Quantcast

A polarização política é mais complexa do que você acredita

Diogo Antonio  Rodriguez

Diogo Antonio Rodriguez

Duas pesquisas recentes mostram que, ao contrário do que muitos pensam, o uso de redes sociais e a escolaridade não são determinantes para explicar nossa sociedade dividida.

Há poucas dúvidas de que vivemos tempos de polarização política. Para citar alguns exemplos de sociedades divididas nos últimos anos, vimos o Brexit no Reino Unido, a eleição de Donald Trump nos EUA, a crise na Venezuela e o impeachment de Dilma Rousseff no Brasil. A tendência de muros ideológicos parece ser mundial e, ao que tudo indica, permanente.

Explicar o fenômeno costuma ser uma armadilha. São poucos os cientistas políticos que se arriscam a estabelecer de maneira definitiva o que causa tais divisões políticas e sociais. Aponta-se a crise econômica de 2008 como um fator, assim como a queda na qualidade da educação e o crescente individualismo. Outro bode expiatório é a internet. No bar, nos fóruns ou no ambiente acadêmico, virou lugar comum dizer que a bolha formada pelas amizades das redes sociais nos isolou de posições políticas antagônicas às nossas. Cercados por conteúdos que reforçam nossas crenças, estaríamos fadados ao isolamento e à intolerância. Forma-se, assim, uma teoria bastante difundida por teóricos amadores: já que a maioria das pessoas não é refinada o suficiente para exercitar a alteridade, vivemos num círculo vicioso e limitado.

Dois estudos realizados nos Estados Unidos colocam essas simplificações em questão, porém. Jesse Shapiro, economista da Universidade Brown, nos EUA, mostrou que o uso de redes sociais não está associado a um aumento de polarização política. Os maiores níveis de polarização, diz seu estudo, foram encontrados entre os americanos mais velhos. Apenas 20% destes cidadãos usam ferramentas sociais. A idade, portanto, é o fator mais preponderante. Em entrevista ao Motherboard Brasil, Shapiro afirmou que não é possível apontar causas para esse achado. "Precisamos de mais dados antes que possamos dizer de maneira definitiva o que está por detrás dessas tendências", disse.

Para ele, a insistência em acusar apenas a internet como culpada pode estar no fato de que ela "se tornou muito importante para a maneira pela qual nós consumimos notícias e informações políticas". "A rede mundial mudou tanto o modo de distribuição das notícias que acho natural inferirmos que ela mudou a informação recebida pelas pessoas e também como elas a interpretam", diz o economista.

Polarização política como a vista nas ruas brasileiras não é só culpa da internet, sugerem pesquisas. Foto: Felipe Larozza/ VICE

A pesquisa de Shapiro desafia a teoria da bolha de maneira determinante. "Nosso estudo mostra que a polarização está aumentando dentre grupos que pouco usam a internet e as mídias sociais como fonte de notícias", resume.

Caitlin Drummond, PhD do departamento de ciências de decisão e sociais da Universidade Carnegie Mellon, nos EUA, abordou a polarização por outro viés. A pesquisadora elegeu seis temas polêmicos relacionados à ciência (pesquisa com células-tronco, big bang, evolução, alimentos geneticamente modificados e mudança climática) para entender como se daria a polarização levando em conta o nível de educação dos americanos. O achado foi surpreendente. Nos casos da pesquisa com células-tronco, do big bang e da evolução, indivíduos com maiores níveis de educação apresentaram crenças mais polarizadas do que os menos escolarizados.

"Nossa análise sugere que, para tópicos de ciência e tecnologia, indivíduos com maior nível educacional tendem a estar mais polarizados"

O resultado final não foi surpresa para Drummond. "Nossos achados ecoaram descobertas anteriores: nossa análise sugere que, para tópicos de ciência e tecnologia que já estão polarizados de acordo com visões religiosas e políticas, indivíduos com maior nível educacional tendem a estar mais polarizados", disse a pesquisadora ao Motherboard Brasil.

Embora acredite que a sociedade americana esteja vivendo um momento particularmente acirrado de sua história, Drummond crê que é preciso cautela para elaborar uma explicação. "Muitas razões foram apontadas [como responsáveis] por essa divisão [da opinião pública]. Algumas das questões de ciência e tecnologia que nós analisamos parecem ter ficado no meio desses conflitos sociais maiores, mas também observamos que nem todas as questões científicas estão polarizadas. Creio que será importante em pesquisas futuras entender melhor como as crenças a respeito de algumas questões científicas se tornaram polarizadas."

Shapiro afirma que existem evidências de que o discurso político dos congressistas americanos de fato se tornou mais sectário. Extrapolar esse diagnóstico para os EUA como um todo é outra história: "Afirmar que a polarização está aumentando no público em geral é menos consensual e há um debate ocorrendo a respeito da maneira mais apropriada de medir a polarização", diz. "O que posso dizer é que diversas medidas de polarização mostram, sim, um aumento ao longo do tempo."

Se a polarização é algo perverso e precisa ser combatido, é melhor tomarmos cuidado com o senso comum e dar ouvido aos pesquisadores. Só se pode construir pontes eficientes se elas tiverem fundações sólidas. E, para que isso ocorra, entender de fato o que ocorre nas nossas sociedades e fugir das expressões da moda.

Leia mais matérias de ciência e tecnologia no canal MOTHERBOARD.
Siga o Motherboard Brasil no Facebook e no Twitter.
Siga a VICE Brasil no Facebook , Twitter e Instagram .