novo. Eles pararam naquela fórmula de 82, 83, aqueles mesmos valores, e não tentaram sofisticar as ideias políticas, questionar. Só ficaram no raso. Algumas bandas até tentaram sair do underground e virar Rock 80, tipo o Inocentes, que foi pra Warner e não deu muito certo. Só o Cólera que conseguiu ter um diálogo maior entre gerações. É uma banda que evoluiu em discurso e politicamente. O programa de rádio do Redson mesmo era um reflexo disso. Ele já falava de questões que não eram o clichê do punk, coisas de meio ambiente...

Essa época foi o laboratório do que seria o anarcopunk porque um monte de gente desse rolê esteve na formação do MAP (Movimento Anarco-Punk). Estava rolando uma inquietação não só em São Paulo, mas entre os punks de outros Estados. Pelo contato que tínhamos, percebia-se que eles também já estavam formando isso. Tanto que houve uma aproximação. O punk renovou o anarquismo brasileiro. Tem muita gente que nega isso, mas houve essa renovação, sim. Foi em 85 que começou a voltar a democracia, e nisso, o anarquismo não tinha expressão nenhuma, perdera toda a voz, só tinha a esquerda institucional ou comunista. Não havia uma voz libertária, só o Centro de Cultura Social (CCS). Mesmo assim, tirando o Jaime Cubero, eles estavam presos no tempo. Ele foi o único lá que dialogou com os jovens. Ele apoiava muito a gente.

No começo, os punks mais politizados, mais radicais, ouviam hardcore. Criou-se uma repulsa pelo punk rock porque achávamos que era um som que representava aquele pessoal de gangue. Era uma ruptura estética, musical e conceitual. Falo do hardcore europeu, não conhecíamos ainda o hardcore americano. Conhecíamos o sueco, finlandês, e nos identificamos porque achávamos que eles davam uma mensagem mais crua, um choque estético maior. Era o pouco que nos chegava. E o termo "anarcopunk", a primeira vez que ouvi foi de um cara da França, de uma banda chamada Nuclear Device. Certa vez ele veio ao Brasil, e era ligado à AIT de lá. Na época a COB estava muito ligada à AIT da França, da Espanha, e estava até conseguindo apoio financeiro. Esse cara veio aqui dar uma palestra e disse que era anarcopunk, explicou que se tratava de um punk militante com ideias anarquistas. Era o que procurávamos. Eu ainda nem conhecia Crass.

"No começo, os punks mais politizados, mais radicais, ouviam hardcore. Criou-se uma repulsa pelo punk rock porque achávamos que era um som que representava aquele pessoal de gangue. Era uma ruptura estética, musical e conceitual."

Johnny Revolta: Teve um boom do punk. Algumas bandas nos anos 80 já eram famosas, Cólera, Olho Seco, totalmente desproporcional em relação às bandas anarcopunks. O pessoal já tinha ido duas, três vezes pra Europa. E aqui a gente não tinha dinheiro pra comprar instrumento. Pessoal nem sabia tocar, mas fazia pelo esforço, pra passar o protesto. Quando o negócio fica conhecido, muita gente pensa em ser o rock star do punk. Pega o Ratos de Porão, que chegou onde chegou e tal...

Olho Seco é aquela coisa do mito, hardcore anos 80 e tal. RDP passa a virar um mito com a figura do João Gordo, que começa a fazer palhaçada, e o pessoal começa a gostar... Tirar coisa do nariz, botar a língua pra fora, aquela coisa toda que os caras gostam de fazer pra mostrar que são punk e tal. Tanto que é o que a mídia vendia, né. Eles tiveram abertura, a mídia, a indústria fonográfica, viram que podiam lucrar, e começaram a investir. Foram dando corda pra eles, algumas bandas se destacaram.

Se você pegar aí uns caras que tão na caminhada, na humildade, tipo o Ariel [Invasores de Cérebros], não vai comparar com um João Gordo. Um continuou na humildade e o outro foi virar bobo da corte da MTV. Hoje o Ariel tem outro pensamento do que era nos anos 80 também, né. Depois teve uma união com os SP Punk, que eram da banca que ele colava. O pessoal já vinha se trombando pela luta antifacista, desde 94, trocava ideia, fazia uns sons juntos, manifestações, ambos nos identificávamos com a luta zapatista também.

