Seus hormônios afetam os seus gastos e é melhor você saber como

As altas e baixas de estrógeno e testosterona não só fazem você cair na besteira de ligar pro ex, mas também de torrar dinheiro e pensar "ah, eu mereço".

por Mariana Rodrigues
15 Fevereiro 2019, 2:55pm

Foto: Vinicius Amano via Unsplash

É incômodo admitir que mesmo hoje os hormônios ainda afetam nossas decisões. Mas as variações hormonais, como a que ocorre na tensão pré-menstrual (TPM), ainda têm o seu papel em relação ao humor e às escolhas. E as mudanças que não vemos no nosso organismo podem levar a decisões de ruins a péssimas, como comer uma porcaria ou ligar para o ex.

Um estudo envolvendo 164 mulheres pediu para que elas escolhessem entre duas listas de compras, uma que elas consideravam saudável e menos saborosa e uma menos saudável e com itens mais gostosos. As mulheres que estavam em período fértil escolheram os produtos mais saudáveis, enquanto as demais escolheram os mais saborosos.

A conclusão foi que, fora do período fértil, “o comportamento de compra feminino volta-se para produtos mais indulgentes na tentativa de neutralizar as emoções negativas”, conta uma das autoras do estudo, a professora e pesquisadora Juliane Ruffatto.

Para neutralizar o efeito de instabilidade emocional, as mulheres buscam substituir as emoções negativas por positivas fazendo compras, muitas vezes compulsivas e desnecessárias

De acordo com Juliana, “sabe-se que na TPM a mulher fica mais emotiva, com tendência de comer doces etc”. O seu estudo, publicado na Revista Brasileira de Marketing, foi inspirado em outro, chamado "Women’s Spending Behaviour is Menstrual-Cycle Sensitive", que em tradução livre seria “O comportamento de gastos das mulheres é sensível ao ciclo menstrual”.

“Os pesquisadores constataram em sua pesquisa que, no pico hormonal, as mulheres pareciam estar mais satisfeitas, criativas e abertas a se relacionar com outros; e na baixa hormonal demonstravam instabilidade emocional. Para neutralizar este efeito, buscam substituir as emoções negativas por positivas fazendo compras, muitas vezes compulsivas e desnecessárias”, contou a pesquisadora. É algo como: eu estou me sentindo mal e eu mereço fazer (insira aqui algo que você acha que provavelmente não deve fazer) para me sentir melhor.

Elaine Costa, médica supervisora da divisão de endocrinologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explica o que acontece fisiologicamente: “Os níveis de estrógeno atingem níveis bem altos durante o período ovulatório e pré-ovulatório, e depois caem abruptamente durante a menstruação, então essa variação é que parece que causa alterações emocionais na mulher”.

Já nos homens, a médica explica que a testosterona determina o comportamento típico, "como maior agressividade e objetividade, e mantém a fertilidade”. O hormônio masculino também tem um ciclo, só que com variações bem menores. Ele é produzido de uma maneira circadiana (período de aproximadamente 24h). “Então, o nível de testosterona é mais alto pela manhã, assim que o indivíduo acorda, depois ela cai e são produzidos pequenos picos ao longo do dia”, disse Elaine Costa.

Nos homens as alterações hormonais também influenciam no humor e disposição

Nos homens as alterações hormonais também influenciam no humor e disposição, explicou Fábio Eroli, psicanalista especialista em neurociências. “Por causa do nosso viés de estereotipização, a gente vai dizer que a mulher é sempre levada pela emoção. Mas, de fato os hormônios podem impulsionar decisões independentemente do gênero; homens não são mais ou menos suscetíveis do que mulheres”.

Segundo Eroli, o pico de testosterona pode levar a assumir mais riscos. “Por mais racional que possa ser o perfil de comportamento do homem, se ele está com um nível aumentado de testosterona ele pode se levar mais facilmente, ser mais influenciável, ter uma tendência a se tornar mais confiante, tomar decisões mais baseadas na intuição do que na razão”, disse o especialista. Ele conta ainda que a neuroeconomia tem estudado quais são os hormônios que sensibilizam o organismo a ponto de tomar proveito dessa situação e impulsionar uma venda.

Os hormônios impulsionam, mas não decidem por nós

É por uma demanda de mercado que existem estudos de marketing como os mencionados. Não há controle sobre questões orgânicas, como a produção de hormônios, explica Fábio Eroli: “Se eu estou numa situação de perigo vou liberar adrenalina. Se eu estou irritado é provável que as taxas de cortisol aumentem. Se estou apaixonado, no começo da relação, vou produzir oxitocina. E por aí vai, há uma série de hormônios produzidos para finalidades específicas”. Quando agimos impulsionados pelos hormônios, “a gente tem um padrão de resposta mais primário, podemos até falar infantilizado, no sentido de não usar as funções cognitivas, se baseando apenas no processamento emocional que se dá no sistema límbico, centro de processamento emocional do cérebro”, disse o psicanalista.

Por outro lado, dá pra se afastar da resposta imediata ao apelo emocional. “Os hormônios impulsionam, mas não decidem por nós”, mencionou Fábio Eroli. Ele conta que “é possível racionalizar as emoções para que a gente tenha respostas mais adequadas, usando as nossas funções executivas, a parte do nosso cérebro responsável pela racionalização”.

Para encerrar, o psicanalista indica: “À medida que se percebe que há ‘situações gatilho’, por exemplo, quando a mulher está no período pré-menstrual, é importante que não se tome nenhuma grande decisão de consumo, como trocar de carro, de casa, fazer um processo de mudança muito brusco... Nos homens, ao saber que há decisões impulsionadas pela testosterona, isso também pode ser evitado. O autoconhecimento promove isso: se eu sei que tem dias que estou mais suscetível, eu posso canalizar isso em outras coisas e só depois tomar as decisões importantes para que sejam mais assertivas”.

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