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Guia Noisey para curtir um Los Hermanos

Cinco pontos de entrada para a banda carioca que é unanimidade entre os indies e brasileiríssimos.

por Amanda Cavalcanti
05 Setembro 2018, 10:00am

Foto: Divulgação

Eu comecei a curtir um Los Hermanos quando estava no primeiro ano do Ensino Médio. Era bem em meio à época que eu tava ouvindo tanta bandinha indie gringa quanto possível e andava bem desconectada de qualquer lance que fosse brasileiro. Eu cresci ouvindo um Djavan, Itamar Assumpção e a tríade Chico-Caetano-Gil com os meus pais, mas nessa época em que eu (como todo adolescente) queria encarnar o meme da diferentona, nada do que eu já conhecia de música nacional me chamava muito a atenção. Até eu conhecer o Los Hermanos.

A coisa foi bem orgânica, de ouvir amigo-de-amigo-de-amigo comentar sobre a banda e ir pegando pra ouvir uns sons no YouTube até ter o ímpeto de baixar toda a discografia e ficar meses convivendo com aquelas músicas. Isso rolou uns meses antes do quarteto Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba anunciarem a turnê que fizeram por várias cidades do Brasil em 2012 – que eu, do alto dos meus 16 anos, tentei muito ir, mas não consegui ingresso nem da data extra que foi anunciada no Espaço das Américas, em São Paulo.

Isso porque o Los Hermanos foi importante pra mim, mas talvez tenha sido bem mais pra uma geração anterior à minha, que de fato viveu a banda no seu auge e não só nesse hiato-revival esquisito em que eles vivem desde 2007. Mas sinto que a razão pela qual a banda atraiu tanta atenção na época em que estava na ativa foi a mesma coisa que me encantou nela alguns anos depois: pegar todo aquele zeitgeist do indie rock anos 2000 e colocar junto da MPB e samba que sacamos como típicos do som feito no Brasil. Junte aí mais um pouquinho de hardcore, de ska, uns sons bem melódicos, uns metais bonitos e letras sentimentais, de vez em quando bem metafóricas e narrativas, e vrá.

É real que, uns anos depois, algumas das músicas e posições dos membros do grupo não tenham envelhecido tão bem (leia-se treta do Marcelo Camelo com o Chorão), e que o Los Hermanos ganhou um estigma (bem verossímil, inclusive) de banda de macho-carioca-zona-sul-estudante-de-sociais-fumante-de-paiero. Mas é inegável que a banda construiu sons muito memoráveis e teve grande influência em toda uma próxima leva de artistas cariocas — Cícero, Ventre, Rubel e por aí vai.

Mas se você, como eu, começou a sacar o Los Hermanos um pouco tarde ou mesmo perdeu o bonde completamente, eu te dou aqui cinco pontos de entrada pra banda carioca que é unanimidade entre os indies e brasileiríssimos. Acompanhe abaixo o Guia Noisey para curtir um Los Hermanos.

Los Hermanos Mainstream

Bom, a gente sabe que em termos de hit talvez seja possível citar só um som do Los Hermanos — que é, claro, "Anna Júlia" (apesar de que não, porque nem sempre). O som tem pouco a ver com o resto do catálogo da banda — o produtor Rick Bonadio chegou a contar que teve que convencer os integrantes a manter "Anna Júlia" na tracklist oficial do disco de estreia, homônimo — mas garantiu que o Los Hermanos alcançasse um sucesso astronômico já nos primeiros anos de sua existência (nível tocar na rádio e aparecer em programa de auditório de canal aberto) e ganhou até um cover do George Harrison (!).

Mas a banda manteve uma certa popularidade durante seus próximos anos, mesmo que não entre um público tão abrangente. As duas turnês do Los Hermanos desde seu hiato foram um enorme sucesso e as gravações ao vivo exemplificam isso muito bem, com grande parte das músicas sendo cantadas num volume absurdo pela plateia.

Pra esses fãs, certos sons se destacam: "Primavera", segundo single do grupo, "Último Romance", a balada suprema de Rodrigo Amarante, e o som típico de fim de feriado "Todo Carnaval Tem Seu Fim" são alguns deles.

Playlist : "Anna Júlia" / "Primavera" / "Todo Carnaval Tem Seu Fim" / "Sentimental" / "A Flor" / "O Vencedor" / "Último Romance" / "Cara Estranho" / "O Vento"

Los Hermanos Hardcore Corno

O Los Hermanos surgiu em 1997, no Rio de Janeiro, nas mãos de três estudantes da PUC-RJ: Camelo, Barba e Medina (Amarante chegaria um tempinho depois). A intenção, desde o início, era juntar "o peso da melodia e a leveza das letras", como disse Camelo ao Scream & Yell em 2002. Essa intenção se fez mais do que clara no primeiro disco da banda, Los Hermanos. Tirando os dois singles "Anna Júlia" e "Primavera", ele era recheado de uma sonoridade que misturava o ska com o hardcore e se apoiava em guitarras frenéticas e metais de ataque. Em alguns momentos, a coisa fica até meio marchinha de carnaval ("Pierrot").