Antônio Carlos: Certa vez fomos junto com os anarcopunks a uma manifestação do Dia do Trabalho. Estávamos ali na Boa Vista, subindo, em algum lugar ali pelo Largo São Bento, e os caras falando assim: "A gente trouxe estilingue, bolinha de gude, e num sei o quê...". Então eu falei: "Mano, nós estamos indo pra uma manifestação de 1º de Maio, não tem nada a ver isso aí." Os caras falando de tretar com os carecas e eu segurando a mão da minha filhinha, a Daniela, que na época devia ter 7 anos. Eu disse: "E se ferir alguém?". E os caras: "Quem sai na chuva é pra se molhar!". Quer dizer, as pessoas foram à Praça da Sé, talvez, pra ver o show. Aquilo me deixou chocado. Na manifestação do ano seguinte, acho que tinha um policial a cada cinco metros, cercando a Praça da Sé, o povo lá no meio. A CUT deu um pedaço de pau, que na verdade era um cabo de picareta, e uma bandeirinha pros punks... e os punks com aqueles puta porretão. Tem foto dessa fita aí. Quando fomos discutir, foi algo que critiquei novamente.

A gota d'água pra mim foi quando alguém falou que ia levar coquetel molotov numa manifestação do 8 de Março pra caso de os carecas aparecerem. Parou! Quer dizer, as mulheres estão indo lá se manifestar, e os caras tão considerando tacar um molotov naquela multidão?! A chance de atingir uma pessoa não é um problema? Isso foi gerando um distanciamento porque nós queríamos uma coisa, e eles, outras. Não nego a importância do anarcopunk, do que eles faziam, das cooperativas, shows, fanzines... Mas acho que vivíamos sintonias diferentes no entendimento de anarquismo.

Anarco sendo abordado em manifestação de 7 de setembro de 91, no Parque da Luz, Centro de São Paulo. Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

Ruivo Lopes: Eu já ia muito a apresentações de bandas punks e hardcore, a vertente mais jovem, dos punks. As apresentações eram importantes porque também funcionavam como ponto de encontro. Alguns punks faziam fanzines e trocavam, distribuíam ou vendiam durante essas apresentações. Eu associava a música energética às ideias e à atitude. Isso fez com que eu me identificasse com a vertente anarcopunk, pois reunia esses três elementos. Eu queria canalizar minha rebeldia e a vertente anarcopunk foi muito importante para isso. Olha só, nessa época, eu já morava em São Vicente, cidade pobre, vizinha de Santos. A mistura de drogas e armas foi fatal para muitos amigos meus. Quando vi alguns amigos serem assassinados no meio da rua, decidi que queria viver e resistir a esse sistema. Conheci alguns punks da década de 80 e não me identificava com a ideia nilista de que "não haverá futuro". Eu e meus amigos queríamos e merecíamos futuro. Pra mim, esse foi o distanciamento.

Mas também existiam os vínculos geracionais. Punks que viveram essa época confusa e tinham mudado de perspectiva. E todos tinham o Cólera como referência. O Cólera era uma banda punk da geração anterior e que era positiva, diferente de outras bandas da mesma época. A militância no sentido político veio mesmo com a vertente anarcopunk. A geração anterior era marcada pelas gangues. Uma coisa é certa, ninguém era mais antifascista do que os anarcopunks.

