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Ma Anand Sheela envenenou uma cidade inteira, mesmo assim estou obcecada por ela

A secretária boca suja de Bhagwan Shree Rajneesh é a anti-heroína da série 'Wild Wild Country', não a vilã.

por Manisha Krishnan; Traduzido por Marina Schnoor
19 Abril 2018, 7:21pm

Ma Anand Sheela e Bhagwan. Foto via Netflix.

No momento em que Ma Anand Sheela aparece em Wild Wild Country da Netflix, fica claro que é melhor não mexer com ela. Em seu monólogo de abertura no documentário de seis partes, a ex-tenente da seita religiosa conhecida como os rajneeshees fala sobre como uma pessoa não pode usar a coroa sem a ameaça de morte na guilhotina.

“Apesar da guilhotina, eles não me mataram ainda, eles não mataram meu espírito”, diz Sheela, agora grisalha aos 60 e poucos anos, num sotaque indiano pesado. “Não importa onde eu vá, sempre usarei a coroa... Não tenho medo de ficar sob a guilhotina.”

É uma introdução apropriadamente dramática para uma das anti-heroínas mais fascinantes com quem já cruzei; Walter White é fichinha perto dela.

No auge dos anos 1980, havia milhares de rajneeshees pelo mundo, adorando seu guru Bhagwan Shree Rajneesh (mais tarde conhecido como Osho), um indiano barbudo baixinho que era como um astro do rock para eles. Muitos rajneeshees eram americanos brancos de classe média-alta, que foram para a Índia para serem iluminados pela presença de Bhagwan. Cansados do capitalismo e desejando encontrar algum sentido em suas vidas, eles foram facilmente convencidos a se juntar ao movimento Rajneeshee, todos usando túnicas vermelhas.

Eventualmente, centenas de rajneeshees e o próprio Bhagwan se mudaram da Índia para os EUA. Eles formaram uma comuna em Wasco County, Oregon, em 64 acres de terras rurais, e fundaram uma cidade chamada Rajneesh, com lojas, uma escola e uma pista de pouso para aviões. Enquanto no começo parecia que eles só estavam interessados em meditação e muito sexo, eventualmente eles acabaram numa guerra com uma cidade próxima. Uma guerra que os rajneeshees lutaram com envenenamentos em massa, drogando pessoas, manipulando eleições, fazendo tentativas de assassinatos e com um arsenal de fuzis de assalto com os quais eles treinavam em suas terras.

"Sheela era uma mestre da manipulação"

Bhagwan era o líder, mas Sheela, sua secretária baixinha, de bochechas de querubim e boca suja, era quem puxava os fios. E apesar de seus crimes – ela se declarou culpada em 1985 de tentativa de assassinato e envenenamento de centenas de pessoas com salmonela – me vi fascinada por Sheela enquanto assistia o documentário.

Sheela era uma mestre da manipulação. Ela derrubou a outra secretária de Bhagwan, Laxmi, para se tornar o braço-direito dele e parecia se deleitar com o poder. Uma vez ela fez uma discípula australiana depilar as pernas dela com cera no meio da noite, a promoveu depois, e muito depois a instruiu a assassinar o médico de Bhagwan. A mulher obedeceu, mas não teve sucesso. Sim, é foda. Mas quantas pessoas conseguem manter esse tipo de lealdade?

Sheela adorava polêmica, fazendo aparições na mídia só para trollar os cidadãos de Antelope, Oregon, que queriam que os rajneeshees deixassem a região.

Quando perguntaram a ela no programa televisivo 60 Minutes como ela se sentia sobre as pessoas que “não queriam gente de pele laranja em sua cidade”, ela respondeu “o que posso dizer? É foda mesmo”. Ela rejeitava a noção cristã de dar a outra face, dizendo que a filosofia dos rajneeshees era “ficar com as duas faces”.

No Merv Griffin Show, quando uma moradora de Antelope apontou que Bhagwan tinha entre quatro e 14 Rolls Royces, Sheela a corrigiu muito satisfeita dizendo que eles já tinham 20.

Ela declarou que os rajneeshees “são as únicas pessoas que desfrutam totalmente do sexo” e posou nua para uma revista alemã. Numa época em que a sociedade era muito mais mente fechada do que hoje para mulheres brancas, quanto mais para uma mulher indiana que servia um estranho homem barbudo, não sei nem dizer quão surreal é testemunhar as tramoias dela. Filmagens dela foram capturadas em vídeo por equipes de notícia e pela própria seita.

Apesar dos cidadãos de Antelope terem razões válidas para estarem putos com os rajneeshees, mesmo antes dos envenenamentos, racismo era claramente um fator.

Numa filmagem mostrada no documentário, a ex-prefeita de Antelope Margaret Hill pergunta: “Como um grupo de pessoas dessa persuasão pode entrar numa área e literalmente apagar a cultura que estava ali?”, sem uma gota de ironia. Parece que ela esqueceu a história inteira do império britânico/americano.

No auge, a seita Rajneeshee valia $65 milhões, com dinheiro vindo de enormes festivais na comuna no Oregon, além de livros e outros materiais vendidos no mundo todo. Não vou mentir, é um pouco engraçado ver como Sheela e Bhagwan enganaram esses brancos procurando autenticidade para ficarem ricos. É o inverso de apropriação cultural, se você preferir.

Reconheço que Sheela tinha grandes defeitos, e podia até ser psicopata. Também sinto que se ela fosse homem (ou se pelo menos não tivesse acabado na cadeia) ela poderia ter sido líder de um país. Porra, ela podia até ser presidente dos EUA. Poderia ter um pouco mais de Sheela no mundo. Mas não muito.

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