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Skate

Skate é mais do que só acertar manobras

Filmes recentes como 'Skate Kitchen', 'Anos 90' e 'Minding the Gap' mostram que o skate muitas vezes tem tudo a ver com criar uma comunidade longe de um lar disfuncional.

por Ryan Bassil; Traduzido por Marina Schnoor
21 Maio 2019, 10:00am

Screenshots via 'Anos 90', 'Skate Kitchen' e 'Minding The Gap'.

Keire Johnson começou a andar de skate na adolescência como um jeito de escapar das surras do pai. Ele usava um shape com a frase “este aparelho cura dor no coração” pixada na lixa, e dormia num quarto lotado de copos de Slurpee e roupas que não ficaria deslocado num documentário sobre acumuladores.

Os melhores amigos de Keire são Bing Lui e Zack Mulligan. As coisas também não eram legais nas casas deles, então eles criaram seu próprio lar longe de casa: andando de skate o dia inteiro, e fumando maconha e bebendo no meio tempo. “Formamos uma família para cuidar uns dos outros, porque ninguém estava cuidado da gente”, diz Zack, com tanto otimismo quanto tristeza.

Os três são temas do documentário de 2018 Minding The Gap, de onde veio a citação acima. Se você acha importante coisas como a aprovação dos críticos de sofá, o filme tem 100% de avaliações positivas no Rotten Tomatoes. Melhor ainda, Barack Obama disse que esse é um dos seus filmes favoritos do ano e ele foi indicado ao prêmio de Melhor Documentário no Oscar. Mês passado, Minding The Gap saiu em DVD no Reino Unido, se juntando a outro lançamento de filme de skate – Anos 90, dirigido por Jonah Hill.

Como Minding The Gap, o ficcional Anos 90 observa as razões para seus temas passarem a maior parte do tempo rodando por aí em placas de madeira juntos. Para o personagem principal Stevie (Sunny Suljic, o menino doente do O Sacrifício do Cervo Sagrado) é um senso de pertencer a alguma coisa. Ele também é fisicamente abusado em casa, por seu irmão mais velho branco fã de rap Ian (Lucas Hedges). Seu ambiente familiar é fodido – os dois irmãos jantam com a mãe solteira em silêncio; ninguém se dá bem ou tem compaixão pelo outro – então Stevie encontra consolo e conexão andando com garotos mais velhos que ele conheceu na loja de skate local.

A vida do Stevie lembra a minha, e talvez lembre a sua também. Ser um moleque andando com moleques mais velhos é uma experiência quase universal: um subproduto de ser obrigado a crescer rápido demais. Lembro de mudar de escola depois que meus pais se divorciaram e, aos 12 nos, andar com os garotos de 16 na pista de skate. Skate era o jeito mais fácil de escapar da monotonia e da depressão de estar em casa, e ir para a pista todo dia preenchia um vácuo na minha vida. O senso de comunidade ali é o motivo para os temas de Minding The Gape e os personagens de Anos 90 irem pra pista todo dia também.

Muitos adolescentes encontram um respiro em atividades diferentes – gritando uns com os outros em Fortnite, trocando caneladas num campo de futebol, ou escovando crinas de cavalo e escrevendo poesia. Então o que torna o skate tão diferente? Uma das coisas é a diversidade. Como o elenco de Anos 90 e Minding The Gap atestam (o primeiro apresenta um mexicano, um garoto branco pobre, dois caras negros; o último, um garoto asiático, um cara negro e um cara branco) essa é uma das atividades mais diversas. Seja qual for sua origem, ir para a pista é uma questão de trabalhar suas próprias merdas sobre as rodinhas.

Skate Kitchen, outro filme sobre skate, oferece um retrato similar. Apesar de a personagem principal, Camille (Rachel Vinberg), ser solitária, ela encontra seu lugar num grupo de minas skatistas – a equipe da vida real The Skate Kitchen (elas interpretam a si mesmas, e foram “descobertas” quando a diretora Crystal Moselle ouviu as meninas falando merda no metrô de Nova York). Diferente de Anos 90 e Minding The Gap, o filme apresenta uma parte geralmente ignorada da subcultura (ou seja, mulheres solitárias em vez de homens raivosos), mas ainda se centra em um tema similar: muitos skatistas são fodidos de algum jeito ou sentem falta de alguma coisa, e tomar capotes juntos fornece um tipo estranho de consolo.

Essa questão de andar de skate junto como um dos principais dogmas do skate não é novidade. Você já viu isso em filmes de Kids a Os Reis de Dogtown. Em vídeos promocionais de skate (pense em: Pretty Sweet, aqueles vídeos dos anos 2000 da equipe de skate Ice Cream do Pharrell), o laço entre os skatistas é a cola que mantém tudo junto, a costura cômica entre cada manobra perfeitamente executada. Mas enquanto bebedeiras casuais e personalidades desequilibradas predominantes em vídeos de skate insinuam o tumulto interno de muitos skatistas, eles não dão a visão penetrante de filmes como Skate Kitchen, Anos 90 e Minding The Gap: ficcionais ou não, mas verdadeiros pra vida real.

Como todas as atividades que fomentam união, o skate te ensina que você não está sozinho no que está passando. Depois que Stevie apanha do irmão mais velho, ele e Ray (interpretado pelo skatista profissional Na'kel Smith) estão sentados no telhado da loja de skate. “Eu não aguento essa merda às vezes”, diz Stevie. Ray responde: “Muitas vezes achamos que nossa vida é a pior, mas se você olhar dentro do closet de qualquer pessoa, você não trocaria sua merda pela merda deles”.

Ray, como descobrimos, perdeu o irmão num acidente de carro. “Depois que ele morreu, Fuckshit me arrastou para ir andar de skate com ele”, ele diz sobre o amigo deles, chamado assim porque diz “Fuck! Shit!” sempre que erra uma manobra. “Foi bom ter uma pessoa lá pra mim.” Aí ele vira pro Stevie: “Então vamos”. Depois vem uma longa montagem deles andando de skate no meio do trânsito ao pôr do sol, duas pessoas de diferentes origens e diferentes idades, lidando com seus problemas juntos.

Esses momentos do skate criam laços tanto quanto acertar qualquer manobra. Como Keire diz no final de Minding The Gap, tendo trabalhado alguns de seus relacionamentos familiares: Skate não machuca? “Sim, mas meu pai também. E eu amo ele até a morte.”

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