Pegando o bonde em movimento

Diego Divino Duenhas: Rolou um evento anarcopunk na então sede da casa Soma [Somaterapia]. Quando cheguei lá, não conhecia ninguém praticamente. O evento foi ultra enérgico, e com uma coletividade anarcopunk que eu ainda não havia presenciado até então. Pessoas pogando abraçadas, respeito às mulheres, argumentações políticas que saíam praticamente antes de rolar qualquer música, trocas de materiais, etc. Obviamente me encantei com aquilo tudo. Infelizmente um skinhead apareceu armado e o evento finalizou ao som de "Atomicídio", da banda Metropolixo, com algumas cenas de violência que não estavam no script da noite. Mas colocando na ponta do lápis, os pontos positivos superaram aos rios os negativos, ao menos para mim. A partir daí, acabei me envolvendo bastante com as ações do Coletivo Altruísta e tendo cada vez mais contato com militância, teoria anarquista, música punk, produções DIY, organização de eventos, etc. Nunca tinha parado para refletir sobre isso, mas o Coletivo Altruísta foi minha primeira vivência intensiva com práticas anarquistas, e ao universo anarcopunk, devo muito a acolhida que tive dessas pessoas, que foram muitas.

Marina Knup: Comecei no punk quando era adolescente ainda, por meio do som. Era comecinho dos anos 2000 e na época o rolê das gangues foi mais acessível. Não cheguei a fazer parte de nenhuma delas, mas colava com toda a galera de gangue e punks independentes que se trombavam pelo Centro de São Paulo. Mas o punk pra mim parecia ser muito mais do que aquele monte de treta que eu via rolar, e fui conhecendo outras pessoas e movidas e percebendo que realmente a cena punk ia mais além. Nessa época também tavam rolando as manifestações antiglobalização, a Ação Global dos Povos (AGP), e as reuniões da União do Movimento Punk.

Também rolavam muitas manifestações punks na Praça Ramos e no Centro, nas datas de 1º de maio, 7 de setembro, etc. Comecei a ir nas manifestações e a conhecer mais pessoas e coletivos envolvidos nas movidas. Nesse contexto formei um coletivo punk/anarquista com amigxs próximxs que tinham mais ou menos a mesma idade que eu, o Coletivo de Resistência Libertária. A partir disso fomos nos envolvendo mais nas reuniões da AGP, da UMP, e cada vez mais fazendo parte das movidas na cidade. Também começamos a trocar cartas com gente do Brasil todo que fazia zines, tinha coletivos, bandas, e a conhecer um pouco do que rolava nos outros estados. Daí pra me envolver com a cena anarcopunk foi só um passo. Conheci as pessoas e coletivos anarcopunks ativos na época e a identificação foi brutal. Me joguei de cabeça e aqui estou até hoje.

Palcos separados

Diego Divino Duenhas: Rola um divisor de águas, na minha opinião. Os anarcopunks sempre odiaram a visão comercial que as bandas da primeira geração começaram a assumir. O Cólera era mais respeitado, mas mesmo assim não era uma relação tranquila. A caminhada deles era de responsa e todos levavam isso em consideração. Já Olho Seco, Ratos, não. Até hoje não consigo ouvir...

Loquinho: Fora o Garotos Podres, que andava com os Carecas do ABC, as outras bandas é que não queriam tocar com os anarcopunks. Acho que especulavam demais e não iam direto na fonte para conversar com os seus integrantes. Muita informação errada, treta antiga, preconceito.

Marcolino Jeremias: No final dos anos 80, início dos 90, nenhuma das bandas precursoras da cena punk no Brasil, entre as que ainda estavam na ativa, se diziam punks. Todas tinham um discurso mais ou menos "a gente começou no meio punk, mas hoje evoluímos e não queremos mais vínculo com nenhum rótulo." É só pegar as entrevistas da época e constatar isso. A maioria delas já não se assumia punk, como se isso pertencesse a um passado distante.

O Ratos de Porão nessa época estava mais vinculado à cena do thrash Metal, tentando ir na onda do Sepultura. Nessa mesma época o Inocentes estava na dúvida se era uma banda de rock ou pós-punk, mas tinham uma certeza: não eram mais punks. O Cólera estava excursionando com bandas como Plebe Rude, pediam cachê (que a cena anarcopunk não tinha como pagar) e tocavam mais para o interior de São Paulo e outros estados, além de terem outras prioridades, como o The Cult Cover [que o Redson integrava]. Bandas como Garotos Podres, além de também não se dizerem mais punks, tocavam com grupos carecas, Oi, nacionalistas – não dava nem para ter contato. Olho Seco, Restos de Nada, Lixomania, Brigado do Ódio, Condutores de Cadáver, Psykóze, Fogo Cruzado, Ulster, Passeatas, Hino Mortal, Armagedom, Espermogramix, Lobotomia, e muitas outras não existiam mais no final dos anos 80, início dos anos 90.

