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Cristais são bonitos, mas o efeito deles é puro placebo

A mágica está na sua cabeça.

por Claire Lampen; Traduzido por Marina Schnoor
30 Janeiro 2019, 3:33pm

Kara Riley / Stocksy

Em cima da minha cama, coloquei um pedaço glacial de quartzo rosa; um pedaço de ágata azul; um corte de ametista; um trapezoide de citrino; dois pedregulhos de jade; um caroço de cornalina; e um micropênis de quartzo (sim, um pequeno pinto de cristal). Esses cristais não fazem nada a não ser entreter meu gato pentelho.

Mas segundo o pessoal que acredita na cura por cristais, minha estante deveria ter uma variedade de efeitos colaterais positivos – mais amor e menos ressentimento; melhora na comunicação e tranquilidade; aumento da intuição e capacidade mais profunda de confiar; ampliação do otimismo e energia; cura espiritual e prosperidade; sorte e paixão e bem-estar geral, respectivamente. Para minha decepção, essas pedras não mostraram nenhum desses talentos especiais. Gosto da aparência delas, brinco com elas entre os dedos enquanto penso, mas a utilidade delas acaba aí.

É bonito pensar que posso manifestar as bençãos emocionais mencionadas acima só de colocar essas pedras na minha bolsa, e seria conveniente se a premissa básica da cura com cristais – que diferentes cristais possuem diferentes propriedades energéticas, que podem afetar seus estados mentais (ou, levados ao extremo, físicos) – valessem. Coloque um cristal no seu chakra problemático, e a pedra vai sugar o veneno e o substituir com qualquer propriedade útil que você está procurando.

Como um praticante da cura com cristais disse a Women's Health, você pode consertar um coração partido segurando um pedaço de quartzo rosa junto ao peito, e canalizando toda sua energia cognitiva para imaginar a pedra “derretendo qualquer tristeza”. Ou, para curar um medo de falar em público, coloque uma cianite sobre a garganta e se concentre totalmente na sensação dela absorvendo como uma esponja sua ansiedade social.

Spencer Pratt, que supostamente gastou mais de $1 milhão na sua coleção de cristais, Kate Hudson, Adele, Kim Kardashian West, as Hadids – um número desconcertante de famosos exalta a habilidade dos cristais de limpar feridas emocionais. Esse endosso de celebridades provavelmente ajuda a explicar por que as buscas na internet por “lojas de cristais nas proximidades” e “cura com cristais” decolaram para 35% e 40%, respectivamente, desde 2013.

Alguns cristais podem conduzir e armazenar energia, o que explica por que eles aparecem em coisas como certos rádios. Mas para usar um cristal como condutor, você precisa alterá-lo de jeitos que permitam que ele modifique e armazene energia. Mas “energia” nesse contexto não significa “positividade”, “criatividade” nem nada abstrato assim; quer dizer coisas como eletricidade.

Como James Giordano, professor de neurologia e bioquímica do Centro Médico da Universidade Georgetown, me disse: “Não é como se o cristal em si estivesse gerando energia”. Você tem que manipular o material para fazer ele cooperar dentro de um cenário específico. A ideia de que um cristal inerte possa transmitir energia para “outro agente biológico” – como, digamos, um humano – “sem algum sistema de engenharia ou coordenação das propriedades do sistema, aí a ciência vira ficção científica”, ele diz.

Mas talvez você tenha apertado sua pedra favorita e, depois de alguns minutos de esforço mental, desfrutou da sensação física de um peso evaporando dos seus ombros. Para quem acredita que os cristais funcionam, considere um experimento de 2001: pesquisadores da Universidade de Londres fizeram 80 participantes meditarem por cinco minutos, alguns segurando um pedaço de quartzo e outros segurando um pedaço de vidro que acreditavam ser quartzo. Os pesquisadores disseram para metade dos participantes quais sensações o cristal poderia ter, e surpresa: muitos (especialmente os que foram avisados antes) descreveram um calor emanando de seja lá o que estavam segurando, e um aumento da sensação de bem-estar.

Você provavelmente sabe o nome desse fenômeno em particular: o efeito placebo.

Respostas de placebo, explica Giordano, ocorrem em reação a um grupo de estímulos que desencadeiam “áreas e propriedades de rede no cérebro para... produzir dois resultados. Um é o subjetivamente individual 'se sentir bem'. Outro é alguma mudança objetiva no seu estado físico”.

Fatores biológicos, de experiência e até culturais fazem certas pessoas serem mais receptivas a placebos que outras, ele diz, e respostas de placebo podem ser condicionadas. Elas também podem ser muito poderosas, porque o cérebro dita o funcionamento de todos os outros sistemas: seu sistema endócrino, que comanda seus hormônios – e portanto funções metabólicas, sexuais, musculares e emocionais – seu sistema nervoso; seu sistema imunológico; tudo. (Mas placebos não curam câncer, por exemplo.)

Em pessoas suscetíveis à resposta placebo (aproximadamente um terço da população americana, adverte o professor de neurologia), e naquelas que aprenderam a associar um certo cristal a certo sentimento (condicionamento), a pedra em si desencadeia o cérebro para produzir o efeito esperado, diz Giordano. A mágica não está no cristal, está na sua cabeça.

Como meios para um fim, não tem nada necessariamente errado com cristais. Stuart Vyse, psicólogo e autor de Believing in Magic: The Psychology of Superstition, me disse que superstições podem ter benefícios psicológicos. Pesquisas mostraram que realizar pequenos rituais antes de apresentações (nesse caso, cantar “Don't Stop Believing” do Journey num karaokê na frente de estranhos), ajudava a mitigar ansiedade e podia até melhorar o resultado. “As pessoas se sentem melhor tendo feito alguma coisa”, explica Vyse. Carregar uma pedra no seu bolso pode reforçar uma “ilusão de controle” que faz você se sentir melhor, ele explica.

“É como ter um pé de coelho no seu bolso”, diz Giordano, “ou usar sua bandana da sorte na hora de rebater uma bola. Você consegue um home run toda vez que está com a sua bandana? Não tire a bandana, tem alguma coisa nela que funciona pra você”.

Mas as coisas podem se tornar perigosas se você cobrir seus olhos com a bandana, e os dois especialistas ressaltam os riscos de trocar a medicina ocidental por cristais. No final das contas, é o capitalismo que abastece a febre dos cristais, e faz-se dinheiro vendendo óleo de cobra para as pessoas, mesmo que só funcione como decoração. “Não estão dando cristais de graça”, aponta Vyse.

“Se você está fazendo o que deveria, de um ponto de vista científico, para se cuidar e cuidar do problema que você está encarando, e você também usa cristais, não vejo problema nisso”, menciona Vyse. “Superstições de sorte são perfeitamente OK – até você se tornar um apostador compulsivo e sua superstição te manter perdendo dinheiro quando você deveria parar e ir pra casa.”

Matéria originalmente publicada pela VICE EUA.

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