Esse lado do Los Hermanos, claramente, só podia ter sido feito por uma banda com integrantes de vinte e poucos anos. Além da agressividade do som, a banda mostra um tipo bem específico e velado de agressividade também em suas letras. As faixas com nomes de mulheres (além de "Anna", "Aline" e "Bárbara") não são à toa: muitos dos sons mostram um locutor clamando um coração partido na mão de ex-namoradas que o traíram ou enganaram, tudo com uma dose de machismo e possessividade aguda em alguns momentos ("Lágrimas Sofridas" e "Azedume", por exemplo).

Ouvir esses sons hoje, em nova luz, são interessantes não apenas pelo tanto que a banda evoluiu depois — o hardcore só deu as caras novamente em uma única faixa do disco seguinte, "Tão Sozinho" –mas também porque o dom de composição e instrumentação que o Los Hermanos mostraria ao longo dos próximos anos já revelava, por mais que de jeito muito simplificado. E é bom caso você queira sofrer a dor do corno ouvindo um sonzinho de dar mosh, também.

Playlist: "Tenha Dó" / "Descoberta" / "Quem Sabe" / "Azedume" / "Lágrimas Sofridas" / "Pierrot" / "Bárbara"/ "Aline" / "Tão Sozinho"

Los Hermanos MPB/sambinhas

O disco seguinte do Los Hermanos, Bloco do Eu Sozinho, foi uma surpresa total e completa para quem acompanhava a banda até então. O hardcore frenético deu lugar a um som que começava a tirar inspiração do samba, da bossa nova e de toda a MPB para acompanhar suas letras sentimentais. Prova disso é a apresentação da banda no Luau MTV de 2001, ano de lançamento do Bloco: além de contar com arranjos acústicos, a nova fase da banda saiu dos grandes programas de auditório pra conquistar um lugar ao sol um pouco mais nichado.

Nada que eles tenham feito em detrimento de sua identidade original, porém: as guitarrinhas indie rock e os metais ainda aparecem por ali, ainda que estes, como explicou Camelo no Luau, tivessem uma função muito mais melódica do que a geralmente usada na MPB.

Mas esse lado MPB-sambinha-ensolarado do Los Hermanos só foi encontrar seu ápice nos próximos discos, Ventura (talvez o mais aclamado da banda) e 4 — que, apesar de bem melancólico (ainda mais por ter se tornado o último do grupo) também conta com sons como "Paquetá" e "Morena".

Playlist : "Retrato pra Iaiá" / "Assim Será" / "Cadê Teu Suín-" / "Mais uma Canção" / "Além do Que Se Vê" / "Samba a Dois" / "Fez-Se Mar" / "Paquetá" / "Morena"

Los Hermanos do Camelo

O Los Hermanos sempre foi um grupo consistente, mas hoje é claro que a banda tinha dois rostos que se mostravam alternadamente: o de Marcelo Camelo, membro fundador e líder inicial do quarteto, e o de Rodrigo Amarante, que foi ganhando seu espaço no Los Hermanos com o passar do tempo. Não à toa, tirando três canções do Bloco ("A Flor", "Retrato pra Iaiá" e "Mais uma Canção"), as composições do grupo sempre pertenceram a um ou outro autor, nunca tendo sido feitas em conjunto.

Por mais que tenha trazido a influência do hardcore no primeiro disco da banda, Camelo sempre fez uso de um estilo de composição menos direto, mais metafórico e abstrato. Bons exemplos disso são "Conversa de Botas Batidas", do Ventura, inspirada numa notícia de jornal sobre um casal que se recusou a sair de um prédio desabando, e "Sapato Novo", do 4.

As canções de amor de Camelo também têm suas nuances, de escrever de um eu-lírico feminino ("A Outra") a dar vazão a uma passivo-agressividade tipicamente masculina ("Do Lado de Dentro" e "Adeus Você").

Playlist: "Conversa de Botas Batidas" / "O Pouco Que Sobrou" / "Tá Bom" / "Do Lado de Dentro" / "A Outra" / "Casa Pré-Fabricada" / "Adeus Você" / "Dois Barcos" / "Sapato Novo" / "Pois É"

Los Hermanos do Amarante

O Amarante foi convidado a entrar no Los Hermanos um pouco depois de sua formação e, no começo da banda, tinha um papel um pouco mais coadjuvante que Camelo. No primeiro álbum, ele aparece tocando flauta transversal e cantando em duas músicas de sua composição; já no Bloco, o músico divide as guitarras com Camelo e assina cinco das composições do disco.

Mas Amarante começa a brilhar de fato no Ventura, onde contribui com algumas de suas maiores e mais conhecidas músicas, como "Último Romance", "O Velho e o Moço" e "Deixa o Verão". A partir daí, e também no 4, o músico divide um espaço igualitário com Camelo.

As composições de Amarante se destacam pelo caráter mais palpável e direto — não à toa, suas frases permanecem como algumas das mais repetidas da banda ("Eu sei, é um doce te amar / O amargo é querer-te pra mim" e "Eu gosto é do estrago", por exemplo) — e a sinceridade desconcertante com a qual suas palavras ecoam. Qualidades essas que o compositor levou para seus trabalhos futuros, tanto solo quanto com a banda Little Joy, que ele formou com o baterista dos Strokes Fabrizio Moretti e a cantora Binki Shapiro em 2008.

Playlist: "Condicional" / "Os Pássaros" / "Primeiro Andar" / "Onze Dias" / "Um Par" / "Do Sétimo Andar" / "Deixa o Verão" / "O Velho e o Moço"

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