Uma das únicas pessoas da velha guarda punk que ainda se dizia punk e era acessível aos anarcopunks era o Ariel Uliana (ex-Restos de Nada, Desequilíbrio e Inocentes), que já tocava com o Invasores de Cérebros. Ele trocava cartas com a gente e quando o chamávamos para algum evento, ele comparecia. A maioria dos punks das antigas ainda tinha um ranço machista, homofóbico, não entendiam o que era o sexismo, muitas vezes não respeitavam os anarcopunks que eram vegetarianos e defendiam a luta pela libertação animal.

Era muito comum os punks mais velhos fazerem piadinhas com os anarcos, chamando-os de "gays" ou se dizendo "apoiadores do sexismo", falando que o "sexismo era muito bom" (usando aqui o termo como sinônimo de ser a favor do sexo), ou seja, invalidando a denúncia anarcopunk contra o sexismo. Entre muitos outros descompassos, confusões e mal-entendidos que somente o tempo mesmo fez com que diminuísse. Podemos concluir que o contato entre os punks mais velhos e os anarcopunks era quase nulo, ou, completamente inexistente. Quando havia contato, era muito conflitante. Eu conheço pessoas que iam na loja do Fábio Sampaio (Olho Seco), somente para roubar o LP Cenas Anarco-Punks, pois o Fábio vendia esse disco por um preço muito mais alto do que nos meios anarcopunks.

"Morte aos Posers". Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

Silvio Shina: Havia uma certa dose policialesca no comportamento de alguns. Qualquer coisa que se fizesse fora do esperado para uma banda anarcopunk já era comercial. Era um rolê muito hermético, de certa forma. Por outro lado, as bandas de outras cenas não organizavam nada além de shows, gravadoras e afins. Não encaravam o punk como uma militância, e salvo raríssimas exceções, como o Cólera, eram muito despolitizadas. Já os anarcopunks, com todas as suas contradições, buscavam ir além disso. Organizavam não só shows, mas debates, palestras, manifestações e por aí afora. Era algo mais politizado mesmo, ainda que essas coisas só ficassem dentro da cena, na maioria das vezes. O pessoal dos anos 80 nem isso fazia direito.

No caso dos Garotos Podres, os anarcos não gostavam deles por serem carecas. Muita gente não botava fé que eles eram carecas, falavam da música "Anarquia Oi" e tal, mas esse foi um fato comprovado recentemente, né? Os caras tretaram, o Mao saiu fora e a verdade veio à tona: o resto da banda era skin e fascista. O Mao limpou a cara dele aí em vários lugares, montou outra banda, e até acho que ele é bem diferente dos demais integrantes. Gosto de suas letras. Já gostava no Garotos Podres, mas, na minha opinião, ele passava pano pros outros caras. De certa forma, pra esses caras dos anos 80, o punk estava muito atrelado a um estilo de vida. Um estilo de vida suburbano. Atualmente, tanto o anarcopunk como o hardcore/punk rock em geral, se tornaram estilos de vida. Aliás, parece que toda a contracultura se transformou num estilo de vida. As pessoas não têm coragem de enfrentar os seus limites. Ou, de ampliá-los. Cada vez mais, essas contraculturas deixam de ser ameaça.

Antônio Carlos: Em 86 acontece uma mesa no CCS, comigo, o Falcão do Excomungados e o Gurgel. E o público era o do CCS, alguns punks e aquela velharada. É muito curiosa a fala deles, dizendo que os punks eram jovens que sofriam muita opressão, mas que não eram anarquistas. Um cara esteve aqui um tempo atrás, o Bigode. Sentado, ele falou assim: "Tenho que dar a mão à palmatória, o Jaime Cubero acreditava que os punks dariam em alguma coisa e eu nunca acreditei."

Continua...

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