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racismo

O BBB precisa parar de passar pano pro racismo

As edições da Globo omitem as falas racistas dos participantes. Mas, na internet, a comoção ajudou na abertura de um inquérito policial.

por Julia Reis
11 Fevereiro 2019, 6:39pm

Os participantes Maycon e Gabriela. Fotos: reprodução/ Globo

Se você é do time "não assista Big Brother, leia um livro" ou só vê a edição que passa na Globo, vou te explicar o que está acontecendo: o casting do reality show mais requentado do Brasil conseguiu personificar as grandes tretas provocadas pelas eleições de 2018 em um único lugar.

Nesta edição, são duas turmas que formam a casa: a que representa o brasileiro hétero top que foge de debates políticos e a do grupo de militantes de esquerda que vivem na pele a dificuldade de ser negro no Brasil. Dessa mistura, saíram, até agora, debates sobre questões raciais, classe social, muito preconceito naturalizado e uma divisão tremenda na casa.

Enquanto um lado está determinado em apresentar as dificuldades de como é viver com o racismo, o outro não para de disparar opiniões bizarras e bem comuns sobre as religiões de matriz-africana e o ativismo político racial. Nesse debate que envolve uma audiência ligada em tudo o que acontece dentro da casa e que tem acesso ao conteúdo na íntegra pelo pay-per-view, foram expostos discursos extremamente racistas que a Globo escolheu suprimir na edição que vai ao ar na TV.

A coisa ficou tão escancarada que rolou hashtag no Twitter expondo todos os casos e solicitando a abertura de uma investigação em relação aos crimes que têm rolado. E funcionou. Segundo o jornal Extra, nesta segunda-feira (11), a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância abriu inquérito pra apurar o racismo no reality.

Todo ano é a mesma coisa. No dia que o programa divulga os participantes, uma galera do Twitter – formada em 15 temporadas de C.S.I – vasculha posts antigos de participante escroto e faz uma ficha de todos os B.O.s que a galera já cometeu na vida online e pública – na edição de 2016, isso acabou virando caso de polícia e um participante foi condenado a 12 anos de prisão por estupro de menor de idade e armazenamento de material (foto ou vídeo) contendo cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente.

Logo que os participantes da edição 2018 foram anunciados, o público sacou o objetivo e bateu o martelo: esta edição ia ser ainda mais política que as anteriores.

Tudo começou com a advogada mineira Paula von Sperling dizendo que seu cabelo "também é ruim", em uma conversa entre as meninas da casa. De início, parecia ser a fala de uma mulher que não desconstruiu algumas expressões mal usadas e que, infelizmente, foram naturalizadas na sociedade em que a gente vive. Quase que de imediato, Gabriela Hebling, designer, musicista e ativista negra, corrigiu colega.

Mas Paula insistiu em demonstrar o racismo que está presente em boa parte do país – talvez não seja à toa que ela é uma das favoritas a levar o prêmio. Em certa ocasião, ela contava para seus parceiros da casa um caso que vivenciou no tribunal, em que uma mulher levou diversas facadas do marido. "Eu pensei que ia chegar o maior faveladão lá, né? Quando eu vi, o cara era branquinho", falou. A advogada talvez não saiba que, segundo dados de 2016, uma em cada 5 mulheres vítimas de violência doméstica é de classe média alta.

Enquanto isso, o grupo composto por militantes de esquerda e de característica mais progressista se esforça para desconstruir o estereótipo da população negra, pobre e periférica desde que chegaram no reality.

Em uma relação incessante, os membros do grupo conservador soltam as frases e ideias mais racistas e preconceituosas possíveis, enquanto Gabriela e seu amigo, o cientista social Rodrigo França, tentam reeducar os costumes preconceituosos de parte da casa. E pouco disso, meus amigos, aparece na edição liderada pelo apresentador Tiago Leifert – que, em 2018, durante a eliminação de uma participante negra, disse ao vivo que "esse negócio de representatividade não leva a nada".

Além da advogada Paula, outro membro que também vem se destacando com suas falas infelizes é Maycon Santos, vendedor de queijos e barman. Durante uma conversa entre ele e Gabriela em uma festa no BBB, ela explicou o por quê de Maycon ter tantos privilégios por ser homem branco. Por conta disso, ele a chamou de extremista e disse que "foi criado pela mãe". E ultimamente, o brother anda soltando umas ideias muito erradas sobre as religiões de matriz africana.

Nessa semana, depois de ver Gabi e Rodrigo cantando "Identidade", de Jorge Aragão – cuja letra traz "Somos herança da memória / Temos a cor da noite / Filhos de todo açoite / Fato real de nossa história" –, ele disse para seus amigos terem cuidado com eles por "mexerem com coisa ruim". Maycon ainda contou que quando viu os dois em sintonia, também viu Jesus Cristo, que o alertou para "ter cuidado com eles, senão ganham força".

No final do dia, existem duas edições de um programa que está expondo, de fato, o quão exaurida está a saúde mental dos negros no Brasil. A nós, só resta esse espaço. O de reeducação, militância e exaustão pra tentar explicar o que todos deveriam já saber. Em troca, temos a intolerância, o medo, e a fama de ser o chato do rolê.

Para a edição de Tiago Leifert, está tudo mais que bem. Na verdade, Paula é até divertida com sua amiga Hariany, que já escapou de dois paredões. O Maycon é um moleque mineiro bobo e engraçado, e Gabriela e Rodrigo só aparecem quando o assunto é a militância da "esquerda festiva".

Mas, para quem está de fora, o BBB é mais uma lamentação para aqueles que vivenciam o racismo todos os dias. Você chega em casa, vê os vídeos que viralizam, liga a TV e lembra que o mundo está uma bosta pra quem sempre viveu nos meios mais desprivilegiados do país, mas vê também que tem gente que continua lutando.

A assessoria da Rede Globo declarou à VICE não ter sido notificada sobre a abertura do inquérito na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância. A assessoria afirmou também que a emissora respeita a diversidade, a liberdade expressão e repudia demonstrações de intolerância. "Desta forma, é importante reiterar que qualquer manifestação pessoal, equivocada ou não, feita pelos participantes do programa, não reflete o posicionamento da emissora", completam.

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